quarta-feira, 29 de julho de 2009

FLORESTAN FERNANDES - Um defensor da escola democrática


Márcio Ferrari
O sociólogo não só refletiu sobre a escola brasileira, apontando seu caráter elitista, como atuou pessoalmente em defesa do ensino para todos


Florestan Fernandes (1920-1995) foi um dos mais influentes sociólogos brasileiros, mas muitos o chamavam de educador sem saber que isso o incomodava em sua modéstia. O equívoco tinha razão de ser. Vários escritos de Florestan tiveram a educação como tema e sua atuação na Câmara dos Deputados, já no fim da vida, se concentrou na área do ensino. Além disso, a preocupação com a instrução era um desdobramento natural de sua obra de sociólogo. "Em nossa época, o cientista precisa tomar consciência da utilidade social e do destino prático reservado a suas descobertas", escreveu.

Como o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), Florestan militava em favor do socialismo e não separava o trabalho teórico de suas convicções ideológicas. Ainda que com abordagens diferentes, ambos acreditavam que a educação e a ciência têm, potencialmente, uma grande capacidade transformadora. Por isso, deveriam ser instrumentos de elevação cultural e emancipação social das camadas mais pobres da população. "Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como as que temos", disse ele em entrevista a NOVA ESCOLA em 1991. "A escola de qualidade, para Florestan, não era redentora da humanidade, mas um instrumento fundamental para a emancipação dos trabalhadores", diz Ana Heckert, docente da Universidade Federal do Espírito Santo.

Florestan tomou para si a tarefa de romper com a tradição de pseudoneutralidade das ciências humanas e reconstruir uma análise do Brasil abertamente comprometida com a mudança social. Segundo sua análise, uma classe burguesa controlava os mecanismos sociais no Brasil, como acontecia em quase todos os países do Ocidente. No entanto - por causa de fatores históricos como a escravidão tardia, a herança colonial e a dependência em relação ao capital externo -, a burguesia brasileira era mais resistente às mudanças sociais do que as classes dominantes dos países desenvolvidos.

O Brasil estava atrasado em suas conquistas

Segundo Florestan, a revolução burguesa, cujo exemplo emblemático é a de 1789 na França, não teria se completado no Brasil. Enquanto os revolucionários franceses do século 18 exigiam ensino público e universal, as elites brasileiras do século 20 ainda queriam controlar a educação para manter a maioria da população culturalmente alienada e afastada das decisões políticas. Por isso, uma das principais lutas de Florestan foi pela manutenção e pela ampliação do ensino público (leia quadro na página 32). "Ele acreditava que o sucateamento da escola, com péssimas condições de trabalho e estudo, fazia parte das tentativas de sufocar a democratização da sociedade por meio da restrição do acesso à cultura e à pesquisa", diz a pesquisadora Ana Heckert.

O Brasil, dizia o sociólogo, era atrasado também em relação ao que ele chamava de cultura cívica, ou seja, um compromisso em torno do mínimo interesse comum. Para Florestan, não havia tal cultura no Brasil por dois motivos: ela estimularia as massas populares a participar politicamente e ao mesmo tempo tiraria das classes dominantes a prerrogativa de fazer tudo o que quisessem sem precisar dar satisfações ao conjunto da população.

Florestan bateu-se também pela democratização do ensino, entendendo a democracia como liberdade de educar e direito irrestrito de estudar. Em seus dois mandatos de deputado federal, nos anos 1980 e 1990, o sociólogo esteve envolvido em todos os debates mais importantes que ocorreram no Congresso no campo da educação. Participou ativamente da discussão, elaboração e tramitação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que só seria aprovada em 1996, um ano depois de sua morte.

Florestan defendia propostas mais radicais do que as que acabaram incluídas na lei aprovada, cujo mentor foi o antropólogo e senador Darcy Ribeiro (1922-1997). Florestan defendia que a lei incluísse o princípio de escola única, que abrangesse Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, conjugada com educação profissional, e possibilitasse uma escolaridade maior aos setores carentes da população. O sociólogo também propunha, como meio de dar autonomia às escolas, que os diretores fossem eleitos por professores, pais e alunos. Ele queria ainda incluir na LDB um piso salarial para os professores.

Pensador democrático em tempos autoritários

Florestan Fernandes integrou a primeira geração de sociólogos formados pela Universidade de São Paulo, da qual também fez parte o crítico literário Antonio Candido. Foi mestre da terceira geração, que incluía Octavio Ianni e o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso. De um modo ou de outro, tanto veteranos quanto seus discípulos viveram grande parte de sua existência sob longas ditaduras - primeiro a de Getulio Vargas (1937-1945), que havia sido precedida de governos apenas parcialmente democráticos, e depois o regime militar, iniciado em 1964 e encerrado com eleições indiretas em 1984. Não é de espantar que o período de liberdade civil anterior a 1964, em especial o governo Juscelino Kubitschek (1956-1960), tenha sido tão produtivo para todos esses intelectuais. Algumas das mais importantes reflexões sobre o Brasil datam dessa época, tanto nas ciências humanas como nas artes (com exemplos como a Bossa Nova e o Cinema Novo).

Democracia implica o fim do autoritarismo na escola

Não eram só as condições estruturais do sistema educacional que atraíam a atenção rigorosa do cientista social. No intervalo democrático entre 1945 e 1964 no Brasil, Florestan notou que a educação havia ganho papel crucial na busca "do equilíbrio e da paz social", mas isso se devia a conquistas sociais e não a políticas dos governos, que, segundo ele, continuavam não investindo em educação pública. Além da destinação de verbas, o passo mais urgente então seria integrar as escolas para que sua função progressista se multiplicasse e ganhasse solidez. Ao lado do trabalho propriamente didático, as escolas deveriam formar "um sistema comunitário de instituições sociais".

Florestan também se preocupou com a prática em sala de aula, com ênfase em três pontos: a concepção do professor como mero transmissor do saber, que, para ele, fragilizava o profissional da educação; a idéia de que o aluno é apenas receptor do conhecimento, quando o aprendizado deveria ser construído conjuntamente na escola; e o ensino discriminatório, que trata o aluno pobre como cidadão de segunda classe. "Para Florestan Fernandes, a educação transformadora se faz com uma escola capaz de se desfazer, por si mesma, do autoritarismo, da hierarquização e das práticas de servidão", diz Ana Heckert.

A favor da escola pública

Muitos intelectuais participaram, nas décadas de 1940 e 1950, da Campanha em Defesa da Escola Pública, que teve origem nas discussões para a aprovação da primeira LDB. Nenhum foi mais ativo do que Florestan Fernandes. De início, o tema principal do debate era a centralização ou descentralização do ensino. A polêmica seguiu acirrada até que, em seu ponto máximo de tensão, o deputado Carlos Lacerda apresentou no Congresso um substitutivo para atender aos interesses das escolas particulares e das instituições religiosas de ensino, que pretendiam ganhar o direito a embolsar verbas do Estado. Florestan publicou nessa época vários escritos em que combatia as pretensões da escola privada e também desenvolvia suas idéias sobre a necessidade de democratizar o ensino. O substitutivo de Lacerda acabou sendo aprovado. Mas, no longo prazo, quem ganhou foi Florestan -- suas idéias são, hoje, praticamente consenso entre os dirigentes da educação pública.

Biografia

Luis Dantas

Florestan Fernandes nasceu em 1920 em São Paulo, filho de uma imigrante portuguesa analfabeta, que o criou sozinha, trabalhando como empregada doméstica.

Aos 6 anos, Florestan também começou a trabalhar, primeiro como engraxate, depois em vários outros ofícios. Mais tarde, ele diria que esse foi o início de sua aprendizagem sociológica, pelo contato que teve com os habitantes da cidade.

Aos 9 anos, a necessidade de ganhar dinheiro o fez abandonar os estudos, que só recuperaria com um curso supletivo. Aos 18, foi aprovado para o curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo e, por essa época, iniciou sua militância em grupos de esquerda. Depois do golpe militar de 1964, Florestan enviou uma carta à polícia protestando contra o tratamento dado a seus colegas presos e foi, ele também, para a prisão. Em 1969 foi cassado pelo regime militar. Sem poder trabalhar, deixou o Brasil e lecionou em universidades do Canadá e dos Estados Unidos. Depois da redemocratização, filiado ao Partido dos Trabalhadores, elegeu-se deputado federal em 1986 e 1990. Florestan morreu em 1995, de câncer. Publicou quase 80 livros durante a vida, nos campos da sociologia, da antropologia e da educação. A Revolução Burguesa no Brasil e Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento estão entre os títulos mais importantes.

"Na sala de aula, o professor precisa ser um cidadão e um ser humano rebelde"

Para pensar

Florestan Fernandes acreditava que a educação deveria ser, na vida dos alunos, uma experiência transformadora que desenvolvesse a criatividade, dando a cada um condições de se libertar da opressão social. Mas, para isso, a escola deveria deixar de reproduzir os mecanismos de dominação de classe da sociedade. Você já analisou suas atitudes em sala de aula sob esse ângulo? Será que, uma vez ou outra, já não confundiu sua legítima autoridade de professor com autoritarismo?

Quer saber mais?
Bibliografia
DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO EM FLORESTAN FERNANDES, Osmar Fávero, 246 págs., Ed. Autores Associados/EdUff, tel. (19) 3289-5930

EDUCAÇÃO E SOCIEDADE NO BRASIL, Florestan Fernandes, 614 págs., Ed. Dominus/Edusp, tel. (11) 2091-4150, edição esgotada

O DESAFIO EDUCACIONAL, Florestan Fernandes, 264 págs., Ed. Cortez/Ed. Autores Associados, tel. (11) 3864-6111, edição esgotada

Revista Escola

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Energia latente

O poder de inovar já conferiu adjetivos diversos a seus responsáveis ao longo do tempo - divinos, loucos, geniais ou apenas criativos. Mas o que será que há de fato de especial por trás dessa capacidade criadora?

Por Celeste Carneiro


Todos nós nascemos com a possibilidade de sermos criati- vos. Mas a educação e a visão unilateral, focadas para um tipo apenas de inteligência, levam-nos a acreditar que não temos criatividade. O que vem a ser criatividade? Criatividade é a capacidade que a pessoa tem de expressar, por diversos meios, idéias novas, que solucionam, de forma satisfatória, os desafios da vida, em qualquer área. É o poder de transformar objetos comuns em obras de arte ou dar-lhes novas utilidades.

É uma visão ampla e flexível, tolerante e intuitiva, que produz alegria e entusiasmo, induzindo a colocar em execução as idéias que surgem. Falando sobre criatividade e inovação, especialmente no âmbito das organizações, Eunice Soriano de Alencar esclarece: "Para nossos propósitos, poderíamos considerar a criatividade como o processo que resulta na emergência de um novo produto (bem ou serviço), aceito como útil, satisfatório e/ou de valor por um número significativo de pessoas em algum ponto no tempo. (...) Por outro lado, inovar significa, como o próprio termo sugere, intro- duzir novidade, concebendo-se a inovação organizacional como o processo de introduzir, adotar e implementar uma nova idéia (processo, bem ou serviço) em uma organização em resposta a um problema percebido, trans- formando uma nova idéia em algo concreto. (...) A criatividade pode ser considerada como o componente conceitual da inovação, ao passo que a inovação englobaria a concretização e aplicação das novas idéias. Por essa razão, o termo inovação tem sido mais utilizado no nível das organizações e o termo criatividade, no nível do indivíduo ou grupos de indivíduos".

Nos estudos das últimas décadas sobre o funcionamento do cérebro, quando cientistas observam por aparelhos precisos como pensamos e senti- mos, ficou evidente que a criatividade envolve o cérebro todo: no processo de criar algo, primeiro vem o interesse; em seguida, a preparação; depois vem a fase de incubação, que pode levar à iluminação e, por fim, a aplicação.

Em todas essas atividades, o cérebro vai recebendo estímulos em áreas diversificadas, que se comunicam como num sistema de rede. Quando te- mos um insight - um instante de iluminação -, a alegria nos invade e nos enchemos de entusiasmo - é o instante mágico da criação! Então, agimos com segurança e perseverança, pois sabemos que a idéia é viável. Depois, é só verificar sua viabilidade na prática e executá-la.

Segundo Arthur Koestler, um dos criadores de uma das teorias da criatividade - a Análise Fatorial -, a criatividade é manifestada na ciência, na arte e no humor.

Google Inc. é exemplo de empresa que valoriza a criatividade e estimula funcionários a terem sempre novas idéias

A criatividade é como uma energia poderosa, latente no ser humano, liberada de acordo com os recursos disponíveis e as características do veículo de expressão. Assim, alguém pode expressá-la de forma limitada, embora tenha todo o potencial em si mesmo; outra pessoa pode canalizá-la para a ciência, uma outra, para as formas artísticas e toda sua gama de variedade, enquanto outras a expressam por meio dos dotes humorísticos.

"JA ATRIBUÍRAM A ORIGEM DA CRIATIVIDADE A ALGO DIVINO OU À LOUCURA. SÓ DEPOIS A PPSICOLOGIA PASSOU A ESTUDÁ-LA"

É comparada com a energia elétrica e suas formas de utilização, desde a cachoeira até a lâmpada de poucos volts. Eunice Alencar, considerando esse modo de perceber a criatividade, diz: "Referência a esse aspecto foi feita por Vygotsky (1987), através de uma analogia entre criatividade e eletricidade, descrita da seguinte forma por Neves-Pereira (Integração, 1996): 'Percebemos que a eletricidade está presente em eventos de diferentes magnitudes. Existe em grande quantidade nas grandes tempestades, com seus raios e trovões, mas ocorre também na pequena lâmpada, quando ligamos o interruptor. A eletricidade é a mesma, o fenômeno é o mesmo, só que expresso com intensidades diferentes. A criatividade se processa da mesma forma. Todos somos portadores dessa energia criativa. Alguns vão apresentá-la de forma magnânima, gigantesca, outros vão irradiar a mesma energia, só que de maneira suave, discreta. A energia é a mesma, a capacidade também, apenas distribuída de forma diferenciada'".

Ao longo do tempo, a criatividade foi vista como sendo de origem divina, como loucura, passou a ser estudada pela Psicologia, analisada como uma dissociação interagindo matrizes diferentes. Também já foi considerada própria de gênios intuitivos, como Leonardo Da Vinci, assim como uma força vital e uma força cósmica.

Carl Rogers considera uma pessoa criativa quando ela consegue expressar suas potencialidades. Outros a vêem como solucionadora de problemas e, mais recentemente, há os que estudam as funções dos hemisférios cerebrais e o papel da criatividade.

Há quem imagine que, para pensarmos com originalidade, precisamos familiarizar-nos com as idéias alheias. Mas há gênios que se destacaram na sociedade, embora não procurassem tomar conhecimento das idéias alheias para estimular sua criatividade. Jorge Luís Borges não costumava ler jornais e Einstein dizia que "o dom da imaginação foi mais importante para mim do que a minha capacidade de assimilar conhecimentos". Na maioria dos casos, a liberdade é essencial para que se produza algo.

CRIAR PARA TRABALHAR
Em 1954, Alex Osborn, publicitário estadunidense, já se interessava pela divulgação do estudo e sistematização da criatividade. Fundou o Creative Education Foundation (CEF), que vem treinando muitos profissionais nessa área.

A Harvard Business School também faz treinamento para que funcionários tenham sempre novas idéias. Com os funcionários mais criativos acontecem duas coisas: ou mu- dam a empresa ou mudam de empresa.

Em momentos de crise, só a imaginação é mais importante que o conhecimento

Há um interesse crescen- te voltado para esse treina- mento, pois, de acordo com especialistas, permanecerão no mercado as empresas que forem mais criativas e usa- rem com maior freqüência a intuição. As empresas que não priorizam a criatividade estão encontrando dificulda- de em se manterem no mer- cado... Os sábios já diziam: "Na crise, crie". E o mundo encontra-se em crise.

Acompanhando o pro- cesso de desenvolvimento das empresas ao longo dos últimos séculos, e estudando as perspectivas para o século atual, percebemos que o uso da criatividade e o equilíbrio emocional têm sido muito importantes para a manutenção e sus- tentação no mercado para aqueles que desejam se firmar e crescer como um bom profissional.

"SE SOLUCIONO OS DESAFIOS QUE A VIDA OFERECE, SOU CRIATIVO; SE TRANSFORMO OBJETOS COMUNS EM PEÇAS DE ARTE OU LHES ATRIBUO NOVAS UTILIDADES, TAMBÉM"

Segundo Edward de Bono, autor de vários livros sobre criatividade, especialmente dirigidos para administradores de empresas, o ser humano tem um potencial criativo imenso, mas desco- nhecido, e esse potencial é o que faz a diferença.

Acostumado a viver num meio no qual o racionalismo e a vida material são supervalori- zados, o homem moderno tem relevado outros componentes que fazem parte de sua estrutura psíquica, como as aspirações, a criatividade, a intuição, a atenção para o seu lado espiritual, sonhador, assim como o investimento nas re- lações interpessoais, tão importantes quanto as relações meramente profissionais e comerciais.


Indisciplinados
◆ Longe da au- tomotivação e da disciplina típicas de seres criativos vi- vem sujeitos cheios de criatividade. Pouco se fala acerca das características positivas dos por- tadores de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade). Em meio ao caos insta- lado em seus pensa- mentos e à preguiça típica, eles às vezes têm um turbilhão de boas idéias, que surgem por impulso. E é igualmente por impulsivo que dará vida a suas idéias, o que o motiva e, quando estas con- tituem um desafio, gera um hiperfoco de concentração.

O SER CRIATIVO
De um modo geral, as pessoas criativas têm interesses diversificados, são automotivadas, gerando um clima de entusiasmo à sua volta. Além do mais, são empreendedoras, persistentes e perseverantes, corajosas, autodiscipli- nadas e se mantêm atualizadas.

Muitas vezes, apesar da aparência sosse- gada, intimamente buscam vários interesses, são tomados como "irrequietos".

Ulrich Kraft, no ar- tigo Em busca do gênio da lâmpada, expõe os pontos característicos do pensamento diver- gente apresentado por Guilford, na Teoria da Criatividade - Análi- se fatorial: fluência de idéias; pluralidade, fle- xibilidade; originalida- de; elaboração; sensibi- lidade para problemas; redefinição. O pensa- mento divergente está relacionado às funções do hemisfério direito do cérebro, enquanto o hemisfério esquerdo processa o pensamento convergente.

Mas como saber se sou ou não criativo? Se consigo solucionar, de maneira satisfató- ria, os desafios que a vida me oferece, então posso me considerar uma pessoa criativa. Se olho para objetos comuns e os transformo em peças de arte ou lhes dou uma outra utilidade, sou criativo. Se observo o mundo, as situações e as pessoas de forma flexível e tolerante, eu tenho criatividade. Se meus pensamen- tos alçam vôos bem mais altos do que o co- mum dos mortais, se tenho uma visão plena e abrangente, e nesses vôos aceito a intuição, colocando em prática minhas idéias, então, faço uso das minhas potencialidades. Se sou capaz de sentir a alegria e o entusiasmo durante esse processo, compreen- dendo a minha utilidade no meio em que vivo, posso me considerar uma pessoa co-criadora, uma filha de Deus!

TREINAMENTO INOVADOR
Muitos perguntam: como desenvolver a cria- tividade? Desenvolvemos a criatividade reservando alguns minutos por dia para o silêncio e a medi- tação, prestando atenção a esse espaço criado no turbilhão de pensamentos e que vai mos- trar o que fazer, como fazer, quando fazer... Procurando ser autoconfiante, fazer visualiza- ção criativa, exercitar a criatividade em casa, nas pequenas coisas, no grupo de amigos. Ler revistas e livros diversificados, manter-se atu- alizado, preparado. Acreditar- se capaz, seguro de si mesmo.

Ao iniciar os estudos sobre o cérebro, em 1991, e verifi- car na prática os efeitos dessas técnicas que venho utilizando, percebo que todos os estudio- sos encontram-se no caminho certo, pois o nosso potencial é imenso e cada pessoa tem uma propensão diferente de outra.

Assim, podemos estimular a criatividade usando os recur- sos das palavras, do raciocínio lógico, dos trabalhos manuais, dos desafios imaginativos, e tantos outros. Costumo dizer aos meus alunos que, assim como eles conse- guiram descobrir que são capazes de se expressar bem pela arte, um outro instrutor poderá des- vendar a capacidade para a Matemática, a Física, ou qualquer outra área do conhecimento.

"PODEMOS ESTIMULAR A CRIATIVIDADE USANDO OS RECURSOS DAS PALAVRAS, DO RACIOCÍNIO LÓGICO, DOS TRABALHOS MANUAIS, DOS DESAFIOS IMAGINATIVOS"


DDAS FAMOSOS
◆ Tom Cruise, conhecido por sua dislexia, é talentoso e igualmente criati- vo na composição de seus persona- gens, segundo os diretores cinemato- gráficos com quem trabalhou. Tom também possui DDA.

◆ Einstein, o gênio dos insights, é outro DDA famoso.

◆ Mozart, Bona- parte e Thomas Edison também eram DDA.

◆ Walt Disney, o "pai" de Mickey chegou a ser demitido de um jornal"por não pos- suir boas idéias"

◆ Jonh Lennon e Ernest Hemnin- gway, consagrados na música e lite- ratura contempo- râneas, ativavam o hiperfoco para chegar às brilhantes criações que hoje conhecemos.

Vemos acontecer o processo de se saber cria- tivo em nosso curso: as pessoas chegam dizendo que não sabem desenhar e não conseguem criar nada. Em pouco tempo se desco- brem artistas e levam para o seu dia-a-dia a flexibilidade mental e a percepção visual, acrescidas da auto-estima, que dá segurança íntima e produtividade.

No livro Criatividade e cérebro - um jeito de fazer arte zen, transmito a experiência com o desenvolvimento da criatividade, utilizando como recurso a arte, a meditação, a visualização e os exercícios mentais. Esses exercícios con- tribuem para que haja uma interação maior entre o hemisfério cerebral esquerdo e o hemisfério direi- to, facilitando uma vivência mais equilibrada, no trabalho, em casa, nos relacionamentos.

Os alunos executam determinados exercícios de desenho nesse clima, desenhos que estimulam o cérebro todo, valorizando as funções do hemisfério direito, que é, na maioria de nós, ocidentais, negligenciado. Em muitos desses exercícios estimulamos a prática da paciência, fundamental no processo criativo.

Passamos também, periodicamente, exercícios mentais, videoterapia, e sempre, no final das aulas, realizamos uma ginástica cerebral para integrar os dois hemisférios cerebrais.

As pessoas que me procuram para fazer o curso "Criatividade e Cérebro" são as mais diversas: de crianças com dois anos e meio de idade a idosos de 83 anos. As profissões também variam: são professores, médicos, advogados, psicólogos, donas-de-casa, estudantes de todos os níveis, aposentados.

A porcentagem de criatividade independe do sexo, o que pode ser constatado em uma avaliação que faço de como as pessoas estão usando o cérebro.

Temos percebido, em nosso trabalho de estimulação cerebral pela arte, que muitos alunos realizam desenhos com temas espirituais, embora não tenham hábito de fazer esse tipo de representação. Um adolescente ao término de uma das suas primeiras aulas, olhando para o seu trabalho, disse surpreso: "Mas eu costumo fazer desenhos de caveiras, de homens lutando, e agora eu desenhei São Francisco!".

Como procuramos silenciar a mente e a voz enquanto realizamos as tarefas artísticas, provavelmente estimulamos também o ponto místico, de que fala Vilayanu Ramachandran, e, ao mesmo tempo, revelamos o artista desconhecido que todos nós somos, como vemos nos desenhos destas páginas.

"DESENVOLVER OS POTENCIAIS QUE TRAZEMOS EM ESTADO LATENTE CONTRIBUI PARA A NOSSA LONGEVIDADE E CRIATIVIDADE"

Vilayanu Ramachandran, em recente artigo publicado pela Revista Cérebro e Mente, da Unicamp, narra o resultado de suas observações em pessoas com lesões no lobo temporal: "Elas passam a se expressar de forma surpreendente através das artes e, de acordo com pesquisa realizada na Austrália, usando estimulação eletromagnética transcranial (TMS) e silenciando temporariamente os lobos frontais em adultos normais, a pessoa consegue fazer desenhos bem-feitos e bonitos". Pergunta ele: "Teremos de esperar por um derrame ou ataques epilépticos para desencadear esse potencial? Ou ele pode ser conseguido através de meios menos drásticos?"

Buscando desenvolver os potenciais que trazemos em estado latente, estaremos contribuindo para a nossa longevidade e criatividade, formando novas conexões entre os neurônios, vivendo com maior clareza mental e dilatando nossa percepção do outro ser humano: aquele que está ao nosso lado e nem sempre o compreendemos.


Formas variadas: curso ajuda sujeito a descobrir- se criativo em simples manifestações artísticas


Formas bem definidas: experiências eletromagnéticas em pessoas com lesões cerebrais revelaram facilidade para fazer desenhos bem-feitos

Celeste Carneiro é arteterapeuta, criadora do curso "Criatividade e Cérebro - Artezen" (1992) e autora de livros. Professora dos cursos de Pós-Graduação: Arteterapia Junguiana do Instituto Junguiano da Bahia; Psicologia Transpessoal da PHOENIX - Centro de Desenvolvimento Transpessoal, Universidade Federal de Sergipe, e do Instituto Hólon, Fundação Bahiana para o Desenvolvimento das Ciências (FBDC) - BA. Contato: cel5@terra.com.br - www.artezen.org

Revista Psique

Despindo conceitos

Potencialmente dotadas de linguagem, as roupas podem evidenciar - ou ocultar - a personalidade, o caráter, o humor e muito mais de quem as veste

Por Anderson Fernandes



Em São Paulo, meninos e meninas aderem à moda da rua japonesa Harajuku. Na imagem, o estilo Lolita de se vestir

As roupas, além de servirem como adorno e forma de expressão, exercem forte influência em nossas atitudes e comportamento. Um salto alto, por exemplo, pode deixar as mulheres com um sentimento de poder e confiança. Para os homens, o terno com a gravata exerce, por vezes, como projetor da sensação de status. Outras situações também envolvem a indumentária e a psique humana, como a dificuldade que alguns indivíduos têm de se desprender de roupas velhas, pois elas envolvem sentimentos e lembranças prazerosas. Ou, então, quem nunca teve uma peça da sorte, que só a usa em ocasiões especiais?
As peças de roupa inferem em nosso humor. Quando acordamos mal-humorados, com baixa auto-estima, seja por problemas no emprego, ou pessoal, essa condição será refletida na escolha da roupa. Conscientemente, o indivíduo escolherá a "primeira que encontrar" no armário. Contudo, essa ação exprime a necessidade inconsciente que ele tem de dizer naquele dia de que algo não está bem, por se vestir daquela maneira. O mesmo acontece com o humor contrário. Quando ele está bem, com perspectivas, a tendência é pré-selecionar peças que condizem com seu estado; geralmente são roupas com cores alegres e vibrantes, e que agradam visualmente quem a está vestindo (entenda mais sobre as cores no quadro Cores e Sentidos).
Para alguns especialistas, tratando-se de auto-imagem, algumas pessoas sofreriam de um distúrbio caracterizado por anorexia mental. Nele, a roupa é freqüentemente potencializada como zona fronteiriça entre o corpo e o mundo exterior. Ou seja, a idéia fica em mostrar que o corpo continua igual, sem engordar e sem outras deteriorações. Comumente, as peças usadas são as mais ousadas, para evidenciar as curvas.

INSERÇÃO EM TRIBOS

Criar uma identidade social também pode fazer parte do uso da indumentária. Se olharmos para algumas tribos urbanas, como os punks, que se vestem de maneira atípica, mas com uma padronagem cíclica - geralmente dotado de um visual agressivo, possuem correntes penduradas pelas peças, calças jeans, tons de preto e vermelho nas camisetas e cabelos coloridos, com cortes descompassados, ou moicanos gigantescos -, podemos enxergar que, entre eles, existem pessoas que se vestem da mesma maneira, mas não seguem suas ideologias. Esse tipo de comportamento, segundo a psicanalista Suely Gevertz, pode estar associado à busca do individuo por uma identificação.
Sobre essa interação individual/tribal, para a psicóloga e consultora editorial Paula Mantovani, o fato de haver uma relação entre o que alguém veste e o que essa pessoa sente não implica que possamos decidir sobre um sistema de significados fixos para determinados estilos ou imagens usados pelas pessoas. O caráter simbólico do ato de vestir-se permite que algo seja mostrado, mas também escondido, dissimulado, alienado, questionado, subvertido, experimentado; é sempre num exercício de sentido singular. Cabe mais tomar essa via de expressão por meio de uma pergunta, por seu caráter enigmático, quando se pretende saber algo sobre um sujeito.

Cores e sentidos

Renata dos Santos Luz de Oliveira estuda a psicologia das cores desde 2004. Ela revela que é extremamente importante compreender que as cores são uma das ferramentas mais importantes e versáteis, sendo capazes de direcionar o olhar de um indivíduo, um observador, pois este processo deve-se ao fato de que o cérebro tende a captar áreas coloridas de uma maneira previsível, e em uma ordem logicamente definida.
O cérebro humano identifica áreas da mesma cor com importância semelhante. Em geral, o olhar é atraído para as cores chamativas e incomuns. A pessoa que faz o uso cuidadoso de uma cor se permite um maior conforto e sensação de bem-estar, ao contrário das cores sem harmonia, que podem deixar uma pessoa com ar de frustração ou até mesmo depressivo.
"Assim as cores afetam o ser humano por inteiro em suas experiências diárias, podendo representar alta distinção, nobreza, força vital, expressões significavas e grandes conseqüências", afirma Renata.
Sobre o significado das cores, Renata alega que, por toda a história, elas tiveram efeitos sobre a humanidade. Por tempos imemoráveis, foram símbolos de idéias abstratas - por exemplo, o verde em "verdes pastagens", do Salmo 23, sugere esperança e boa sorte; o vermelho indica paixão, perigo e vida (sangue). O branco no Ocidente é símbolo de inocência e pureza. No entanto, no extremo Oriente, simboliza tristeza e luto, exatamente o que seu oposto, o preto, significa no Ocidente. O amarelo é equivalente à covardia e traição, a não ser nos tons dourado e brilhante, que denotam força real e glória.
Na cultura ocidental, as cores podem ter alguns significados, alguns estudiosos afirmam que podem provocar lembranças e sensações às pessoas. Falando em sensações, Renata afirma que as pessoas são influenciadas pelas cores. "Mesmo inconscientemente, procuramos aproveitar seu benefício. Vejamos bem: numa ocasião de paixão e sedução, logo vem à mente a cor vermelha; para festas de passagem de ano, todos têm a idéia do branco; então devemos considerar a resposta emocional que essa cor nos provoca", explica.
Sendo essa resposta função do contexto cultural do usuário, o essencial é saber que estamos sujeitos à sua ação e que a preferência por determinada cor revela a sua sintonia ou até mesmo o caráter do indivíduo, seja pela sensibilidade a determinados estímulos luminosos ou pela representação psíquica que damos a elas.
As pessoas hoje estão bem atentas às cores, e, mesmo que a tendência da moda indique cores para determinadas estações, pode-se dizer claramente que, mesmo tendo uma peça dessas em seu closet, as pessoas usam por poucas vezes e sempre terá a sua cor de equilíbrio em qualquer objeto que carregue. Parte-se do princípio de que cada ser humano é único e possui características e modelos mentais diferentes. Renata salienta, porém, no que diz respeito à fisiologia das cores, que ainda não é possível mensurar com clareza os "custos fisiológicos" da definição visual relacionada às cores, embora estas sejam extremamente sugestivas quando bem utilizadas.

Tabela das cores e suas representações psíquicas:
Cinza: elegância, humildade, respeito, reverência, sutileza.
Vermelho: paixão, força, amor, velocidade, liderança, masculinidade, alegria (China), perigo, fogo, raiva, revolução.
Azul: harmonia, confidência, conservadorismo, austeridade, monotonia, dependência, tecnologia, liberdade.
Ciano: tranqüilidade, paz, sossego, limpeza, frescura.
Verde: natureza, primavera, fertilidade, juventude, desenvolvimento, riqueza, dinheiro (Estados Unidos), boa sorte, ciúmes, ganância, esperança.
Amarelo: concentração, otimismo, alegria, felicidade, idealismo, riqueza (ouro), fraqueza, dinheiro.
Magenta: luxúria, sofisticação, sensualidade, feminilidade, desejo.
Violeta: espiritualidade, criatividade, realeza, sabedoria, resplandecência, dor.
Alaranjado: energia, criatividade, equilíbrio, entusiasmo, ludismo.
Branco: pureza, inocência, reverência, paz, simplicidade, esterilidade, rendição.
Preto: poder, modernidade, sofisticação, formalidade, morte, medo, anonimato, raiva, mistério, azar.
Castanho: sólido, seguro, calmo, natureza, rústico, estabilidade, estagnação, peso, aspereza.

"O caráter simbólico do ato de vestir-se permite que algo seja mostrado, mas também escondido, dissimulado"


Algumas significações das cores mudam na cultura Ocidental para a Oriental, mas ambas culturas exercem a mesma influência

"É claro que isso não exclui que, parafraseando Freud, 'por vezes um cachimbo não é mais que um cachimbo'. De forma geral, é muito difícil supor que seja possível reduzir o sujeito a uma simbologia estática, como se houvesse, externo a ele, um sistema de significados, portanto de classificação", explica Paula.
No movimento punk, por exemplo, está envolvido um posicionamento político, até mesmo uma reivindicação, por mais que hoje, em alguns casos, o que tenha restado disso possa ser apenas uma estética; ainda assim, nem por isso cabe tal reducionismo. Ao contrário, talvez caiba justamente implicar cada um, singularmente, naquilo que transmite, naquilo que escolhe usar.
As questões ideológicas intrínsecas às tribos urbanas também geram controvérsias. Se antes havia um sentido político engajado em atitudes isoladas, criando tribos de interesses em comum, que determinavam signos de diferenciação social, tanto em maquiagem, cabelos e indumentária, hoje, este sentido é escasso, senão inexistente.
Paula explica que, de um modo geral, a época do surgimento das grandes ideologias, dos grandes mestres, terminou, ainda que seja inegável que as ideologias de direita se mantêm de forma organizada e crescente. Embora os problemas que vemos surgir hoje nas grandes metrópoles não comportem mais a tomada de posição surgida na França, no final do século XVIII, entre as tendências de gauche (esquerda) e droite (direita), em que se estabeleceu, por essa via, a posição política de cada sujeito, um movimento que em nossa cultura se mantém, também apoiado em idéias surgidas no século XIX.
Desta forma, é claro que também surjam, muitas vezes e de forma tácita, na moda, ou seja, naquilo que o sujeito irá escolher "vestir-se", interesses veiculados dessa direita, que tem hoje como ilustração maior o capitalismo. O psicanalista Mauro Mendes Dias, em seu livro Moda: divina decadência, trabalha de forma genial a idéia da moda como discurso, como certa organização que engendra as formas de vínculo social.
Portanto, em uma perspectiva mais ampla, a estética parece ter prevalecido sobre a ética criada pelas ideologias. Como exemplo disto, podemos considerar a mudança rítmica de estilos na região de Harajuku, no Japão, onde as famosas jovens adotam estilos diferentes, por vezes chocantes, apenas para se tornarem centro de referência e de especulação.

Psicanálise e moda


Evidenciando a íntima ligação entre Psicanálise e a moda, o livro Dispa-me, o que nossa roupa diz sobre nós (Zahar, 2007) traz relatos cotidianos, como a relação entre adolescentes e a roupa, anorexia, narcisismo, complexo de Édipo, seguido por uma análise psicanalítica minuciosa da cena. A obra estreita a relação do individuo com o corpo, narrando fatos corriqueiros que podem facilmente ser assimilados com empatia pelo leitor. Durante a leitura, surgem exclamações para incógnitas tão casuais que acabam despercebidas, como por exemplo, a razão do por que um individuo usa apenas roupa preta, ou o motivo do vestido de noiva ser tão importante para certas mulheres.

As mulheres são vítimas dos editoriais de moda. Algumas por vezes contraem patologias como anorexia mental
"Moda consigna uma das expressões mais contundentes do sentimento de pertença, isto é: o traje carimba nÍveis de adesão a um determinado Grupo"

Os caracteres de jogo e simulacro, como as indumentárias típicas de um grupo, passam a ser parte da experiência corrente do indivíduo, como se pudessem estabelecer campos de vivências sem implicações do sujeito, sem conseqüências para este. Para Paula, talvez seja por essa exata via, onde pessoas adotam estilos sem se importar com os conceitos embutidos neles, que assistimos diariamente ao aumento do número de estados de depressão entre nós, que alardeiam o esvaziamento de sentidos, característicos dos tempos de contemporaneidade.
"Em 2005, acompanhamos o episódio em que o príncipe Harry pedia desculpas públicas por ter usado uma suástica - símbolo de boa sorte ou da vitória nazista - para uma festa a fantasia. E o fez justamente dias antes das comemorações do aniversário do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e também próximo ao dia do Holocausto. Isso se relaciona com essa idéia de simulacro, de uma possibilidade de existência sem implicação, sem considerar até mesmo a história de seu próprio país, como podemos notar, sem se lembrar das conseqüências dos bombardeios nazistas em Londres, durante a Segunda Guerra Mundial", ressalta Paula. Para as jovens no Japão, não importa que os estilos estejam intimamente ligados à rebeldia punk inglesa dos anos 1960 e suas motivações políticas. Basta apenas adotá-los, uma vez que chamam atenção e são irreverentes à sociedade japonesa.
Ainda no caso de Harry, Paula reflete que o importante é considerar a história não somente como a condução de homens a seus propósitos, mas considerar, numa outra história, a impossibilidade de disjunção de fatos que trazem conseqüências indeléveis para toda a humanidade, independentemente de seus desdobramentos, conquistas e fracassos históricos, como é o caso do nazismo. Uma vez que isso atingiu não apenas os judeus, mas cada um de nós.

COMUNICAÇÃO VISUAL

O psiquiatra Joel Rennó Jr. outorga que se vestir é um fenômeno de tensão cultural, que oscila do pertencimento ao espaço público ao conjunto de regras estéticas, inconstantes enquanto moda e duradouras enquanto estéticas, ao que caracteriza de narcisismo do grupo. Com vista a reconhecer-se nesse grupo, cada um traz à lume demarcações pessoais por meio do narcisismo individual. A estruturação das grandes cidades contemporâneas rende vênias aos narcisismos coletivos, por multiplicar os âmbitos de convergência dos agregados, esses, sensíveis ao culto da "reciclagem do corpo". Alguns estudos deixam claro que a moda consigna uma das expressões mais contundentes do sentimento de pertença, isto é: o traje carimba níveis de adesão a um determinado grupo ou a vários grupos, uma vez que há grupos principais e secundários. Pela forma de vestir, as pessoas se alojam em núcleos diferenciados. Para exemplificar este cenário, um breve apanhado da história da moda brasileira resgata esse sentimento de pertença a um grupo (veja quadro Historicidade e pertença).

Historicidade e pertença

A loja de departamentos mudou o comportamento das mulheres das classes altas de São Paulo


No livro Moda e sociabilidade: mulheres e consumo na São Paulo dos anos 1920, a professora Maria Claudia Bonádio, da Escola São Paulo e do Mestrado em Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac, fala sobre o impacto da instalação da primeira loja de departamentos, no início do século XX, na cidade de São Paulo.
Maria Claudia afirma que, naqueles tempos, a loja Mappin era uma casa elegante de moda e voltada para um público consumidor que pertencia às elites e às camadas médias da população. As roupas vendidas pelo Mappin, na ocasião, eram ou fabricadas pela própria loja ou importadas de afamadas casas de costura parisiense. Um dos fatores mais instigantes é que, na época, a própria loja se encarregava de produzir e anunciar no jornal que vendia, por exemplo, bijuterias originais da casa de luxo francesa Chanel ou Worth, e também "cópias exatas" do mesmo modelo.
Para a professora, a cópia era "institucionalizada", representando, portanto, que se apresentar num vestuário fora de moda era socialmente mais constrangedor do que usar uma cópia. A prática da reprodução fiel a artigos de luxo, por mais contraditória que pareça, era comum dentro das grandes casas de moda, como a Casa Canadá, principal estabelecimento de moda de luxo no Rio de Janeiro dos anos 1940-1950, que, além de comercializar vestidos criados pelos mais famosos costureiros parisienses, também vendia uma cópia de cada modelo. Segundo Mena Fiala, diretora da casa, o principal cuidado nesses casos era não vender cópia e original para mulheres do mesmo Estado, a fim de evitar encontros constrangedores. Fica em evidência a idéia de que atrelados às roupas estão os sentidos femininos ligados ao status social, tanto das elites que desejam exibir o traje original e importado, distanciando-se da margem já preestabelecida de deselegância e inferioridade financeira, quanto das classes abastadas que aderem à mesma moda, nos mesmos moldes, a fim de ocultar sua real condição e transparecer socialmente um estado melhor, mesmo com indumentárias copiadas e mais baratas.


A aparência externa individual sinaliza o pertencimento comunitário: o cabelo, os adereços, o perfume, o porte, a indumentária traduzem símbolos de ligação que somente reforçam a noção de pertencimento, noção indispensável à construção de personalidades individuais e coletivas.
A identidade se forma no seio da relação infantil com a mãe, cujo olhar sobre o filho participa da elaboração da imagem interna da criança. Uma imagem sobre si mesmo, que seja fraca, pode ser conseqüência de falhas nessa relação mãe-filho. Essas falhas podem se dar por inúmeros motivos, como uma mãe pobre que precisa passar o dia todo trabalhando, enquanto a criança fica em casa, como segundo plano em sua vida. Acontece então que o olhar dos outros se torna importante para reparar a falta deste primeiro olhar materno. O sujeito busca sua identidade no olhar de terceiros porque não dispõe de uma identidade formada e estável no seu interior.
Então, o papel da roupa é o de permitir que esse indivíduo possa agrupar as diferentes imagens de si mesmo em uma entidade única, que ele poderá fixar mentalmente. Essa imagem fixada, por sua vez, serve como apresentação mental de si mesmo, e não deve ser modificada para assegurar a permanência da identidade adquirida. Por isso, vemos pessoas inseridas em grupos e tribos, sem necessariamente estar ideologicamente ligadas a eles.
Segundo Catherine Joubert e Sarah Stern, psiquiatras e psicanalistas especializadas em crianças e adolescentes, ainda há aquelas pessoas que seguem tendências e clichês midiáticos para manter uma estabilidade mental. Por exemplo, uma jovem que compra todas as revistas femininas da banca, e segue à risca o que sugerem os editoriais de moda, é refém da moda.
As adolescentes se adaptam aos clichês das revistas e ficam fascinadas pelo poder de sedução das imagens que compõem a obra. Desta forma, as meninas tentam reproduzir tais representações e, quanto mais parecidas com elas e alienadas em um semblante, mais se saciam. A satisfação surge quando o indivíduo se torna um personagem dentro do roteiro - o da moda. Ele encarna o poder de sedução, inerente aos clichês. Tais poderes provêm de referência a uma fantasia, relato organizado que põe esses arquétipos em cena. Recorrer a si mesmo em fotografia de revistas é muito comum na adolescência, mas não deixa também de ser prática de adultos.
Nesse conceito, os editoriais das revistas se mostram ditatoriais, incontestáveis e unânimes, e, para entender por que adolescentes e mulheres os têm como modelo, podemos pegar Freud e o problema da feminilidade. Segundo ele, quando a menina percebe que não possui o objeto capaz de satisfazer o desejo da mãe, ela se afasta e passa a seguir o semblante daquele que parece possuir o objeto: o pai. Ela o oferta uma grande demanda de amor e espera receber um filho como presente do pai. Nesta fase, a garota se transforma em mulher.
Uma das hipóteses abertas por ele é que a menina se afasta da mãe porque ela lhe mostra o caminho ao designar um outro - diferente da criança -, como objeto para seu desejo. Neste caso, o pai também tem várias vertentes e caminhos a seguir: ele pode responder a essa demanda de amor da filha, levando-a em conta, desprezando-a ou, até mesmo, mostrando-se sedutor.
Desta narrativa do pensamento de Freud, é possível entender que, para a garota que não consegue constituir uma identidade própria, a ponto de procurá-la nos tais editoriais de moda, em sua formação alguma coisa não fluiu corretamente na circulação do desejo entre pai, mãe e filha.


O ato de comprar pode se tornar compulsivo por diversos motivos. Um deles é pela necessidade do indivíduo se sentir notado, de estar em evidência e sempre na moda

Nos anos 80, Madonna mesclou vários estilos e criou sua identidade. Na época, várias garotas se vestiam como ela e adotavam seu comportamento


Objeto transicional


Winnicott fez um estudo sobre o "objeto transicional". A psicanalista Suely Gevertz explica que a maioria das pessoas tem esse objeto, que caracteriza uma fantasia, como proteção, por exemplo. Pode ser um amuleto ou até mesmo uma peça de roupa. Gevertz alerta que pode se tornar um comportamento patológico se a pessoa não conseguir ficar sem este objeto, usando-o indiscriminadamente.

COMPULSÃO ESTÉTICA

A memória de infância exerce uma grande força para as escolhas que fazemos por nossos adornos. Mas nem sempre nossas escolhas são tão simples e tão fúteis como muitos imaginam. Algumas pessoas desenvolvem distúrbios sérios que afetam outros setores de suas vidas, que não o mental. Por exemplo, os compradores compulsivos de roupa, que acabam gastando o que não têm, ou acabando com tudo aquilo que conquistou.
A psicóloga Paula explica que, como em toda relação de compulsão, há sempre a suspeita de que o objeto esteja no comando da cena. De qualquer forma, a compulsão é um modo de ancorar o laço social com o outro, mais precisamente, talvez, de se livrar da relação com o outro e seu desejo, numa tentativa de, por meio da posse do objeto, "ter o ser", ter aquilo que o completa, capaz de eliminar a condição faltante em si. "Nesse sentido, me servindo de uma expressão de Ricardo Goldemberg, realizam-se os 'consumidores consumidos', e, assim, o imperativo de gozo impõe-se ao apagamento do desejo, que para manter-se exigiria suportar a condição faltante", afirma Paula, endossando a afirmação de que a compulsão é a busca doentia de algo que falta.
Porém, o dr. Joel Rennó explica que nem todos se tornam compradores compulsivos. A moda subseqüentemente detém uma dimensão paradoxal - a de selar pactos coletivos e, a partir da consistência dos pactos, galgar patamares individuais de expressão exterior. Simmel, um grande autor do século XIX, a define como um sistema de contrastes entre a sua ampla difusão e o seu rápido envelhecimento - rito de alta mutação -, o que permite ao sujeito social apoderar-se do direito de ser infiel à moda. A rotatividade sazonal do estilo acata a síndrome da traição. Com isso, esse sociólogo alemão reforça o poder coesivo da moda, mesmo em face da célere movimentação estilística: ora de um jeito, ora de outro. Mas sempre colada a um corpo desejante de exposições públicas. Trocando em miúdos: a moda age como força coercitiva e coesiva e faculta ao indivíduo a possibilidade de distinguir-se dentro do grupo, mesmo traindo as tendências dos figurinos de épocas anteriores.

"A compulsão é um modo de ancorar o laço social com o outro, numa tentativa de ter aquilo que o completa"

Cresce então o fenômeno de confusão e deturpação do sistema de moda. Ora se seguem modelos estabelecidos como determinantes para a estação, ora quebram-se esses conceitos para destacar-se socialmente. Atrelados a esse paradoxo, estão a decadência do império da moda e o aclive dos seus preceitos, que regem e codificam comportamentos, mesmo que subjetivamente, em forma de roupa, acessório, tatuagem, calçado ou atitude.


Revista Psique

Cada um no seu próprio ritmo

Sob o ponto de vista behaviorista, a pedagogia entende o aprendiz não como uma máquina de acúmulo de conhecimentos, mas um indivíduo único e modificado para o resto da vida

Por Alessandro Vieira dos Reis

Alessandro Vieira dos Reis é analista do comportamento Contato com o autor: alessandrovr@gmail.com. http:// olharbeheca.blogspot.com


Nos anos 1950, B.F. Skinner não apenas levantava hipóteses sobre tecnologias pedagógicas, mas efetivamente criava "máquinas de ensinar". O dispositivo mecânico e rudimentar funcionava com roldanas e fichas. O aluno rolava um texto recheado com questões e à medida que as respondia seguia adiante. As máquinas de ensinar indicavam o acerto ou erro do aluno imediatamente, diferentemente de provas em que a correção poderia demorar dias. Por esse feedback imediato, o reforço do acerto tinha mais força e o aluno poderia corrigir rapidamente os erros. As máquinas de ensinar poderiam ajudar na instrução, segundo Skinner, a respeito de qualquer saber traduzível em textos e expresso em forma simbólica, tais como gramática e matemática.

Poucos anos depois, com a revolução da informática, surgiam os primeiros computadores. Diante de uma máquina capaz não apenas de apontar erros e acertos em questões, mas também de computar dados e rodar programas variados de ensino, as possibilidades eram muitas.

Antigas novidades sobre o ensino

De poucas décadas para cá, o jargão dos educadores, especialmente em escolas de Ensino Fundamental e Médio, foi acrescido de diversos termos. Alguns deles encontram eco na Análise do Comportamento.

Interdisciplinaridade - Ensinar Português, Geografia e História por intermédio de uma redação. Aprender Matemática e poesia ao mesmo tempo, esquadrinhando métricas de sonetos. Isso é interdisciplinaridade: a visão pela qual as diferentes disciplinas de conhecimento devem se integrar em um todo, respeitando ainda suas diferenças. Para a Análise do Comportamento, como já expresso anteriormente, o que é ensinado na verdade são comportamentos, e não conhecimentos de diversos tipos diferentes. Sendo assim, tudo é uma questão de organizar esses comportamentos em classes passíveis de generalização e discriminação.

Ensino de Competências - Fala-se muito em competências hoje em dia. Uma competência pode ser definida como a capacidade de mobilizar recursos teóricos, práticos e atitudes para realizar algum trabalho. Em outras palavras, comportar-se de alguma forma, visando resultados. Novamente: não é um abstrato conhecimento que é transmitido nas escolas. Educar é ajudar as pessoas a mudarem a si mesmas, visando resultados no mundo.

Ciclos Cada um aprende em seu ritmo. Essa premissa é velha conhecida dos Analistas do Comportamento explicada pelo fato de diferentes pessoas terem diferentes históricos e repertórios. Alguns esquemas de reforço vão funcionar para uns, mas não para outros. A idéia de que todos os alunos precisam cursar as mesmas disciplinas ao mesmo período de tempo não encontra apoio em uma Análise Comportamental. Em vez de o ensino ser segmentado em séries estanques e alunos de mesma idade serem colocados todos na mesma sala (pressupondo que alunos da mesma idade aprendem de forma igual) o melhor seria que se respeitasse o ritmo de cada aluno.

Avaliação Formativa - Para que serve uma prova, ou um seminário, ou qualquer instrumento de avaliação? Muitos diriam que para checar se o aluno aprendeu e permitir que os selecionados passem adiante, enquanto que os reprovados repitam o ano. Esse não é o papel da avaliação na Pedagogia Comportamental. Avaliar é uma forma de incentivar os estudos. Todos sabem que alunos estudam mais quando as provas estão próximas. A partir daí descobriu-se que se a avaliação for contínua e freqüente, e tivesse o papel de orientar mais do que selecionar, então o aluno estaria regularmente estudando. Skinner já praticava a hoje chamada "Avaliação Formativa" décadas antes de pensadores como Phillipe Perrenoud falarem dela.

A educação pode ser escolar, organizacional ou clínica, mas todas devem prezar pela criação de uma cultura propícia à manutenção e evolução sadia da vida



Isso fez Skinner declarar que os computadores eram "o instrumento pedagógico do futuro", ao mesmo tempo em que criticava o emergente paradigma cognitivista de ensino, em que o aluno era comparado a um computador que deveria ter sua memória preenchida com dados.

A partir disso, é perfeitamente aceitável perguntar "como" as pessoas aprendem? Uma questão que pode ser fundamental, para muitos da Análise do Comportamento, é por que o funcionamento da aprendizagem ocupa lugar de destaque na abordagem comportamental, tanto no âmbito clínico quanto escolar e organizacional, se há uma didática behaviorista, uma Pedagogia Comportamental? Sob a hipótese de a resposta ser afirmativa, por que se ouve tão pouco sobre o tema? Talvez porque historicamente os analistas do Comportamento inventam muitas coisas, mas quase nunca levam o crédito.

Pessoas não aprendem como computadores, até porque computadores não aprendem: eles são alimentados com dados estruturados. Quando um computador roda um programa ele está executando um conjunto de instruções chamado algoritmo. Esse algoritmo pode ser substituído por outro, o que não implica em alterações na máquina. Na visão comporta mental, o mesmo não se aplica ao homem: o aprendizado muda, transforma o ser humano de maneira indelével. Alguém que aprendeu a andar de bicicleta não é um autômato executando um algoritmo apagável: é um indivíduo modificado de maneira única para o resto de sua vida.

Dizendo com outras palavras: educar não é transmitir conhecimentos, encher a cabeça das pessoas. Educar, para um behaviorista radical, é transformar pessoas e, assim, também o mundo. A própria noção de conhecimento é entendida não como algo dentro da mente, mas um conjunto de comportamentos que a pessoa exerce no mundo. Em vez de dizer "vou passar a ele o conteúdo de cálculo", um professor de ótica comportamental declararia: "vou ensiná-lo a calcular". Ensinar não é transmitir idéias, passar conteúdos ou transferir informações, é modificar as pessoas ao torná-las capazes de realizar novos comportamentos, aumentando seus repertórios.

Diferentemente da didática tradicional, presente nas escolas desde a Idade Média, a Pedagogia Comportamental parte de pressupostos de que todos podem aprender e, se o aluno não aprende, é porque não foi corretamente ensinado. Para um behaviorista radical, o sucesso da educação está em achar um método apropriado para cada aprendiz, descobrir reforçadores eficazes, um ambiente propício, procedimentos mais afins com o histórico e repertório de cada um.

A premissa de que todos podem aprender pode ser traduzida no célebre ditado popular: "não existe mau aluno, existe mau professor". Ou, para ser mais cientificamente preciso, uma vez que o professor também é determinado pelo ambiente de ensino, "não existe mau aluno, existe mau ensino".

Outro ponto fundamental, eternamente presente em discussões pedagógicas, é se a diretividade é inevitável. Entende-se que todo ensino ocorre mediante um programa de objetivos, o que envolve, por exemplo, "comportamentos-alvo" que devem constar no repertório do aluno ao final do processo. Admitese que o professor possui um repertório de comportamentos maior e mais organizado que o do aluno e, por isso, tem condições de "orientar o pequeno" (tradução literal da palavra Pedagogia, do grego).

"Educar não é encher a cabeça das pessoas. Educar, para um behaviorista radical, é transformar pessoas e também o mundo"

Na escola


É certo que o comportamento do aluno em sala de aula mudou muito nas últimas décadas, mas entender o que move esse aluno e fazê-lo compreender seu contexto social ainda são tarefas atualíssimas do professor. Escritores da liberdade conta a história de uma professora de literatura que sugere aos seus alunos, todos com histórias de vida violentas, que façam diários e, por meio desse exercício, descobrem o poder da tolerância, recuperam suas vidas desfeitas e mudam seu pequeno mundo.


A diretividade, contudo, não pressupõe falta de interatividade. Deve-se ensinar mediante diretivas, mas conforme o que é reforçador para o aluno. Descobrir o que é reforçador para cada aluno - isto é, o que os motiva - é parte fundamental do ensino segundo a Análise do Comportamento. O professor eficaz é o que faz perguntas do tipo: o que você gosta de aprender? Como se sentiu naquela aula? Quais seus interesses para o futuro? Você está satisfeito com os rumos de sua educação?

Pessoas não aprendem como computadores, até porque computadores não aprendem: eles são alimentados com dados estruturados


Modelos comportamentais de ensino

Alguém que aprende a andar de bicicleta não é um autômato. É um indivíduo modificado de maneira única para o resto de sua vida

O método de ensino escolar desenvolvido por Skinner ficou conhecido como Instrução Programada. Fazendo uso das "máquinas de ensinar", bem como de outros procedimentos, Skinner concluiu que a melhor forma de educar não era a Tradicional, pela qual o professor era um transmissor de informações que deveriam preencher a mente de seus alunos.

A Instrução Programada apresenta algumas características, como respeitar o ritmo de aprendizagem de cada aluno; oferecer a avaliação como forma de ensino e orientação, não como seleção por notas; tornar o aluno gerenciador de seu próprio aprendizado, uma vez que ele regula o programa mediante seus interesses e limites; enfatizar que toda aprendizagem deve gerar habilidades demonstráveis no contexto real, onde o aluno operacionaliza saberes sobre o mundo. Um exemplo disso seria a aprendizagem efetiva da língua e não apenas decorar o vocabulário. (Mais tarde a Instrução Programada serviu de ponto de partida para o desenvolvimento do Personalized Struction System (PSI); e do método Precision Teaching, por Ogden Lindsley).

O fato é que métodos e modelos de ensino baseados na Análise Experimental do Comportamental são hoje desenvolvidos em diversas universidades e centros de pesquisa. Esses métodos influenciam, mesmo sem receber os créditos, pensadores de diversas áreas.

O fato é que métodos e modelos de ensino baseados na Análise Experimental do Comportamental são hoje desenvolvidos em diversas universidades e centros de pesquisa. Esses métodos influenciam, mesmo sem receber os créditos, pensadores de diversas áreas.

Modelo de ensino behaviorista

O livro Análise do comportamento humano, de Ellen Reese (Livraria José Olympo, 1976), apresenta um interessante modelo de ensino baseado na Análise do Comportamento. Segundo Reese, esse modelo pode ser roteirizado da seguinte maneira:

Especificar para o aluno o comportamento-alvo a ser aprendido.

Checar o que o aluno já sabe sobre o tema, para partir de seu repertório presente para que ele chegue ao comportamentoalvo.

Habituá-lo, previamente, com termos, conceitos e instrumentos que usará no processo.

Criar um ambiente favorável (o que envolve desde aspectos físicos até sociais e emocionais da situação de ensino).

Criar um sistema motivacional. Ou seja, descobrir o que é reforçador para o aluno e oferecer isso, mediante algum esquema de reforço.

Dar o exemplo dos comportamentosalvo executando-os (procedimento de modelação). Em seguida, deixar o aluno agir por conta própria, apenas dando instruções em tempo real para aperfeiçoar seu desempenho (procedimento de modelagem).

Manter registros ricos de todo o processo: fotos, diários, filmes, desenhos, etc., para demonstrar objetivamente o progresso do aluno.

Revista Psique

terça-feira, 21 de julho de 2009

"Ser professor é guiar o aluno "para a vida"

Por Célia da Costa Marianno*

Minha História começou em setembro de 1979, quando, depois de décadas de formada, fui buscar o diploma na gaveta. Após ter me inscrito na DE, fui chamada para assumir uma 4ª série na E.E. Dr. Álvaro de Souza, em São Paulo (SP). A diretora estava muito preocupada com a evasão dos alunos e a falta de professores: quando entrei na sala de aula, não tinha mais de 12 alunos na faixa etária entre 11 e 13 anos. Fiquei atônita, não sabia o que fazer. De repente, como escreveu o filósofo Nietzsche, a criatividade vem como um raio e não temos como detê-la. Foi o que aconteceu.

Apaixonada por livros e leitora precoce, surgiu na lembrança a história da Águia e da Galinha, de Leonardo Boff. Contar a história foi a minha aula. Foi um momento mágico - interagi com os alunos usando a força da águia como elemento de reflexão e de estímulo, explicando que cada pessoa tem dentro de si uma águia. Ela quer buscar o sol e por isso estamos sempre procurando libertar a águia que nos habita.

No dia seguinte, a classe estava lotada e eu soube que eles comentaram na comunidade que eu era legal e diferente. Naquela tarde descobri minha vocação: sou comunicadora, portanto sou educadora. Hoje, quando me lembro do primeiro dia de aula, vejo que trabalhei, sem saber, o meu projeto - usar a arte como fio condutor (literatura, poesia, música erudita), pois ela promove uma união entre a formação acadêmica, assim como estimula a sensibilidade, a reeducação afetiva e a reflexão sobre os valores morais e sobre a conduta.

Organizei uma coletânea de textos e poesias, tendo como objetivo em cada texto interagir com os alunos, e, como atividade, texto de opinião sobre o tema. Leitura de poesias, incluindo a música erudita com CDs, DVDs e projeto para o Conceito Didático da Sala São Paulo e Teatro Municipal. Tendo a arte como fio condutor, atingi o meu objetivo: guiar o aluno para a vida, um movimento de descoberta que auxilia o aluno a pensar, refletir sobre sua vida, a família, a solidariedade, os valores etc. Na formação acadêmica, auxiliar o aluno a criar novos textos, abrir condições para expandir a potência de criar - pois, sem a criação, não há aprendizagem: "Sem a arte não se forma o homem".

Com esse trabalho na área de português, encerrei minha carreira em janeiro de 2007, na E.E. Seminário Nossa Senhora da Glória, por problemas de saúde. Tenho alunos cursando as 7ªs e 8ªs séries no seminário, e sempre que posso vou vê-los, pois eles foram minha força geradora e me fizeram acreditar que transformar é possível.


A seção 'Retratos' traz a cada edição as histórias de quem faz história dentro das salas de aula. Compartilhe sua experiência conosco: l.portuguesa@ criativo.art.br

Revista Língua Portuguesa

Por que (não) estudar latim hoje?

Se a língua latina é considerada a mãe da língua portuguesa e de outras línguas ocidentais, será que seu estudo não seria importante ainda hoje?
por Francisco Edmar Cialdine Arruda*

Qual a importância do latim hoje? Por que estudá-lo? Essas são as perguntas que geralmente nós nos fazemos tão logo entramos na primeira aula de latim da faculdade. Motivados pelo medo de alguns veteranos, às vezes chegamos até a negar a importância da disciplina com tais questionamentos. É claro que, muitas vezes, esse temor é corroborado quando somos obrigados a decorar listas e mais listas de desinências de casos, conjugações e etc., todavia, deixar de lado a língua que não só deu origem ao português e demais línguas neolatinas, como também influenciou tantas outras, é deixar de lado a oportunidade de entender, historicamente, como todas essas línguas se relacionam e se transformam. Foi pensando nisso que resolvi escrever esta apologia ao ensino de latim.

O latim nosso de cada dia

Ao contrário do que muitos possam pensar, o latim não é uma língua morta. Ele está mais vivo do que nunca. Não só vivo nas línguas neolatinas, mas em seu uso propriamente dito. Utilizamos a língua latina em algumas situações de nosso dia a dia. Deixamos o curriculum vitae nas empresas para conseguir emprego, fazemos cursos de pós-graduação lato sensu ou stricto sensu, nossa universidade pode estar localizada em diferentes campi etc. Esses são apenas alguns exemplos de expressões latinas comuns ao nosso cotidiano. É claro que sua influência se estende a outras línguas, por exemplo - ou melhor e.g.: em latim, temos a palavra dominus, que significa "senhor". A partir dessa palavra vieram as palavras "dominar", "condomínio" e o dia dedicado ao Senhor ("domingo"). Note que, há alguns séculos, tínhamos o título de "dom" (Dom Manuel, Dom Pedro I etc.), que caiu em desuso em português - porém, permanece em espanhol. O nome original do seu Madruga, famoso personagem do seriado de TV "Chaves", é, na verdade don Ramón. Temos o resquício dessa palavra apenas em seu feminino "dona" e seu diminutivo "donzela" (que veio de dominicella).

Se formos falar de língua inglesa, os exemplos não são menores. Apenas para citar alguns, temos university, que significa "universidade" - ambas as palavras vieram do latim universitas, isto é, o "universo", a "totalidade das coisas"; e não é essa a ideia de universidade? Outro exemplo curioso: o verbo to delete chegou ao português como "deletar", isto é, apagar algo que foi digitado no computador. Mas o verbo inglês tem origem latina: delere, "destruir" (incrivelmente, a segunda pessoa do plural do imperativo é delete). Então eu deixo a pergunta: será que Kaiser (imperador em alemão) e czar (imperador em russo) têm alguma relação com o império dos césares romanos? (Só para dar uma dica, César se escreve Caeser em latim e uma possível pronúncia é "cáisser").

Deixar de lado a língua que não só deu origem ao português e demais línguas neolatinas, como também influenciou tantas outras, é deixar de lado a oportunidade de entender como todas essas línguas se relacionam e se transformam

Internauta
Há, inclusive, sites e comunidades no site de relacionamentos Orkut em latim e que tentam "modernizar" a língua. Confira por exemplo em http://www.cirlapa.org/ locutorium.htm


Voltando para nossa língua, conhecer latim nos faz raciocinar sobre os sentidos das palavras. Observe: a palavra latina para água é aqua, daí a natação ser um esporte aquático, os seus peixes ficarem em um aquário. Então eu pergunto o que seria aquicultura? Você pode até nem saber ao certo, mas fará uma ideia.

Podemos também falar sobre o que algumas gramáticas chamam de irregularidades da língua e perceber que elas têm explicação na sua história. Uma grande pedra no sapato dos alunos é o plural de palavras terminadas em "-ão". Na verdade, a irregularidade está em conhecer a origem dos três possíveis plurais ("-ãos", "-ões", "-ães"). O plural de "nação" é "nações" porque veio do latim, natione; em "pão" (pane), temos "pães", mas "cristãos" para "cristão" (christianu).

O latim está tão vivo que ainda hoje ele ajuda a criar neologismos. Além do exemplo de "deletar", podemos citar mais esse: "marinheiro", em latim, é nauta - daí o porquê do adjetivo náutico para coisas ligadas à marinha. De nauta teremos "astronauta" ou "cosmonauta", o navegante dos astros ou dos cosmos. Por isso dizemos que quem navega na Internet é internauta.

O rei do latim

O latim ainda influencia tanta gente que um estudioso, fã de Elvis Presley, traduziu algumas músicas do rei para o idioma. Professor de linguística da universidade de Jyväskylä, na Finlândia, Dr. Ammondt também já traduziu tangos finlandeses para o latim. Seu primeiro álbum com as versões da música de Elvis, "The Legend Lives Forever in Latin" (A Lenda Vive para Sempre em Latim), foi lançado em 1995 e contém sucessos como "Love me tender" e "Can't Help Falling in Love". Saiba mais no site do professor, http://www.drammondt.com/english/index.php (em inglês), e no site voltado para cultura (em espanhol): http://www.culturaclasica.com/musica/elvis.htm.


LOVE ME TENDER
Love me tender, love me sweet,
never let me go.
You have made my life complete,
and I love you so.
Love me tender, love me true,
all my dreams fulfill.
For, my darlin´, I love you,
and I always will.

Love me tender, love me long;
take me to your heart.
For it´s there that I belong,
and we´ll never part (love me tender...)

Love me tender, love me dear;
tell me you are mine.
I´ll be yours through all the years,
till the end of time (love me tender...)

TENERE ME, SUAVITER
Tenere me, suaviter,
ama intime.
Me beasti dulciter,
et nunc amo te.
Tenere me adama,
vero somnio.
Amo te, o lux mea,
fiat unio.

Tenere me longius
corde fer tuo.
Illic sum haud impius,
numquam abeo (tenere me adama...).

Tenere me ama, dic
meam esse te.
Tuus sum per saeculum,
in perpetuum (tenere me adama...)


Língua oficial da Igreja Católica Apostólica Romana
Existe um país no mundo em que o latim é a língua oficial: Status Civitatis Vaticanae (Stato Cittá del Vaticano, ou Estado da Cidade do Vaticano). A Repubblica di San Marino (Res Publica Sancti Marini, ou República de San Marino) tem o latim como segunda língua oficial.

A importância do latim

A despeito de tudo isso há as questões culturais que circundam a língua. "Velho" em latim é senex. Em Roma, surgiu uma instituição que era composta pelos mais velhos, tidos como mais sábios - o membro dessa instituição era conhecido como senator. Temos, então, a origem do senado em Roma.

Outro detalhe, o latim é uma língua muito precisa por conta de seus casos e declinações, de modo que ela foi muito utilizada nas ciências e, principalmente, no Direito. Ainda hoje, em alguns países da Europa, é possível escrever uma tese em latim. De igual modo, a língua oficial da Igreja Católica Apostólica Romana é o latim. Perceba que o latim é um ponto em comum entre a Ciência e a Igreja.



Crença negativa
Para promover o latim, o Papa Paulo VI criou, quando ainda era subsecretário do Vaticano, a fundação Opus fundatum "Latinitas", que, durante o seu papado, em 1976, foi elevada a instituição. A fundação tem a tarefa de favorecer o estudo do latim clássico, eclesiástico e medieval, além de estimular seu uso na literatura. Confira em http://www.vatican.va/ roman_curia/institutions_ connected/latinitas/ documents/index_lt.htm



Não podemos também esquecer que o latim está vivo também nas músicas. Temos desde cantos religiosos (canto gregoriano), óperas "profanas" (como trechos de Carmina Burana) e até de bandas de heavy metal que fazem músicas em latim (vide box).

Por fim, cabe-nos agora hipotetizar sobre as razões que levam a língua latina a ser considerada persona non grata dos cursos de Letras. O primeiro motivo, certamente, é a ausência de metodologias de ensino que ultrapassem os tradicionais e extensos exercícios de declinação e conjugação. Os alunos muitas vezes se veem obrigados a decorar listas e mais listas de terminações sem compreenderem como aquele conteúdo pode contribuir com a formação de um professor de língua portuguesa. De fato, apesar de o latim contribuir para a solidificação profissional do aluno e mesmo para o aprendizado de outras disciplinas da grade curricular, não raro a língua latina é estudada sincronicamente isolada. A língua latina pode fornecer bases sólidas para estudos históricos da língua, estudos de análise sintática, estudos literários e de crítica literária e até mesmo estudos sociolinguísticos - desde que o professor de latim apresente ao aluno essas relações interdisciplinares. De igual modo, outras disciplinas podem contribuir para o desenvolvimento dos estudos clássicos. Um exemplo seria as contribuições possíveis que as novas teorias de ensino e aprendizagem de língua, desenvolvidas no campo da Linguística aplicada, podem oferecer. Esse campo tem crescido muito - mas apenas em nível de línguas modernas. Também a Lexicografia moderna, hoje voltada para a sala de aula, poderia oferecer ferramentas metodológicas para a produção de dicionários acessíveis ao grande público. Essas ideias, inclusive, poderiam ajudar a combater a crença negativa de que não há nenhum caráter científico nos estudos clássicos.

Outra barreira para o sucesso do ensino do latim nos cursos superiores é a acessibilidade ao material didático. O pouco material existente em língua portuguesa é raro, caro e feito em uma linguagem imprópria para iniciantes. Muitos deles datam de décadas atrás, quando os estudos clássicos eram comuns nas escolas. É claro que, se o aluno lê em outras línguas, as opções se ampliam - na verdade, há uma considerável gama de material em alemão, francês ou mesmo inglês.

De modo geral, são essas barreiras que acabam por difamar o ensino do latim nas faculdades. Por outro lado, é a existência de tais barreiras e a possibilidade de superá-las que tornam esse campo de estudos um ambiente fértil de pesquisa.


PEQUENO VOCABULÁRIO

alibi: em outro lugar
alter ego: outro eu
a posteriori: a partir do que vem depois
a priori: a partir do que vem antes
Agnus Dei: Cordeiro de Deus
carpe diem: aproveite o dia
Corpus Christi: Corpo de Cristo
curriculum vitae: percurso de vida
exempli gratia (e.g.): por exemplo
et caetera (etc): e outras coisas
habeas corpus: que tenhas o corpo
in loco: no lugar
in memoriam: em memória de
in vitro: no vidro
ipsis litteris: pelas mesmas letras
lato sensu: no sentido lato, geral
per capita: por cabeça
persona non grata: pessoa indesejada
pro forma: por mera formalidade
quo vadis?: aonde vais?
sine qua non: sem a qual não
stricto sensu: sentido restrito
tabula rasa: tábua raspada


*Francisco Edmar Cialdine Arruda é mestrando em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Lexicografia, Terminologia e Ensino (LETENS), atuando principalmente com os temas Terminologia, Ensino, Lexicografia, Surdez e Latim. Contato: ed0904@gmail.com

Revista Língua Portuguesa

Para vender, trocar, procurar: Classificados de jornal em sala de aula

Oferece-se ótimo gên. textual p/ usar na sla de aula. Interessados leiam a seguir.
por Iran Ferreira de Melo*

Levar anúncios de classificados para o contexto escolar e aproximá-los da sua real função no meio social: isso ajudaria a pensarmos sobre o funcionamento da nossa língua? Em que medida, professor, o classificado ajudaria a uma efetiva habilidade e consciência na produção, leitura e análise linguística?

É comum escutarmos hoje, nos cursos de formação de professores de língua materna, que nossos antigos mestres ficaram, por muito tempo, presos ao ensino metalinguístico do português. Porém, há duas décadas e meia, a reflexão linguística como forma de interação social está sendo usada nas escolas para substituir aquele tipo de ensino, tendo como propósito fazer com que os alunos se apropriem não só das estruturas gramaticais, mas também percebam e entendam a vastidão de gêneros textuais que os circundam e saibam usá-los competentemente.

Nós compreendemos hoje que o trabalho didático da aula de Português não se deve limitar à classificação e nomeação de formas textuais, mas, sim, fazer com que o aluno perceba as características que constituem os diversos gêneros de texto: sua função comunicativa, onde podemos encontrá-los e qual o seu papel no meio social.

Uma das formas de nossos alunos entenderem o funcionamento da língua portuguesa, conhecêla e estudá-la em seu uso concretizado é levar textos para serem problematizados com eles. Por exemplo, os variados domínios textuais da mídia são grandes fontes. Você já parou para pensar?

Quais são os textos de TV, internet, jornais e revistas que podemos transpor para sala de aula? A resposta pode ser: notícias, propagandas, artigos de opinião, quadrinhos, anúncios de classificado ... Ops! Anúncios de classificados?!

Levar anúncios de classificados para o contexto escolar e aproximá-los da sua real função no meio social: isso ajudaria a pensarmos sobre o funcionamento da nossa língua? Em que medida, professor, o classificado ajudaria a uma efetiva habilidade e consciência na produção, leitura e análise linguística?

Argumentação no classificado

O anúncio classificado é considerado um gênero de texto publicitário. Portanto, na discussão com os alunos sobre sua funcionalidade, é importantíssimo fazer menção ao processo de argumentação que é produzido pelo enunciador, ou seja, explicar por que há uma forte carga persuasiva nesse gênero.

Às vezes, ao observarmos os cadernos de classificados, nos deparamos, de fato, com anúncios desprovidos de qualquer sequência argumentativa, como os relacionados abaixo:

(1) Celta 2p 02 KKC2793 AR.
(2) Celta 2p 02 KKO6292 AR.
(3) Celta 2p 02 KKA9543 AR.

Se excetuado o número da placa, não há nenhum outro elemento que distingue os três anúncios. Ao contrário destes, muitos dos anúncios analisados possuem palavras e expressões que funcionam como operadores argumentativos, a exemplo dos que seguem abaixo:

(4) SALA COMERCIAL 9º andar . Totalmente nascente, Wc, pç condomínio já incluso. Preço a combinar xxxx-xxxx.
(5) AUTOMAR - Clio rt 1.6 16v completíssimo único dono. F: xxxx-xxxx.
(6) Vendo - um super nintendo semi-novo, com 2 controles, 3 fitas r$ 100 xxxx-xxxx.
(7) Vendo bicicleta - marca sundown, 18 marchas, cor vermelha, nova, na caixa. R$ 200 fone: xxxx - xxxx.
(8) Honda Shadow - 2001, 800km. Novíssima. F: xxxx-xxxx.

Em (4) e (5) as palavras nascente e completíssimo, mais do que expor um fato acerca do imóvel e do veículo, expressam uma argumentação que pode vir a influir na decisão do comprador. Em (4) a palavra nascente assevera que a incidência dos raios solares no imóvel ocorre apenas num determinado horário da manhã, o que indica tratar-se de um ambiente menos quente. Além disso, o advérbio de modo totalmente opera como um modalizador, intensificando e argumentando que o imóvel é nascente durante todo ano. Em (5), o sufixo formador de grau superlativo (-íssimo) indica que o veículo dispõe de acessórios que garantem maior conforto e segurança ao comprador (como ar-condicionado, alarme, som e air-bag) em relação a um veículo apenas "completo".

Subsegmentos


O classificado só é chamado assim porque se enquadra exatamente numa classificação feita pelo jornal, estabelecida nesses tópicos e subdividida num caderno específico para anúncios.

Em (6), (7) e (8) adjetivos e expressões como semi-novo, nova na caixa e novíssima, além de expor o estado dos produtos anunciados, argumentam por que o produto está apto a atender às exigências do comprador que almeja adquiri-lo mais do que outros produtos anunciados sem tal qualificação.

Diante desses exemplos, percebemos que a força argumentativa nos classificados se dá, muitas vezes, por meio de marcas morfológicas. Uma sugestão que parece produtiva é, portanto, a abordagem das classes de palavras, como adjetivo e advérbio, e da formação dos vocábulos por meio dos sufixos superlativos, com a finalidade de mostrar a força apelativa do classificado. Isso permite que o aluno conheça os temas pertinentes à área da Morfologia, mas, sobretudo, aponta a importância desse nível gramatical como forma de marcar a argumentação numa realização textual concreta e real.

Leitura do classificado

O classificado impresso funciona categorizadamente em tópicos que o próprio jornal denomina de "seções" e "segmentos" e, de acordo com a empresa jornalística, ainda pode apresentar uma hierarquia esquemática dividida por subseções e subsegmentos . A utilização dessas categorias é condição de excelência para o classificado se realizar; caso contrário, não deve ser denominado como tal, mas sim apenas como um anúncio publicitário.

Diante disso, a leitura desse gênero de texto deve passar por dois momentos:

1. um primeiro, no qual se percebe que, antes de iniciar a leitura do texto propriamente dito, acontecerá a leitura do seu suporte (jornal/caderno). Essa primeira etapa de leitura não poderá ser descartada, pois, com ela, o leitor entende a ordenação/categorização do qual faz parte o classificado;

2. um segundo momento acontece quando o leitor adentra ao próprio gênero e interpreta as abreviaturas a nele presentes.

O professor de Língua Port uguesa, ao utilizar o gênero anúncio clasificado em sala de aula, pode desenvolv er at ividades diferentes de acor do com o nível de ensino:

Ensina-se port. através do gênero class. de jornal. Várias séries. Prof. Especializados.

1. o estudo de palavras adjetivas, apontando a função dessa categoria como forma de persuadir o leitor;
2. a classificação e a verificação do significado das palavras abreviadas:
2.1. verificando quais as formas de abreviatura usadas;
2.2. observando se as abreviaturas seguiram alguma convenção;
2.3. refletindo por que as palavras foram publicadas de modo abreviado;
2.4. discutindo em que outro contexto nós também usamos abreviatura (nesse caso, pode-se falar de um gênero bastante conhecido e usado entre os adolescentes - o chat - e traçar um paralelo entre ele, o classificado e as abreviaturas que os formam).

Essas abordagens são sugeridas tanto para o Ensino Fundamental como para o Médio, distinguindo-se apenas pelo grau de aprofundamento conferido a cada ciclo de aprendizagem. Isso permitirá que o classificado seja bem explorado de acordo com o nível cognitivo do aluno.


O classificado e seus suportes

Podemos encontrar os anúncios classificados, em sua forma de publicação mais prosaica, nos jornais de grande circulação. No entanto, também é possível achá-los por meio da internet em duas formas distintas: nas versões online dos jornais impressos e em sites específicos de classificados.

Dentro da primeira categoria de veiculação na internet, é possível encontrar os anúncios através de um sistema de busca, no qual selecionamos os tipos de produtos procurados; nesse caso, o classificado é transposto do jornal impresso para o suporte virtual, mantendo as mesmas características e formatações. A segunda categoria é composta por sites especializados em publicação de anúncios, que possuem uma divisão em seções e subseções, muito similar a dos jornais impressos. Há ainda sites/provedores com links que conduzem a classificados organizados pelos próprios sites.

É válido salientar que, para o trabalho de sala de aula, há mais praticidade na versão impressa desse gênero. No entanto, não deixemos de lado a internet, pois podemos utilizá-la numa situação em que a infraestrutura escolar permita o acesso a esse outro suporte.

A força argumentativa nos classificados se dá, muitas vezes, por meio de marcas morfológicas. Uma sugestão que parece produtiva é a abordagem das classes de palavras e da formação dos vocábulos por meio dos sufixos superlativos.

Fim de papo

Se as sociedades e culturas são inúmeras e se suas atividades (também inúmeras) são mediadas pela linguagem, os modos de utilização dessa linguagem são tão variados quanto variadas forem as atividades humanas. Diante de tal fato, coloca-se o problema de como as práticas docentes lidarão com essa noção de sociedade e cultura e de que forma prepararão os alunos para atuarem nessa rede de vivência linguística.

O gênero "classificado de jornal" pode ser um dos materiais de que nós, professores, dispomos em nosso cotidiano para oportunizarmos meios de acesso a essas inúmeras culturas enredadas por práticas sociais e linguísticas específicas, como as atividades de vender, trocar ou procurar.

Revista Língua Portuguesa