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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Os tempos do humor


Os tempos do humor

Após se transformar ao longo da Antiguidade e da Idade Média, riso chega à modernidade para mascarar a incerteza dos tempos atuais

Paulo de Camargo

Veja esta versão anônima do Gênesis, tirada de um papiro alquímico do século III. "Tendo riso Deus, nasceram os sete deuses que governam o mundo... quando ele gargalhou, fez-se a luz... Ele gargalhou pela segunda vez: tudo era água. Na terceira gargalhada, apareceu Hermes; na quarta, a geração; na quinta, o destino; na sexta, o tempo. Antes da sétima gargalhada, Deus inspira profundamente, mas ri tanto que chora, e de suas lágrimas nasce a alma".



Essa enigmática visão, na qual o verbo da bíblia cristã é substituído pelo riso descontrolado do Criador, dá uma boa medida das inúmeras relações entre o ato de rir e os diversos âmbitos da existência humana. O riso está na mitologia, na filosofia, na literatura, na política, na psicologia e no cotidiano - é o que mostra uma das obras referência sobre o tema, História do riso e do escárnio, do pesquisador Georges Minois (Editora Unesp, 2003).
As visões - de uma impressionante multiplicidade, desde a Antiguidade - ajudam a entender os diferentes lugares ocupados pelo riso ao longo dos séculos. Os filósofos estóicos viam no riso a vulgaridade, e também a impotência e o fracasso. Platão desconfiava da ambivalência do riso, que pode estar ligado ao prazer e à dor, ao bem e ao mal, ao gosto e ao desgosto.

A referência mais célebre da filosofia da época, no entanto, vem de Aristóteles, que afirmou ser o homem o único animal que tem a capacidade de rir. Mas esse que foi uma das principais influências do pensamento do mundo ocidental não era também um fã incondicional do humor. Para Aristóteles - como seria politicamente correto hoje -, não se deve rir dos defeitos dos outros, como os sinais físicos. Tampouco é bem vista a zombaria agressiva. Para ele, o riso deve ser fino, comedido.

Uma citação do filósofo, compilada por Minois, não deixa de ser um retrato da época. "Aqueles que, provocando o riso, vão além dos limites são, parece, bufões e pessoas grosseiras, agarrando-se ao ridículo em todas as circunstâncias e visando antes a provocar o riso que levar em conta o propósito de não ofender os que são alvos de suas zombarias", escreve Aristóteles, em A Ética em Nicômaco. Mas, ao mesmo tempo, condena quem nunca brinca como "rústicos e rabugentos".

Séculos mais tarde, outra referência importante chega por um pensador de incontestável importância para a cultura contemporânea: o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1835-1930). Em alguns momentos de sua obra, Freud debruça-se sobre o riso, no qual vê uma vitória do "eu", que se recusa a "admitir que os traumatismos do mundo exterior consigam tocá-lo". No apêndice do livro A palavra de espírito, apresenta o humor como uma defesa psíquica contra a dor - a mais sublime delas, pois trabalha a favor da saúde psíquica. Freud explica: "o humor não se resigna, ele desafia, implicando não apenas o triunfo do eu, mas também o princípio do prazer, que assim encontra o meio de se afirmar apesar de realidades exteriores desfavoráveis".

Os três grandes tempos do riso
O riso não mudou, mudaram os tempos, lembra Georges Minois. Provavelmente hoje se ri das coisas do cotidiano quase do mesmo modo como se fazia em tempos imemoriais, e por isso somos capazes de rir de um texto de Aristófanes ou de Molière. Mas o lugar do humor na sociedade, sim, sofreu grandes variações. Na exaustiva arqueologia do riso que faz, o pesquisador estabelece três grandes etapas, que chama de riso divino, riso diabólico e riso humano.

A Antiguidade é o tempo da visão divinizante do riso. Em diferentes mitologias, os deuses riem à beça, em diferentes culturas. A concepção é positiva, e o riso está nas festas dionisíacas, na criação e na recriação do mundo, no Olimpo, nas peças pregadas pelos deuses nos mortais, nas sátiras. "Se os deuses riem, é porque eles tomam distância deles mesmos e do mundo. Eles não se levam a sério. E, se os homens riem, isso é para eles uma maneira de sacralizar o mundo, de conformar-se com suas normas, escarnecendo de seus contrários. É também uma forma de endossar o terrível peso do destino, de exorcizá-lo, assumindo", escreve Minois.

Após o advento do cristianismo, no entender do autor, o riso passa a ser coisa demoníaca. A constatação é feita a partir de uma premissa fundamentalista: os evangelhos não fazem menção a nenhum riso de Jesus Cristo. A gravidade da existência e o temor do inferno pesam sobre os cristãos. O riso - feio, grotesco, subversivo - é a "desforra do diabo", explica Minois.

Por fim, na divisão do autor, vem o riso interrogativo e humano pós-medieval, quando entram em questionamento os fundamentos de tudo aquilo em que se acreditava até então. "...O recuo das certezas é acompanhado por uma ambígua generalização do riso, que se insinua por todas as novas fissuras do ser e do mundo. Como um navio em perigo, com o casco furado, a humanidade se enche de riso", escreve. Entram na mira dos engraçadinhos a religião, a política, os diferentes sistemas de poder.

E hoje? Bem, diz Minois, o riso moderno é incerto e "existe para mascarar a perda de sentido". Se antes a força do humor vinha da seriedade do ambiente onde estava inscrito, ou seja, construía-se contra certezas, hoje o riso seria pura evasão. "Ele não é mais nem afirmação, nem negação, antes, é interrogação, flutuando sobre um abismo em que as certezas naufragaram", reflete. Mas é justamente por isso, conclui Minois, que o riso se tornou mais indispensável do que nunca.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O cinema brasileiro em busca de seu público na escola

filme Estamira (Marcos Prado, 2004)

Cristina Bruzzo

Doutora em Educação e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (unicamp). E-mail: bruzzo@unicamp.br

Por que o cinema chegou à universidade e não alcançou ainda as escolas secundárias?". A pergunta de Guido e Teresa Aristarco (Aristarco & Aristarco, 1992, p. 9), feita antes de o cinema completar cem anos, espanta pelo menos por duas razões: parece que algo pode ser encontrado nos filmes que interessa ao ensino superior e não cabe na escola básica; por outro lado, pode-se suspeitar que interesses distintos permeiem os vários níveis de ensino, chamando à descontinuidade no percurso da escolarização.

No mesmo livro, Aldo Visalberghi previa que a introdução de filmes no ensino aconteceria no âmbito de uma "grande revolução geral na organização curricular das escolas" (idem, ibid., p. 71). Dezoito anos se passaram e as escolas não mudaram muito, nem os filmes chegam a elas com regularidade.

O júbilo, os filmes e as festas que comemoraram o centenário do cinema já foram esquecidos e agora miramos com desconfiança as redes sociais da web. Mas intriga o descompasso: a escola parece desconhecer ou julgar impróprias as obras audiovisuais das mais diversas tendências produzidas em qualquer lugar nesse mundo globalizado. Não obstante, é reconhecido que o cinema aporta inquietações sobre a condição e os fazeres humanos. Também é preciso admitir que, na maior parte da produção, encontra-se certa dose de redundâncias e inutilidades, nada diferente do que acontece com a literatura e as artes gráficas.

Em São Paulo, no começo do século XXI, um grupo de jovens professores, sensibilizados pela situação de exclusão do audiovisual das salas de aula, lançou-se ao desafio de levar o cinema às escolas, com especial carinho para aqueles filmes "sem tela", que ficam fora do circuito comercial, como parte significativa do cinema brasileiro. Considerada com algum preconceito e desconfiança pelos educadores e por boa parte do público, a produção cinematográfica do país era vista como uma promessa não realizada, que resultou em preconceito e desconhecimento dos filmes. Partindo da constatação desse distanciamento entre o cinema brasileiro e seu público potencial, o grupo de professores propôs um projeto que pudesse aproximar alunos de escolas públicas da diversidade dos filmes nacionais. O projeto "Cinema e Vídeo Brasileiro nas Escolas" resultou da vontade de descortinar um lugar para as questões candentes da nossa realidade, suscitadas pelos filmes e expressas na forma de enquadramentos e composições visuais originais.

A participação nessa experiência motivou Antônio Reis Junior, como um de seus coordenadores, a escrever sua tese de doutorado (Reis Junior, 2010) sobre o projeto de introdução do cinema brasileiro em escolas da região leste da cidade de São Paulo (2000-2005), que promoveu a constituição de videotecas, cursos de formação para os professores, mostras de filmes e produção em vídeo digital.

Sua tese, cuja defesa aconteceu no segundo semestre de 2010, tem o mérito de passar ao largo de qualquer pretensão avaliativa do projeto e de sua eficácia, que a elegância pede não seja feita por quem se envolveu tão diretamente, a fim de evitar o exercício do autoelogio ou da autopunição. Longe de justificar e julgar, Reis Junior dedica-se a relatar e refletir sobre o trabalho realizado, movendo-se entre o passado relembrado e o presente que aparece expresso no exame de dois filmes documentários que incorporam reflexões e leituras recentes.

Ficam as marcas do descompasso entre a concepção de um projeto formulado de forma objetiva e consistente e a vivência dos professores das escolas com os filmes da videoteca, vivência esta que só pode ser percebida como uma rememoração incerta. A solução para essa duplicidade do relato veio do próprio cinema, que o autor traz para o interior do trabalho, inserindo imagens dos filmes que marcaram as atividades com os professores e que ele dispôs na tese, como um comentário que complementa a redação acadêmica. Daí resulta um formato que pretende indicar a insuficiência da escrita para dar conta de uma experiência vivida de forma intensa e finita. Tal recurso confere leveza, pela forma gráfica, e provoca um desvio do texto acadêmico, ao mesmo tempo em que sugere ao leitor algumas aproximações com a filmografia brasileira. Tal conjunto de fotogramas nos lembra como desconhecemos a produção nacional e como seria bom que ela tivesse uma distribuição adequada.

O texto começa com as sua lembranças de menino, construídas pelos filmes mudos de 8 mm de curta metragem que seu pai realizou na Manaus de fins da década de 1960 e início da década de 1970, para lembrar que o amor pelo cinema veio de longe e acalentou o desejo de espalhar os filmes pelas escolas. Mas o propósito maior do projeto CVBE repousa na crença, forte na época, do reconhecimento que a imagem familiar mobiliza no jovem estudante e nos desdobramentos educativos que a produção audiovisual brasileira poderia desencadear, alimentando o sonho de que a escola pudesse ser o lugar de aproximação com uma filmografia mais autêntica, que viria encontrar seu público, até então seduzido pelo cinema comercial estrangeiro.

O trabalho organiza-se em dois eixos: o projeto CVBE e o exame detalhado de dois filmes nacionais. O entrelaçamento desses dois percursos busca dar sustentação à tese central de que a produção nacional oferece a possibilidade de interrogar o país pelo olhar dos cineastas, cujas obras desenham panoramas e interpretações sobre o Brasil, sendo necessário, para tanto, o encontro mediado com os filmes no espaço escolar para estimular uma predisposição de jovens, crianças e professores para a diversidade de nosso cinema.

O primeiro capítulo detalha a situação singular de uma filmografia estranha a seu público, que resulta na existência de uma vasta produção de filmes sem distribuição condizente com sua variedade e pertinência. As causas desse alijamento são examinadas e oferecem o contexto adequado para se entender os propósitos do projeto e as escolhas metodológicas levadas a cabo para desenvolvê-lo, apresentadas no segundo capítulo.

O terceiro capítulo, provocativo, relata o envolvimento na produção audiovisual de professores e alunos de uma das escolas vinculadas ao projeto, que se sentiram estimulados pelos filmes assistidos e discutidos nas oficinas de produção, muitos realizados nas décadas de 1960 e 1970 por jovens diretores brasileiros interessados em denunciar as mazelas sociais e desejosos de mobilizar o público a pensar o país. O filme Excola (produção coletiva de professores, 2004) inspira-se nessa proposta e exprime a apropriação, por parte de seus realizadores, da ideia do cinema como possibilidade de afirmação política. Entretanto, ao final da produção, a divulgação do filme foi abortada por decisão dos próprios professores. Tal episódio, examinado com delicadeza por Reis Junior, evoca as considerações do cineasta e pesquisador de cinema Jean-Louis Comolli (2004) sobre a força do cinema militante, que arregimentou cineastas em muitos países, colocados a serviço de causas, palavras de ordem e ideais políticos. Mesmo que tenham sido concebidos para a defesa de ideias que o tempo isolou, os filmes mostraram-se mais duradouros do que os sonhos de então e o mundo filmado parece ser "uma utopia mais poderosa" do que as utopias políticas que os inspiraram. Mobilizados por esse cinema, os professores e alunos quiseram exprimir a insatisfação com o aqui e agora. Contudo, assombrados pelo resultado e temerosos de possíveis represálias, preferiram condenar o filme e o Excola não teve divulgação. Relembrar esse episódio talvez seja uma boa maneira de buscar a resposta para a ausência dos filmes na escola, apontada por Aristarco e Aristarco (2005).

O tempo decorrido entre as ações efetivas realizadas no projeto CVBE e a reflexão motivada pelo estudo acadêmico permite que se perceba como a escolha de documentários prevalecia nas práticas realizadas. O intuito dos formadores foi estimular a visão crítica dos professores, recorrendo à explicitação dos recursos da linguagem com a finalidade de denunciar a ilusão de que a câmera seja um dispositivo transparente e neutro de registro da realidade. Ao mesmo tempo, buscavam com esses filmes levar os professores a reconhecer a capacidade de o cinema representar a identidade nacional, a "brasilidade". Esse paradoxo estimula Reis Junior a realizar a análise de dois filmes, na qual procura explorar as contradições e os limites do documentário. Um deles, Socorro nobre (Walter Salles Jr., 1995), visto e discutido inúmeras vezes na época do projeto, traz as marcas das análises levadas a cabo nas aulas daquele período.

Com o filme Estamira (Marcos Prado, 2004), sem vínculo com aquelas exibições, são apontados os dilemas, impasses e sonhos de quem opera máquinas de filmar. O autor se detém nas ambiguidades e inquietações despertadas pelo atrito entre as imagens e as palavras; entre a objetiva da câmera que registra e o diretor que insiste em mostrar aquilo em que crê, e o espaço entre um fotograma e o seguinte, no qual o espectador navega. Esse exercício conclui a tese e pode ser entendido a partir do alerta de Comolli (2004) sobre a necessidade de o espectador acreditar que a máquina-cinema mostra o "mundo como ele é", ainda que ele saiba tratar-se de uma percepção enganosa.

A tese de Antônio Reis Junior poderia ser descrita como a sinopse de um filme: de como o cinema permitiu a um menino sonhar o pai que perdeu cedo, vendo-o e revendo seus rolos de filmes em super 8. Adulto, o menino de sempre seguiu sonhando que os filmes poderiam ajudar outras crianças a pensar seu país e a realizar um Brasil melhor.

Referências

ARISTARCO, G.; ARISTARCO, T. (Org.). Il cinema: verso il centenario. Bari: Dedalo, 1992.
COMOLLI, J.-L. Voir et pouvoir l'innocence perdue: cinéma, télévision, fiction, documentaire. Paris: Verdier, 2004.
REIS JUNIOR, A. Cinema brasileiro na escola pública: reconhecimento na diferença. 2010. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
VISALBERGHI, A. Un progetto per la scuola. In: Aristarco, G.; Aristarco, T. (Org.). Il cinema. Verso il centenario. Bari: Dedalo, 1992, p. 68-72.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Alfabetizar é todo dia

O professor deve planejar com antecedência e constantemente as atividades de leitura e escrita. Por isso, manter-se atualizado com as novas pesquisas didáticas é essencial

Thales de Menezes (novaescola@atleitor.com.br)Colaborou Nina Pavan. Leitoras que sugeriram o especial: Rosany Dutra, Timóteo, MG, e Magda Cecília Arantes de Carvalho, Itapevi, SP


MÃO NA MASSA  As crianças precisam ser confrontadas com situações de escrita desde o início do processo. Foto: Ricardo Beliel
MÃO NA MASSA As crianças precisam ser confrontadas com situações de escrita desde o início do processo. Foto: Ricardo Beliel

Alfabetizar todos os alunos nas séries iniciais tem implicações em todo o desenvolvimento deles nos anos seguintes. Segundo a educadora Telma Weisz, supervisora do Programa Ler e Escrever, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, "a leitura e a escrita são o conteúdo central da escola e têm a função de incorporar a criança à cultura do grupo em que ela vive". Por isso, o desafio requer trabalho planejado, constante e diário, conhecimento sobre as teorias e atualização em relação a pesquisas sobre as didáticas específicas.

Esta edição especial traz o que há de mais consistente na área. Hoje se sabe que as crianças constroem simultaneamente conhecimentos sobre a escrita e a linguagem que se escreve. Conhecer as políticas públicas de Educação no país e seus instrumentos de avaliação é um meio de direcionar o trabalho. Um exemplo é a Provinha Brasil, que avalia se as crianças dominam a escrita e também seus usos e funções. Para a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar Lacerda e Silva, o grande mérito do teste de avaliação que mede as competências das crianças na fase inicial de alfabetização é fornecer instrumentos para o professor interpretar os resultados, além de sugerir práticas pedagógicas eficazes para alcançá-los. "É um material que ajuda o professor na reflexão porque nenhuma avaliação serve para nada quando se limita a constatar. Ela só faz sentido para mudar práticas e identificar as dificuldades de cada aluno.”

Da mesma forma, organizar a rotina é imprescindível. Uma distribuição de atividades deve ser estabelecida com antecedência, contemplando trabalhos diários, sequências com prazos determinados e projetos que durem várias semanas ou meses (confira dicas preciosas sobre o planejamento). Ao montar essa programação, cabe ao professor abrir espaço para as quatro situações didáticas que, segundo as pesquisas, são essenciais para o sucesso na alfabetização: ler para os alunos, fazer com que eles leiam mesmo antes de saber ler, assumir a função de escriba para textos que a turma produz oralmente e promover situações que permitam a cada um deles escrever até que todos dominem de fato o sistema de escrita. Nesta edição, você encontra as bases teóricas e casos reais de professoras que obtiveram sucesso ao desenvolver cada uma das situações (com sugestões detalhadas de atividades). E não há tempo a perder. No início do ano, como agora, a tarefa essencial é descobrir quais as hipóteses de escrita das crianças, mesmo antes que saibam ler e escrever convencionalmente (leia mais sobre como fazer um bom diagnóstico). Assim, fica mais fácil acompanhar, durante o ano, a evolução individual para planejar as intervenções necessárias que permitam que todos efetivamente avancem. Essa sondagem inicial influi na distribuição da turma em grupos produtivos de trabalho, como mostra a reportagem Parceiros em Ação.


Sabe-se, já há algum tempo, que as crianças começam a pensar na escrita muito antes de ingressar na escola. Por isso, precisam ter a oportunidade de colocar em prática esse saber, o que deve ser feito em atividades que estimulem a reflexão sobre o sistema alfabético.

No livro Aprender a Ler e a Escrever, as educadoras Ana Teberosky e Teresa Colomer apontam que o desenvolvimento do aluno se dá “por reconstruções de conhecimentos anteriores, que dão lugar a novos saberes”. Essa condição está presente nos 12 planos de aula deste especial. Em todos, transparece a necessidade de abrir espaço para que a turma debata o que produz, permitindo que a reflexão leve a avanços nas hipóteses iniciais de cada estudante.

É fundamental levar para a escola as muitas fontes de texto que nos cercam no cotidiano, como livros, revistas, jornais, gibis, enciclopédias etc. Variedade é realmente fundamental para os alfabetizadores, que devem ainda abordar todos os gêneros de escrita (textos informativos, listas, contos e muito mais). E, nas atividades de produção de texto, a intervenção do professor é vital para negociar a passagem da linguagem oral, mais informal, à linguagem escrita.

O número do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), de 2007, mostra que só 28% da população brasileira está na condição de alfabetizados plenos. Para impedir que mais pessoas fiquem restritas a compreender apenas enunciados simples, o desempenho escolar nos anos iniciais precisa de resultados melhores. Essa preocupação deve ser compartilhada por professores e órgãos públicos. “O governo está fazendo uma intervenção específica nas séries iniciais para ter resultados rapidamente, com dois docentes por sala, material didático de apoio, formação continuada e avaliação bimestral”, afirma Maria Helena Guimarães de Castro, secretária estadual de Educação de São Paulo.

As principais redes de ensino do país, como a estadual e a municipal de São Paulo, trabalham com a meta de alfabetizar as turmas em no máximo dois anos. Para garantir que essas expectativas de aprendizagem sejam atingidas, é preciso um compromisso dos coordenadores pedagógicos em utilizar os horários de trabalho coletivo para afinar a capacitação das equipes. “Pesquisas, debates e orientações curriculares têm de ser incentivados”, sugere Célia Maria Carolino Pires, que coordenou em 2008 o Programa de Orientações Curriculares da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

Nas próximas páginas, você confere uma lista, adaptada por NOVA ESCOLA, de expectativas de aprendizagem em Língua Portuguesa para o 1º e o 2º ano da rede municipal paulistana. Com base nela, você pode adequar suas propostas de trabalho e fazer com que, em 2009, nenhum aluno da turma fique para trás. Pois superar os desafios da alfabetização é apenas o primeiro passo para que todos tenham uma vida escolar cheia de aprendizagens cada vez mais significativas.

Telma Weisz: A saída é a formação do professor alfabetizador

Foto: Rogerio Albuquerque

Para desenvolver este artigo, parto de dois pressupostos. Primeiro: o que garante a qualidade da Educação que acontece de fato nas escolas é, sobretudo, a qualidade do trabalho profissional dos professores. O segundo: a qualidade do trabalho profissional dos professores tem dependido essencialmente da formação em serviço, pois a inicial tem se mostrado inadequada e insuficiente.

Diante disso, me concentro numa questão: a competência da escola pública brasileira para produzir cidadãos plenamente alfabetizados, requisito mínimo para falar em Educação de qualidade. É preciso admitir que nossa incapacidade para ensinar a ler e a escrever tem sido responsável por um verdadeiro genocídio intelectual.

A existência de um fracasso maciço, o fato de ele ter sido tratado como natural até poucos anos atrás e a fraca evolução desse quadro em 40 anos comprovam como vem sendo penoso ensinar os brasileiros que dependem da rede pública. Pesquisas de campo mostram a enorme dificuldade que os educadores têm para avaliar o que os alunos já sabem e o que eles não sabem. Aqueles que produzem escritas silábico-alfabéticas e alfabéticas na 1ª série e que teriam condições de acompanhar a 2ª série – pois podem ler e escrever, ainda que com precariedade – são retidos. Por outro lado, os bons copistas e os que têm letra bonita ou caderno bem feito são promovidos.

Quando se trabalha com esse tipo de indicador, até avanços na aprendizagem acabam sendo prejudiciais. Muitas crianças que aprendem a ler começam a “errar” na cópia. Elas deixam de copiar letra por letra e passam a ler e escrever blocos de palavras, em geral unidades de sentido. Isso faz com que cometam erros de ortografia ou unam palavras. O que indicaria progresso é interpretado como regressão, pois, por incrível que pareça, nem sempre o professor sabe a diferença entre copiar e escrever.

Essa é uma dificuldade de avaliação comum nos quatro cantos do país e que explica em grande parte por que muitos alunos de 4ª série não leem e não entendem um texto simples. Eles costumam ser os que terminam a 1ª série sem saber ler ou lendo precariamente. Nas séries seguintes, passam o tempo copiando a matéria do quadro-negro ou do livro didático. Ao serem perguntados sobre o que fariam para melhorar a qualidade da leitura e do texto produzido por esses estudantes, os profissionais que lecionam para a 2ª, 3ª ou 4ª série costumam dizer que não há o que fazer, já que eles foram mal alfabetizados e, além disso, as famílias não ajudam.

Nos últimos 25 anos, estive envolvida com programas de formação docente em serviço em todos os níveis possíveis: desde a implantação de uma unidade educacional até a formação em nível nacional. Essa experiência me dá condições de afirmar que não existem soluções mágicas para resolver em pouco tempo os problemas da escola brasileira. A qualidade da Educação - e especificamente da alfabetização - só melhorará quando as políticas educacionais forem um projeto de Estado e não de governo.

TELMA WEISZ é supervisora do Programa Ler e Escrever, da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo

Expectativas de aprendizagem para o 1º ano

COMUNICAÇÃO ORAL
• Fazer intercâmbio oral, ouvindo com atenção e formulando perguntas.
• Mostrar interesse por ouvir e expressar sentimentos, experiências, ideias e opiniões.
• Recontar histórias de repetição e/ou acumulativas com base em narrações ou livros.
• Conhecer e recontar um repertório variado de textos literários, preservando os elementos da linguagem escrita.

LEITURA

Foto: Fernado Vivas

• Ouvir com atenção textos lidos.
• Refletir sobre o sistema alfabético com base na leitura de nomes próprios, rótulos de produtos e outros materiais - listas, calendários, cantigas e títulos de histórias, por exemplo -, sendo capaz de se guiar pelo contexto, antecipar e verificar o que está escrito.
• Ler textos conhecidos de memória, como parlendas, adivinhas, quadrinhas e canções, de maneira a descobrir o que está escrito em diferentes trechos do texto, fazendo o ajuste do falado ao que está escrito e o uso do conhecimento que possuem sobre o sistema de escrita.
• Buscar e considerar indícios no texto que permitam verificar as antecipações realizadas para confirmar, corrigir, ajustar ou escolher entre várias possibilidades.
• Confrontar ideias, opiniões e interpretações, comentando e recomendando leituras, entre outras possibilidades.
• Relacionar texto e imagem ao antecipar sentidos na leitura de quadrinhos, tirinhas e revistas de heróis.
• Inferir o conteúdo de um texto antes de fazer a leitura com base em título, imagens, diagramação e informações contidas na capa, contracapa ou índice (no caso de livros e revistas).

ESCRITA E PRODUÇÃO TEXTUAL
• Conhecer as representações das letras maiúsculas do alfabeto de imprensa e a ordem alfabética.
• Escrever o próprio nome e utilizá-lo como referência para a escrita.
• Produzir texto de memória de acordo com sua hipótese de escrita.
• Escrever usando a hipótese silábica, com ou sem valor sonoro convencional.
• Reescrever histórias conhecidas - ditando para o professor ou para os colegas e, quando possível, de próprio punho -, considerando as ideias principais do texto-fonte e algumas características da linguagem escrita.
• Produzir escritos de autoria (bilhetes, cartas, instrucionais).

Baseadas nas expectativas de aprendizagem em Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo

Expectativas de aprendizagem para o 2º ano

COMUNICAÇÃO ORAL
• Participar de situações de intercâmbio oral, ouvindo com atenção e formulando perguntas sobre o tema tratado.
• Ouvir com atenção crescente a opinião dos colegas, expressar suas ideias, relacioná-las ao tema e fazer perguntas sobre os assuntos abordados.
• Aprender a respeitar modos de falar diferentes do seu.
• Recontar histórias conhecidas, recuperando características da linguagem do texto original.
• Aprender a falar de maneira mais formal e, assim, se preparar para se comunicar em situações como entrevistas, saraus, recitais, cantorias e seminários, entre outras.

LEITURA
• Apreciar textos literários.
• Compreender a natureza do sistema de escrita e ler por si mesmo textos conhecidos.
• Com a ajuda do professor, ler diferentes gêneros (literários, instrucionais, de divulgação científica, notícias), apoiando-se em conhecimentos sobre tema, características do portador, gênero e sistema de escrita.
• Ler, por si mesmo, textos conhecidos, como parlendas, adivinhas, poemas, canções e trava-línguas, além de placas de identificação, listas, manchetes de jornal, legendas, quadrinhos e rótulos.
• Colocar em ação diferentes modalidades de leitura em função do texto e dos propósitos da leitura (ler para buscar uma informação, para se entreter, para compreender etc.).
• Coordenar a informação presente no texto com as informações oriundas das imagens que o ilustram (por exemplo, nos contos, nas histórias em quadrinhos, em cartazes, em textos esportivos e nas notícias de jornal).
• Ampliar suas competências leitoras: ler rapidamente títulos e subtítulos até encontrar uma informação, selecionar uma informação precisa, ler minuciosamente para executar uma tarefa, reler um trecho para retomar uma informação ou apreciar aquilo que está escrito.
• Analisar textos impressos utilizados como referência ou modelo para conhecer e apreciar a linguagem usada ao escrever (como os autores descrevem um personagem, como resolvem os diálogos, evitam repetições, fazem uso da letra maiúscula, da pontuação).

ESCRITA E PRODUÇÃO TEXTUAL

Foto: Gilvan Barreto
Foto: Gilvan Barreto

• Escrever alfabeticamente, ainda que com erros ortográficos (ausência de marcas de nasalização, hipo e hipersegmentação, entre outros).
• Reescrever histórias conhecidas, ditando-as ou de próprio punho.
• Produzir textos simples de autoria.
• Revisar textos coletivamente, com ajuda do professor e dos colegas, para melhorá-los e, assim, compreender a revisão como parte do processo de produção.
• Aprender a se preocupar com a qualidade de suas produções escritas, no que se refere tanto aos aspectos textuais como à apresentação gráfica.

Baseadas nas expectativas de aprendizagem em Língua Portuguesa da rede municipal de São Paulo



Revista Nova Escola

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Horizontes de diálogo em Educação Ambiental: contribuições de Milton Santos, Jean-Jacques Rousseau e Paulo Freire


Horizontes de diálogo em Educação Ambiental: contribuições de Milton Santos, Jean-Jacques Rousseau e Paulo Freire

Sandro de Castro PitanoI; Rosa Elena NoalII

IDoutor em Filosofia da Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Professor Adjunto do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e do Programa de Pós-Graduação em Geografia - Mestrado (FURG/UFPel). E-mail: spitano.unipampa@ufpel.tche.br
IIDoutora em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP); Professora Adjunta do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e do Programa de Pós-Graduação em Geografia - Mestrado (FURG/UFPel)



Introdução

O diálogo interdisciplinar com referenciais teóricos da Geografia1, da Educação e da Filosofia permeia este ensaio, através do qual buscamos sistematizar e propor novas perspectivas de análise para a "Educação Ambiental", ancoradas no pensamento político e pedagógico de Milton Santos, Jean-Jacques Rousseau e Paulo Freire. A abordagem é interdisciplinar no sentido de propor a complementação entre áreas do conhecimento reconhecidamente dialógicas e justifica-se pela afinidade que os aspectos epistemológicos e metodológicos, tipificantes de cada uma das ciências arroladas, revelam diante do objeto de estudo, enriquecendo sua análise. A Geografia se destaca porque, tendo como preocupação central as relações entre os seres humanos e o seu meio, não apenas oportuniza o surgimento de novos modos de enfrentamento das questões ambientais no campo educacional, como por essência o exige. Além disso, como disciplina obrigatória nos ensinos fundamental e médio, representa uma possibilidade constante de diálogo junto às novas gerações acerca dos problemas socioambientais, quiçá sob um enfoque crítico e problematizador, considerando a educação escolar tal como está sendo. Perspectiva crítica que se robustece pelo vigor da análise filosófica, amalgamando as contribuições de cada ciência, superando particularismos e evitando estatuir quaisquer traços hierárquicos nas reflexões que logramos desenvolver.

Com relação aos autores, acredita-se que Rousseau, Santos e Freire oferecem subsídios capazes de elevar o debate educacional, no que diz respeito às questões ambientais. Diante da imperiosa necessidade de avançarmos nesse terreno, adentramos primeiro no pensamento rousseauniano, dedicando especial ênfase à sua concepção de homem, natureza e sociedade. Tudo isso sem minimizar a contundente crítica que desenvolve acerca da educação escolar que lhe foi contemporânea (cujos resquícios talvez ainda se façam presentes). A seguir, Milton Santos embasa as reflexões sobre a ocupação e a transformação do espaço, em uma abordagem geográfica radicalmente crítica e comprometida com as problemáticas sociais do tempo presente. E Freire, finalmente, não apenas por ter demonstrado uma intensa e vigorosa atitude combativa aos problemas resultantes da ação desumana sobre o meio em seus últimos escritos (À sombra desta mangueira, Pedagogia da autonomia e Pedagogia da indignação), cuja apreensão histórica da existência jamais dissocia a libertação humana da busca por um planeta sustentável. Sua análise mantém em relevo a ideia de que os problemas ambientais, na sua maioria, não são mero resultado de fenômenos naturais ou de forças divinas, mas, sim, de intervenção humana, cujas intencionalidades respondem a um modelo de vida predatório, produzido ao longo dos tempos. Tampouco somente pela sua rigorosa concepção de natureza humana, em processo de vir-a-ser no mundo e com o mundo, fazendo-se pela educação que, respeitosa dessa natureza, é problematizadora em sua radicalidade. Mas é, sobretudo, pelo profundo respeito que nutre pela vida em todas as suas formas que constitui uma referência indispensável para este estudo.



Rousseau e as relações entre homem, sociedade e natureza

O desenvolvimento (histórico) da humanidade possui como característica constante a apropriação e a transformação do espaço (com exceção dos contextos habitados pelos povos indígenas, cujo modo de vida em linhas gerais se baseava na harmonia de aprender, fazer e usufruir, ligados de forma respeitosa à Terra). O processo acelerado de industrialização, que lança raízes desde os séculos XVII e XVIII, teve como marca trágica o desrespeito aos fenômenos e aos elementos naturais. Possuindo uma dinâmica extensiva e intensiva, por ampliar concomitantemente a expansão territorial e as condições tecnológicas para a sua exploração, esse processo jamais teria feições equânimes no que diz respeito aos diferentes grupos espalhados pela superfície terrestre. Tornou-se cada vez mais desigual diante do distinto ritmo de seus desenvolvimentos. Como resultado, avançamos da apropriação e da exploração do espaço para uma ação paralela de exploração dos outros seres humanos, como destaca Rousseau (1999a, p. 213):

Mas, a partir do instante em que um homem necessitou do auxílio do outro, desde que percebeu que era útil a um só ter provisões para dois, desapareceu a igualdade, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas se transformaram em campos risonhos que cumpria regar com o suor dos homens e nos quais logo se viu a escravidão e a miséria germinarem e medrarem com as searas. (ROUSSEAU, 1999a, p. 213)

Conforme o autor, em sua fase primitiva, o ser humano teria vivido em um estágio pré-social - o estado de natureza -, em que homem e ambiente mantinham uma relação de plena harmonia2. Nessa época, o homem vivia em paz consigo mesmo, solitário, tranquilo e ocioso, guiado por instintos e preocupado somente com a própria conservação. As transformações na paisagem eram insignificantes, pois a interferência da ação humana no espaço correspondia ao instintivo e reduzido grupo de necessidades básicas a serem supridas. Entretanto, a ocorrência de significativos fenômenos de ordem climática sobre o ambiente teria provocado uma ruptura, seguida de transformações radicais no modo de vida da humanidade, que culminaram com o início da convivência coletiva. As alterações causadas pelos fenômenos climáticos sobre o habitat dos homens impuseram-lhes novas necessidades vitais, obrigando-os a desenvolver condições cada vez mais artificiais para tornar possível a subsistência e a consequente continuidade da espécie, as quais seriam possíveis somente através da vida coletiva - a associação. O que o autor do Contrato Social chama de "bondade natural" corresponde ao sentido de conservação da espécie, voltado tanto para o indivíduo (autoconservação) quanto para os demais seres humanos, manifestado pela "repugnância natural a ver perecer ou sofrer qualquer ser sensível, principalmente os nossos semelhantes" (ROUSSEAU, 1999a, p. 154), ao que denominou piedade. Ambos os sentimentos são inerentes ao homem e sempre estiveram nele presentes por natureza, antecedendo a razão e, consequentemente, a sociabilidade. Constatando os princípios sensíveis da espécie em estado natural, ele ainda agrega um terceiro, não menos relevante para a conservação humana face às dificuldades físico-espaciais enfrentadas, a perfectibilidade, faculdade inata de poder aperfeiçoar-se.

Hipoteticamente salientadas pelo autor, tais dificuldades teriam surgido no decorrer da história evolutiva, agregando coerência ao seu pensamento acerca das transformações que provocaram a saída do homem do estado de natureza para o de sociedade. Embora soe contraditório, Rousseau entende que mesmo em sociedade os homens mantêm tais sentimentos, aos quais se somaram a sociabilidade e a razão, donde emanaram tantos outros. E a inexplicável e imprevisível interação de todos caracteriza e diferencia de forma incisiva o homem social do homem natural. É importante salientar que, dos três princípios originais (bondade natural, piedade e perfectibilidade), uns acabam minimizados, ao passo que outros ganham vulto maior e determinam, por isso, uma diversidade tão ampla entre os dois estágios da história humana, bem como entre os homens já em sociedade. É bem provável que os sentidos de conservação da espécie corporificados pela preferência de si mesmo, tenham se sobreposto à piedade, ocorrendo o mesmo com a perfectibilidade.

Portanto, frente ao espaço vital que antecede sua capacidade reflexiva e impulsionado por necessidades inesperadas, o homem se associa, produzindo meios técnicos para, de forma mais efetiva, intervir nesse espaço e imprimir-lhe uma paisagem humanizada. A multiplicação das necessidades artificiais desenvolveu no ser humano o gosto pelo supérfluo, representado pelo luxo, que provocou desde então uma competição desigual pela sua obtenção, ou seja, os conflitos sociais. E assim como os territórios e os recursos neles contidos são vistos como "espaço a se ganhar" (MORAES, 1994, p. 37), as pessoas também passam a ser consideradas instrumentos dessa conquista. Em consequência, para resolver os constantes conflitos entre os indivíduos, foi preciso instituir um sistema de normas regulamentadoras para as associações iniciantes. Para Rousseau, esse procedimento teria partido dos poderosos com o fito de garantir e ampliar, se possível, suas posses. Os homens, em sua maioria, foram iludidos para que assinassem um pacto de direitos amplamente seletivos e desfavoráveis aos fracos. Porém, não se deve concluir, apressadamente, que a sociedade seja considerada má por essência, já que ela é um ente necessário face ao progresso do gênero humano. O que ela precisa é ser bem-formada, considerando como um dos seus pilares básicos a liberdade, fruto da justa igualdade entre as pessoas. E a formação de uma sociedade igualitária, logo, mais justa, estaria vinculada à formação moral dos seus membros, tarefa que compete, indiscutivelmente, à educação.

Ao produzir o Emílio3, Rousseau estabelece as bases de uma educação capaz de formar o verdadeiro homem, pois "apesar de tantos escritos", lembra ele, "a primeira de todas as utilidades, que é a de formar os homens, ainda está esquecida" (1999b, p. 4). Assim, formar o homem é a primeira tarefa, a segunda é formar o cidadão, "pois não se pode fazer os dois ao mesmo tempo". Refutando a educação praticada na sua época, que "só serve para criar homens de duas faces" (1999b, p. 13), o autor expõe aquilo que é, para ele, a maneira ideal de educar o ser humano, de formá-lo. Com efeito, descreve no Emílio a evolução de um aluno desde a infância até a vida adulta, sempre baseado na natureza como metodologia de ensino. Sua obra pedagógica é composta por um conjunto de métodos, princípios educativos que objetivam garantir ao educando uma formação individual solidamente virtuosa, para que ele pudesse enfrentar a sociedade tal como ela é. É por isso que Rousseau propõe educar o indivíduo de acordo com a natureza, para atingir posteriormente o social. Educando o homem (Emílio), a sociedade dificilmente seria capaz de corrompê-lo. Emílio seria, assim, um selvagem para viver nas cidades. Entretanto, seguindo a linha pedagógica proposta, Rousseau o deixaria enfrentar a vida social somente quando tivesse consciência suficiente para julgar as relações temerárias que se estabelecem não só entre seus semelhantes, mas também destes em relação ao próprio espaço vital. Percebe-se que a perspectiva antropológica rousseauniana contempla uma nova ruptura ontológica no ser humano, alterando sua natureza de forma dialética, segundo a qual os sentimentos naturais fossem conservados e transformassem sua concepção de todo, anteriormente existente enquanto existência individual, em uma ideia de parte indivisível de um todo maior, que é a existência social4. Esse é o papel que cabe à educação no pensamento rousseauniano: formar o homem de acordo com sua nova condição, permitindo-lhe harmonizar-se com os semelhantes, respeitando-os, ao mesmo tempo em que a consciência de uma evolução tecnológica se torna item elementar na formação moral, no intuito de, novamente, garantir a continuidade da espécie. Parece que Rousseau antevia a possibilidade da ocorrência de novos cataclismos provocados pelo próprio agir humano sobre o seu meio vital. As condições contemporâneas de vida em sociedade assim o revelam, como expressa Mendonça (1994):

Ao lado do crescente contingente populacional, o desenvolvimento da ideologia do consumismo pós anos 50 tem exacerbado as diferenças entre condições de vida, o que tem gerado extremos na qualidade da miséria humana e ao mesmo tempo a concentração de riquezas, ilustrada pelo aparecimento de verdadeiros magnatas. (MENDONÇA, 1994, p. 12)

As sociedades cujo modo de vida se enquadra na perspectiva "ocidental" tendem a considerar o "natural" como inferior diante do cultural, o que demonstra uma posição de radical estranhamento entre os seres humanos e a natureza. Rousseau se coloca na contramão dessa corrente, afirmando que tanto a ciência quanto as artes são maléficas diante da natureza humana originária. O curioso é que, embora emergindo no auge da Revolução Industrial (séc. XVIII), esse posicionamento vai de encontro à tese que sustentaria desde então todo o desenvolvimento do sistema capitalista: a dominação da "natureza" como meio de garantir o progresso da humanidade. Talvez o filósofo genebrino antevisse que, sendo o homem também natureza, dominá-la acarretaria (e justificaria) a dominação recíproca do ser humano pelos próprios semelhantes. Seu posicionamento apologético do convívio harmônico entre as espécies, ainda no final da vida, reflete a identificação profunda com a natureza:

As árvores, os arbustos, as plantas são o enfeite e a vestimenta da terra. Nada é tão triste como o aspecto de um campo nu e sem vegetação, que somente expõe diante dos olhos pedras, limo e areias. Mas, vivificada pela natureza e revestida com seu vestido de núpcias no meio do curso das águas e do canto dos pássaros, a terra oferece ao homem, na harmonia dos três reinos, um espetáculo cheio de vida, de interesse e de encanto, único espetáculo do mundo de que seus olhos e seu coração não se cansam nunca. (ROUSSEAU, 1995, p. 93)

Ao não considerar o homem social por origem, mas que acaba se tornando, artificialmente, durante o processo histórico, Rousseau contraria a concepção corrente, tão cara ao pensamento ocidental desde Aristóteles, que compreende o humano como um ser originalmente social. O ponto de vista rousseauniano também é compactuado por Freire (2000a, p. 28) quando este, discordando (em parte) de Aristóteles, afirma que "continuamos a ser, sim, aquilo em que nos tornamos: animais políticos".



Avanço tecnológico, desigualdade e meio

Baseado no até então exposto, cremos ter evidenciado que o fator determinante para o esgotamento dos elementos vitais da natureza e das condições de sustentabilidade da vida na terra é resultado das relações estabelecidas entre os homens, em sistemas sociais culturalmente heterogêneos. Por esse prisma há um deslocamento do foco, que passa a ser não mais a dinâmica ser humano x natureza e, sim, sociedade x natureza. Não esqueçamos de que o ser humano é e sempre será parte da "natureza", considerando-a como fonte, existência primeira de tudo o que há no mundo. O que ocorre é um gradativo afastamento entre os modos de vida natural e social, principalmente no que se refere às necessidades atuais e aquelas originárias da espécie. As necessidades foram sendo multiplicadas artificialmente sem que fossem avaliadas as possibilidades que o meio teria para provê-las. Ao colocar a questão ambiental nos termos de sociedade e não mais de homem, problematiza-se não apenas o viés tecnicista, mas também o aspecto político, o que salienta, de imediato, a responsabilidade do modo de produção capitalista e o seu objetivo maior - o lucro, elemento determinante na exploração do espaço em sua totalidade, incluindo homens e mulheres. Como afirma Casseti (1991):

À medida que a propriedade privada é desenvolvida (apropriação privada da natureza), o acúmulo de capital se torna conseqüência, o que além de responder pelo processo de degradação ambiental, responde pelo antagonismo de classe. (CASSETI, 1991, p. 25)

Com o advento e o aprimoramento das técnicas, cujo processo em si não pode ser responsabilizado pelo nosso modo de vida exploratório e poluidor, a humanidade foi gradativamente transformando o espaço vivido. Primeiro, como vimos, de forma lenta e sutil, imprimindo maior velocidade e profundidade à medida que as técnicas, entendidas como o "conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço" (SANTOS, 2002, p. 29), foram sendo aprimoradas. Os objetos contidos em nosso meio não mais se determinam por si mesmos, sendo valorados e organizados segundo a lógica da ação humana para o seu uso. E o meio (antes "natureza") acaba se constituindo num sistema de objetos em que tudo possui intencionalidade e valor.

Em síntese, no meio natural as relações humanas com a natureza eram pautadas pela "harmonia socioespacial (...) respeitosa da natureza herdada, no processo de criação de uma nova natureza" (SANTOS, 2002, p. 236). Com o advento da mecanização, a ação antrópica sobre o espaço (e não mais sobre a natureza em seu sentido original) tornou-se cada vez mais poderosa. Essa artificialização do modo de interferir no espaço, transformando-o, funda o que o geógrafo brasileiro denomina de meio técnico, que, por sua vez, inaugura o desequilíbrio ambiental:

Os objetos técnicos e o espaço maquinizado são locus de ações "superiores", graças a sua superposição triunfante às forças naturais. Tais ações são, também, consideradas superiores pela crença de que ao homem atribuem novos poderes - o maior dos quais é a prerrogativa de enfrentar a Natureza, natural ou já socializada, vinda do período anterior, com instrumentos que já não são prolongamento do seu corpo, mas que representam prolongamentos do território, verdadeiras próteses. Utilizando novos materiais e transgredindo a distância, o homem começa a fabricar um tempo novo, no trabalho, no intercâmbio, no lar. Os tempos sociais tendem a se superpor e contrapor aos tempos naturais. (SANTOS, 2002, p. 236)

Desde o vertiginoso desenvolvimento científico percebido após a Segunda Guerra Mundial, as técnicas vêm se tornando cada vez mais eficientes em relação à intencionalidade do mercado, seu gestor principal. Aliadas à capacidade informacional que multiplica e aprofunda a ação transformadora do espaço, globalizando as relações de produção e consumo, as técnicas transformam-se "no meio de existência de grande parte da humanidade" (SANTOS, 2002, p. 239). O local, subordinado ao global, passa a ser explorado economicamente por atores externos, justificando por que, não raro, o desequilíbrio socioambiental pode aumentar em paralelo ao crescimento econômico de um lugar. Ao mesmo tempo em que o capital globalizado se torna extraterritorial, os problemas ambientais gerados localmente respondem a intencionalidades distantes, o que Santos (SANTOS, 2002, p. 254) denomina a "desterritorialização do desastre ecológico". Toda essa dinâmica desnuda o problema socioambiental em sua radicalidade: a ideologia dominante propagando, contraditoriamente, o desenvolvimento ilimitado e o comportamento consumista, mesmo diante de uma base finita de recursos.

Diante do exposto, pode-se afirmar que atualmente não existe mais um espaço natural; mesmo as regiões mais remotas da terra, cujas condições de vida se mostram extremamente adversas, impedindo a habitação humana, são delimitadas territorialmente, mapeadas. Tal constatação sugere que o termo "natureza" seja ressignificado, pois vivemos num espaço repleto de objetos técnicos, o meio geográfico. Se mesmo elementos considerados "naturais", como um rio ou mesmo o ar, foram apropriados e revestidos de intencionalidade pela ação humana, acaba sendo incoerente continuarmos insistindo em duas abordagens usuais no momento: a primeira, que trata as agressões causadas pela sociedade em seu meio como "problema ambiental", e a segunda, complementar, que afirma ser preciso repensar e reordenar a ação do homem (sociedade) sobre a natureza. Ora, o termo "ambiental" escamoteia o aspecto social, que inclui, obrigatoriamente, as relações predatórias mantidas entre os próprios homens. Ao centralizar a análise dos objetos "naturais", esse discurso "nada ingênuo" promove um reducionismo na capacidade crítica daqueles que com tais problemas se revoltam após compreendê-los mais radicalmente. Por fim, despolitizado, provoca mais um "encurtamento" temporal, como se os problemas não fossem, assim como os homens, históricos. Como a realização concreta da história, adverte Santos (2002, p. 101), "não separa o natural e o artificial, o natural e o político, devemos propor outro modo de ver a realidade, oposto a esse trabalho secular de purificação, fundado em dois pólos distintos". Aliás, com relação à historicidade, cabe ainda salientar que a "natureza" em si é a-histórica - a história é memória, consciência temporal que os humanos possuem em relação aos fatos passados, que, aliados à capacidade de reflexão, possibilita relacioná-los com acontecimentos do presente, vislumbrando, por fim, o futuro. Como salienta Freire (2000a, p. 20), "a história que se processa no mundo é aquela feita pelos seres humanos".

Paulo Freire e a visão crítica da Educação Ambiental

Por toda a sua vasta obra, Freire sustenta a tese de que somos, concomitantemente, sujeitos e objetos do meio vital (geográfico). Logo, como agente determinante da própria transformação, cabe ao homem assumir a responsabilidade sobre seus atos. Nesse imperativo reside a "ética universal do ser humano", que, segundo Freire (1996):

Condena a exploração da força de trabalho do ser humano, que condena acusar por ouvir dizer, afirmar que alguém falou A sabendo que foi dito B, falsear a verdade, iludir o incauto, golpear o fraco e o indefeso, soterrar o sonho e a utopia, prometer sabendo que não cumprirá a promessa [...] é por esta ética inseparável da prática educativa, não importa se trabalhamos com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar. (FREIRE, 1996, p. 17)

Essa ética, ao longo do processo de convivência social, pode tomar dois caminhos: um que a ratifica e outro que a nega. Consequentemente, é pela primeira possibilidade que a educação precisa se pautar, não apenas em sua vertente socioambiental, mas como um todo. Interdisciplinar por essência, a educação denominada socioambiental5, de inspiração freireana, implica construir coletivamente uma consciência crítica acerca do presente vivido que promova "a denúncia de como estamos vivendo e o anúncio de como poderíamos viver". Tanto o que "poderá vir se retificações forem feitas nas políticas denunciadas como o que pode ocorrer se, pelo contrário, tais políticas se mantiverem" (FREIRE, 2000b, p. 118-19). É interdisciplinar, uma vez que a sua efetivação inclui a compreensão da história, o esclarecimento dos "porquês" mais radicais do real percebido, abrigando, ainda, uma visão global da inter-relação das forças econômicas, sociais, espaciais e ideológicas, entre outras, que uma análise como essa requer. Afinal, como assevera Santos (2002, p. 20), "uma disciplina é uma parcela autônoma, mas não independente, do saber geral".

Acreditamos que à educação socioambiental cabe promover, entre outros aspectos, a conscientização do quanto é importante a participação política de cada membro da sociedade no que diz respeito tanto ao uso do espaço público quanto do privado, em se tratando das normas que o regulamentam. Pois o que se processa em um ambiente privado pode repercutir no público, bem como o inverso, constatação que salienta a necessária responsabilidade da ação humana sobre todo e qualquer espaço, juntamente com os objetos nele contidos (em especial os chamados "recursos naturais"). Esse engajamento pode auxiliar na ampliação necessária do debate em torno dos problemas ambientais e sociais, evitando concentrá-los apenas na esfera governamental e nas ONGs, instituições que vêm se multiplicando nos últimos tempos.

A ação dos homens, mais precisamente da sociedade, em seu modo de produção e consumo sobre o meio geográfico, para Freire, é característica da sua própria natureza (o termo natureza usado no sentido de essência, definindo o humano como um ser de relação com os outros e com o mundo). Somos os únicos capazes de objetivar e agir sobre o nosso meio de forma intencional, transformadora. Entretanto, como vimos, a ação seguida de transformação em escala mais significativa está reservada a poucos indivíduos, enquanto a grande maioria resta imersa na ação ingênua, mecânica e controlada ideológica e politicamente pelos "opressores". Para haver uma ruptura com essa constatação, chamamos a atenção, a partir de Freire, para a Educação Problematizadora e sua possível ação conscientizadora.

A concepção problematizadora da educação é aquela que respeita a natureza do homem, percebendo-o como o ser (unicamente) capaz de objetivar o espaço que o cerca através da práxis, união entre a teoria (pensar) e a prática (agir), construindo sua própria leitura acerca do real. A ação tem correspondência na encarnação do dever ser constitutivo do humano, concretude da existência. Compreender a vida como evento em curso acentua a ação histórica, definidora de verdades e constituidora de sujeitos, em que participar se traduz em transformar, concomitantemente, a mim mesmo e ao entorno, lembrando que "para viver, preciso ser inacabado" (BAKHTIN, 2003, p. 11). Por sua vez, essa compreensão da realidade em permanente processo constitui no homem a sua consciência, que pode ser tal qual a realidade lhe é apresentada. Diante disso, a conscientização representa um aprofundamento da tomada de consciência através de um novo processo de apreensão da realidade em sua relação com o estar sendo daquele que a observa - o sujeito. Isso implica transcender o mero espontaneísmo de espectador passivo diante dos fatos, uma vez que são muitos os meios dispostos a trazê-los até nós, através de uma ação mediadora.

Sendo um conhecimento interno, a conscientização6 possui dois focos de ação: um em relação a si próprio e outro em relação aos demais seres humanos, considerando todos em seu meio de vida (meio geográfico). A primeira dimensão compreende o sujeito histórico, o "eu no mundo", capaz de trazer a realidade percebida para dentro de si e refleti-la, agindo coerentemente com um "pensar certo". Por estar voltada para si, nessa dimensão a conscientização é autoconhecimento. Porém é forçoso que esse conhecimento também ocorra na esfera dos outros seres humanos, do "eu" em relação aos outros, entendendo-os como semelhantes em sentimentos, necessidades, direitos e deveres na sociedade: é o reconhecimento ao mesmo tempo de si e do outro. Finalmente, complementando o ato de conhecer-se e reconhecer-se, a conscientização como um processo histórico de busca e de libertação encontra seu ápice na ação transformadora da realidade. Fiori (2002, p. 10), no prefácio da Pedagogia do Oprimido, aponta que a "conscientização não é apenas conhecimento e reconhecimento, mas opção, decisão, compromisso". E a ação que os seres humanos efetuam sobre o meio geográfico constitui um processo dialético de constante transformação mútua entre consciência e mundo. Por sua vez, sendo a consciência uma capacidade unicamente humana que possibilita conhecer e reconhecer, agir e transformar, é igualmente possível inferir um sentido de responsabilidade que resulta dos seus atributos. Freire (2000a) destaca que o homem tem na responsabilidade uma exigência fundamental para o exercício da sua liberdade, pois condicionado, e não simplesmente determinado, pode ser visto como um ser de decisão e de ruptura, logo, de intervenção no mundo.

A responsabilidade a que Freire se refere faz parte de um conjunto de valores indispensáveis para que este mundo, resultado da intervenção humana, venha a ser constituído de acordo com o sonho utópico: mais justo, livre da miséria e da opressão. A favor da vida, "entendida na totalidade da extensão do conceito e não só vida humana" e contra toda e qualquer prática que a negue. Quer seja "poluidora do ar, das águas, dos campos, ou devastadora das matas" (FREIRE, 2000b, p. 132).

5. Considerações finais

Do conjunto de reflexões desenvolvidas e ainda inacabadas, restamos convictos de que a superação dos dualismos enraizados culturalmente, como é o caso da formulação natureza-ser humano, dependerá da transformação das consciências. E essa é uma tarefa que cabe ao processo educativo, seja escolar, familiar, formal ou não-formal. Vimos que, através da Educação "Problematizadora", Freire estabelece princípios com o fito de romper com as injustiças sociais, historicamente construídas concomitantemente à evolução tecnológica e forçosamente apartadas de seu vínculo com as questões ambientais. Essa perspectiva educacional estrutura e fomenta a capacidade de luta e de indignação do oprimido em qualquer contexto, metas audaciosas que sugerem questionar em que medida podem ser alcançadas. A educação possui uma dimensão política que pretende, ao prover o indivíduo de condições intelectuais autônomas, despertar a perspectiva de reconhecer-se como sujeito ativo do todo, que é a sociedade civil.

Salientamos a emergência de novos questionamentos, reveladores da complexa teia de elementos envolvidos na análise da qual nos ocupamos. Com relação ao vigor da ação conscientizadora, será que homens e mulheres, vivendo o rigor de uma realidade miserável, sem perspectivas de futuro, conseguirão se reconhecer como atores dentro da sociedade? Que tipo de reação provoca no indivíduo humilhado diariamente a reflexão sobre si mesmo, sobre sua situação? E ainda, quais as vinculações ideológicas possíveis de serem desenvolvidas entre as questões ambientais e o problema da injustiça social? Afinal, homens e mulheres não dependem mais somente das possibilidades naturais para sobreviver. Vivem em função de condições artificiais, criadas pelos humanos, provocadoras de novas necessidades e dependências, não pouco geradoras de submissão e exploração mútuas.

Para além das muitas indagações suscitadas, constata-se que, para Rousseau, Santos e Freire, evolutivamente, homens e mulheres continuaram sendo oprimidos e explorados frente às relações entre suas necessidades (básicas e supérfluas) e as diferentes capacidades para satisfazê-las. Estruturou-se uma organização social que se sustenta exatamente nesta contradição: a coexistência da diferença (desigualdade) social, oprimidos e opressores, como aponta Freire. Fomentando a acumulação para poucos perante a miséria de muitos, continua repartindo desigualmente as riquezas socialmente produzidas, escamoteando o fato de que "as mesmas forças produtivas que produziram, na forma do sistema de mercado, a crise ecológica e a crise das relações entre os sexos são responsáveis por um desemprego em massa, crescente e global" (KURZ, 1997, p. 51). Toda essa dinâmica contraditória, embora hegemônica, provoca o desejo contínuo pela igualdade de condições de consumo. E essa igualdade não é, certamente, aquela de que falam tanto Rousseau quanto Freire, pois, na atualidade, corresponde ao sujeito do consumo, celebrado pela parcela dominante das relações de produção.

A partir de Freire, destacamos que conhecimento e reconhecimento, imbricados no processo de conscientização, são imperativos paralelos na construção de uma práxis cada vez mais coletiva acerca dos problemas ambientais e sociais em conjunto, provocados e sentidos no meio, entendido como espaço de vida em comum. Ao harmonizar indivíduo, sociedade e meio geográfico, a Educação Problematizadora revela-se a corrente educacional capaz de proporcionar a educandos e educadores uma nova forma de pensar os problemas ambientais, considerados então como socioambientais. Salientando o caráter ideológico do conhecimento e a necessidade de problematizá-lo, o educador pernambucano ratifica o pensamento de Santos (2002, p. 238), para quem a "união entre técnica e ciência vai dar-se sob a égide do mercado". Entendem ambos que o poder do capital implica transformações espaciais a partir de intencionalidades unilaterais, dirigidas por uma ótica exploratória e sem limites.

Consequentemente, a educação socioambiental, amparada pela concepção problematizadora, transcende o ecologismo preservacionista em sua visão reducionista dos contextos vividos, visando à construção de um novo paradigma, através da ruptura com a racionalidade do mercado. Preocupa-se em reverter os quadros de resignação de grande parte da sociedade diante dos desequilíbrios por ela mesma provocados, em um momento de globalização e urbanização crescentes. Para além de um ambiente ecologicamente equilibrado, sadio, a educação socioambiental que propomos contempla (como autêntico dever-ser) uma qualidade de vida digna para todos, sustentada por uma sociedade radicalmente justa e democrática, coerente com a unidade entre homem e natureza, a ser recontextualizada nos diferentes tempos e espaços vividos.

Referências

Educação em Revista - UFMG

Individuação, percepção, ambiente: Merleau-Ponty e Gilbert Simondon


Andréia A. MarinI; André Pietsch LimaII

I - Doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). E-mail: aamarin@ufpr.br
II - Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Professor Adjunto da Universidade Federal do Paraná (UFPR). E-mail: apietschlima@gmail.com


Introdução

Os estudos sobre percepção ambiental desenvolvidos no campo da Educação Ambiental têm buscado superar discursos que reproduzem posturas cientificistas e tecno-desenvolvimentistas próprias da modernidade clássica. As noções de ordem, estabilidade, previsibilidade, determinismo, certeza vêm dando lugar a noções como incerteza, indeterminação, dinamismo, criação, variação, atentando para as dimensões fluidas das realidades humanas e inumanas, além e aquém da supremacia e dos formalismos intelectualistas. Isso tem significado o abandono de abordagens segundo a qual a percepção é tratada como um processo puramente cognitivista ou como fenômeno de formulação de respostas diretas aos estímulos do meio, como aquelas desenvolvidas no campo da psicologia comportamentalista. Assim, os estudos de percepção têm trazido reflexões desenvolvidas no campo da geografia humana, da filosofia e da sociologia, desdobrando-se em várias propostas investigativas centradas na teoria da topofilia, nos resgates históricos das mudanças de paisagens, nas histórias de vida como reveladoras das formas de relação do ser humano com os lugares habitados e, até mesmo, nas construções imaginárias da dimensão cósmica inspiradas na ecologia profunda (MARIN, 2008, p. 209-210).

Essas buscas se abrem a um plano comum: o de superação de uma visão de mundo centrada nos formalismos da ciência e da técnica. Sugerem a insistência de uma fluidez vital que os discursos intelectualistas não poderiam suportar. A realidade resiste à redução do presente a alguns tipos muito limitados. A investigação do presente, particularmente das relações do ser humano com o mundo, pede a imersão do pensamento no avesso das formulações conceituais e explicativas dos fenômenos, de maneira que a percepção surpreenda-se como gênese pré-formal, pré-intelectual, pré-subjetiva, entre emergências da imaginação, dos sonhos, das variações de variações que os engendram. É nessa dimensão anterior às formas e aos sujeitos que a experiência estética do mundo pelo mundo pode nos afetar, antecedendo-nos e complicando-nos na invenção de suas expressões, relações, modos de viver, sentir, perceber.

É por meio da constatação da complexidade da percepção que chegamos à necessidade do estudo aqui proposto. Nossa intenção é buscar reflexões que nos ajudem a experimentar esse lócus de significação do mundo. Nesse sentido, chegamos à fenomenologia de Merleau-Ponty, pela qual podemos pensar a emergência da significação nos encontros com o mundo vivido a partir da experiência estética. Buscamos também passagens entre o pensamento de Merleau-Ponty e o de Gilbert Simondon, chamando a atenção para um mundo aquém e além das formas, para tecer considerações acerca da percepção e de sua individuação no campo da Educação Ambiental.

O estrato pré-intelectual do mundo: Merleau-Ponty

A verdade não "habita" apenas o "homem interior", ou, antes, não existe homem interior, o homem está no mundo, é no mundo que ele se conhece. Quando volto a mim a partir do dogmatismo do senso comum ou do dogmatismo da ciência, encontro não um foco de verdade intrínseca, mas um sujeito consagrado ao mundo". (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 6)

As reflexões de Merleau-Ponty expostas nos capítulos iniciais da primeira parte da obra O visível e o invisível repetem um tema já enunciado em Fenomenologia da Percepção: a retomada da percepção como fundamento possível do saber primordial sobre as coisas. É a partir desse pressuposto que a síntese intelectualista é problematizada.

Há em Merleau-Ponty um investimento conceitual capaz de desviar-se de modos de relação consciência-mundo que tendam a estabilizar no pensamento a dinamicidade do mundo. O filósofo defendeu com sua produção a imersão do pensamento no mundo vivido, pela superação de uma relação mediada pela representação, e a retomada do olhar primordial sobre o mundo.

Se tivéssemos que tentar elucidar o ponto central das discussões de Merleau-Ponty no capítulo inicial de O visível e o invisível, por analogia e usando um termo próprio de sua linguagem, talvez acertássemos em escolher a distinção entre a postura de sobrevoo e de interseção sujeito e mundo. O sobrevoo é representativo de um olhar sobre as coisas, de um ponto de vista exterior a elas que, portanto, pressupõe um distanciamento e uma postura de espectador do mundo. Ele é requerido pelo sujeito que ambiciona dar a definição das coisas por um esforço de reflexão que esgote todas as possíveis significações que elas podem conter. Tal condição constrói, assim, um interessante paradoxo que é o de falar de um mundo a partir de um provocado estranhamento a seu respeito. É esse paradoxo que Merleau-Ponty denuncia já na Fenomenologia da Percepção: "estamos presos ao mundo e não chegamos a nos destacar do mundo para passar à consciência do mundo" (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 26). Ainda que se queira fazer da consciência o potencial organizador do mundo, nada ela pode dizer desse mundo sem fazer a experiência de estar imersa nele. Essa seria a pretensão do pensamento científico: "a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las" (MERLEAU-PONTY, 1984a, p. 85). "O mundo da percepção, isto é, o mundo que nos é revelado por nossos sentidos e pela experiência de vida, parece-nos à primeira vista o que melhor conhecemos, já que não são necessários instrumentos nem cálculos para ter acesso a ele e, aparentemente, basta-nos abrir os olhos e nos deixarmos viver para nele penetrar" (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 1).

A dificuldade de lidar com o dinâmico e o pré-intelectual, com um mundo antepredicativo, faz da ciência e da reflexão um esforço de dar solidez e estabilidade às coisas, em representá-las, operando-se assim uma espécie de conversão do fato em abstração, o que justifica a posição de mediação da representação entre sujeito e mundo no pensamento clássico moderno.

A experiência da percepção primordial e o resgate da fé perceptiva

Há uma pretensão do intelectualista de que o entendimento humano, distanciando-se da exterioridade e voltando-se ao interior do sujeito, pela reflexão, possa, assim, definir a substância do mundo. Contra essa espécie de dogmatismo, Merleau-Ponty se coloca sugerindo a existência de uma fé originária no mundo, restituindo a importância da percepção primordial. Para Merleau-Ponty, o mundo não é apenas aquilo que penso, mas também o irrefletido. Nesse sentido, não é possível admitir uma experiência sempre subjugada ao crivo do juízo, como defendera Descartes, mas é preciso admitir a experiência original, que dispensa o formato predicativo, o que significa acreditar no estrato pré-intelectual dado na percepção.

Vemos as coisas mesmas, o mundo é aquilo que vemos - fórmulas desse gênero exprimem uma fé comum ao homem natural e ao filósofo desde que abre os olhos, remetem para uma camada profunda de "opiniões" mudas, implícitas em nossa vida. Mas esta fé tem isto de estranho: se procuramos articulá-la numa tese ou num enunciado, se perguntarmos o que é este nós, o que é este ver e o que é esta coisa ou este mundo, penetramos num labirinto de dificuldades e contradições. (MERLEAU-PONTY, 1984b, p. 15)

A tentativa de evitar essas dificuldades justifica a busca de uma anterioridade das operações do entendimento para mostrar que, já ali, o ser bruto1 se oferece na percepção primordial do mundo. Nesse momento, há uma cegueira da consciência que não subtrai o sujeito do mundo. Para além da sua consciência, há um sujeito "para quem existe um mundo" anterior à sua presença, um "espírito cativo" (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 342). Há, em síntese, uma adesão cega ao mundo para além da pretensão da consciência em dizê-lo como objeto, protagonizada pela ciência e pela reflexão.

É esse mundo antepredicativo que a consciência não suporta. A reflexão já pressupõe uma perda, já é um recorte desse espaço de indefinições. É preciso admitir, para Merleau-Ponty, que tal qual o olho, que, quando vê, deixa de ver a si mesmo vendo, a consciência também tem um ponto cego que desestrutura as pretensões do idealismo. Se há uma cegueira intrínseca na consciência, não é possível dar garantia da efetividade do cogito em dizer a verdade sobre a existência das coisas.

A busca de essências puras e sua síntese na abstração excluem o valor da faticidade do mundo, o que, em outros termos, significa negar o valor ontológico da experiência e a fé perceptiva como fundadora de nossa relação com o mundo. O pensamento sobre o mundo não deve, portanto, substituir a experiência do mundo.

Entre as perdas operadas pela fixação representativa e pela conversão reflexionante está o caráter dinâmico do que a representação acaba por dar como estável. A representação realiza algo como um "congelamento" da dinamicidade e da fluidez daquilo que representa, encerrando as variações do tempo e do espaço em uma condição estável. Resgatar a fluidez, o inacabado, o instável do mundo e do humano é um esforço traduzido na ressignificação do mundo vivido.

A expressão do olhar primordial sobre o mundo: criação e subjetividade

Um sujeito encarnado no mundo é a base desse esforço, cujo poder mais efetivo está, segundo Merleau-Ponty, na arte. É essa proposta, que ele apresenta já nos primeiros parágrafos de Conversas: "(...) um dos méritos da arte (...) é o de fazer-nos redescobrir esse mundo em que vivemos, mas que somos sempre tentados a esquecer" (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 2).

Na experiência estética e na expressão artística, a consciência abre mão de definir o mundo para deixá-lo falar. São as próprias coisas, do fundo do seu silêncio, que se deseja conduzir à expressão (MERLEAU-PONTY, 1984b, p. 16).

A percepção do primordial, do ser bruto, de difícil compreensão pelo racionalismo científico é a práxis elementar da experiência estética e da produção artística: "(...) ora, a arte, e notadamente a pintura, nutrem-se nesse lençol de sentido bruto do qual o ativismo nada quer saber" (MERLEAU-PONTY, 1984a, p. 86).

Assim como a percepção não é uma definição, a expressão não é uma representação. Ambas as constatações são claramente evidenciadas na experiência estética. Da mesma forma como a percepção não poderia se destituir da imbricação sujeito-mundo, o ato de expressão também não o pode. O próprio corpo do artista que faz o movimento da criação está, antes, imerso no mundo que quer significar: "o gesto de expressão, que se incumbe desenhar por si mesmo e fazer emergir o que visa, mais intensamente, portanto recobra o mundo" (MERLEAU-PONTY, 1984c, p. 162). O sujeito que cria é livre, ainda que situado no mundo da percepção. Nesse sentido, nem mesmo os pintores clássicos que pretendiam a objetividade puderam se ausentar do mundo: "no instante mesmo em que, olhos fixos sobre o mundo, acreditavam perguntar-lhe sobre o segredo de uma representação suficiente, exerciam sem o saber esta metamorfose de que a pintura mais tarde se tornou consciente" (...) "A percepção dos clássicos já estava imbuída de sua cultura (...)" (MERLEAU-PONTY, 1984c, p. 148).

Merleau-Ponty, como dito, reforça o papel da arte no despertar do mundo vivido e coloca a pintura como uma das formas de nos reconduzir "à visão das próprias coisas" (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 56): "a pintura seria, portanto, não uma imitação do mundo, mas um mundo por si mesmo" (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 58). Esse mundo dado na pintura não é, portanto, simplesmente uma cópia ou representação da coisa natural. Na criação, o artista, mesmo quando trabalha a partir de objetos reais, diz Merleau-Ponty (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 59-60), não evoca tal objeto, mas "fabrica sobre a tela um espetáculo que se basta a si mesmo". A captura desse espetáculo pelo observador se dá com as "indicações silenciosas" de todas as suas partes para um sentido inerente. Esse sentido não é unívoco e, assim como o próprio mundo, não é acabado (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 69). O pintor busca as coisas fora de si, os visíveis que lhe aparecem aos olhos, apresentando "a gênese secreta e febril das coisas em nosso corpo" (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 92).

O signo pictórico, em síntese, não atualiza a significação. Tal qual a percepção que o apreende não é uma definição, a expressão não é uma representação. Ambas as constatações são claramente evidenciadas na experiência estética.

A expressão estética confere a existência em si àquilo que exprime, instala-o na natureza como uma coisa percebida acessível a todos ou, inversamente, arranca os próprios signos - as pessoas do ator, as cores e a tela do pintor - de sua existência empírica e os arrebata para um outro mundo. Ninguém contestará que aqui a operação expressiva realiza ou efetua a significação e não se limita a traduzi-la. (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 249)

Na arte contemporânea, retoma-se a fluidez, a heterogeneidade e a espessura do mundo percebido, pela tentativa radical de indeterminação que não encerra seus motivos entre definições, não busca deles um conceito e, portanto, os expressa com as "deformações", "imprecisões" e espessuras com que se apresentam à percepção. A expressão torna-se, nesse sentido, a criação de um inédito que carrega, no entanto, o mundo assim experimentado esteticamente.

Em síntese, voltar ao mundo, sem o enrijecimento do conceito e da forma, é alcançar um espaço de indeterminações, um tecido pré-formal do qual podem se nutrir a ressignificação de âmbitos de vivência e a criação de novas subjetividades e de novas relações de alteridade.

Individuação e percepção: Gilbert Simondon

Parece haver um poderoso esquema de pensamento que atravessa todos os domínios: a crença na existência de indivíduos e na estabilidade desses indivíduos, das relações intraindividuais e interindividuais. Esse esquema induz o pensamento a uma atenção excessiva à individualidade constituída, amarrando-a a um princípio de identidade capaz de reunir multiplicidades em unidades supostamente reconhecíveis, não-divididas, estáveis. O problema herdado por nós, o da constituição do indivíduo, ou seja, o que faz com que uma substância ou natureza comum a vários se torne este ou aquele indivíduo2, encontra em Simondon uma resposta que se desvia daquelas respostas que sugerem a existência de uma substância ou "natureza comum a vários". O filósofo se perguntou pelas condições e pelos processos capazes de criar, entre outras, a própria noção de "substância" e de "natureza comum". Em lugar de preservar o objeto, o sujeito e, por conseguinte, alguma substância ou natureza comum que garanta a consistência de tal individualidade, o pensamento pode se livrar de certo hábito presente em parte considerável das ciências e acessar o não-objeto no interior dos "objetos", os não-sujeitos no interior daquilo que se convencionou chamar "sujeito". Esses não-objetos e não-sujeitos são, em Simondon, aqueles processos de individuação que os engendram, nome que o filósofo deu ao devir do qual o conhecimento é a menor parte.

Se "aquilo que define a individualidade é ao mesmo tempo aquilo que a distingue" (BARTHÉLÉMY, 2005, p. 30) torna-se desejável, nesta filosofia, pensar os indivíduos (assim como sujeitos e objetos) colocando-os em relação com sua gênese, remontando-os ao processo de individuação que os engendra e que faz deles atos de criação.

Poder-se-ia dizer, seguindo esta via de pensamento, que arte e filosofia se encontram em lugares incomuns, de vibrações, de ressonâncias mútuas, uma vez que compartilham de um problema comum, o da composição que as envolve e retoma em seus próprios processos criativos. Apreender a individuação em lugar do indivíduo constituído, a individuação antes da distinção sujeito-objeto, remontando o pensamento e o sensível ao campo de realidade virtual onde nada está definido, onde tudo ainda está por fazer. Eis um dos mais importantes projetos comportados pelo pensamento de Simondon, pela maneira nova pela qual retomou com seus próprios meios a problemática da individuação, criando um importante desvio de duas vias principais, o substancialismo e o hilemorfismo, pelas quais esta problemática foi pensada ao longo da história da filosofia. Ele se voltou contra certa tradição que, ao ligar indivíduo pronto e princípio de individuação, concebeu "o ser como consistindo em sua unidade, dada por si mesma, fundada sobre si mesma, inegendrada, resistente ao que não seja ela mesma" (via substancialista) e "o indivíduo engendrado pelo encontro de uma forma com uma matéria" (via hilemórfica) (SIMONDON, 2005, p. 23). Esforçou-se por abandoná-las em favor de uma concepção que subordinasse o indivíduo e a individuação à imanência, ao devir.

As meditações sobre o indivíduo e sua gênese, em Simondon, nos convidam a repensar o problema da individuação a partir dos sistemas metaestáveis, irredutíveis à ordem da identidade e da unidade sob a coordenação de um princípio de individuação capaz de "prefigurar a individualidade constituída, com as propriedades que ela terá quando constituída" (SIMONDON, 2005). Enquanto o esquema hilemórfico deixava escapar as condições energéticas da tomada de forma, condições elas mesmas que residem nos potenciais energéticos intrínsecos à forma e à matéria, o esquema substancialista era incapaz de explicar a gênese da substância. Ambas as perspectivas pressupunham a existência "de um princípio de individuação anterior à própria individuação, suscetível de explicá-la, de produzi-la, de conduzi-la" (SIMONDON, 2005). O filósofo criticou o fato de que, através dessas duas maneiras de colocar o problema da individuação, partiu-se da constatação da existência de indivíduos constituídos, apreendendo-os numa condição de clausura ao subordiná-los a um princípio de individuação pré-formado, exterior e transcendente à própria operação de individuação. Essa busca de um princípio que explicasse a gênese do indivíduo se orientou em direção à possibilidade de encontrá-lo e, com ele, dar conta da realidade do processo de individuação e da descrição de seu suposto produto final, o indivíduo constituído. Para ele a individuação estaria, ao contrário, subordinada àquilo que chamava de "ontogênese", que designaria, por sua vez, tanto o indivíduo quanto o processo que lhe dá origem, o devir do ser em geral. Essa ontogênese era primeira em relação à forma e à estrutura; era através dela que provinham não só a forma e a estrutura, mas o conhecimento sobre a forma e a estrutura. O pensamento deveria enfrentar a tendência de pensar o ser "passando pela etapa da individuação para terminar no indivíduo após esta operação" (SIMONDON, 2005, p. 24) ou de supor a existência de uma sucessão temporal que conceba o princípio de individuação como aquilo que opera a individuação mesma para terminar no aparecimento do indivíduo constituído. Seria uma questão de percorrer o caminho inverso e introjetar o princípio num campo de singularidades pré-individuais para, assim, conduzi-lo à sua ontogênese. O método: "apreender a ontogênese em todo o desenvolvimento de sua realidade, e conhecer o indivíduo pela individuação muito mais do que a individuação a partir do indivíduo" (SIMONDON, 2005.).

Simondon nos convida a pensar no indivíduo como sendo um revestimento precário de uma individuação que se produz nele, ela mesma buscando perguntas-respostas no interior de suas próprias metamorfoses. A individuação seria ativada por aquilo que ele chamava de "disparação", processo que estabelece comunicação entre disparidades de diferentes ordens de grandeza para dar lugar a uma dimensão nova e dessemelhante em relação aos materiais que entraram em comunicação neste processo.

Há disparação quando dois conjuntos gêmeos não totalmente superpostos, como a imagem retiniana esquerda e a imagem retiniana direita são apreendidos juntos como um sistema, podendo permitir a formação de um conjunto de grau superior que integra todos seus elementos graças a uma dimensão nova (por exemplo, no caso da visão, a sobreposição dos planos em profundidade). (SIMONDON, 2005, p. 205, nota 15).

Nesse exemplo de Simondon, a visão em profundidade se dá por uma operação que implica uma construção inventiva, ao produzir uma dimensão nova que as imagens retinianas isoladas não continham. Essa disparação é produção de diferença, ela é a resolução de um conflito pela construção de uma dimensão nova. Situada entre o que não é mais e o que não é ainda, a individuação é a aquilo por que um meio qualquer pode ser definido como produção das operações transformadoras (disparações) que garantem sua abertura ao devir.

Ao expor a filosofia à sua insistência na crença que constata a existência de indivíduos, Simondon acabou por destituir as noções de "indivíduo constituído" e de "princípio de individuação" de qualquer privilégio ontológico: "em lugar de apreender a individuação a partir do ser individuado, é necessário apreender o ser individuado a partir da individuação e a individuação a partir do ser pré-individual, repartido segundo as várias ordens de grandeza" (SIMONDON, 2005, p. 31-32). A individuação a ser experimentada como devir do ser e não como modelo de ser.

As noções de forma, matéria e substância passam, nesta filosofia, a dar lugar a noções como a de ressonância interna, transdução, informação e potencial energético. O indivíduo concebido por Simondon "não é todo o ser" e "resulta de um estado do ser em que ele não existia nem como indivíduo nem como princípio de individuação" (SIMONDON, 2005, p. 25), mas seria pressentido pelos sistemas de realidade em que a individuação se produz, nas passagens entre o "campo problemático" de realidade virtual, distribuindo-se em singularidades pré-individuais, em campos de resolução em que essas singularidades se orientam e cristalizam.

Ao desviar-se da oposição do ser e do devir (portanto, do princípio do terceiro excluído), cujo modelo é aquele do ser como substância e de onde o devir é banido, Simondon procurou separar sua filosofia da tendência do pensamento em conceber o ser como acabado e o fez separando-o do modelo da estabilidade, substituindo esse modelo pelo de "metaestabilidade". Em lugar do estado estável - entendido por ele como um estado de morte -, a movência dos "potenciais", das "tensões", da "metaestabilidade" (noção que se aparta do par estável-instável), da "transdução", da "invenção", colocando em evidência os potenciais de transformação nos sistemas supostamente estáveis. A suposição de que a operação de individuação utilize um princípio que lhe transcenda passa a ser substituída pela ideia de que a individuação contém seu próprio princípio, de que o princípio de individuação compõe-se como mediação inventiva (disparação) entre ordens de grandeza díspares ainda sem comunicação, transformando e atualizando singularidades, interditando desde o início a ideia de que a individuação corresponda à realização de um projeto semelhante a uma fabricação, que apenas utilize um princípio que prefigure as características do indivíduo a ser constituído. Encontramos-nos, ao ler seus textos, diante de um mundo em tensão permanente, mundo detentor de singularidades, composto de estrutura e energia, de variações: mundo intempestivo, mal dito por um princípio de unidade ou de identidade onde nenhuma transformação parece mais possível.

Em Simondon, a questão sobre quais as condições para que dois indivíduos dados possam ser colocados em relação é, portanto, deslocada para como os indivíduos se compõem pelas relações que se tecem, fazendo com que a pergunta pelo ser-individual seja deslocada para a pergunta pela composição. O ser será concebido como relação, toda a realidade, como relacional.

Uma relação deve ser apreendida como relação no ser, relação do ser, maneira de ser e não como simples relação entre dois termos que poderíamos conhecer de modo adequado mediante conceitos, porque teriam uma existência efetivamente separada. É porque os termos são concebidos como substâncias que a relação é relação de termos, e o ser é separado em termos porque o ser é, primitiva e anteriormente a qualquer exame da individuação, concebido como substância. (SIMONDON, 2005, p. 32)

O indivíduo, este "ponto singular de uma infinidade aberta de relações", é composto como "não-identidade do ser em relação a si próprio" (SIMONDON, 2005, p. 506; 32), como relação entre heterogêneos em heterogênese. Deixar-se envolver na atmosfera do pensamento simondoniano seria como remontar-se de uma suposta realidade feita a uma realidade em se fazendo, como seguir um filete d´água penetrando a argila endurecida, remontando-a ao estado de movência, para desidratá-la em seguida, dando-lhe uma nova significação. Se essa significação resultasse num tijolo singular, com suas microfrestas e acidentes irrepetíveis (a composição de um tijolo está entre os exemplos mais queridos por Simondon), o filósofo não teria deixado de notar que seu destino só poderia ser a poeira, matéria ativa a ingressar em novos processos de individuação. Esses instantes, entre a argila e o tijolo formado, entre o tijolo e a poeira, entre a poeira e novos processos de individuação, eram passagens que não escapavam às suas anotações. Em lugar de perguntar pela experiência (por exemplo, a de moldagem), seguir o conjunto dos processos (modulando-se com eles), das emergências de realidades, passando do ser individual às pré-individualidades que o compõem.

A composição da existência pré-individual, pressuposta por todos os outros estados de unificação, tensão, oposição, etc., tem por princípio genético a "diferença, disparidade, disparação" (DELEUZE, 2002, p. 121). Plano de imanência intuído, nos escritos de Simondon, também com a physis pré-socrática. A exigência da physis (e do pensamento de Simondon) seria a de se colocar num nível de realidade anterior às coisas e aos indivíduos, nesta superfície percorrida por um conjunto ilimitado de forças, e por materiais em sobrefusão com essas forças; plano sem relações de perfeição, em que a imanência se exprime pela dissolução das relações atualizadas num espaço-tempo ilimitados, anterior a toda distinção entre matéria, forma e substância. Individuação e pensamento se encontram nesse meio pré-individual e aí se desidentificam um no outro, para que um inédito possa surgir.

Nessa perspectiva, a própria pergunta pela individuação não nos conduz apenas às maneiras pelas quais a noção de "indivíduo" foi pensada ao longo de sua trajetória; a pergunta não nos remete somente à história da filosofia, mas ao paradoxo de que definir um processo de individuação implica definir aquilo que se subtrai de toda definição, já que a definição mesma é produção daquilo que a engendra, um processo de individuação (SIMONDON, 2005, p. 36). Esse processo não se deixa objetivar pelo conhecimento, pois este é produzido por aquele. O conhecimento da individuação (objeto para o sujeito que conhece) é, ele mesmo, individuação do conhecimento no sujeito: a individuação é, portanto, um domínio em que sujeito e objeto não mais se opõem. Projeto importante contido no pensamento de Simondon, a subversão do dualismo sujeito/ objeto, remontando este dualismo às individuações que o tornam possível, à produtividade dos encontros entre forças e materiais que o engendram - o próprio dualismo é concebido como pinçamento diferencial da natureza, processo de criação cujos artesãos são as forças e os materiais ativos implicados numa singularização. A percepção, como apreensão de formas por um "eu", dá lugar à percepção como estágio mutante e mutagênico de um processo de individuação que a precede, mas que se condensa numa subjetividade precária mergulhada num coletivo de heterogêneses. Contra todo o predeterminismo e o inatismo da Boa Forma, a percepção é produtora de sentido, de novas formas, de informação.

A percepção não é apreensão de uma forma, mas a solução de um conflito, a descoberta de uma compatibilidade, a invenção de uma forma. Esta forma que é a percepção modifica não somente a relação do objeto com o sujeito, mas ainda a estrutura do objeto e aquela do sujeito. Ela é susceptível de se degradar como todas as formas físicas e vitais e esta degradação é também uma degradação de todo o sujeito, pois cada forma faz parte da estrutura do sujeito. (SIMONDON, 2005, p. 235)

O vivente que percebe o faz "modificando sua relação com o meio, modificando a si próprio, inventando novas estruturas internas, introduzindo-se completamente na axiomática dos problemas vitais" (SIMONDON, 2005, p. 28). A percepção modifica não somente a relação do "objeto" com o "sujeito", mas ainda a estrutura do objeto e aquela do sujeito. Transforma-se, como todas as formas físicas e vitais. O "objeto" da percepção pode ser adequadamente compreendido na medida em que ele não é, justamente, um objeto: como viventes, nós temos negócios com o movente, com o escoamento temporal, com as variações de variações. Essa realidade mutante e mutagênica, em Simondon, não deve ser reencontrada. A realidade pré-individual deve ser construída pela/com sua própria materialidade, da qual fazemos parte. Assim, a percepção como produção de individuação inventa quadros espaço-temporais, devindo de gradientes primitivos, ordenando-os entre si, saltando de metaestabilidade em metaestabilidade. A distinção de a priori e a posteriori, repercussão do esquema hilemórfico na teoria do conhecimento, é substituída pela operação de mediação entre reais díspares que ligam a percepção ao pré-individual associado a ela, de onde ela retira seus potenciais de (re)invenção. A realidade virtual (ou campo de singularidades pré-individuais), fundamento de toda distinção, experimenta-se até mesmo numa individualidade que diz "penso, sinto, logo existo" ou de maneira menos lógica, mas não menos rigorosa, produzindo-se entre disparidades, maquinando simultaneidades (Klee), expondo a sensibilidade do mundo a meditar entre materiais e forças, excretando-se numa multiplicidade de gestos, de criações que podem "pensar em mim" através desta fuga em vermelhos, que, ao "tornar-se visível", descortina neste "eu" sua mais interna exterioridade com todas as suas tensões. Essa experiência sensível do mundo conosco não corresponderia a uma consciência reconhecendo-se num "eu", mas à participação do indivíduo na sua composição em meio a um tecido individuante, mutante, aberto, metaestável.

Em lugar de alguma unidade subjacente ou transcendente que faria a ligação entre o mundo vivido e a arte que dele possa emergir, ligações pelas diferenças, pela heterogeneidade mesma dos elementos em co-presença, entre forças e materiais diversos produzindo disparações, significações que surgirão "quando uma operação de individuação descobrir a dimensão segundo a qual dois reais díspares podem tornar-se sistema" (SIMONDON, 2005, p. 31), com o aparecimento de algo que não se reduz às dimensões em tensão, como uma ecceidade insinuando-se em quintina, emergindo entre as vozes de um quarteto vocal em Castelsardo, para desaparecer logo em seguida nas condições que fazem com que o futuro não seja apenas dedutível do passado, mas transduzido com o presente.


Se alguém nos perguntasse pela Educação Ambiental...

Subtrairíamos de nossa resposta as luzes, os modelos de homem (tão presentes nos discursos ambientais, colorindo numerosas pesquisas em Educação Ambiental), dos quais sejam dedutíveis o ideologizado, o bárbaro, o imoral, o mal-esclarecido, o ingênuo. Ora, esses modelos alimentam-se de pragmatismos pedagógicos animados por dogmatismos cientificistas (repercussões do esquema hilemórfico na pesquisa educacional). Deles irradiam as mais diversas polifonias moralizantes, normativas, doutrinárias, que, no lugar de operarem por aberturas e germinações de inomináveis, configuram tensões negativas, prontamente reconhecíveis e imediatamente associadas ao ambiente e ao futuro: catastrofismos, irreversibilidades, privações, erros.

Ao movimento e à significação. Aquém e além dos formalismos e dos finalismos. A uma Educação Ambiental amoral, não-imperativa, indeterminada, acolhedora dos disparates e da criação. Que reivindique para si alguma leveza e fluidez. Do pré-formal, do pré-individual. Que desestruture as operações corriqueiras do entendimento e, quem sabe, leve ao colapso seus próprios instrumentos descritivos. Para acessar outras nuances do mundo, o sensível, o não-dito, o invisível, o impossível, o impensado, em que criação e emoção vibram em dissoluções de formas e consistências, em luminosidade e fluidez. Pollock por Ribon:

(...) produzindo a imagem de uma luta entre a matéria e a forma, a desordem e a ordem, a liberdade errante e a regra, pinta o momento flutuante em que o caos, ainda não desaparecido, começa a se tornar cosmos; em contrapartida, como é ao mesmo tempo violentamente retiniana e táctil no fulgor dos seus trajetos, nos jorros de cores, nos seus feixes ou enlameados de luz, essa pintura penetra de repente em nosso corpo inteiramente tomado num espaço turbilhonante. [...] Nesse espaço sem centro, heterogêneo, sem base aparente, sem formas estáveis, o pintor mimetiza o nascimento de um mundo novo. (RIBON, 1991, p. 75-76)

A emergência do novo, também com a Educação Ambiental e com as pesquisas neste campo de conhecimento, é feita de processos de singularização não-totalizantes, abertos, incertos, de decomposições, de transformações. Tudo ao mesmo tempo. Ao fundo, no meio, no interior e através, os dinamismos, os devires. Uma desestabilização afetiva pode descarrilar tudo. Mais uma vez.

Referências

Educação em Revista - UFMG

Os maiores mitos sobre o cérebro dos adolescentes

Nas últimas duas décadas, os cientistas conseguiram mapear as mudanças neurais verificadas ao longo desse período central do desenvolvimento...