sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Augusto Boal, o caro amigo


Augusto Boal, o caro amigo

Por: Thiago Domenici

Publicado em 05/05/2009

Augusto Boal dizia que “só os oprimidos iriam libertar os oprimidos”. E criava com seu trabalho condições práticas para que o público se apropriasse dos meios de produzir teatro, ampliando suas possibilidades de expressão e de transformação social. “O mais difícil é mostrar o que todo mundo já olhou, mas não viu”, disse sobre a sua criação, o Teatro do Oprimido, estética que se tornou referência em mais de 70 países. No Teatro de Arena, em São Paulo, dirigiu Opinião, com Zé Ketti, João do Vale e Nara Leão, uma das primeiras manifestações de resistência ao golpe de 1964. No final daquela década foi preso e torturado. No exílio, em Lisboa, Chico Buarque dedicou-lhe uma carta em forma de música, o choro Meu Caro Amigo, gravado em 1976.

A convite de Darcy Ribeiro, em 1986, Boal dirigiu a Fábrica de Teatro Popular, no Rio de Janeiro, e criou o Centro de Teatro do Oprimido (CTO-Rio). “As sociedades se movem pelo confronto de forças, não pelo bom senso e justiça. Temos de avançar e, a cada avanço, avançar mais, na tentativa de humanizar a Humanidade. Não existe porto seguro neste mundo, porque todos os portos estão em alto-mar e o nosso navio tem leme, não tem âncoras. Navegar é preciso, e viver ainda mais preciso é, porque navegar é viver, viver é navegar!”, disse o dramaturgo, no Fórum Social Mundial de Belém, semanas antes de ser eleito embaixador da Unesco para o Teatro. Em 2008 foi indicado ao Nobel da Paz. Vítima de leucemia, Augusto Boal morreu no último dia 2 de maio, aos 78 anos, de insuficiência respiratória.

Revista Brasil

Aprender a perder


Aprender a perder
Como dizia o poeta, ela chega para todo mundo, só que ninguém gosta de ir na frente. E encarar com naturalidade a morte, nossa única certeza, pode ser uma forma de aproveitar melhor a vida

Por: Evelyn Pedrozo

Publicado em 01/05/2009

Eliane leva flores duas vezes por semana ao canteiro onde a família depositou as cinzas do pai (Foto: Mauricio Morais)
O filósofo Martin Heidgger dizia que, para a pessoa se apropriar plenamente de sua existência, é necessário antes se apropriar de sua morte, porque essa é uma possibilidade presente em nossa vida o tempo todo. É a tal história: para morrer basta estar vivo. É tamanho o medo de enfrentar a morte, e a forma como ela chegará, que as pessoas passam pela vida sem se preparar para seu dia final. Raramente expressam desejos sobre funeral, cremação, doação de órgãos, ou mesmo medidas práticas, como testamentos, indicação de contas bancárias e seguros, providências que abrandam as dificuldades para quem fica e já tem de lidar com os piores dos problemas: o luto, a perda, a saudade.

Para o escritor e teólogo Rubem Alves, de 75 anos, aquele que não escuta o que a morte tem a dizer diariamente está condenado a ser um tolo a vida inteira. “Penso muito na morte, mas isso não me paralisa porque quando se consegue chamar o fantasma pelo nome ele perde o poder.”

A tanatologia, ciência que estuda a morte, prepara profissionais da saúde para ajudar o doente a ter um final tranquilo e também apoia os parentes nos processos de luto. A proposta é que as pessoas consigam enfrentar todo tipo de perda, seja um membro, um órgão, a saúde, o emprego, uma separação. “É preciso desapegar, aprender a perder”, diz a psicóloga Júnia de Paula Drumond, diretora da Associação Brasileira de Tanatologia.

Essa prática é adotada no Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM), no Instituto de Psicologia da USP-SP, que dá formação e subsídio para profissionais de saúde e de educação, que têm igualmente de se defrontar com o tema. No LEM também é realizado atendimento ao público envolvido com as questões da morte.

Com esse amparo humanizado o professor Janes Jorge e sua família superaram um obstáculo. “Meu tio faleceu no Instituto do Coração de São Paulo. Comunicar para minha tia, com sérios problemas de coração, era uma situação difícil, mas foi amenizada pelo apoio dos psicólogos do Instituto. Espero que, em breve, todos os hospitais públicos de São Paulo e do Brasil possam contar com esse serviço essencial”, diz Janes. Em algumas unidades de terapia intensiva profissionais já trabalham com esse foco. Médicos como Vasco Moscovici, do Hospital do Câncer de São Paulo, são referência para os pacientes e seus familiares por estar presentes na UTI toda a semana, em horários fixos. Também foi positiva a ampliação do horário de visita. “Humanizar a UTI facilita o processo de luto antecipado da família”, defende Moscovici.

Apesar de aceitar a morte como um processo natural, o médico se angustia quando não consegue ajudar um paciente terminal. E não é raro deparar com famílias que não aceitam acabar com o prolongamento artificial da vida (distanásia) por conta de processos particulares de culpa e apego. “Nesse sentido, há poucos conflitos e, quando surgem, a família é respeitada e são mantidas as medidas de prolongamento”, afirma Moscovici.

Desapego e humanização
E como se pode educar um indivíduo com uma visão mais realista sobre a morte? “Se a criança tem dúvida sobre a doença ou morte de alguém é preciso introduzi-la no problema, chorar junto, conversar, discutir a questão do apego a coisas, pessoas, cargos, títulos.” Para Maria Julia Kovács, coordenadora do LEM, a grande arte é escolher as palavras para explicar o fato e sua irreversibilidade. A dona de casa Zulmira da Silva Fernandes, de 58 anos, fala da morte com naturalidade. Perdeu, no mesmo ano, uma filha de 24 anos, assassinada, e um de 21, em acidente de moto. “Eu pedia a Deus para tirar minha filha do mar de lama em que vivia, e ele resolveu do jeito dele”, conta, conformada. Quanto ao filho, diz ter consciência de que Deus apenas empresta os filhos. “Eu sempre digo: valeu, meu Deus, pelos 21 anos que vivi com ele.” Mesmo sendo evangélica, Zulmira acredita na vida após a morte e que ainda vai reencontrar o filho. Mas, depois de passar por essas situações, teme pela morte do caçula. “Agora não sei como eu reagiria.”

A proposta de humanização no atendimento aos enlutados também já chegou ao Serviço Funerário de São Paulo. O superintendente da autarquia, Celso Jorge Caldeira, observa que é muito triste ver uma família que não pode dar um funeral digno ao morto. “Além da gratuidade para os que não podem pagar, criamos a possibilidade de os custos serem financiados e pagos com cartão de crédito”, explica.

“Nos cemitérios, é preciso haver boa estrutura física, acomodações dignas, banheiro limpo, água, tudo para as pessoas só terem de lidar com a dor”, afirma a psicóloga Ana Lúcia Naletto, do Centro Maiêutica de Psicologia Aplicada. Segundo ela, há poucos cemitérios no Brasil com essa postura porque muitos ainda são encarados como fonte de renda. No Centro Maiêutica, os trabalhadores recebem amparo psicológico tanto para se preparar para o atendimento quanto para superar as dificuldades de um trabalho tão árduo.

A psicanalista Miriam Chnaiderman retratou o cotidiano das pessoas que trabalham em contato com os mortos em seu documentário Artesãos da Morte. De acordo com Miriam, o filme, de 18 minutos, faz parte do movimento que humanizou o atendimento nos cemitérios e traz depoimentos chocantes e preconceituosos contra os trabalhadores.
No Cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, na zona leste paulistana, o sepultador Adenilson Souza Costa, de 36 anos, garante que tem preparo psicológico. “Nos primeiros dias era triste demais. Hoje, quando jogo a última pá de terra sobre o caixão, sinto que a família fica aliviada.” Em 14 anos de trabalho, ele chorou quatro vezes por ter se rendido ao sofrimento dos familiares e à brutalidade das mortes.

Optar pela cremação do corpo de um parente é uma decisão dura quando a pessoa não expressa essa vontade. Daí a importância de enfrentar o assunto ao longo da vida.

“Cremar um corpo não encerra o vínculo com o ente querido e é um procedimento cada vez mais comum”, diz a psicóloga Ana Lúcia. A dona de casa Eliane Coronado Piccoli conta que sua família decidiu repentinamente cremar o corpo do pai, Manoel Coronado. “Já se vão três anos e eu venho duas vezes por semana colocar flores nesse canteiro onde depositei as cinzas dele.”

Renascimento
Quando a pessoa se recupera de uma doença grave, ela reelabora a relação com a vida. Ao descobrir um câncer de mama, a jornalista Luciene Scomparim Dressano, de 39 anos, não teve vontade de lutar: “Eu só queria morrer. Mas minha natureza falou mais alto e deu minha sentença de vida. Recolher os cacos, organizar as ideias e simplesmente aceitar foi a tarefa mais intensa de minha existência.” Luciene escreveu o livro Histórias de cada um... No Meio do Rio e hoje desenvolve o projeto Livro nos Hospitais, com a proposta de alertar para o diagnóstico precoce na luta contra o câncer. “Quando a pessoa esbarra com a morte, passa a querer fazer mais e melhor, vivendo o presente. É a ideia do carpe diem (aproveite o dia)”, explica a psicóloga Júnia Drumond.

Foi o que aconteceu com a funcionária pública Zoraide de Araújo Matos, de 65 anos. Há três anos ela sofreu um aneurisma cerebral e ficou em coma durante 19 dias. Nesse tempo, teve vários sonhos que pareciam reais e sentiu a presença da mãe, já falecida, lhe confortando. Zoraide acredita que sua fé espírita tenha criado forças para atravessar esse período difícil. “Agora aproveito mais a vida. Dou mais valor a tudo. Eu me amo muito e preciso fazer jus à nova oportunidade que Deus me deu.”

As crenças religiosas também carregam doses diferentes de conforto ou de interpretações relacionadas à morte e até mesmo ao que ocorre depois dela. No cristianismo, a morte é, antes, uma forma de sugerir um padrão de condutas durante a vida, já que envolve o temor em relação ao inferno ou a busca do céu, lugares para os quais as almas vão de acordo com seu comportamento em vida. Para os católicos existe ainda o purgatório, estágio intermediário onde se daria uma espécie de julgamento. O budismo diz que todos os seres estão em um ciclo contínuo de vida, morte e renascimento, por um número ilimitado de vidas, até que finalmente alcancem a iluminação.

Os hinduístas acreditam na reencarnação dependendo do karma nas vidas passadas. Para o hinduísmo, o universo é feito de água, ar, terra, fogo e éter, assim como o corpo humano. Ao se queimar o corpo após a morte, tudo volta para seu lugar. Para o espiritismo, além do mundo corporal, habitação dos espíritos encarnados, existe o mundo espiritual, morada dos desencarnados. Os espíritos reencarnam tantas vezes quantas forem necessárias ao próprio aprimoramento.

No pensamento judaico, vida e morte formam um todo, sendo aspectos diferentes da mesma realidade, complementares uma da outra. Segundo o islamismo, há uma vida após a morte, uma vida ideal no paraíso para muçulmanos fiéis ou no inferno para os que não o são.

Arte e morte
A diretora Cibele Forjaz, da Companhia Livre de Teatro, trabalha com o tema morte desde 2006. Agora em maio estreia o espetáculo Raptada pelo Raio – Um Mito de um Povo. “Escolhemos esse tema pela falta de compreensão sobre o fato. Se não aceita a morte, a pessoa perde a qualidade de vida. Hoje as pessoas substituem tudo pelo consumo, seja a morte, a tristeza, o que for”, explica. Cibele lembra as tragédias gregas, em que a morte era o limite fundamental: “O herói trágico é forte e contraditório porque é mortal. A vida é pensada a partir do limite da morte”. E menciona o pensamento do cineasta russo Andrei Tarkovsky. “Ele dizia que a função específica da arte não é expor ideias ou servir de exemplo. Seu objetivo é preparar a pessoa para a morte, arar e cultivar sua alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem”, observa a diretora, também professora da Escola de Comunicação e Artes da USP.

O tema sempre foi igualmente explorado pela música e pela poesia brasileira. Em Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão – Uma Biografia, José Castello registra que o que o torna um grande poeta é a percepção do lado obscuro do homem, a coragem de enfrentá-lo. Vinicius deixou A Morte em sua discografia: “A morte vem de longe/ do fundo dos céus/ vem para os meus olhos/ virá para os teus.../ chega impressentida/ nunca inesperada/ ela que é na vida/ a grande esperada/ a desesperada/ do amor fratricida/ dos homens/ ai! dos homens/ que inalam a morte/ por medo da vida”.

Direito de partir

Tal qual a discussão da distanásia é a polêmica sobre a eutanásia, quando se lança mão de recursos para provocar a morte. Em países como Holanda e Bélgica, ela é permitida. No Brasil, é considerada homicídio. O caso mais recente com repercussão internacional foi o de Eluana Englaro, morta aos 38 anos em fevereiro passado, na Itália, após 17 anos em estado vegetativo persistente. O pai, Beppino Englaro, enfrentou uma batalha judicial de uma década para que as sondas que a alimentavam e hidratavam fossem retiradas – segundo prognóstico médico, esse estado de saúde era irreversível. Por fim, uma decisão judicial garantiu que ela deixasse de ser mantida viva artificialmente. Foi realizada a ortotanásia, um tipo de eutanásia passiva, com a suspensão de medicamentos e alimentação.

Isso fomentou na sociedade italiana a discussão sobre a eutanásia. O caso ganhou destaque porque, em estado vegetativo, ela não podia dizer se gostaria ou não de permanecer viva por meio de sondas. “Se a pessoa está em fase terminal, não vale mantê-la ligada a esse mundo só para fazer crer que ela está viva. Em algum momento é preciso dizer que é chegada a hora de partir”, finaliza a psicóloga e tanatóloga Júnia de Paula Drumond.

Revista Brasil

Difícil recomeço


Difícil recomeço
A vida na prisão, e depois dela, impõe práticas de resistência e muita gente luta para não retroceder. Proporcionar oportunidades para o exercício digno da liberdade ainda é uma de nossas grandes dívidas sociais

Por: Giedre Moura

Publicado em 01/05/2009

São Paulo está diferente aos olhos de Pedro (nome fictício). O número de carros aumentou, os sentidos das ruas mudaram e pontos de referência como outdoors e letreiros gigantescos deixaram de existir. Pedro sempre morou na capital paulista, mas deixou de se relacionar com a cidade por 11 anos, 3 meses e 10 dias, isolado pelas celas de um presídio. Preso por assalto aos 21 anos de idade, Pedro, agora com 32, descreveu para a reportagem da Revista do Brasil a sensação de encarar a nova cidade velha 24 horas depois de deixar a carceragem. “Enfim, a liberdade, estou na rua tem um dia. É isso o que a gente mais quer quando está lá dentro, mas quando sai não sabe por onde começar.”

Ansiedade e felicidade. Medo e esperança. Esse turbilhão de emoções é típico de quem cumpriu sua pena, busca a reinserção na sociedade, não deve mais nada à Justiça e não deseja voltar a dever. O retorno não é nada fácil. Os ex-detentos, a maioria com baixa escolaridade e sem formação profissional, vivem ainda sob o forte estigma de crimes cometidos no passado e costumam amargar os últimos lugares na hora da disputa por um emprego.

Para tentar reverter essa situação, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) lançaram recentemente o programa Começar de Novo, com o objetivo de sensibilizar a população para a necessidade de reinserir, no mercado de trabalho e na sociedade, presos que já cumpriram suas penas. “Todo mundo tem falado muito de responsabilidade social, empresas divulgam projetos, mas são raros os programas para ajudar o ex-detento. Com a ressocialização dessas pessoas poderíamos reduzir a reincidência e a criminalidade”, afirma Antônio Humberto, conselheiro do CNJ.

A campanha engloba parcerias com entidades como Sesi, Senai e Fiesp para proporcionar treinamento e capacitação dos presos para o trabalho. Pretende também criar um sistema de bolsa de vagas para centralizar a oferta de empregos. O próprio STF destinará vagas para 40 pessoas sentenciadas, egressas de prisões em 2009, que receberão salários na casa dos R$ 600, e o CNJ espera que outros órgãos públicos façam o mesmo. Também foi fechado um acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e com a Fifa para contratação de ex-detentos em obras da Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. “A assistência à pessoa que está deixando o sistema penal é fundamental. Temos iniciativas e programas em todo o país, mas ainda são projetos isolados, é muito pouco”, afirma Ana Cristina de Alencar, do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça.

Aleluia, Dexter

Depois de 10 anos atrás das grades, Marcos Fernandes de Omena teve em abril algo mais que um feriado em família. Beneficiado pelo regime semiaberto, Fernandes, conhecido como rapper Dexter, aproveitou o indulto de Páscoa para fazer um show para 4 mil pessoas na quadra da escola de samba Unidos do Peruche, em São Paulo. Condenado a 35 anos de reclusão por assalto a mão armada, Dexter encontrou no rap uma forma diferente de vivenciar sua pena.

No início da detenção, ainda no Carandiru, conseguiu autorização para apresentações ao lado do rapper Afro-X, com quem formou o grupo 509E. Há oito anos não pisava em um palco, mas seguiu compondo o suficiente para abastecer o show. E para um disco, que gravou com participação de famosos, como Mano Brown. No palco, em 11 de abril, teve companhias como Brown e Racionais MC´s, Thaíde, Gog e Paula Lima. Dexter começou a cantar às 19h e parou às 21h30, para cumprir a determinação de não estar na rua depois das 22h.

Abandono
Pedro viu sua família se desintegrar ao longo da década em que cumpriu pena. Estima-se que metade dos presos do país viva a mesma situação, sem visitas, amparo nem ajuda de conhecidos na hora de deixar o mundo das grades de ferro. Os pais de Pedro morreram, a mulher não aguentou a pressão e os irmãos seguiram outros caminhos. Sem nenhum centavo no bolso, ele perdeu as contas de quantos quilômetros andou em busca de auxílio. Foram muitas horas para localizar a casa de um amigo, onde passou a primeira noite de liberdade. Depois caminhou muito mais para chegar à sede da Central de Atendimento ao Egresso e Família (Caef), na capital paulista, uma das 17 espalhadas por diversas cidades do estado.

De imediato, imerso na solidão, Pedro precisa de um lugar para morar e cabe à equipe técnica achar-lhe vaga em um albergue. A equipe da Central afirma que vai orientá-lo a respeito de como resolver pendências, tirar documentos, fazer cursos de capacitação e, o mais difícil, tentar inseri-lo no mercado. “Essa é a parte mais complexa do nosso trabalho. O número de empresas dispostas a ajudar o ex-detento ainda é muito pequeno. Fazemos reuniões, explicamos a necessidade, mas contratar um ex-preso é ainda algo complexo para as pessoas”, conta Ana Cláudia Oliveira Rolim, diretora da Caef.

Os egressos não são obrigados a procurar as centrais quando deixam o presídio. Eles geralmente ficam sabendo da existência do serviço por meio da divulgação de cartilhas, como um livro de dicas organizado pelo ex-detento Luiz Alberto Mendes, de 56 anos, que passou quase 32 anos detido e está há cinco em liberdade. “Quando saí da cadeia fiquei totalmente perdido, tive que recomeçar tudo e pensei naqueles que estavam lá dentro. A vida dentro dos presídios é um caos, a maioria sai de lá doente, sem dente, porque a regra não é cuidar, é arrancar. Para quem está nas cidades do interior, o Estado dá uma passagem e um pé na bunda”, relata Mendes. “O que fizemos foi sair em busca de albergues, restaurantes baratos, hospitais e até brechós para ajudar o cara a achar uma roupa barata. Ele precisa ter pelo menos uma referência para recomeçar. A maioria não tem assistência. Não é à toa que quase todo mundo volta para o crime. E também para a cadeia.”


A grife Daspre

Depois de a grife Daslu inspirar o surgimento da Daspu, foi a vez de esta marca, criada por garotas de programa do Rio, inspirar outra, associada a outra ação afirmativa: a Daspre, desenvolvida por detentas da cidade de São Paulo. As presas encontram na costura e na criação de peças de acabamento fino um meio de aumentar a autoestima, reduzir a pena, conseguir algum dinheiro e desenvolver um ofício para quando a liberdade chegar. Atualmente, 65 mulheres trabalham no projeto, que já contou com a participação de mais de 200. Viviane Cristina Silva, de 29 anos, ganhará liberdade este ano. Presa depois de participar de um assalto ao lado de um namorado, aos 18 anos, ela sempre trabalhou dentro do presídio, mas acha ali diferente. “A gente aprende uma coisa nova todos os dias, renova a esperança. O mundo mudou muito desde que fui presa, tenho medo de sair, mas me sinto mais preparada.”

Fabíola Andrade, de 26 anos, presa por furto e condenada a dois anos, também aguarda a liberdade para breve. “Venho para cá todos os dias e o salário mínimo que ganho mando para o meu filho.” Os produtos Daspre estão à venda na Fundação de Amparo ao Preso (Rua Dr. Vila Nova, 268, Vila Buarque).

Fé e paciência
Em paralelo aos poucos programas públicos, existem alguns raros programas da sociedade civil voltados aos egressos. A Fundação de Apoio ao Egresso do Sistema Prisional (Faesp) atende ex-detentos em Porto Alegre, mantida com a ajuda de voluntários e doações. A Faesp já recebeu mais de 900 egressos. Criou uma pequena cooperativa que atua na montagem de peças para indústrias, celebrou contratos isolados de trabalho e hoje cinco ex-presidiários prestam serviços para uma empresa metalúrgica da cidade de Gravataí, no interior do estado. “Além dos trabalhadores da cooperativa, temos outros ex-detentos que conseguiram estudar e retomar a vida. Mas sentimos dificuldade com a questão do trabalho. Fazemos reuniões, procuramos empresas, mas o retorno é baixo”, conta Tânia de Souza, presidente da entidade.

“Fizemos uma pesquisa e descobrimos que 86,7% das pessoas atendidas não voltaram para o crime”, orgulha-se. O número é positivo, embora deva ser analisado com cuidado, uma vez que os que procuram a entidade têm perfil semelhante ao de Pedro: saem da cadeia desejando uma vida normal.

Pedro figura ainda em outra lista de minorias: trabalhou a maior parte do tempo em que esteve detido. Apenas 18% dos cerca de 440 mil detentos do país conseguem alguma ocupação, remunerada ou não, quando estão detidos. Além da remissão de pena (cada três dias trabalhados representa um a menos de detenção), o trabalho ajuda a manter a sanidade, a atualização profissional e contribui para a recuperação. Pedro diz que evitou ao máximo ficar parado, fez todos os tipos de curso que apareceram e estava sempre em busca de trabalho. Foi a chave para não enlouquecer, seguir adiante e não aderir ao apelo das facções criminosas. “Você tem que estar muito seguro. A tentação, as promessas, as facilidades são grandes. Mas eu tinha certeza que não queria mais”, lembra.

Luiz Mendes também se viu transformado. Estudou, virou professor, escreveu livros – como Memórias de um Detento, Tesão e Prazer – Memórias Eróticas de um Prisioneiro e Às Cegas, concorrente ao prêmio Jabuti. Atualmente, tem uma intensa agenda de trabalho voltada aos egressos e detentos, mas o apoio que consegue de órgãos externos para as suas atividades é pequeno. “Só tive apoio de uma ONG até hoje; o financiamento para oficinas de literatura que dou chega da Alemanha, no Brasil ninguém quer saber. A sociedade brasileira joga essa bomba para cima, não está nem aí, e espera que a bomba vire uma pomba branca da paz”, critica. Entre os bons resultados que já conseguiu, Mendes relata a criação de uma cooperativa de egressos, de mais de 150 ex-detentos, na cidade de Sorocaba (SP), que presta serviços para a prefeitura.
Na falta de perspectivas concretas, Oscar Moreira, de Curitiba, amparou-se na religião.

Ele passou três anos atrás das grades, está há dois em liberdade, e conta que se apoiou na fé para enfrentar as dificuldades que viveu, principalmente nas ruas, quando foi solto. “A tentação para voltar ao crime é grande.” Oscar criou um grupo de ajuda para outros egressos, Amigos Nova Jerusalém Organização Social (Anjos). “Eu nem sabia o que era ONG, e agora temos esse grupo. Conseguimos um barracão e lá vivem 62 pessoas que não têm onde morar e a família não quer mais saber porque o cara era bandido. Vamos vivendo, tentando arrumar trabalho, plantando, mas não é fácil. Tem gente que não se aguenta e volta mesmo.”

Na frente das grades

A campanha Começar de Novo pretende atacar outro grande problema do sistema penal brasileiro: tirar de dentro dos presídios pessoas que já poderiam estar nas ruas. O Conselho Nacional de Justiça faz mutirões com a presença de juízes, do Ministério Público, da Defensoria Pública e servidores de tribunais. Realizados em presídios do Rio de Janeiro, Piauí, Pará e Maranhão, os mutirões já liberaram quase mil presos.

Outro projeto que ajuda a reduzir a superlotação das prisões é o Programa de Penas e Medidas Alternativas, pelo qual serviços prestados à comunidade contam para o cumprimento da pena. A medida é destinada a infratores de baixo potencial ofensivo, o que os afasta do caótico ambiente prisional e os aproxima do convívio social.

Atualmente, 11 mil pessoas cumprem penas alternativas no estado de São Paulo e o índice de reincidência é de 4,7%, contra 60% no sistema fechado.

Revista Brasil

domingo, 20 de setembro de 2009

O garimpador de histórias de vida

Ao estudar a formação docente, este português virou grande nome do debate pedagógico atual

Foto: Paulo Rascao

O português António Nóvoa, historiador da Educação e reitor da Universidade de Lisboa, é um dos intelectuais de maior circulação internacional no debate pedagógico atual. Como o suíço Philippe Perrenoud e o espanhol César Coll, ele pertence a uma geração que concentra atenções em aspectos intra-escolares, como currículos e competências, formação inicial e continuada e processos de aprendizagem. A capacitação de professores é o tema que ele privilegiou.

"Nóvoa reúne três características: o rigor teórico e conceitual da investigação historiográfica, o tato e a sensibilidade pedagógicos e um raro talento de liderança", diz Carlota Boto, professora de Filosofia da Educação da Universidade de São Paulo. Prova de que adota para si o engajamento que apregoa é ele ter assumido como reitor, em Lisboa, justamente na época de discussão do Tratado de Bolonha, que propõe a unificação do Ensino Superior na União Européia.

Para ele, a teoria e a ação educativas são duas vertentes indissociáveis. Na exploração de seus temas de estudo, Nóvoa faz uso de instrumentos teóricos heterogêneos à procura de conclusões que não estejam evidentes na superfície dos fatos (leia o quadro na página 30). Ele trabalha com o método historiográfico e adota uma perspectiva comparada, o que se reflete nos livros que organiza - em geral, compostos de capítulos escritos por diferentes autores, muitas vezes de vários países, em torno de um assunto comum.

Provavelmente os dois trabalhos mais conhecidos sejam Profissão Professor e Vidas de Professores, ambos publicados na década de 1990. "O estudo das histórias de vida aparece como ferramenta para identificar como se constroem, no interior da ação educativa, os saberes do cotidiano escolar", diz Carlota Boto. Em Vidas de Professores, há uma série de textos sobre a história do ofício e muitos questionamentos sobre o desenvolvimento da carreira. Como ensinam de fato os professores? A que valores eles aderem? Quais são os conteúdos pedagógicos que privilegiam? Por que determinado profissional é engajado e outro não?

Essa investigação levou Nóvoa ao tema da formação, vista não como uma acumulação de competências e intuições, mas como uma evolução biográfica - ou seja, a vida do profissional é, antes de qualquer coisa, a vida da pessoa que trabalha como professor. "Todo conhecimento é autoconhecimento e toda formação é autoformação", diz ele. Por isso, a prática pedagógica inclui o indivíduo, suas singularidades e seus afetos.

O foco na formação é antecedido, na trajetória intelectual de Nóvoa e também em seu método de análise, por uma reflexão a respeito dos elementos que constituem a identidade profissional. "A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto", escreveu. "Ela é um lugar de lutas e conflitos, um espaço de construção de maneiras de ser e estar na profissão."

O educador português acredita que o melhor lugar para os professores construírem suas histórias é o próprio local de trabalho. "É no espaço concreto de cada escola, em torno de problemas reais, que se desenvolve a verdadeira formação", disse ele em entrevista a NOVA ESCOLA em 2001. "Universidades e especialistas externos são importantes no plano teórico e metodológico. Mas todo esse conhecimento só terá eficácia se o professor conseguir inseri-lo em sua dinâmica pessoal e articulá-lo com seu processo de desenvolvimento profissional."

O caminho de Nóvoa

A questão do método e dos enfoques teóricos

Um dos motivos que levaram António Nóvoa e seus contemporâneos a tentar novos enfoques teóricos foi o questionamento geral de métodos e valores científicos que marcaram a reflexão acadêmica no início dos anos 1960. Autores como Michel Foucault fizeram uma crítica profunda dos métodos hegemônicos de análise, começando pelas noções de sujeito e objeto e culminando com a necessidade de rever as generalizações. Trata-se de "passar da análise dos fatos à análise dos sentidos dos fatos", segundo Nóvoa. Ele viu na abordagem biográfica um caminho promissor para superar impasses. O estudo de trajetórias individuais vira um modo de recuperar aspectos que se perdem na generalidade. Porém Nóvoa é o primeiro a alertar para a importância do ceticismo e do método na investigação biográfica, sob pena de embarcar numa atividade simplória e anticientífica.

Não às modas pedagógicas

Essa construção da identidade, assim, é o único antídoto à tentação das modas pedagógicas - fenômeno que está entre suas principais preocupações. Sem a devida reflexão crítica, diz Nóvoa, o "efeito moda não passa de uma opção preguiçosa, pois é a reflexão sobre a experiência que é formadora, não a experiência por si só". E, para que a reflexão dê frutos, é indispensável que seja sistemática, continuada e, sobretudo, coletiva. "A articulação entre teoria e prática só funciona se não houver divisão de tarefas e todos se sentirem responsáveis por facilitar essa relação entre os dois campos."

Como uma figura pública diretamente comprometida com os grandes debates educacionais, ele recomenda aos professores uma atuação que não se prenda apenas aos interesses corporativos, mas contemple as questões diretamente ligadas ao ensino e à aprendizagem. "É preciso participar de movimentos pedagógicos que reúnam profissionais de origens diversas em torno de um mesmo programa de renovação do ensino", afirma.

Reflexão e renovação são palavras caras a Nóvoa num momento em que, ele acredita, a Educação em todo o mundo vive várias crises simultâneas. Não só a tecnologia impõe uma série de questões sobre o papel e o currículo das escolas, mas também a multiplicidade étnica e cultural dos estudantes não encontra atendimento satisfatório nos formatos tradicionais de ensino. Com a crise do Estado iniciada nas últimas décadas, também a "lógica pública" do sistema educacional responde mal às demandas sociais. "Foi uma das grandes mentiras do século 20 dizer às classes populares que, se fizessem um grande esforço para obter um diploma escolar, teriam uma vida melhor. Hoje há uma necessidade de ressignificar o sentido da escola", defende.

Biografia

Doutor, ele é autor de mais de 100 textos
António Manuel Seixas de Sampaio da Nóvoa nasceu em 1954 em Lisboa. Cursou o ensino básico em escolas públicas de Portugal e, em 1972, entrou na Universidade de Lisboa para estudar Ciências da Educação. Lecionou na Universidade de Genebra (Suíça) entre 1978 e 1986, enquanto fazia mestrado e doutorado sobre o processo de profissionalização docente em seu país natal. Tornou-se em seguida catedrático da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Em 1993 e 1994, atuou como convidado em universidades norte-americanas. Foi presidente da Associação Internacional de História da Educação entre 2000 e 2003. Em 2006, elegeu-se reitor da Universidade de Lisboa. É autor de mais de 100 trabalhos científicos na área pedagógica e tem se destacado como organizador de grandes debates internacionais sobre o ensino. Nóvoa é casado e tem um filho.
Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

Evidentemente: Histórias de Educação, António Nóvoa, 122 págs., Edições Asa (Alfragide, Portugal), tel. (35121) 427-2200.

Profissão Professor, António Nóvoa, 192 págs., Porto Editora (Porto, Portugal), tel. (35122) 608-8300.

Vidas de Professores, António Nóvoa, 216 págs., Porto Editora.

Revista Nova Escola

Paulo Freire - O mentor da educação para a consciência

O mais célebre educador brasileiro, autor da pedagogia do oprimido, defendia como objetivo da escola ensinar o aluno a "ler o mundo" para poder transformá-lo

Foto: Mauricio Nahas


Paulo Freire (1921-1997) foi o mais célebre educador brasileiro, com atuação e reconhecimento internacionais. Conhecido principalmente pelo método de alfabetização de adultos que leva seu nome, ele desenvolveu um pensamento pedagógico assumidamente político. Para Freire, o objetivo maior da educação é conscientizar o aluno. Isso significa, em relação às parcelas desfavorecidas da sociedade, levá-las a entender sua situação de oprimidas e agir em favor da própria libertação. O principal livro de Freire se intitula justamente Pedagogia do Oprimido e os conceitos nele contidos baseiam boa parte do conjunto de sua obra.

Ao propor uma prática de sala de aula que pudesse desenvolver a criticidade dos alunos, Freire condenava o ensino oferecido pela ampla maioria das escolas (isto é, as "escolas burguesas"), que ele qualificou de educação bancária. Nela, segundo Freire, o professor age como quem deposita conhecimento num aluno apenas receptivo, dócil. Em outras palavras, o saber é visto como uma doação dos que se julgam seus detentores. Trata-se, para Freire, de uma escola alienante, mas não menos ideologizada do que a que ele propunha para despertar a consciência dos oprimidos. "Sua tônica fundamentalmente reside em matar nos educandos a curiosidade, o espírito investigador, a criatividade", escreveu o educador. Ele dizia que, enquanto a escola conservadora procura acomodar os alunos ao mundo existente, a educação que defendia tinha a intenção de inquietá-los.

Biografia

Paulo Freire nasceu em 1921 em Recife, numa família de classe média. Com o agravamento da crise econômica mundial iniciada em 1929 e a morte de seu pai, quando tinha 13 anos, Freire passou a enfrentar dificuldades econômicas. Formou-se em direito, mas não seguiu carreira, encaminhando a vida profissional para o magistério. Suas idéias pedagógicas se formaram da observação da cultura dos alunos – em particular o uso da linguagem – e do papel elitista da escola. Em 1963, em Angicos (RN), chefiou um programa que alfabetizou 300 pessoas em um mês. No ano seguinte, o golpe militar o surpreendeu em Brasília, onde coordenava o Plano Nacional de Alfabetização do presidente João Goulart. Freire passou 70 dias na prisão antes de se exilar. Em 1968, no Chile, escreveu seu livro mais conhecido, Pedagogia do Oprimido. Também deu aulas nos Estados Unidos e na Suíça e organizou planos de alfabetização em países africanos. Com a anistia, em 1979, voltou ao Brasil, integrando-se à vida universitária. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores e, entre 1989 e 1991, foi secretário municipal de Educação de São Paulo. Freire foi casado duas vezes e teve cinco filhos. Foi nomeado doutor honoris causa de 28 universidades em vários países e teve obras traduzidas em mais de 20 idiomas. Morreu em 1997, de enfarte.

Aprendizado conjunto

Freire criticava a idéia de que ensinar é transmitir saber porque para ele a missão do professor era possibilitar a criação ou a produção de conhecimentos. Mas ele não comungava da concepção de que o aluno precisa apenas de que lhe sejam facilitadas as condições para o auto-aprendizado. Freire previa para o professor um papel diretivo e informativo – portanto, ele não pode renunciar a exercer autoridade. Segundo o pensador pernambucano, o profissional de educação deve levar os alunos a conhecer conteúdos, mas não como verdade absoluta. Freire dizia que ninguém ensina nada a ninguém, mas as pessoas também não aprendem sozinhas. "Os homens se educam entre si mediados pelo mundo", escreveu. Isso implica um princípio fundamental para Freire: o de que o aluno, alfabetizado ou não, chega à escola levando uma cultura que não é melhor nem pior do que a do professor. Em sala de aula, os dois lados aprenderão juntos, um com o outro – e para isso é necessário que as relações sejam afetivas e democráticas, garantindo a todos a possibilidade de se expressar. "Uma das grandes inovações da pedagogia freireana é considerar que o sujeito da criação cultural não é individual, mas coletivo", diz José Eustáquio Romão, diretor do Instituto Paulo Freire, em São Paulo.

Tempos de mobilização e conflito

Aula em Angicos, em 1963: 300 pessoas
alfabetizadas pelo método Paulo Freire em
um mês. Foto: acervo fotográfico dos arquivos


Paulo Freire do Instituto Paulo FreireO ambiente político-cultural em que Paulo Freire elaborou suas idéias e começou a experimentá-las na prática foi o mesmo que formou outros intelectuais de primeira linha, como o economista Celso Furtado e o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997). Todos eles despertaram intelectualmente para o Brasil no período iniciado pela revolução de 1930 e terminado com o golpe militar de 1964. A primeira data marca a retirada de cena da oligarquia cafeeira e a segunda, uma reação de força às contradições criadas por conflitos de interesses entre grandes grupos da sociedade. Durante esse intervalo de três décadas ocorreu uma mobilização inédita dos chamados setores populares, com o apoio engajado da maior parte da intelectualidade brasileira. Especialmente importante nesse processo foi a ação de grupos da Igreja Católica, uma inspiração que já marcara Freire desde casa (por influência da mãe). O Plano Nacional de Alfabetização do governo João Goulart, assumido pelo educador, se inseria no projeto populista do presidente e encontrava no Nordeste – onde metade da população de 30 milhões era analfabeta – um cenário de organização social crescente, exemplificado pela atuação das Ligas Camponesas em favor da reforma agrária. No exílio e, depois, de volta ao Brasil, Freire faria uma reflexão crítica sobre o período, tentando incorporá-la a sua teoria pedagógica.

A valorização da cultura do aluno é a chave para o processo de conscientização preconizado por Paulo Freire e está no âmago de seu método de alfabetização, formulado inicialmente para o ensino de adultos. Basicamente, o método propõe a identificação e catalogação das palavras-chave do vocabulário dos alunos – as chamadas palavras geradoras. Elas devem sugerir situações de vida comuns e significativas para os integrantes da comunidade em que se atua, como por exemplo "tijolo" para os operários da construção civil.

Diante dos alunos, o professor mostrará lado a lado a palavra e a representação visual do objeto que ela designa. Os mecanismos de linguagem serão estudados depois do desdobramento em sílabas das palavras geradoras. O conjunto das palavras geradoras deve conter as diferentes possibilidades silábicas e permitir o estudo de todas as situações que possam ocorrer durante a leitura e a escrita. "Isso faz com que a pessoa incorpore as estruturas lingüísticas do idioma materno", diz Romão. Embora a técnica de silabação seja hoje vista como ultrapassada, o uso de palavras geradoras continua sendo adotado com sucesso em programas de alfabetização em diversos países do mundo.

Seres inacabados

O método Paulo Freire não visa apenas tornar mais rápido e acessível o aprendizado, mas pretende habilitar o aluno a "ler o mundo", na expressão famosa do educador. "Trata-se de aprender a ler a realidade (conhecê-la) para em seguida poder reescrever essa realidade (transformá-la)", dizia Freire. A alfabetização é, para o educador, um modo de os desfavorecidos romperem o que chamou de "cultura do silêncio" e transformar a realidade, "como sujeitos da própria história".

Três etapas rumo à conscientização

Embora o trabalho de alfabetização de adultos desenvolvido por Paulo Freire tenha passado para a história como um "método", a palavra não é a mais adequada para definir o trabalho do educador, cuja obra se caracteriza mais por uma reflexão sobre o significado da educação. "Toda a obra de Paulo Freire é uma concepção de educação embutida numa concepção de mundo", diz José Eustáquio Romão. Mesmo assim, distinguem-se na teoria do educador pernambucano três momentos claros de aprendizagem. O primeiro é aquele em que o educador se inteira daquilo que o aluno conhece, não apenas para poder avançar no ensino de conteúdos mas principalmente para trazer a cultura do educando para dentro da sala de aula. O segundo momento é o de exploração das questões relativas aos temas em discussão – o que permite que o aluno construa o caminho do senso comum para uma visão crítica da realidade. Finalmente, volta-se do abstrato para o concreto, na chamada etapa de problematização: o conteúdo em questão apresenta-se "dissecado", o que deve sugerir ações para superar impasses. Para Paulo Freire, esse procedimento serve ao objetivo final do ensino, que é a conscientização do aluno.

No conjunto do pensamento de Paulo Freire encontra-se a idéia de que tudo está em permanente transformação e interação. Por isso, não há futuro a priori, como ele gostava de repetir no fim da vida, como crítica aos intelectuais de esquerda que consideravam a emancipação das classes desfavorecidas como uma inevitabilidade histórica. Esse ponto de vista implica a concepção do ser humano como "histórico e inacabado" e conseqüentemente sempre pronto a aprender. No caso particular dos professores, isso se reflete na necessidade de formação rigorosa e permanente. Freire dizia, numa frase famosa, que "o mundo não é, o mundo está sendo".

Para pensar

Um conceito a que Paulo Freire deu a máxima importância, e que nem sempre é abordado pelos teóricos, é o de coerência. Para ele, não é possível adotar diretrizes pedagógicas de modo conseqüente sem que elas orientem a prática, até em seus aspectos mais corriqueiros. "As qualidades e virtudes são construídas por nós no esforço que nos impomos para diminuir a distância entre o que dizemos e fazemos", escreveu o educador. "Como, na verdade, posso eu continuar falando no respeito à dignidade do educando se o ironizo, se o discrimino, se o inibo com minha arrogância?" Você, professor, tem a preocupação de agir na escola de acordo com os princípios em que acredita? E costuma analisar as próprias atitudes sob esse ponto de vista?
Quer saber mais?

Convite à Leitura de Paulo Freire, Moacir Gadotti, 176 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-161-700.

Pedagogia da Esperança – Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, 254 págs., Ed. Paz e Terra, tel. (11) 3337-8399.
Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, 218 págs., Ed. Paz e Terra.

INTERNET
No site, você encontra informações sobre Paulo Freire e escritos de e sobre o educador, além de notícias de eventos e atividades relacionadas a ele

Revista Nova Escola