terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Crianças Bilíngues, o trunfo que alguns países ricos rejeitam

Privar os filhos de imigrantes da sua língua materna significa criar situações de conflito entre dois modelos - o de família e o social - e desprezar suas identidades. Se suas línguas e culturas forem respeitadas pelos sistemas de ensino, essas crianças desenvolverão uma melhor estima por si e mesmas e pelos outros


Por Ranka Bijeljac-Babi ´c

Foto: Attila Kisbenedek / AFP
Crianças chinesas assistem a uma aula de húngaro na primeira escola bilíngue para a comunidade chinesa em Budapeste, capital da Hungria. Sem interesse em fazer os pequenos migrantes manter sua língua natal, governos de países ocidentais tentaram pressionar os pais a não usar esse idioma no ambiente doméstico.

Um grande número de estados “desenvolvidos” tem línguas oficiais, mas suas populações, de várias origens étnicas, falam uma série de outros idiomas todos os dias. “Estima-se que, no ano 2000, mais de um terço da população com idade inferior a 35 anos na urbanizada Europa Ocidental tinha uma minoria de imigrantes”, afirma um documento da Unesco sobre a diversidade da língua, que registra que “os maiores grupos de imigrantes na União Europeia são turcos e norte-africanos, que vivem na França, na Alemanha e na Grã-Bretanha”.

Os políticos dos países ocidentais estão hoje elaborando leis para reforçar as condições de imigração e introduzindo testes de linguagem e cultura. Solicitar aos requerentes para a imigração que conheçam os rudimentos do francês, do holandês ou do inglês, bem como as regras básicas do funcionamento dos países de acolhimento, não parece absurdo.


Tenta-se “apagar” a língua materna da cabeça das crianças

Mas, quando esses imigrantes chegam, muitas vezes há uma tentativa de “apagar” suas línguas maternas de suas cabeças, em especial se elas são consideradas idiomas “menores”. Precisamos apenas nos lembrar do relatório de outubro de 2004 sobre a segurança interna na França. “[Quanto a crianças de 1 a 3 anos], só os pais, e especialmente as mães, têm contato com seus filhos. Se as crianças têm origem estrangeira, os pais devem se obrigar a falar francês em casa, a fim de fazer as crianças se acostumarem a ter apenas essa língua para se expressar”, diz o relatório, frisando: “Mas se, em certos casos, elas sentem a relutância de seus pais, que frequentemente insistem no uso do dialeto de seus países de origem em casa, elas vão ser dissuadidas de fazê-lo. Será então necessário tomar medidas para incentivar os pais a ir na direção certa.” No texto original em francês, a palavra français (francês), designando um idioma, foi escrita em maiúsculas, o que contraria as regras da ortografia francesa. Pode-se supor que “falar um dialeto” é entendido como falar em árabe, chinês, sérvio, etc.

Segundo esse relatório, o desenvolvimento cognitivo, social e educacional de crianças que não são obrigadas a falar francês em casa ficaria comprometido, uma vez que elas teriam inevitavelmente problemas de linguagem, levando a distúrbios comportamentais que resultariam mais tarde em delinquência!

Essa posição absurda reflete uma ignorância flagrante do desenvolvimento da linguagem e do papel da língua materna na construção cognitiva, psíquica e cultural de um indivíduo. Como, por um momento, se poderia imaginar que uma mãe pode falar numa língua que não domina bem com sua criança? Como alguém poderia ignorar o fato de que a língua materna transmite afetos, permite a organização de faculdades cognitivas, simboliza – para crianças oriundas de famílias de imigrantes – a continuidade entre o país de origem e a família?

Privar a criança da língua materna em casa é criar uma situação de conflito entre o modelo de família e o modelo social e entre a família e a escola, com o risco de empobrecer ainda mais referências culturais e enfraquecer a socialização.

Imigrantes ajudam a tornar línguas como o inglês mais ricas

Isso também implica que o bilinguismo não é visto como um bem, mas uma desvantagem, um obstáculo ao êxito da educação e da integração, sobretudo quando as línguas consideradas, como o árabe, o chinês ou o russo, são ridiculamente chamadas de “raras”. Se as línguas consideradas são “socialmente valorizadas”, como o inglês ou o alemão, o bilinguismo torna-se um símbolo da elite!

Os argumentos e as propostas para o uso (ou melhor, o não uso) da língua materna no relatório de 2004 sobre a prevenção da delinquência têm muitos adeptos nos círculos políticos e acadêmicos da França, mas o relatório provocou reações violentas: associações, ONGs, sindicatos e intelectuais foram mobilizados, e os termos do documento foram modificados. Na versão 2005, lê-se o seguinte trecho: “Reconhecimento do bilinguismo precoce como fator de integração. Depois de muitos debates, a Comissão mudou consideravelmente sua posição sobre o assunto. Parece também que a manutenção tanto da língua materna como da língua dominante permite que as crianças tenham melhores resultados na escola (...).”

Foto: Emmanuel Pain / AFP
Aula de bretão numa escola de Brest, no noroeste da França. Pesquisas das últimas duas décadas mostram que crianças que aprendem várias línguas são mais rápidas e flexíveis em determinadas situações de aprendizagem e desenvolvem melhores habilidades de comunicação.

Os últimos 20 anos de pesquisa em psicolinguística e sociolinguística demonstram inequivocamente que a aquisição e a aprendizagem de várias línguas por crianças, não importa qual seja sua origem sociocultural, tampouco de quais línguas se esteja falando, no mínimo não impedem o desenvolvimento cognitivo e educacional desses meninos e meninas. Pelo contrário, as crianças bilíngues apresentam maior velocidade e flexibilidade em determinadas situações de aprendizagem e desenvolvem melhores habilidades de comunicação. Se elas são um pouco deficientes na segunda língua, é algo frequentemente temporário, e elas compensam isso com um sistema mental mais rico, habilidades cognitivas que são em geral mais eficientes e uma visão mais ampla do mundo.

Quando dificuldades educacionais afetam os filhos dos imigrantes, a maioria dos professores franceses coloca a culpa principalmente no conflito de línguas e culturas. No entanto, se as línguas e as culturas dos imigrantes fossem mais enfatizadas, ensinadas a todos os alunos nas escolas e respeitadas pelo sistema escolar e pela sociedade dominante, os indivíduos desenvolveriam uma melhor estima e respeito por si mesmos e, consequentemente, pelos outros.


Foto: Shutterstock

François Cheng, autor chinês que chegou a Paris com 20 anos sem saber uma palavra de francês, e que é membro da Académie Française desde 2003, escreveu em seu livro Le Dialogue (2002): “O destino fez com que, a partir de um certo momento da minha vida, eu me tornasse o portador de duas línguas, chinês e francês. Foi apenas por conta do destino? A menos que, apesar de tudo, houvesse uma parte de livrearbítrio deliberado nele? O fato é que tentei assumir o desafio, chegando a um acordo com as duas línguas da minha própria maneira, com as consequências mais extremas. [...] Não é de estranhar que, desde então, no coração da minha aventura linguística, que é direcionada para o amor de uma linguagem adotada, um tema tenha tido lugar de destaque: o diálogo...”

Diálogo entre comunidades, diálogo entre línguas – linguistas sabem e enfatizam o fato de que os imigrantes contribuem para o dinamismo e o enriquecimento de línguas como o inglês ou o francês. Como exemplo, a mistura de chinês, coreano, japonês e vietnamita com o inglês é um fenômeno mundial, que os imigrantes de várias origens asiáticas usam para se comunicar uns com os outros, portanto, fazendo suas próprias contribuições linguísticas. É o mesmo para o “espanglês”: essa linguagem híbrida, que mistura inglês e espanhol e se mostra muito popular entre os jovens nos Estados Unidos, é um dos exemplos mais marcantes de mudanças em uma língua posta frente a frente com a imigração e a globalização.


REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 454

Não existe felicidade sem gratidão

Aprenda a dar graças. A gratidão leva as pessoas a agir de forma virtuosa ou mais altruísta.
Equipe Planeta

Shutterstock

Ao estudar a felicidade, muitos pesquisadores têm deparado com um elemento que gradualmente vai passando do segundo plano para um lugar de destaque nessa área: a gratidão, aquela emoção de agradecimento e alegria que surge no recebimento de um presente ou de um auxílio. Velha conhecida de religiões e filosofias, que há muito tempo a consideram uma manifestação fundamental da virtude e um componente básico da saúde, da integridade e do bem-estar, ela vem despertando um interesse científico cada vez maior, endossado por estudos que apontam para uma relação sólida entre ser grato e sentir-se melhor.

“A gratidão é o ‘fator esquecido’ na pesquisa da felicidade”, avalia Robert Emmons, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, Davis, e um dos maiores expoentes no estudo desse tema. A opinião é endossada por Todd Kashdan, professor adjunto de psicologia da George Mason University (Estados Unidos) e um dos pioneiros da “ciência da felicidade”. Ele declarou que, se tivesse de nomear três elementos essenciais para criar felicidade e dar sentido à vida, estes seriam relacionamentos significativos, gratidão e viver no momento presente com uma atitude de abertura e curiosidade.

“Você não pode ser deprimido e grato ao mesmo tempo”, afirma a psicóloga novaiorquina Brenda Shoshanna, autora do livro 365 ways to give thanks: One for every day of the tear (365 maneiras de dar graças: Um para cada dia do ano). “(A gratidão) faz uma pessoa mais saudável, fisicamente, mentalmente, em todos os sentidos.”

Em um dos estudos recentes sobre a gratidão, financiado pela National Science Foundation dos Estados Unidos, o psicólogo David DeSteno, da Northeastern University, orientava cada participante a concluir uma difícil tarefa de entrada de dados, “perdidos” logo depois supostamente por mau funcionamento do computador. Dispensada, a pessoa deparava em seguida com um assistente de laboratório, a quem poderia pedir auxílio a fim de restaurar as informações perdidas – embora ele aparentemente desconhecesse o trabalho proposto pelo psicólogo e alegasse estar com pressa para realizar sua própria experiência. DeSteno descobriu que aqueles que haviam sido ajudados pelo assistente e estavam gratos por isso tinham maior propensão a retribuir um favor do que os integrantes de um grupo que não havia sido auxiliado.

“A gratidão leva as pessoas a agir de forma virtuosa ou mais altruísta”, afirmou DeSteno, cuja pesquisa foi publicada em 2009 na revista Current Directions in Psychological Science. “E constrói o apoio social, o qual sabemos que está ligado ao bem-estar físico e psicológico.”

Autor de vários livros e monografias relativos ao tema, Robert Emmons tem participado de estudos nessa área que estão ajudando a compor um retrato detalhado das pessoas que manifestam gratidão. Segundo Emmons, elas exibem níveis mais altos de emoções positivas, satisfação com a vida, vitalidade e otimismo. Dormem mais, fazem mais exercícios e sua pressão arterial e seus níveis de depressão e estresse são mais baixos. Demonstram ser simpáticas e conseguem ver as coisas pelos olhos dos outros. Não negam ou ignoram os aspectos negativos da vida, mas aparentemente ampliam os estados associados a sentimentos agradáveis. Em suas redes sociais, elas são consideradas mais generosas e prestativas. As crianças que praticam a gratidão apresentam mais atitudes positivas em relação à família e à escola.

Um dos objetos de estudo de Emmons foram pessoas que escreveram diários nos quais agradeciam semanalmente as benesses que haviam recebido. Esses indivíduos fizeram exercícios físicos com mais regularidade, reportaram um número menor de problemas de saúde, avaliaram melhor sua vida como um todo e demonstraram mais otimismo do que os participantes do grupo de controle, que registraram aborrecimentos ou eventos neutros no diário. Os que manifestaram gratidão também apresentaram progressos significativos em termos de objetivos pessoais (acadêmicos, interpessoais e de saúde) na comparação com os demais.

Outras influências sobre a saúde física e psíquica ficaram perceptíveis numa pesquisa com adultos portadores de doença neuromuscular. Os que fizeram um exercício diário de gratidão durante 21 dias exibiram doses bem mais altas de bom humor, otimismo e de sensação de estar ligado aos outros, além de melhoras na duração e na qualidade do sono.

Numa experiência na qual adultos jovens faziam exercícios diários de gratidão, os pesquisadores notaram um aumento nos níveis de vivacidade, entusiasmo, determinação, atenção e energia na comparação com os grupos de concontrole. As pessoas que manifestaram gratidão também eram mais propensas a informar que haviam ajudado ou dado apoio emocional a alguém.

Shutterstock

De um ângulo mais espiritual, segundo Emmons, a gratidão independe de crenças religiosas, mas a fé amplia a capacidade de manifestála. As pessoas gratas têm uma tendência maior a crer na interconexão de todas as formas de vida, a firmar um compromisso com os outros e ser responsável por eles. Quem manifesta gratidão dá menos importância a bens materiais, é menos invejoso e tende a partilhar mais suas posses com os outros.

Tudo isso não surge, porém, a partir de episódios esparsos de gratidão, alerta Sonja Lyubomirsky, professora de psicologia na Universidade da Califórnia, Riverside. Para colher os frutos dessa emoção, afirma ela, é necessário exercitá-la constantemente. “Se você não fizer isso regularmente, não obterá os benefícios”, explica. “É como se você fosse para a academia de ginástica uma vez por ano. O que ganharia com isso?”

O QUE HÁ PARA LER

O poder da gratidão, M.J. Ryan, Ed. Sextante.
Gratidão – Um estilo de vida, Louise Hay, Ed. Nova Era.
Thanks! How practicing gratitude can make you Happier, Robert Emmons, Houghton Mifflin Company.
Thanks! How the new science of gratitude can make you happier, Robert Emmons, Houghton Mifflin Company.
• The psychology of gratitude, Robert Emmons e Michael McCullough (orgs.), Oxford University Press.
365 ways to give thanks: One for every day of the year, Brenda Shoshanna, Carol Publishing Group.

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 450

Quando a escola semeia tempestade

Instituições de ensino religioso destinadas a crianças e adolescentes de baixa renda, as madrassas são um dos componentes básicos do extremismo islâmico que ameaça o Paquistão. Boa parte delas forma novos defensores e militantes da guerra santa


Equipe Planeta

ZumaPress/Keystone

Na "guerra total" promovida pelo Paquistão contra o Talebã e a Al-Qaeda, o governo do presidente Asif Ali Zardari quer cercar as madrassas, as escolas corânicas acusadas de ser solo fértil para jihadistas. Essas instituições estão sob fogo cerrado em virtude de sua alegada influência no espírito da militância extremista. Mesmo assim, todas elas ainda estão fora do controle do governo.
As madrassas têm uma longa história no Paquistão e nas sociedades muçulmanas em geral. Bancadas pela filantropia pública, elas oferecem gratuitamente educação religiosa, alojamento em regime de internato e alimentação, e são essencialmente escolas para os pobres. Hoje em dia, mais de 15 mil madrassas - de cinco seitas diferentes e que não se misturam - compõem o setor educacional religioso no Paquistão. Cerca de 1,5 milhão de crianças as frequentam. Mas a visão de mundo limitada de seus líderes, sua falta de educação cívica moderna e a pobreza fazem das madrassas um fator de desestabilização na sociedade paquistanesa. Por essas razões, essas escolas também estão suscetíveis a noções românticas de sectarismo e jihads internacionais, que prometem salvação instantânea. Boa parte dos clérigos formados nessas instituições prega a guerra santa assim que obtém seu diploma.

Reformar as madrassas foi a peça central da estratégia de contraterrorismo do regime militar que governava o Paquistão logo depois do 11 de Setembro. Um projeto de lei foi anunciado em junho de 2002 para regulamentar, modernizar e integrar as escolas corânicas à educação convencional, ao custo de cerca de US$ 100 milhões. A lei proposta pelo governo, então comandado pelo general Pervez Musharraf, daria suporte a mudanças no currículo, no registro e no monitoramento de finanças. Mas o nome desse projeto - Regulamentação e Registro Voluntário - já dava uma ideia da falta de envolvimento concreto do governo com a reforma. Em vez de comprometer-se com uma intervenção real no sistema das madrassas, ao qual o clero se opunha ferozmente, as escolas seriam apenas solicitadas a submeter-se à regulamentação por conta própria, sem a previsão de quaisquer mecanismos de fiscalização ou de punição por violações.


Fotos: ZumaPress/Keystone
Acima, alunos de madrassa em Muzafarabad (Caxemira paquistanesa) estudam o Alcorão e muro de escola pichado com palavras de ordem contra os Estados Unidos. Muitas madrassas defendem o extremismo islâmico.


O núcleo do projeto de reforma para as madrassas era um novo currículo. O governo se comprometeu a modernizá-lo, acrescentando cursos de inglês, matemática, estudos paquistaneses, ciências e estudos sociais em vários níveis. O objetivo ambicionado era dar às escolas corânicas uma educação mais próxima da formal. O governo também havia prometido cobrir os custos de livros e dos novos professores para assuntos não religiosos, treinamento dos mestres, materiais de biblioteca, computadores e outros artigos. Qualquer madrassa adequadamente registrada junto ao governo poderia requisitar assistência.

O fracasso do projeto não poderia ter sido mais retumbante - ou a falta de vontade do governo de implementar a reforma das madrassas mais evidente - do que o que se viu no drama de seis meses protagonizado pelos mulás da Mesquita Vermelha, em Islamabad (a capital do país), e suas escolas afiliadas. A tragédia - encerrada em julho de 2007, com a invasão do complexo da mesquita por tropas do governo - foi iniciada com uma campanha agressiva dos clérigos locais e de estudantes a favor da adoção da lei islâmica na capital paquistanesa. A atitude desafiadora era agravada por sequestros de policiais e moradores de Islamabad que os rebelados consideravam envolvidos em atividades "não islâmicas". Depois de várias semanas de contemporização do governo, o Exército paquistanês enfim desfechou um ataque contra os radicais entrincheirados na mesquita. A ação militar, que durou 36 horas, resultou na morte de mais de 100 pessoas.

Desarmar as escolas radicais estava no topo da agenda do governo em termos dos planos de reforma. Como o impasse da Mesquita Vermelha mostrou, porém, o desarmamento não foi muito longe. Até mesmo nas madrassas da capital, Islamabad, as armas e os explosivos continuam a circular livremente. As armas, aliás, se tornaram uma parte da cultura das madrassas, pertençam elas a essa ou àquela seita. A maioria das escolas radicais tem ligações diretas ou indiretas com organizações de militantes à margem da lei. Se o governo eventualmente decidisse desarmar as madrassas, haveria uma tenaz resistência. O Paquistão também teria de integrar-se, formalmente e por completo, à Convenção Internacional para a Supressão do Financiamento do Terrorismo.

Foto: ZumaPress/Keystone
Meninas matriculadas em madrassa de Muzafarabad. Mais de 1,5 milhão de crianças, predominantemente pobres, frequentam essas escolas no Paquistão.

Em junho de 2008 - dois meses antes da renúncia do general Musharraf à presidência -, seu ministro da Educação anunciou que não concederia nenhum recurso adicional para reformas curriculares e fornecimento de material às madrassas até que as administrações dessas escolas assinassem um acordo com o governo para cumprir os termos estipulados de registro e regulamentação. Os líderes da organização que reúne essas instituições se recusaram a aceitar a imposição e, assim, o programa de reformas fracassou antes de decolar. Com dificuldades para firmar-se no poder, o governo do sucessor de Musharraf, o civil Asif Ali Zardari, não adotou posições mais agressivas a respeito das madrassas e, atualmente, tem de concentrar suas forças em outro tema mais urgente: a guerra que move contra a versão paquistanesa do Talebã no noroeste do país.

De qualquer maneira, cursos de educação secular só teriam valor no Paquistão se fossem acompanhados de mudanças fundamentais no currículo religioso de todas as seitas para encerrar a promoção do sectarismo e da intolerância religiosa, que é a razão de ser original das madrassas. Enquanto isso, a paciência do povo paquistanês, cansado de fundamentalismos, está-se esgotando.

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 449