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terça-feira, 6 de março de 2012

O poder das imagens

Ilustrações ganham cada vez mais importância nos livros infantojuvenis e apontam para uma renovação na literatura

Laura Aguiar


A JANELA DE ESQUINA DO MEU PRIMO de Ernst T. Hoffmann: a partir do diálogo entre dois meninos sobre uma praça, o leitor acompanha o vaivém de pessoas ora a partir de aspectos particulares, ora em sua totalidade (caso da imagem acima, uma a visão panorâmica do local)

"Para que serve um livro sem figuras nem diálogos?", perguntou-se Alice, entediada, pouco antes de decidir seguir o Coelho Branco até o País das Maravilhas. Quase cento e cinquenta anos depois (o livro de Lewis Carroll foi publicado pela primeira vez em 1865), as imagens continuam centrais para a conquista de jovens leitores - tanto que, ao longo dos últimos anos, elas vêm desempenhando papel cada vez mais relevante nas narrativas infantojuvenis.

A importância da ilustração e do projeto gráfico, constatável empiricamente em qualquer visita às livrarias, é confirmada por editores e pesquisadores, que apontam a diferença entre o livro com ilustração (aquele em que a imagem é apoio, apenas reforçando o que diz o texto) e o livro ilustrado, no qual ou se prescinde da palavra escrita ou ela atua juntamente com a ilustração.

O livro ilustrado - também chamado de livro-ilustrado, livro de imagem ou, em Portugal, álbum - não é, em si, uma novidade. Encontram-se antepassados seus nos séculos 18 e 19. O livro inclinado e O livro do foguete , de Peter Newell, exemplos de interação entre conteúdo e suporte, foram publicados pela primeira vez em 1910 e 1912, respectivamente; Maurice Sendak lançou Onde vivem os monstros , um dos clássicos do gênero, em 1963. No Brasil, Ziraldo publicou o famoso Flicts em 1969; em 1976, foi a vez de Juarez Machado apresentar o seu Ida e volta , e desde a década de 1980 Eva Furnari e Ângela-Lago vêm produzindo livros com pouco ou
nenhum texto.

O que há de novo, hoje, é a quantidade de livros de imagem disponíveis (um fenômeno que se insere, e é importante destacar, em um crescimento geral da indústria do livro infantojuvenil) e o status que eles vêm conquistando. Recentemente, esses deixaram de ser apenas porta de entrada para o universo das letras e tornaram-se reconhecidos como literatura. O ilustrador, agora, não é apenas um profissional contratado para prover as "figuras" de uma história alheia: ele tem o mesmo peso do escritor, cria com ele ou é o único autor do livro. Na esteira desse movimento, o livro de imagem vem se consolidando também como campo de estudo nas universidades.

Que livro é esse?
O crítico e ensaísta inglês Peter Hunt afirma, em Crítica, teoria e literatura infantil (Cosac Naify, 2011), que o livro ilustrado é a única área da literatura infantil que evoluiu do "texto realista clássico para o genuinamente descontínuo e interativo". O fato é que, por sua própria essência, o gênero se presta à experimentação e à inovação, tanto em termos de conteúdo como de suporte: de um lado, ele propicia projetos inovadores como formatos inusitados, diferentes técnicas de desenho e uso criativo de tipologias; por outro, os recursos visuais permitem a criação de narrativas não lineares, abertas a várias interpretações.

Por essa riqueza de possibilidades, vem se diluindo a ideia de que o livro de imagens se dirige apenas às crianças menores, não alfabetizadas, pois ele pode permitir diferentes níveis de compreensão e de fruição, conforme a maturidade do leitor. Outro elemento contribui para isso: os livros muitas vezes se dirigem também ao adulto que os apresenta à criança. Em um artigo publicado em 1996 na revista espanhola Peonza , Teresa Colomer, da Universidade de Barcelona, lembra que muitos dos livros de imagem infantis trazem referências implícitas a dados culturais do mundo adulto, levando em consideração o mediador da leitura. Dessa forma, "o gênero que parecia destinado a ser o mais simples da literatura infantil é o que produziu as maiores tensões sociais e estéticas, porque aproveitou os recursos de dois códigos simultâneos e implicou duas audiências distintas".

Os exemplos de livros que transitam pelas fronteiras de idade se multiplicam. Um deles é a premiada trilogia composta pelos livros Onda, Espelho e Sombra (Cosac Naify), da sul-coreana Suzy Lee, narrativas que se desenvolvem sem palavras, baseadas apenas no traço a carvão, com economia de cores. A vida secreta das árvores , da WMF Martins Fontes, apresenta ilustrações e projeto gráfico requintados - com elaboradas gravuras de artistas indianos impressas em silk screen sobre papel artesanal - possíveis de serem fruídos como livro de arte, ao alcance de leitores de idades variadas.

Quando o livro ilustrado não apresenta uma narrativa, uma história, a determinação da idade do leitor torna-se ainda mais imprecisa. Não é difícil admitir que Zoom , do húngaro Itsvan Banyai, lançado no Brasil pela Brinque Books em 1995, seja tão atraente para uma criança quanto para um adulto: à medida que se viram as páginas, percebe-se que cada imagem apresentada é parte de um todo maior, como se o leitor estivesse reduzindo o zoom em uma fotografia.

A mesma lógica segue A janela de esquina do meu primo (Cosac Naify, 2010), do alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann. Na obra, de forte diálogo com as primeiras experiências cinematográficas, o leitor tem contato, por meio da observação de uma praça, ora em sua totalidade, ora a partir de alguns de seus aspectos particulares, com os grandes temas da urbanização nas emergentes metrópoles da virada do século 19 para o 20. Nesses exemplos, a multiplicidade de possibilidades de leitura torna desimportante a determinação da faixa etária para o leitor. Algumas editoras resistem a indicar a idade ou a série ideal para os livros de seu catálogo infanto juvenil; outras consideram que as indicações são referências úteis ao professor e devem ser tomadas como sugestões.

Um aprendizado do olhar
Engana-se quem acredita que a leitura de imagens seja puramente instintiva ou fácil; compreender uma narrativa visual pressupõe uma alfabetização do olhar. Aprende-se a ler, mas também a ver - e o papel do educador é, também, mostrar como decifrar os códigos visuais, muitas vezes extremamente sofisticados. Infelizmente, nem sempre a escola sabe trabalhar com os livros de imagem. "Falta quem faça a tradução daquilo que diz a academia para a prática do professor, do bibliotecário, mesmo dos pais", diz João Luís Ceccantini, professor da Faculdade de Letras da Unesp de Assis. Os educadores subaproveitam as possibilidades de leitura, as narrativas paralelas que podem se desenrolar a partir das tensões e diálogos entre o texto e a imagem. Vanessa Gonçalves, da Cosac Naify, conta que a ansiedade dos educadores por uma bibliografia específica resultou na criação de uma linha dedicada ao tema.

Talvez não seja exagero dizer que tanto o olhar da criança quanto o do professor precisam ser educados ou despertados. Trabalhar a imagem é, em um primeiro momento, compreender o que diz o projeto gráfico, as cores, as técnicas e o estilo das ilustrações. O já citado Onde vivem os monstros traz uma longa série de "recados visuais" que, ao serem explorados, permitem um aprofundamento na compreensão do livro: as ilustrações se inserem em quadros que aumentam de tamanho à medida que a imaginação toma conta da personagem, até que rompem os limites e tomam conta de toda a página; o papel de parede do quarto se dilui, transformando-se no mundo "selvagem" em que a aventura se desenrolará (um exemplo clássico de imagem que oferece uma informação que em nenhum momento é dada pela palavra).

Ao mesmo tempo que pressupõe um aprendizado de leitura, o livro ilustrado traz também uma possibilidade de refinamento da percepção artística. O desenvolvimento técnico que resultou no grande aumento da oferta pode ter a contrapartida de trazer ao mercado livros calcados em estereótipos visuais e verbais. Em boletim da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Teresa Colomer aponta para a existência de obras "desequilibradas", com "um texto banal devorado pela imagem e outros tantos que escondem sua falta de elaboração, transferindo para o leitor a responsabilidade de dar-lhe sentido". Ceccantini concorda que entre os livros colocados nas estantes encontram-se obras banais, descartáveis, de intenção meramente didática. O risco, claro, é entrar no terreno pantanoso do gosto, ao definir o que é um "bom" ou um "mau" livro de imagem - de resto, uma tarefa tão delicada quanto a de definir o que é um bom livro infantil ou, simplesmente, um bom livro. O suporte teórico e uma familiaridade com os livros, seus códigos e objetivos, é o que dará ao educador os parâmetros para essa avaliação.

Leitor, espectador, jogador
Em 2005, o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), instituído em 1997 pelo Ministério da Educação, passou a incluir a categoria "livros de imagem" entre as obras que seleciona para distribuição nas escolas da rede pública do país. O fato, para Júlia Moritz Schwarcz, da Companhia das Letrinhas, contribuiu significativamente para o incremento da edição de livros ilustrados de alta qualidade no Brasil. Certamente, a inclusão da categoria foi também um reflexo de um movimento editorial que já vinha acontecendo, numa via de mão dupla. Pode-se relacionar o crescimento desse segmento à emersão de novas gerações nascidas e formadas sob o império da imagem?

É fácil argumentar que o interesse das crianças pela ilustração é atemporal, como atesta a própria fala da Alice de Lewis Carroll. Houve, porém, um longo caminho até que a ilustração pudesse ganhar prestígio equivalente ao do texto. Até pelo menos a metade do século 20, as ilustrações das obras literárias infantis foram secundárias, quase desprezíveis - algo como um bônus cuja ausência, se empobrecia esteticamente o livro, não comprometia seu entendimento nem seu interesse. O livro-ilustrado, caracterizado pela concisão ou pela ausência de texto, não podia ser visto com seriedade em uma cultura que sobrevalorizava a palavra. Não é mais esse horizonte que se abre aos leitores de hoje, de qualquer idade. Não apenas o uso de códigos visuais, mas a rapidez e a fragmentação das narrativas, a simultaneidade de ações, a metalinguagem - recursos típicos de grande parte dos atuais livros de imagem - parecem vir ao encontro dos interesses de crianças acostumadas ao universo visual e interativo das animações, da internet e dos games . O mercado editorial, assim, a um só tempo responde à demanda dessa "nova criança" e ajuda a forjá-la.

A intimidade da criança de hoje com a imagem pode resultar em algum conforto no manuseio do livro-ilustrado, mas não a dispensa daquele processo de educação do olhar. Ao adulto cabe ajudá-la na decifração dos códigos visuais, evitando seu consumo rápido; em outros termos, é preciso propor atenção aos detalhes, contemplação - tempo e reflexão, enfim, o que vem na contramão dos estímulos atualmente oferecidos à infância.

Apesar da imensa quantidade de recursos gráficos disponíveis, o livro de imagem é um exercício literário. Não deve ser confundido com os livros-brinquedo, aqueles que, concebidos para aproximar a criança do objeto "livro", podem acabar por distanciá-la, porque não entregam o que ele tem de essencial - o seu conteúdo. "É algo como colocar a verdura escondida no feijão", compara Júlia Schwarcz. "Escondido" sob a forma de brinquedo, aquilo que faz a essência de um livro infantil - uma narrativa contada por palavras, imagens ou pelo entrelaçamento de ambos - nunca chega ao potencial leitor.



EM ZOOM de Itsvan Banyai, cada imagem apresentada é parte de um todo maior, o que faz com que o leitor tenha a sensação de estar reduzindo o zoom em uma fotografia


Interferências tecnológicas
A exploração dos recursos visuais na literatura infantil conduz ainda a uma nova fronteira: a dos livros eletrônicos, ou e-books , território em que as editoras do Brasil e do mundo parecem ainda tatear timidamente. O desafio que se coloca a editores, escritores e ilustradores neste momento é o de usar as possibilidades da tecnologia sem transformar o livro em um longo game , num livro-brinquedo sofisticado. A Companhia das Letrinhas publicou um livro-ilustrado que aborda, com ironia, essa questão: É um livro , de Lane Smith, mostra ao leitor os encantos do objeto que não rola, não tuíta, não desconecta.

Curiosamente, um dos primeiros livros eletrônicos infantis a alcançar sucesso mundial é a versão para iPad de Alice no País das Maravilhas , vendida pela iTunes Store, que coloca movimento e cor nas ilustrações feitas por John Tenniel para a primeira edição. Alice cresce, encolhe, faz barulho, cai, derruba coisas. O "livro" pode ser chacoalhado, virado de ponta-cabeça, lido de trás para a frente. É um livro? É um jogo? É um estímulo ou um desserviço à leitura? As opiniões se dividem; o debate ainda está começando.
A menina que se aborrecia com histórias sem figuras está mais contemporânea que nunca.

Para saber mais

Livros
O amor e o diabo em Ângela-Lago, de André Mendes (Editora UFMG, 2007)

Como usar a literatura infantil na sala de aula, de Maria Alice Faria (Editora Contexto, 2004)

Crítica, teoria e literatura infantil, de Peter Hunt (Cosac Naify, 2010)

Era uma vez uma capa, de Alan Powers (Cosac Naify, 2008)

Ilustração do livro infantil, de Luís Camargo (Editora Lê, 1995)

Literatura infantil na escola: leituras do texto e da imagem, de Regina Yolanda (Instituto Teotônio Vilela, 2001)

Para ler o livro ilustrado, de Sophie Van der Linden (Cosac Naify, 2011)

Na internet (blogs e sites sobre literatura infantil ou de ilustradores, com reflexões sobre o ofício)

www.angela-lago.com.br
www.dobrasdaleitura.com
www.nelsoncruzilustrador.blogspot.com
www.ricardoazevedo.com.br
Revista Educação

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A concepção de infância na literatura infantil


A concepção de infância na literatura infantil

Maria Cristina Rosa WenzelI; Sueli Soares dos Santos BatistaII
IMestra em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp e professora da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação de Sorocaba. E-mail: criswenzel@aol.com
IIDoutora em Psicologia escolar no Instituto de Psicologia da USP. E-mail: suelissbatista@uol.com.br


Antes tratadas com indiferença ou com cuidados excessivos, a partir do advento da burguesia mercantil, as crianças passaram a ser objeto de discursos que tentam convencer os pais e a sociedade a buscar um comportamento mais racional no trato com elas.

Segundo Ghiraldelli Jr.1, o filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) foi um dos inauguradores de uma concepção de infância que visava a criticar a indiferença ou paparicação em relação às crianças até então. Do século XVI ao XVIII, tivemos os momentos que estão na base da construção da idéia de infância como uma época fundamental do ser humano. Preservá-la, fazê-la acontecer, evitar interferências desastrosas passaram a ser os objetivos de uma escola reorganizada para ser o mundo da criança. A sociedade era, então, educada pela legislação liberal, marcada pelas cartas de direitos humanos, entre elas, a dos Direitos das Crianças.

Emílio ou da educação foi publicado em 1762, um mês após Contrato social, e como o título já afirma, é um tratado de educação, sem contudo ser propriamente um tratado de pedagogia. No Prefácio, Rousseau2 deixa claro que entende por educação a formação do homem, tarefa que considera esquecida e urgente. Ele parece acreditar que está inaugurando um campo do conhecimento pouco explorado: o saber sobre a infância. Embora cite inúmeras vezes os trabalhos de Locke, Montaigne e Buffon, Rousseau crê estar dando início a um novo ramo do conhecimento.

Com o advento da Revolução Industrial, entretanto, as crianças foram crescentemente colocadas no mundo do trabalho. A pedagogia foi convocada a harmonizar esses mundos: o da escola — em que a ênfase estava nos bens culturais e sua fruição — e o do trabalho. Assim é que quase todas as tendências do pensamento pedagógico laico do início do século XX advogam algum tipo de união entre ensino e trabalho. São exemplos as reflexões de Durkheim, Dewey e Gramsci3.

O discurso científico sobre a infância articulou-se ainda mais no século XIX, e passou a ser objeto de pesquisa da psicologia, da sociologia, da medicina em geral e da puericultura em particular. Para a criança, ser em formação, passou a existir um discurso científico e um mercado específico a fim de ajudá-la a crescer, a ser alguém.

Essa ênfase na infância foi gradualmente tomando o espaço e o tempo de ser criança. Tanto que já não se pode falar de criança como ser genérico, essencial, desvinculado das relações de produção e dos saberes inerentes a essas relações. Quem deu o xeque-mate à noção moderna de infância foi justamente a exaltação que se fez dela, cercando-a de um arsenal que, tendo em vista a aproximação da criança, afastou-se dela a tal ponto que, atualmente, é possível falar que vivemos na Era da Adolescência. Verifica-se uma ampliação do tempo adolescente, fato analisado por Philippe Ariès, que chamou o século XX de século da adolescência. Nele, a adolescência passou a ser a idade favorita. As crianças eram estimuladas a deixar logo o mundo infantil assumindo para si as preocupações do mercado. Vivemos, então, desde o século XX, uma infância sem infância no sentido tradicional.

O mundo social, no qual o indivíduo se insere, apresenta-lhe, a fim de se perpetuar, sonhos, valores, normas, regras, leis, limites de toda ordem que são internalizados; grilhões que o homem assume conscientemente, já que são legados do viver em sociedade, ou inconscientemente, pelo processo de inculcação, de coerção. Em suas etapas de desenvolvimento, não existe uma redoma que isole o indivíduo dos valores, das engrenagens sociais. O imaginário infantil sofre as interferências dos valores e representações histórico-sociais, da moral coletiva de sua época, ou seja, o que a criança fantasia não é desvinculado do real, pois fantasia e real existem num processo de interdependência. Portanto, não existe um mundo à parte da criança, sendo que a produção de objetos culturais única e exclusivamente voltados para as crianças busca muito mais atender aos interesses do mercado que propriamente satisfazer as necessidades infantis genuínas.

Foi a partir do século XIX que escritores e ilustradores se dirigiram cada vez mais à criança por intermédio da mediação ilegítima das suas próprias preo-cupações, das modas predominantes e dos discursos pedagógicos. Benjamin analisa o percurso histórico da literatura infantil e conclui que nada é mais improfícuo que a tentativa febril de produzir objetos — material ilustrativo, brinquedos ou livros — supostamente apropriados às crianças. Para ele, todo esse arsenal pedagógico, bastante útil para o mercado editorial e a indústria do brinquedo, pode colocar-se como um obstáculo entre a criança e o mundo a ser explorado, experimentado, justamente por dificultar a capacidade imaginativa. A criança não precisa mais imaginar. Os brinquedos brincam por ela; os livros, adaptados ao que seria sua percepção, percebem por ela. Ao privilegiar a moral da história dos contos e fábulas, deixamos de considerar que "as crianças se divertem muito mais com os animais que falam e agem como os homens que com os textos mais ricos de idéias"4.

Mas não se trata apenas da ausência da criança na produção feita especialmente para ela. É necessário denunciar como já não se pode mais falar de imaginação sem considerar como as condições objetivas produzem condições subjetivas e uma percepção historicamente diferenciada. Benjamin suspeita da produção cultural para a criança, em particular dos livros infantis, por trabalhar com uma noção idealizada de infância, quer por sua formulação cientificista, quer por sua visão aistórica.

Vale a pena citar a preocupação de Drummond sobre o tema:

O gênero literário infantil tem, a meu ver, existência duvidosa. Haverá música infantil? Pintura infantil? A partir de que ponto uma obra literária deixa de se constituir em alimento para o espírito da criança ou jovem e se dirige ao espírito adulto? Qual o bom livro de viagens ou aventuras destinado a adultos, em linguagem simples e isento de matéria de escândalo, que não agrade à criança? Observados alguns cuidados de linguagem e decência, a destinação preconceituo-sa se desfaz. Será a criança um ser à parte, estranho ao homem, e reclamando uma literatura também à parte, ou será a literatura infantil algo de mutilado, de reduzido e desvitalizado, porque coisa primária, fabricada na persuasão de que a imitação da infância é a própria infância? Vêm-me à lembrança as misturas de árvores com que se diverte o sadismo botânico dos japoneses: não são organismos naturais e plenos, são anões vegetais5.

A literatura infantil não estaria de tal forma desinfetada, segura, mas perfeitamente insípida e desprovida de interesse? Perroti analisa como o adulto julga o que deve ou não ser lido pelas crianças:

É comum ouvirmos, por exemplo, coisas do tipo: a criança sente-se feliz, ameaçada ou angustiada ao ler obras deste ou daquele gênero; a criança necessita deste conteúdo; a criança deve ver isto ou aquilo, pois... E lá vem justificativas6.

Segundo ele, as justificativas, em geral, revelam muito mais nossos preconceitos, como também percebeu Drummond, que possíveis necessidades das crianças. Mas o que são essas necessidades senão as forjadas pela indústria cultural? Ao defendermos os interesses de consumo das crianças não estamos sendo cúmplices dos privilégios que a sociedade reservou aos adultos? Privilégios de toda ordem: classistas, sexistas, etários, intelectuais. O oprimido não tem consciência dessa opressão, submete-se a ela, pois é considerada natural. Processo de naturalização forjado pela indústria cultural, por meio do aparato da produção para crianças e jovens, onde se produzem e padronizam-se os gostos e os desejos através de linguagens e conteúdos banalizados, imbecilizados.

Abramovich, em sua crítica à produção cultural para crianças, confessou estar cansada das saudades do campo, da beleza das borboletas e do desabrochar da primavera presentes nos livros infantis, temas esses distantes da realidade atual. Também mostrou irritar-se com aqueles personagens infantis que são "pequenos anões a dizer adultezas, a discursar sobre o que nunca vivenciaram... absolutamente irritantes pelo nada que têm de infantis..."7. Podemos dizer que esses personagens da literatura infantil, abomináveis para Abramovich, não revelam apenas uma falha do escritor. Comprovam também uma face da nossa realidade: o que as crianças querem é não ser crianças, os pequenos anões a dizer adultezas não estão só nos livros infantis. Estão em toda parte: nos programas de TV como Gente inocente, nas escolas, nas ruas, nos lares... A adolescência como padrão cultural para todas as faixas etárias não representa uma maturidade precoce para as crianças como se costuma pensar. A adultização delas não significa que disponham atualmente de mais recursos para se colocar no mundo e maiores condições de lidar com os problemas da vida adulta. E muitas delas, crescendo tão rápido, o que podem esperar? As denúncias constantes de pedofilia e violência doméstica, a precocidade no uso e abuso de drogas lícitas e ilícitas, a ansiedade dos pais em preparar os filhos cada vez mais cedo para o mercado de trabalho, a gravidez na pré-adolescência, o brincar administrado em todos os setores da vida social mostram o quanto nossas crianças são infelizes.

Mas essas considerações desgostosas que fizemos são realmente desagradáveis demais para que possam comparecer de maneira crítica no que é produzido para as crianças como resultado de suas necessidades. O rótulo de infantil, infanto-juvenil, juvenil deve ser analisado com cuidado. Souza, pesquisando sobre literatura juvenil, constatou que os livros assim catalogados pelas editoras não são aqueles em que menores de rua são personagens principais ou tenham algum destaque. Ou seja, são livros feitos sob medida para jovens de classe média, escolares, mais estruturados econômica e socialmente. Mas esses livros, segundo a autora, apresentam personagens conformistas e uma visão igualmente conformista do mundo: "Conformam-se aos limites do que se considera adequado para se expor em livros para jovens escolares, candidatos a vencedores"8.

Há um outro dado importante ressaltado por essa pesquisadora que, obviamente, também vale para a literatura infantil. Ela analisa o fato de que a literatura juvenil se dirige ao jovem escolar e ao seu professor, procurando ocupar um lugar vazio: o espaço da leitura ausente tanto na experiência do aluno quanto do professor. Portanto, a leitura dos livros sob medida tanto para crianças quanto para jovens adequa-se à falta da experiência da leitura. A ausência de imaginação criticada por Abramovich9 na literatura infantil é sintomática da ausência de uma experiência viva, aquela tão esquecida e já substituída pela experiência virtual, digital, televisiva, entre outros simulacros de experiência.

TEXTOS LITERÁRIOS NO PROCESSO ENSINO.APRENDIZAGEM

A literatura didática e a literatura moralizadora manifestam certa desconfiança para com a ficção. Por que os adultos impõem à ficção transmitir um ensinamento? A ficção responde a uma necessidade de não se contentar com sua própria vida; assemelha-se a um brinquedo. Ela não deveria abrir todas as espécies de portas, permitir ao indivíduo imaginar outras possibilidades de ser, para que, finalmente, possa escolher-se?

É necessário que abandonemos o conceito estereotipado de criança, para que sejam analisados os efeitos da produção cultural a ela dirigida. Podemos pensar as obras literárias em relação à produção cultural individual, imaginação individual nutrida pelo imaginário coletivo, bem como pela produção de leitura, de interpretação por meio da imaginação individual que também é nutrida pelo imaginário coletivo.

Confirmamos esse pensamento com G. Durand, que entende que:

[...] a função da imaginação nas histórias e nas vidas humanas é motivada não pelas coisas em si, mas pela maneira de carregá-las de sentido, segundo o qual ela seria a coisa do mundo mais universalmente partilhada. Por isso, a função fantástica acompanha os empreendimentos mais concretos, modulando a ação estética e social. O imaginário não é, portanto, mera fantasia de romântico, um mundo que paira acima do mundo. Ele é a própria experiência de vida10.


A leitura do real funde-se com o imaginário. Poesia, contos, desenho, música, expressão corporal: descoberta dos diversos caminhos do imaginário na pessoa. Há romances que desbloqueiam a imaginação, que fazem explodir as estruturas fixas, estereotipadas, que transformam o universo cotidiano.

Dar à literatura papel pedagógico elementar, em vez de fazer dela essa grande educadora indireta, é perigoso para a produção e leitura de textos literários. A produção cultural para crianças e jovens sempre esteve ligada à formação escolar. Pedagogizar a leitura resulta nessa padronização que ora denunciamos. Os textos literários que não são feitos sob medida para o público escolar trazem a possibilidade de um maior respeito ao tema tratado e ao leitor.

A LITERATURA INFANTIL NO BRASIL

A literatura infantil no Brasil surgiu no século XIX, como literatura oral, misturando misticismo, miticismo e folclore, que se somavam, segundo Dinorah11, a elementos indígenas. São marcantes, nessa época, as contadoras de histórias.

Utilizando o breve histórico feito por ela, afirmamos que Carlos Jansen e Alberto Figueiredo Pimentel12 foram os primeiros brasileiros a se preocupar com a literatura infantil no país, traduzindo as mais significativas páginas dos hoje considerados clássicos por crianças e adultos. Com Thales de Andrade, em 1917, é que a literatura infantil nacional teve início. Foi em 1921 que Monteiro Lobato estreou — com A menina do narizinho arrebitado13, apresentando ao mundo Emília — a mais moderna fada humanizada. A partir de então, o mercado editorial cresceu muito, e assistiu-se ao que se convencionou chamar de boom da literatura infantil.

Entre nós, os primeiros livros foram concebidos com objetivos estritamente pedagógicos. Histórias ou poemas infantis destinavam-se a formar na criança hábitos de higiene ou de patriotismo. Uma exceção foi Monteiro Lobato, que trouxe uma prosa vigorosa e criou personagens, especialmente femininos, com uma visão mais crítica da realidade.

Na primeira metade do século XX, iniciou-se a exploração de mais um produto destinado ao segmento infantil: as histórias em quadrinhos, fruto da internacionalização da indústria de comics norte-americanos. Essa produção intensificou-se, principalmente a partir dos anos de 1960, com os contratos entre a Editora Abril e os estúdios de Walt Disney. As crianças brasileiras passaram, então, a receber sistematicamente as histórias de Mickey Mouse, Tio Patinhas e Pato Donald14.

Vários artistas brasileiros aventuraram-se na arte dos quadrinhos, mas a indústria editorial do país fechava-se para a idéia de publicar trabalhos que não fossem reproduções dos produtos importados da indústria norte-americana: as mesmas características das personagens, contextos assemelhados e exploração de temas desvinculados de nossa realidade. Essa imposição das distribuidoras fez com que muitos artistas brasileiros ficassem desestimulados e abandonassem seus projetos. Poucos conseguiram firmar-se nessa arte. Dentre eles, destaca-se Maurício de Sousa, que compreendendo o preconceito das editoras em relação ao produto nacional, na procura por um espaço para divulgar sua arte, acabou incorporando as exigências de mercado.

Os desenhos de Maurício de Sousa, segundo Cirne15, não têm a mesma brasilidade de Pererê, de Ziraldo. Seus desenhos têm elementos mais universais do que brasileiros — ou mais universais do que latino-americanos. Características que, como já dissemos, são conseqüências das exigências impostas aos produtores de quadrinhos brasileiros, conseqüência que se reflete, também, no cinema de animação. Se, de um lado, o material norte-americano foi importante na formulação de parâmetros estéticos, por outro, não havendo uma seleção prévia do que importávamos, foi prejudicial uma vez que condicionou ideologicamente gerações inteiras no bombardeio massificante de mensagens alheias à transformação do nosso contexto social.

Nos anos de 1980 e 1990, houve uma expansão considerável do mercado de bens culturais para crianças que se percebe nos sentidos vertical e horizontal. Segundo Capparelli16, a expansão vertical define-se como a incorporação de homens e mulheres desde seu nascimento até a morte dentro da lógica de consumo (do recém-nascido ao moribundo temos diversas fatias do mercado). A expansão horizontal é o aumento gradativo da gama de produtos oferecidos a essas fatias. Um exemplo disso é a forma como são lançados brinquedos vinculados a desenhos animados de programas de TV, cuja apresentadora lança um disco e uma série de produtos nada diversificados na sua temática. Do álbum de figurinhas ao filme, o círculo se fecha.

No capitalismo periférico, a literatura sofre um problema básico: as sociedades dominadas pelo analfabetismo e pela indústria cultural não oferecem muitas perspectivas para a literatura. O que temos, na verdade, é um leque de adaptações dos clássicos que assim reduzidos são esvaziados da sua instância crítica. Walt Disney, nesse sentido, é a indústria que, apropriando-se dos contos de fadas, adocicou-os de tal forma a retirar deles os conflitos que lhes são essenciais17. Mas não só Walt Disney. A produção nacional dá poucos sinais de se opor ao status quo: por vezes dirige-se a uma criança que não existe há bastante tempo.

Quanto à leitura, infelizmente, muitos dos livros que se incluem nos títulos da chamada literatura infantil são protótipos dos produtos forjados na indústria cultural: reproduzem a linguagem dos programas veiculados pela televisão — a linguagem coloquial banalizada —, os temas populares que possam dar ibope — elementos da narrativa criados em série (como numa linha de produção), mas que atingem o público infanto-juvenil por carregar os valores incutidos ideologicamente pela sociedade de consumo, reproduzindo e mantendo a ordem social vigente.

RUBEM ALVES E MARIA DINORAH: DETENDO-SE NO PARTICULAR

Nos limites deste trabalho, elegemos como objeto de reflexão a produção literária de Rubem Alves e de Maria Dinorah. Inicialmente, queremos indicar que essa escolha se definiu prioritariamente pelos critérios descritos a seguir.

Rubem Alves não pode ser classificado como escritor de literatura infantil, mas seus livros têm sido adotados por professores do ensino fundamental e até indicados por psicólogos infantis para que temas complicados possam ser trabalhados com as crianças. Maria Dinorah foi convidada pela Secretaria de Cultura de São Paulo a excursionar por escolas brasileiras para ler e discutir seus livros com as crianças. O que está ausente em Rubem Alves — a discussão sobre o poder e a sociedade — fervilha na poesia de Maria Dinorah. Podemos dizer que os autores em questão são díspares, falando de e para diferentes rea-lidades, diferentes crianças, diferentes concepções de infância.

Rubem Alves

Entre as obras de Rubem Alves, selecionamos alguns títulos da Coleção "Estórias para pequenos e grandes": Os morangos, A operação de Lili, A selva e o mar, A planície e o abismo e A montanha encantada dos gansos selvagens.

O nome da coleção, até o momento composta de 12 livros18, é sintomático de uma visão do indivíduo não fracionado em faixas etárias. Rubem Alves, ao abordar problemas de difícil tratamento, reconhece o quanto é complicado falar de maneira simplificada sobre assuntos como, por exemplo, a doença, a morte, a separação. Portanto, o autor respeita o leitor, seja ele criança ou adulto, ao tentar falar para ambos, sem fazer concessões na linguagem. Não deixa de respeitar o tema não o adequando a uma compreensão infantil preestabelecida. Em relação ao tema da separação de pais, o autor, ao colocar as idéias no papel, percebeu que não eram adequadas para crianças e não conseguiu falar disso de uma forma infantil. Ele mesmo considera o livro A selva e o mar um texto difícil. Acreditamos ser isso uma virtude, já que falar de temas complexos de maneira simples é tentar simplificá-los. O esforço de simplificação em nome da comunicabilidade fácil, na maioria das vezes, resulta em uma não-comunicação. Há assuntos não-comunicáveis, indizíveis mesmo, e simplificar seu tratamento é banalizá-los.

Rubem Alves procura desmistificar a visão de uma infância feliz, simplesmente lúdica e imaginativa, em que temas tristes são proibidos. Assim é que na introdução de todos os números da coleção, numa espécie de esclarecimento, ele alerta: "O mundo das crianças não é tão risonho quanto se pensa. Há medos confusos, difusos, as experiências das perdas, bichos, coisas, pessoas que vão e não voltam..."19.

Então, a idéia de uma infância gostosa, distante dos conflitos e temas dolorosos, é francamente criticada pelo autor. Assumir o temor, ter tanto medo quanto a realidade merece, parece ser a postura do autor diante dessa infância nem sempre feliz.

As histórias de Rubem Alves, que ora analisamos, são escritas para ser contadas por alguém. Esse alguém é o único capaz de, auxiliado pelo livro, aplacar o medo dizendo: Estou aqui, meu filho... Nesse ponto, temos elementos interessantes: a valorização do livro como lugar do saber e da experiência e o momento da leitura carinhosa que rompe barreiras familiares. Mas, também, o espaço da experiência familiar, da cumplicidade, ocupado agora pela leitura, por um tratamento extrínseco do nosso cotidiano, por um dado facilitador de nossos conflitos: o livro ocupando o espaço de um silêncio que se fez entre quatro paredes.

Se o medo não pode ser aplacado pelo objeto livro, pode sê-lo por quem o utiliza: o contador/leitor das histórias, mediador entre o autor e o leitor final. Os livros da Coleção "Estórias para pequenos e grandes" foram concebidos para viabilizar um encontro, sobretudo familiar, mostrando o quanto esse momento não é algo espontâneo, natural.

Questionamos a função última desses livros: falar de um medo que pode ser aplacado. Sua finalidade é consoladora, harmonizadora. Abramovich diz-nos que o tema da morte é, assim como no cotidiano, mal resolvido na literatura infantil: o tema é ainda pouco explorado, como se a criança não se defrontasse com ela. Não há a morte, mas múltiplas possibilidades de morte, assim como há múltiplas espécies de vida. A morte não pode ser apenas compreendida como o fechamento natural de um ciclo, embora ela também possa ser isso. A morte também é:

[...] provocada de modo irresponsável, leviano, segundo a lei do mais forte, profundamente injusta, de civilizações, de culturas, de crenças, de bichos, plantas, pessoas... De tudo e todos que fazem parte do mundo e que deixam de fazer por razões não-humanas, não-solidárias, nem progressistas20.

Ou seja, a morte não pode ser vista apenas sob a ótica de um processo natural. Diariamente, todos nós temos contato com formas violentas de viver e, portanto, de morrer. Dar a essa temática um verniz naturalizador como um simples fechamento de um ciclo é contribuir para sua banalização. Algo como a história de A montanha encantada dos gansos selvagens, em que "o velho ganso nem precisou bater as asas, ele estava leve, leve... e ele partiu..."21. Se está correto afirmar que o trágico não vem a conta-gotas, tratá-lo como se assim o fosse é abdicar de falar dele honestamente com a criança.

Portanto, encontramos, de forma geral, nos textos que ora analisamos, a busca de suavizar os conflitos que vivemos: a tentativa de tornar a realidade mais digerível. Isso fica claro, por exemplo, em Os morangos. O homem dependurado sobre o abismo, esquecido de tudo o mais, comeu um dos morangos: "Estava delicioso!... Sorriu, então, de que na vida houvesse coisas tão belas"22. No entanto, ressaltamos, continuou dependurado sobre o abismo, apesar de ter à sua frente algum remédio que dê alegria.

Podemos argumentar superficialmente que o contexto social desses abismos, planícies, montanhas encantadas, selvas e mares é completamente silenciado. A paisagem natural em que os enredos se desenrolam mascara a segunda natureza das coações sociais e psíquicas que a humanidade tem-se imposto ao longo da história. Em profundidade, avaliamos que o aspecto social é tratado na forma mesmo em que as histórias são concebidas: não há lugar para a indignação no enfrentamento da dor, seja individual, seja coletiva. Seu objetivo é fazer com que o sentimento de abandono, de medo, de perda seja substituído pelo sentir-se em casa (A selva e o mar) onde quer que estejamos, quando muitos nem sequer têm pais para poder dividir-se entre eles, nem sequer têm casa, nem sequer têm lar. Sem falar que há aqueles que são estrangeiros na própria casa.

O leitor de Rubem Alves é convidado, então, a aprender a enfrentar as durezas dos abismos da vida como quem enfrenta as agruras de uma paisagem natural. São as histórias individual e coletiva interpretadas como história natural, petrificada. Entre a planície e a montanha encantada há um caminho previamente traçado. Não é a montanha que é encantada, mas o indivíduo que tem de descobrir e seguir essa trajetória... sozinho. Alves fala ao seu leitor do desamparo do indivíduo, o que é belo, o que é um dever. Mas deixa-o por sua conta e sorte, relegando-o à auto-ajuda. São histórias para pequenos e grandes resignados.

Maria Dinorah

Maria Dinorah, gaúcha, é jornalista, escritora e mestra em Educação. Dedica-se especialmente ao público infanto-juvenil e costuma autoproclamar-se andarilha da palavra. Sua atitude é a do iluminista: nasce da experiência, especialização e mobilização contínua, conforme palavras da própria Dinorah, na introdução da obra O livro infantil e a formação do leitor. Esse livro documenta sua visitação às escolas como parte de um projeto da Secretaria de Cultura de São Paulo. A autora, poetizando, fala para e de uma criança que ela concebe como especificamente brasileira, vivendo problemas inerentes à nossa realidade. Daí o seu tom engajado, denunciador.

Ao fazer suas poesias e ao falar sobre elas, o tom de Dinorah é o de quem proclama problemas urgentes: "Sabemos que há muito, mas muito mesmo, por fazer, neste país de poucas letras e excessiva omissão"23. Nesse sentido, entendemos que ela não procura tratar de temas universais de maneira universalizante. Seu repertório é o cotidiano, quase sempre pobre, das crianças brasileiras. Transitam nos seus versos meninos que roubam pão, o bebê Pelé, as panelas das favelas que fazem greve de fome, Maria chocolate carapinha do Brasil, o menino nordestino, tadinho tiritando de frio, o aluno da favela... Sua poesia é sua arma, seu compromisso de vida.

Ao contrário de Rubem Alves, sua inquietação não são questões existenciais. Seu tema é a luta, nem sempre bem-sucedida, pela sobrevivência. Está preocupada com a pobreza material e a intelectual da maioria de nossas crianças. O universo em que trabalha não é aquele idealizado por Rubem Alves, o ambiente acolhedor de um pai que lê para o filho antes do adormecer. Dinorah não espera a cumplicidade dos pais que, no seu dizer, "premidos por uma sociedade injusta, a exigir-lhes os maiores sacrifícios para sobreviverem, não dispõem de tempo nem estão preparados para fazer leitores os seus filhos"24.

Dinorah fala da nossa dívida social esperando a cumplicidade da criança, como observamos no belo poema Quando eles souberem25:

Os meninos que brincam,
Talvez não saibam não,
Que há meninos na luta
Por um pouco de pão.

Os meninos que estudam,
O fazem sem notar
Que há meninos sonhando
Como poder estudar.

Há meninos com tudo,
A viver muito bem,
Que talvez não entendam
Por que tantos não têm.

E há meninos vivendo
O momento da paz,
Sem sequer perceberem
Do que a guerra é capaz.

Mas quando eles souberem,
Tudo isso vai passar,
Pois está nas crianças
O poder de mudar.

A autora pressupõe, portanto, que as crianças leitoras de seus textos sejam aquelas que pelo acesso que tiveram a eles, estejam em melhores condições para compreender, indignar-se e serem agentes de transformação.

Adeus, meninos!

Dinorah deseja não necessariamente preservar o mundo da criança. Assim como Rubem Alves, reconhece que este mundo não é sempre tão feliz e tão específico quanto imaginamos. Fala da angústia, do medo, mas não procura apaziguá-lo. Seu interlocutor é a criança não como indivíduo em busca de seu caminho de Santiago. Chama a criança para olhar em volta de si, convocando-a para a ação, não para a contemplação. Sua apreensão exige menos auto-reflexão que crítica social.

Com isso, não queremos dizer que Dinorah fala da realidade e Rubem Alves, não. A realidade sobre a qual se debruça Alves é intimista, é a da privacidade, do indivíduo burguês que busca a autonomia, o autoconhecimento, o si mesmo, a consciência moral, como diria Rousseau. Assim como esse indivíduo, a capacidade de construir, experienciar e transformar o mundo está em franco desaparecimento.

Dinorah tem o olhar atento no coletivo, numa realidade configurada e entendida no social. Ela tem pressa, como Descartes, de que essa criança saia de sua menoridade intelectual, que trabalhe por sua emancipação e a dos demais, o que também a aproxima de Kant.

Consideradas as diferenças, tanto Rubem Alves como Maria Dinorah, com suas produções, procuram ir ao encontro de uma infância que não deve ser entendida como conceito invariante, idealizado, como a eterna criança que dormita em cada um, mas de uma infância que nos tem assustado por ser nada infantil. A infantilização fica por conta da produção cultural estereotipada. Quanto às crianças de carne e osso, essas tentam resistir.

1 GHIRALDELLI JR., Paulo. O que é pedagogia. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 13.
2 ROUSSEAU, J. J. Emílio ou da educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 5 e ss.
3 GHIRALDELLI JR., Paulo, op. cit., p. 17.
4 BENJAMIN, Walter. Livros infantis antigos e esquecidos. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 238. (Obras escolhidas, vol. I.).
5 ANDRADE, Carlos. Drummond. Confissões de Minas. Rio de Janeiro: América Editora, 1944. p. 220.
6 HELD, J.; PERROTI, E. O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica. São Paulo: Summus, 1980. p. 9.
7 ABRAMOVICH, Fanny. O estranho mundo que se mostra às crianças. São Paulo: Summus, 1983. p. 60.
8 SOUZA, Malu Zoega de. Literatura juvenil em questão: aventura e desventura de heróis menores. São Paulo: Cortez, 2001. p. 177.
9 ABRAMOVICH, Fanny, op. cit., p. 60.
10 DURAND, G. Mito e sociedade: a mitanálise e a sociologia das profundezas. Lisboa: Regras do Jogo, 1983. p. 54.
11 DINORAH, Maria. O livro infantil e a formação do leitor. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 33.
12 Ibid., p. 34.
13 LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado. São Paulo: Revista do Brasil, 1920. p. 5 e ss.
14 CAPPARELLI, Sérgio. TV e criança: a emergência do mercado de bens culturais. In: Pacheco, Elza Dias (Org.). Televisão, criança, imaginário e educação. São Paulo: Papirus, 1998. p. 158.
15 CIRNE, M. A linguagem dos quadrinhos: o universo estrutural de Ziraldo e Maurício de Sousa. Petrópolis: Vozes, 1971. p. 61-69.
16 CAPPARELLI, Sérgio, op. cit., p. 157-158.
17 ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. 5. ed. São Paulo: Scipione, 1999. p. 121.
18 A Coleção "Estórias para pequenos e grandes" encontra-se em andamento e conta com 13 títulos no momento. (N.E.)
19 ALVES, Rubem. São Paulo: Paulus, 1985. p. 5. (Coleção Estórias para pequenos e grandes).
20 ABRAMOVICH, Fanny, op. cit., p. 114.
21 ALVES, Rubem. A montanha encantada dos gansos selvagens. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1987. p. 6. (Coleção Estórias para pequenos e grandes).
22 Id. Os morangos. 5. ed. São Paulo: Paulus, 1987. p. 14. (Coleção Estórias para pequenos e grandes).
23 DINORAH, Maria. O livro infantil e a formação do leitor. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 9.
24 Ibid., p. 19.
25 Ibid., p. 73-74.

Revista Comunicação & Educação

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A literatura infanto-juvenil que estimula a inteligência

A mulher ou o tigre?
A literatura infanto-juvenil que estimula a inteligência

Frank R. Stockton

Muito tempo atrás, existia um rei semibárbaro. Suas ideias, apesar de continuamente aperfeiçoadas e estimuladas pela rápida expansão dos seus vizinhos latinos, permaneciam primitivas, disparatadas e irrefreáveis, como se viessem de sua metade ainda bárbara. Era um homem de imaginação exuberante e, sobretudo, dotado de tão irresistível autoridade que, de acordo com sua vontade, suas fantasias se transformavam em fatos. Como era seu próprio conselheiro, bastava concordar consigo mesmo para que seus desejos se tornassem realidade.

Enquanto os membros dos seus sistemas doméstico e político se moviam suavemente na direção que o rei apontava, sua natureza era afável e cordial; porém, se surgisse um pequeno obstáculo e um dos seus satélites saísse da devida órbita, ele se mostrava ainda mais afável e cordial, pois nada o agradava mais do que desentortar o torto e alisar à força qualquer irregularidade.

Dentre as ideias importadas que tornavam seu barbarismo mais sofisticado estava a arena pública. Nela, através das exibições de coragem e força de homens e de feras, as mentes dos súditos eram refinadas e educadas.

Contudo, mesmo lá, os caprichos exuberantes e bárbaros se faziam presentes. A arena do rei era construída não para dar ao povo a chance de ouvir a rapsódia dos moribundos gladiadores, nem para dar a ele a oportunidade de testemunhar a inevitável conclusão de um conflito entre opiniões religiosas e mandíbulas famintas, mas sim para propósitos mais adaptados para ampliar e desenvolver as energias mentais das pessoas. Esse vasto anfiteatro, com galerias circundantes, subterrâneos misteriosos e passagens ocultas, era um agente de poética a mulher ou o tigre? justiça, onde o crime era punido e a virtude recompensada pela decisão do imparcial e incorruptível acaso.

Quando um súdito era acusado de um crime importante o suficiente para interessar ao rei, anunciava-se publicamente que num dia determinado a sorte da pessoa acusada seria decidida na arena real. A estrutura bem merecia esse nome, pois, ainda que sua forma e arquitetura fossem emprestadas de outrem, seu propósito emanava apenas do cérebro desse homem que, por conter a realeza em cada átomo de seu corpo, não defendia outra tradição que não a plena satisfação de seus caprichos, e que impunha a força de seu idealismo bárbaro a toda e qualquer forma de ação e do pensamento humanos.

Após a multidão se acomodar nas galerias e o monarca, rodeado pela sua corte, ocupar o camarote real, ele dava um sinal; em seguida, uma porta se abria e o súdito acusado era introduzido no anfiteatro. Do outro lado da arena, bem à sua frente, havia duas portas, absolutamente iguais em forma, dispostas lado a lado. Era dever e privilégio da pessoa sob julgamento encaminhar-se para as portas e abrir uma delas. O réu podia abrir a porta que desejasse: não estava sujeito a qualquer influência ou orientação, apenas ao supracitado imparcial e incorruptível acaso. Abrindo uma delas, surgiria um tigre faminto, o mais feroz e cruel que tivesse sido encontrado, que imediatamente se lançaria sobre ele e o faria em pedaços, como punição por seu crime. Nesse momento, em que o caso do criminoso fora assim decidido, os sinos soariam lugubremente, as carpideiras contratadas gritariam seus lamentos e a vasta audiência, com cabeça curvada e coração entristecido, tomaria o caminho de casa, desolada porque alguém tão jovem e belo, ou velho e respeitável, merecera um destino tão horrendo.

Porém, se a pessoa acusada abrisse a outra porta, dela sairia uma mulher, a mais adequada em idade e condição social que Sua Majestade pudesse selecionar entre suas belas súditas. O acusado e essa mulher casar-se- iam imediatamente, como recompensa pela sua inocência. Não importava que o acusado já tivesse esposa e filhos ou que estivesse comprometido afetivamente com alguém de sua escolha: o rei não permitia que qualquer compromisso anterior interferisse no seu grande plano de retribuição e recompensa. A cerimônia, assim como no caso da outra escolha, acontecia imediatamente na própria arena. Outra porta se abria sob o balcão do rei e surgia um padre, acompanhado por um balé de virgens soprando clarins dourados e por um coral entoando poemas epitalâmicos. O religioso e seu cortejo se dirigiam ao centro da arena, onde aguardavam o recém-julgado e a noiva prometida; o matrimônio era prontamente realizado e devidamente festejado. Em seguida, os sinos de bronze repicavam alegremente, as pessoas da audiência saudavam o casal com fervor incomparável, e o réu inocentado, precedido por crianças que espalhavam flores no caminho, levava para sua casa a jovem noiva.

Esse era o método semibárbaro escolhido pelo rei para exercer a justiça. Sua perfeita imparcialidade é óbvia. O criminoso não sabia que porta escondia a mulher: ele abria a que escolhesse, sem ter a mínima ideia se, no instante seguinte, estaria despedaçado ou casado. Em algumas ocasiões o tigre saía por uma porta, outras vezes pela outra. As decisões desse tribunal eram não apenas justas, mas também determinadas com clareza: a pessoa acusada seria instantaneamente punida se fosse considerada culpada; e se fosse inocente, seria recompensada no mesmo instante, quisesse ou não. Não havia como fugir aos julgamentos da arena do rei.

Essa instituição era muito popular. Quando os súditos se reuniam nos dias de julgamento, não podiam prever se testemunhariam uma sangrenta carnificina ou um alegre matrimônio. Esse elemento de incerteza emprestava um encanto especial à ocasião que, talvez, não fosse possível de outra maneira. Assim, as massas eram entretidas e satisfeitas, e a parte intelectualizada da comunidade não tinha como duvidar da imparcialidade dessa instituição: não estava nas mãos do próprio acusado a responsabilidade da escolha?

Esse rei semibárbaro tinha uma filha, tão florescente quanto seus mais ostentosos caprichos e com uma alma tão ardorosa e dominadora quanto a do monarca. Como geralmente acontece nesses casos, ela era a menina dos olhos dele, numa adoração que sobrepujava a de qualquer outro mortal. Entre seus cortesãos estava um jovem rapaz, com a nobreza de caráter e a deficiência de sangue azul tão comuns aos convencionais heróis de romance que se apaixonam por altivas princesas. A princesa real estava muito satisfeita com seu apaixonado, pois ele era o mais belo e corajoso jovem de todo o reino; e ela o amava com um ardor tão intenso que apenas o barbarismo de seu sangue poderia explicar.

Esse romance desenvolveu-se alegremente durante muitos meses, até o dia em que o rei descobriu sua existência. Ele não hesitou nem vacilou no cumprimento de seus deveres. O jovem foi imediatamente jogado na prisão, e foi marcado o dia para seu julgamento na arena real. Essa, sem dúvida, era uma ocasião especialmente importante, e o monarca, assim como seu povo, estava enormemente interessado nos preparativos e desenvolvimento desse julgamento. Nunca antes havia acontecido um caso semelhante; nunca antes havia um súdito ousado amar a filha de um rei. Em tempos posteriores, tais coisas se tornaram até bastante comuns; porém, naquele momento, a situação era nova e surpreendente.

As feras mais selvagens e implacavelmente cruéis do reino foram avaliadas para que dentre elas fosse selecionada aquela que estaria na arena. Todas as jovens donzelas do reino foram cuidadosamente analisadas por um grupo de competentes juízes, para que o jovem réu tivesse uma noiva adequada, no caso de ser esse o destino que o acaso lhe reservava. É lógico que todo mundo conhecia o motivo pelo qual o acusado seria julgado. Ele havia amado a princesa, e nem ele, ela ou qualquer pessoa pensaria em negar o fato; porém o rei não permitiria que qualquer fato desse tipo interferisse com os trabalhos do tribunal, que lhe davam tamanho prazer e satisfação. Independente do destino do romance, o jovem seria liquidado; e o rei demonstrava um prazer estético ao testemunhar o curso dos eventos, que determinaria se o jovem tinha ou não errado ao ousar amar a princesa.

O dia marcado chegou. Os súditos chegavam de todos os lugares do reino, amontoando-se nas galerias da arena; impossibilitada de entrar, uma multidão se apinhava do lado de fora, espremendo-se contra as grades e portões. O rei e sua corte ocuparam seus lugares, exatamente na parede oposta às duas portas - as duas fatídicas portas, tão terríveis em sua similaridade.

Tudo estava pronto. O sinal foi dado. Uma porta se abriu sob o camarote real, e o namorado da princesa entrou na arena. Alto, belo, loiro, sua entrada foi saudada com um audível murmúrio de admiração e ansiedade. Metade da audiência nem ao menos sabia que um rapaz de tão bela aparência havia vivido entre eles. Não era de se espantar que a princesa tivesse se apaixonado por ele! Que coisa horrível era, para ele, estar ali!

De acordo com o costume, o réu, ao entrar na arena, voltou-se para reverenciar o rei; entretanto, seu olhar não se prendeu à augusta figura do monarca. Seus olhos foram arrebatados pela princesa, sentada à direita do pai. Não fosse pela porção primitiva de sua natureza, é provável que a princesa nem estivesse ali; porém, sua alma intensa e fervorosa não permitiria que se ausentasse numa ocasião na qual estava tão terrivelmente interessada. Desde o momento em que havia sido decretado que seu amado teria a sorte decidida na arena, a moça não conseguira pensar em outra coisa, noite e dia, senão nesse grande evento e nos fatos a ele relacionados. Dotada de mais poder, influência e força de caráter do que qualquer outra pessoa, ela conseguiu o que ninguém conseguira antes - ela descobriu o segredo das portas. Ela sabia em qual dos cubículos atrás das portas havia sido colocado o tigre e em qual permanecia a futura noiva. Através das pesadas portas, recobertas internamente por grossas cortinas, era impossível ouvir qualquer barulho; nenhuma sugestão viria de dentro para a pessoa que se aproximasse para erguer o trinco de uma delas; entretanto, o dinheiro e o poder do desejo de uma mulher haviam revelado o segredo.

Não apenas a donzela real sabia em que recinto estaria a jovem prometida, pronta para surgir, toda corada e radiante, se sua porta fosse aberta, como também sabia quem era essa jovem. Uma das mais belas e adoráveis donzelas da corte fora a escolhida para ser a recompensa do rapaz acusado, caso fosse considerado inocente do crime de desejar alguém tão superior a ele. A princesa a odiava. Muitas vezes tinha visto, ou imaginava ter visto, essa bela criatura lançando olhares de admiração para seu amado, e acreditava que os olhares não somente eram percebidos como também retribuídos. Várias vezes os vira conversando, ainda que por apenas um instante; entretanto, muito pode ser dito em questão de segundos. Se o assunto era desimportante ou não, como poderia ela saber? A garota era adorável, mas havia ousado levantar os olhos para o amado da princesa; e, com toda a intensidade do sangue selvagem, herdado de uma longa linhagem de ancestrais bárbaros, ela odiava a mulher que enrubescia e tremia atrás daquela porta silenciosa.

Seu amado voltou-se na arena e olhou-a. Quando a viu, mais pálida e desolada que qualquer outro ser em meio ao vasto oceano de faces ansiosas que a rodeavam, ele percebeu, pelo poder de rápida percepção inerente a aqueles seres cujas almas são uma só, que ela sabia qual porta escondia o tigre e qual ocultava a mulher. Ele tinha certeza que ela descobriria. Ele compreendia sua natureza; sua alma acreditava que a princesa jamais descansaria até descobrir o segredo das portas, algo desconhecido por todos, até mesmo pelo próprio rei. A única esperança para o jovem estava baseada na crença de que a princesa conseguiria descobrir o mistério; e, no momento em que seus olhares se cruzaram, ele soube que ela havia atingido seu intento, exatamente como a alma do rapaz acreditava que ela o faria.

Nesse rápido e ansioso olhar, a pergunta "Qual?" foi feita. A indagação era tão clara para a princesa como se o jovem a tivesse gritado do meio da arena. O momento era preciso, não havia um instante a ser desperdiçado. A pergunta foi feita num átimo de segundo; a resposta teria que ser produzida em igual velocidade. Seu braço direito estava apoiado no parapeito almofadado à sua frente. Ela ergueu a mão, e fez um leve e rápido movimento para a direita. Ninguém, com exceção de seu amado, percebeu o discreto gesto. Todos os olhos estavam fixos no homem no centro da arena. Ele voltou-se, e com passos firmes e ligeiros atravessou o espaço vazio. No estádio repleto, cada coração perdeu o compasso, cada respiração foi suspensa, cada olhar imobilizou-se, acompanhando os movimentos do rapaz. Sem a menor hesitação, ele dirigiu-se à porta da direta, e abriu-a.

* * * * *

Agora, o desfecho da história é o seguinte: Quem a porta ocultava: a mulher ou o tigre?

Quanto mais refletimos sobre a questão, mais difícil nos parece a resposta. Ela envolve um estudo do coração humano, o que nos leva pelos tortuosos labirintos da paixão, dos quais a saída é sempre muito difícil. Analise de maneira imparcial, caro leitor, não como se a decisão dependesse de você, mas sim de uma princesa semibárbara de sangue quente, de sentimentos primitivos, com a alma dividida entre as chamas do desespero e do ciúme. Ela o perdera; porém, quem deveria ganhá-lo?

Quantas vezes, nas horas de insônia ou nos pesadelos, ela sofrera as agonias do horror e cobrira seus olhos em pânico ao pensar que seu amado pudesse abrir a outra porta e encontrar a sua espera as garras mortais do cruel tigre!

Entretanto, muitas vezes mais, ela o imaginara abrindo a outra porta! Quantas vezes, nos dolorosos devaneios, ela rangera os dentes e arrancara os cabelos ao imaginar os arroubos de felicidade do amado quando abrisse a porta que ocultava a linda jovem! Como sua alma se consumia de angústia ao imaginá-lo correndo ao encontro de tal mulher, com sua face corada de alegria e os olhos brilhantes de triunfo; quando o via conduzir a jovem, seu prêmio, com o coração transbordante de júbilo pela vida recuperada; quando ouvia os gritos de contentamento da multidão e o alegre ressoar dos sinos; quando imaginava ver o padre e seu festivo cortejo se aproximando do feliz casal para uni-los em sagrado matrimônio; e quando os via trilhando juntos o caminho recoberto de flores, acompanhados dos brados de felicidades da entusiasmada audiência - oh! e em meio a tudo isso, o que lhe restaria, senão um inútil e perdido gemido de desespero!

Não seria melhor que ele morresse de uma vez, e fosse esperar por ela nas abençoadas regiões de um paraíso semibárbaro?

Mas, apesar de tudo isso, a lembrança daquele tigre medonho, daquele rosnar feroz, daquele sangue!

Sua decisão fora manifestada num átimo de segundo, porém havia sido tomada após dias e noites de angustiada deliberação. Ela sabia o que lhe seria perguntado, ela havia decidido o que deveria responder e, sem a menor hesitação, movera sua mão para o lado direito.

As diferentes hipóteses que podem ser levantadas tendo em vista a decisão da princesa têm que ser consideradas cuidadosamente, sem leviandade nem precipitação. Não me considero a pessoa mais capacitada para responder. Portanto, deixo para você, leitor, esta pergunta: Quem saiu pela porta aberta: a mulher ou o tigre?

STOCKTON, Frank. R. A Chosen Few Short Stories. New York, Charles Scribner's Sons, 1895. Tradução e adaptação de Maria Cristina Bessa Lima, maria.cristina.bessa@bol.com.br

Revista de Literatura

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O prazer de ler: presente ou conquista¹


O prazer de ler: presente ou conquista¹


DE CAMARGO, Maria Aparecida Bosschaerts²

Resumo: o artigo pretende discutir os modos de obtenção de prazer e significado da leitura e, a partir de uma definição mais abrangente da mesma, questionar o papel da escola e da mediação do professor nesse processo.

Palavras-chave: leitura, escola, conceito, metodologias.

Abstract: this paper intends to discuss the way to have pleasure and signification in reading and, from one bigger definition of it, to question the responsibility of school and the teacher mediation in this process.

Key-words: reading, school, conception, methodologies.

Quando se observa uma pessoa embevecida na leitura de um livro, como que se distanciando da realidade que a circunda, pergunta-se sempre se essa capacidade de "viajar" através da leitura seria um dom recebido nos genes, como a cor da pele ou a altura da pessoa, ou seria uma habilidade adquirida, fruto de ensino, de treino.

Na verdade, como quase todos os comportamentos humanos, a leitura pode desenvolver-se através de estimulação do ambiente a uma predisposição individual para esse tipo de prazer. Sempre haverá pessoas para as quais os esportes radicais ou o risco de investimentos financeiros exercerão maior fascínio. Mas mesmo estes poderão ser notificados sobre outros modos de obtenção de prazer, através da leitura.

Mas, antes que se fale propriamente no prazer de ler, é preciso reconhecer que a leitura não é apenas uma forma de obter um distanciamento prazeroso da realidade. Ela pode ser (e é) uma ferramenta muito útil na resolução de problemas prosaicos do dia a dia.Vejamos então.

As situações de leitura são basicamente duas: um em que se lê para resolver um conflito, um impasse, uma necessidade imediata ou remota. São as situações ditas "funcionais", quando ler é um ato de comunicação em relação com uma situação-problema; lê-se para agir, compreender, escolher, aprender, etc. É o que ocorre quando manuseamos o jornal em busca do nome do filme da sessão da tarde, quando lemos a bula de remédio para saber à correta dosagem do medicamento, quando lemos um quadro com partidas e chegadas de avião, para sabermos quanto tempo ainda nos resta esperar no aeroporto. Nessas situações, o sentido a ser construído através da leitura é determinado pela situação: interessa escolher na pluralidade das leituras possíveis, aquela que a situação exige. É evidente que nenhum tipo especial de encantamento estético pode surgir de uma situação como esta, mas o "prazer" que pode ela pode proporcionar surgir é o da eficácia e do sucesso, ou seja, a obtenção da informação ou o esclarecimento de uma dúvida pode nos dar satisfação. Os objetivos de tal tipo de leitura são, portanto, informar ou informar-se, ampliar conhecimentos, para orientar ou orientar-se, apoiar a memória.

Mas há outra forma de relação com a leitura: são as situações ditas de "prazer" ou de "fruição", quando ler é um ato de expressão em relação com o imaginário. São ocasiões em que se lê para descansar, passar o tempo, divertir-se e construir a si próprio, interagir com outro (o autor), imergir no imaginário, no estético, seduzir ou induzir. Não há cobranças, não há prazos, não há nenhuma informação importante a ser obtida. O sentido a ser construído é determinado pelo leitor. A pluralidade de leituras aparece de uma leitura para outra, mas também de um momento para outro do mesmo leitor. Situa-se nesse parâmetro a leitura de romances, ficção científica e particularmente dos poemas, cuja multiplicidade de leituras e de "entendimentos" torna cada leitura e cada leitor, únicos.

Nesta leitura específica, o prazer é aquele da liberação dos fantasmas e do imaginário. Mundos são criados, personagens imaginados; mesmo que a descrição deles seja muito minuciosa, sempre haverá espaço para a minha criação. Lembro-me de ter lido com muito prazer a coleção toda de Jorge Amado, despertada pela leitura de "Gabriela, Cravo e Canela". Dentro da liberdade que tinha como leitora, criei minha própria Gabriela, com traços italianos, lembrando Sophia Loren, nosso sonho de beleza feminina nos anos 60. Quando vi Sônia Braga, em sua brasilidade morena encarnando Gabriela na TV, senti-me ultrajada: aquela não era a "minha" Gabriela. Era a do diretor da novela. Levei certo tempo para aceitá-la. E que relação há entre essa constatação e o trabalho da escola? No Brasil, a escola tem papel preponderante na formação de leitores. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997, p. 23) já reconhecem: cabe "à escola a função e a responsabilidade de garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes lingüísticos necessários para o exercício inalienável da cidadania...". Esta instância precisa assumir esse trabalho uma vez que as famílias nem sempre têm assumido o estímulo à leitura como tarefa sua. Para Edmir Perrotti (apud FARIA, 1992, p.85),

dentro do quadro sócio-cultural brasileiro, a escola é peça fundamental na promoção da leitura em todas as suas fases. Isto porque não temos, no Brasil, uma infra-estrutura cultural, como nos países europeus, por exemplo, em que a família assume em casa o estímulo à leitura. Entre nós, por falta de estrutura cultural, as crianças vêm para a escola sem a menor familiaridade com o texto escrito. Daí papel essencial da escola.

E como a sociedade brasileira não tem intimidade com o escrito, seus professores, em geral, também não o têm. O professor aprende que a leitura é importante, aprende história literária, teoria da literatura, mas não se transforma num leitor. Não descobre ou vive a leitura como um fato cultural. E assim o escrito não aparece como parte de seu universo sócio-cultural. Para Perrotti, não há um projeto de formação do professor se não considerarmos a leitura como um ato compartilhado, que exija sensibilidade e cumplicidade na formação do leitor.

É preciso levar em conta interesses e experiências das crianças. Com relação ao desinteresse dos alunos pela fantasia das histórias infantis, por exemplo, Eduardo Fonseca (Apud Faria, 1992, p. 95) declarou que este assunto está muito estudado por vários autores americanos que descobriram que, entre os 7 a 8 e 11 a 14 anos, a criança e o pré-adolescente vêm de uma fase de vivência poética e entram numa fase realista. A criança passa a valorizar visões mais exatas do mundo, começa a não gostar de explicações mágicas etc. Já na pré-adolescência gostam de manifestações de força e de violência.

Maria Alice Faria (1992, p.96) lembrou que na escola hoje esse problema aparece de forma bem mais simples: quando se fala de leitura só se pensa em leitura literária por causa de uma longa tradição em que os textos escolares, considerados como modelo, eram apenas dos da literatura clássica, escolhidos por certas autoridades. Como em sua formação o professor não é instrumentalizado para diferenciar os diferentes tipos de texto, acaba trabalhando o texto literário como um texto utilitário.

Outro fator a ser lembrado é o conteúdo e a forma dos chamados "textos escolares", aqueles comumente encontrado em cartilhas e livros de leitura: muitas vezes eles não atendem nem a um, nem a outro objetivo citado no início deste texto: não são nem funcionais nem prazerosos. Cattani e Aguiar (1986, p.26) relatam estudo minucioso sobre os materiais de leitura indicados para os professores por documentos oficiais de vários estados brasileiros; enfatizam em alguns a falta de indicações bibliográficas completas nas obras indicadas. Salientam que, em muitos textos "predomina a voz do adulto", com sua valoração característica. Notam também a "indigência de textos adaptados", textos retirados de livros não infantis, a freqüência de textos informativos, uma preponderância de textos narrativos e poéticos. Há freqüentemente o uso do texto como pretexto para "se ensinar gramática ou para a transmissão de normas morais e sociais explícitas". Soares (2003) fala sobra a "pedagogização" da leitura e da escrita pela escola, que retira os textos de seus suportes habituais e faz deles uma leitura forçada, indicada por ordens do professor, reduzindo a vontade do leitor quanto à escolha do texto, tipo de leitura, tempo de leitura e "devolução" do entendimento em exercícios previamente determinados.

Esse enfoque inadequado pode ser resultado de uma tradição equivocada, de uma metodologia sem embasamento teórico adequado, da má formação do professor, que será o mediador entre a criança e o texto. É preciso ser um bom leitor para despertar na criança o prazer de ler. A leitura é ato compartilhado, que exige sensibilidade e cumplicidade na formação do leitor. O professor precisa ter competência profissional, além de sensibilidade, para ler e ensinar a leitura. Entre outras habilidades, para se formar o leitor é preciso conhecer a fisiologia do ato de ler, suprir eventuais falhas nos processos de alfabetização e de letramento, selecionar obras, oferecer alternativas de leitura, interessar-se pelo que crianças e adolescentes gostam de saber, conhecer as estruturas dos diferentes textos (narrativas, ensaios, poemas, etc), contextualizá-los.Isso demanda cultura geral ampla e aprimoramento profissional constante.
Maria Helena Martins (apud Faria, 1992, p. 94), constata que há:

uma tendência generalizada em se tratar a leitura apenas em áreas como a da alfabetização, da lingüística, do ensino das línguas etc. A relação com a literatura é comumente limitada a textos escritos para crianças. Seria preciso, entretanto, que a leitura se integrasse com outras áreas, como as artes, o jornalismo e mesmo as ciências exatas. Esta questão se agrava em sociedades onde predominam os iletrados e analfabetos, como a brasileira. Para minorar o problema é imperioso considerar também a leitura do não-verbal para conquistar o leitor para a palavra escrita.

Ela diz também que o

diálogo do leitor com o que lê acontece quando se dá o estranhamento. O que lhe é familiar aparece apresentado de forma diferente e então é obrigado a rever o já conhecido. Os objetos assumem então outra identidade - e isso é o que completa o processo de leitura. Cita uma frase de Mário Quintana para quem "o mais difícil mesmo, é a arte de desler.

Ainda para a autora, o não-leitor é o resultado da ineficiência da mediação, que seria dada preferencialmente pela escola: a má formação dos professores, as más condições de trabalho, os salários baixos e os mediadores de leitura não-leitores. Aponta também contextos familiares em situação pré-gutemberguianas, quando a sociedade já está imersa no mundo da eletrônica, com tudo o que ele traz, com a influência crescente dos multimeios, da TV, dos computadores etc. Por isso, os mediadores de leitura precisam aprender a explorar outras linguagens não-verbais, para levar os alunos ao escrito.

Para Maria Helena Martins (Apud Faria, 1992, p. 90) "a leitura, numa acepção ampla e abrangente, é um processo que atribui significados às mais diversas formas de expressão". Os PCNs esclarecem: "a leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto" (Brasil, p. 53). Lajolo (1986, p. 59) completa:

ler não é decifrar, como num jogo de adivinhações, o sentido de um texto, é, a partir de um texto, ser capaz de atribuir-lhe significação, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos significativos para cada um, reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se a esta leitura, ou rebelar-se contra ela, propondo outra não prevista."

Também se pode perceber essa definição mais abrangente em Jolibert (1994,p. 15)

Ler é atribuir diretamente um sentido a algo escrito .
"Diretamente", isto é, sem passar pelo intermédio:
- nem da decifração (letra por letra, sílaba por sílaba, ou palavra por palavra); -nem da oralização (nem sequer grupo respiratório por grupo respiratório).
Ler é questionar algo escrito a partir de uma expectativa real (necessidade-prazer) numa verdadeira situação de vida. (grifos no original)

Não se pode negar, evidentemente, o valor da leitura, uma vez que ela, segundo Cattani e Aguiar (1986, p. 26), é:

Um instrumento de comunicação entre os homens; constitui-se em um patrimônio histórico-cultural, através do qual o aluno estabelece relações entre o presente e o passado; representa um documento social que permite à criança reconhecer o meio em que vive; funciona como um recurso para o ajustamento social do aluno; contribui para a formação integral do homem, através do desenvolvimento do pensamento e da postura crítica; atua como um meio para atingir os objetivos da educação, não se constituindo um fim em si mesma .

Sugestões de metodologias e exemplos de trabalho pedagógico com leitura podem ser encontrados no livro "Leitura em crise na escola" (dados na bibliografia), organizado por Regina Zilberman, particularmente nos artigos "Leitura no 1º grau: a proposta dos currículos", de Maria Izabel Cattani e Vera Teixeira de Aguiar; "O texto não é pretexto", de Marisa Lajolo; "A poesia na escola", de Lígia Morrone Averbuck, "Leituras para o 1º grau: critérios de seleção e sugestões", de Vera Teixeira de Aguiar.

É preciso reconhecer que o ensino da língua, na escola, nem sempre ocorre de maneira apropriada. Faracco, em artigo (sem referências) bem humorado, arrola o que chama de "sete pragas do ensino de português", ou seja, metodologias, às vezes consagradas, mas ineficientes, no ensino de língua, ou seja, "certas atividades rotineiras que constituem a essência de um determinado tipo de português, qualificável de tradicional, cujos resultados têm sido os mais negativos possíveis" que leva a resultados como alunos de universidades com acentuadas dificuldades de expressão oral e escrita, pouca ou nenhuma leitura, incapacidade de interpretação de textos, completo desprezo pela linguagem. O autor ressente-se, de, no magistério não haver aulas de lingüística e no cursos de Letras, de lingüística aplicada.

Para Faracco, as sete pragas são: leitura não compreensiva (professores preocupados apenas com o aprimoramento da mecânica da leitura; segundo ele "o aluno brasileiro lê como agulha de vitrola: vai passando pela trilha e produzindo som"); textos "chatos" (textos afastados dos interesses e das necessidades das crianças e adolescentes encontrados nos livros didáticos); redações - tortura; gramática - confusão; conteúdos programáticos inúteis; estratégias inadequadas; literatura-biografia.

AGUIAR (1986) faz sugestões de leitura para as diferentes faixas etárias. O livro tem quase 20 anos, é preciso atualizar a relação com obras mais recentes, mas as que a autora indica são realmente muito especiais.

Para finalizar, mesmo sem concluir...

Se a leitura pode nos proporcionar diferentes tipos de prazer e ela é, na maior parte das vezes, aprendida na escola, é preciso que professores estejam preparados para essa tarefa. E como fazer isso? Através de uma adequada formação que nos torne leitores competentes, que saibam retirar prazer da leitura.
LEITE (1986,p. 43), escreve:

Nosso papel é muito simples e, ao mesmo tempo, porque estamos professoralmente viciados, muito difícil. Requer algo bastante sutil: uma presença meio ausente, e, no entanto, atuante; um apagar-se da figura do mestre que, muito embora, conduz o jogo; uma condução do jogo que se deixa conduzir. Escolhido o texto, junto com os alunos, de preferência, ou depois de uma sondagem de seus interesses, e tendo sido criada uma atmosfera descontraída, mas tensa de curiosidade, é a conversa que passará a ocupar o vazio da sala. Depois disso é navegar no rumo aventureiro da criação, sem resistência à vontade de escrever, representar, compor, desenhar, ou reler, recompor e reinventar.

A leitura é indispensável na vida do homem moderno. É instrumento de trabalho, traz informação, atualiza conhecimentos, ajuda a resolver problemas, transporta-nos a mundos de insuspeitada beleza.

É animador encontrar uma informação indispensável, é satisfatório saber o que contém o remédio que vamos tomar, é prazeroso ler e seguir à risca uma receita e fazer um bolo saboroso. E é indescritível o prazer estético que se obtém da leitura de um texto elaborado com paixão, capricho e competência, escolhendo a dedo cada palavra, como num trabalho de ourivesaria. É evidente que cada um de nós tem um trecho ou uma obra que tenha nos tocado mais profundamente, mas, como dona da palavra neste momento, concedo-me o direito de colocar para sua leitura, (e para terminar esse artigo), trechos que considero especialmente queridos, pelas fortes emoções estéticas despertadas em mim, a cada (re)leitura que deles faço:

"Mas o amor, aprendido de começo, nuns olhos de mulher,
não se empareda na cabeça;
senão, com a agilidade de todos os espíritos,
se espalha com a rapidez do pensamento em nossas faculdades,
a todas redobrando de potência
e deixando-as muito acima de seus próprios ofícios e funções.
Visão mais nobre aos olhos ele empresta:
O amante vê mais longe do que as águias;
O amante escuta os sons que o próprio ouvido do ladrão Cauteloso não percebe". (W. Shakespeare)

"Tu pisavas os astros, distraída". (Orestes Barbosa)

"Sei que tinha tatuagem no peito e dourado no dente, minha mãe se entregou a esse homem, perdidamente." (Chico Buarque) "Fica decretado" que se plantem roseiras nos pomares e laranjeiras nos jardins para que haja cores nos quintais e cheiros e sabores em todas as calçadas". (Cidaboss)

"Jogou então sobre ele as redes trançadas de figuras, de versos conhecidos e outros especialmente para a ocasião preparados, de elegantes e elaboradas construções lingüísticas, trechos de fino humor ou escancarado galanteio".
Supôs que ele se rendesse, incontinenti, diante do maciço ataque perpetrado. Esperou que se declarasse vencido pela doçura das palavras de afeto, pela sutileza das propostas escondidas, pela ênfase sabiamente distribuída pelas palavras mais prenhes de significado.
"E esperou, entre uma lição e outra, o resultado desse esforço de enredamento, de embaralhamento, tecido de esperas, silêncios, gritos e sussurros, gemidos e louvações...". (Cidaboss).

Bibliografia

AGUIAR, V. T. de. Leituras para o 1º grau: critérios de seleção e sugestões. In: ZILBERMAN, R. (org) Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 6. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986.
BARBOSA, R. L. L. Dificuldades de leitura: a busca da chave do segredo. São Paulo: Arte e Ciência, 1998.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa. Brasília: SEF, 1997.
CATTANI, M.I. & AGUIAR, V. T. de. Leitura no 1º grau: a proposta dos currículos. In: ZILBERMAN, R. (org) Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 6.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986.
FARACO, C.A. As sete pragas do ensino do Português. [s.l:s.n, 19-?].
FARIA, M. A. (org) Anais do Seminário "Leitura e literatura na escola: a formação do professor". Assis (SP): UNESP, set. 1992.
JOLIBERT, J. Formando Crianças Leitoras. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
LAJOLO, M. O texto não é pretexto. In: ZILBERMAN, R. (org) Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 6.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986
LEITE, L.C.M. &MARQUES, R.M.H. Ao pé do texto na sala de aula. In: ZILBERMAN, R. (org) Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 6ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986
SOARES, M. Letramento e Escolarização. In: UNESP. Pedagogia Cidadã. Cadernos de Formação. Alfabetização. São Paulo: UNESP, 2003.
SOUZA, R.J. de. Leitura da poesia infantil na escola. In: UNESP. Pedagogia Cidadã. Cadernos de Formação. Alfabetização. São Paulo: UNESP, 2003.


¹Artigo preparado como base da palestra com o mesmo título, proferida na ESBAM, Manaus, maio de 2004. ²Doutora em Educação e professora do curso de Pedagogia da Faculdade de Presidente Prudente/ SP (UNIESP) e Coordenadora do Núcleo de Apoio ao Discente e Docente da mesma Instituição de Ensino.

Revista Saber Acadêmico

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Por trás dos Contos de Fadas

A importância das narrativas no aprendizado e na elaboração do autoconhecimento: uma visão junguiana, sua linguagem simbólica e o arquétipo do herói

Por Vera Márcia Gonçalves da Silva Pina


Basta sentarmos diante de um grupo, crianças ou adultos, e começarmos com, “Era uma vez...” que rapidamente o silêncio se faz presente, os olhos atentos brilham e os ouvidos apuradíssimos não nos dão nenhum indício de qualquer “Deficit de Atenção”. Isso porque, por meio de reis, rainhas, anões, gigantes, ogros, bruxas ou dragões, saímos do nosso mundo real e entramos num mundo onde tudo é possível.

Neste mundo mágico o que aprendemos não é o saber da sala de aula, o conhecimento teórico, intelectual, mas sim, o saber que nos ensina a lutar contra forças invencíveis, superar nossos medos, buscar nosso conhecimento, enfrentar os desafios, nunca desistir e, dentre tantos outros saberes, a identificar qual a hora certa para agir. Um verdadeiro alimento para nossa alma!

Os contos com suas figuras fantásticas evocam imagens internas em crianças ou adultos; isso porque elas transcendem o campo de visão e o que ela reconhece, nas imagens de mamãe ou papai por exemplo, é seu valor simbólico como: colo, carinho, proteção, segurança, alimento, abandono, frustração etc.

“Assim, ao contarmos um conto é como se estabelecêssemos uma ponte entre as imagens do conto, as nossas de contador e as do mundo interior da criança.” Jette Bonaventure. Por essa razão, cada vez que contamos um conto para nossas crianças é como se déssemos a elas e a nós mesmos um presente, pois, nesse momento, bem diferente da agitação do dia-a-dia, podemos praticar a vivência de nosso mundo interior.

Jung e a interpretação dos contos
O grande psiquiatra Dr. Carl Gustav Jung observou que certos “temas típicos” que apareciam nos sonhos e nas fantasias de seus pacientes eram repetições de mitos ou de contos de fadas, sem que houvesse qualquer influência cultural exterior causadora de seu aparecimento.

Procurou compreender esses temas oníricos usando o conhecimento da mitologia e assim propôs que essas imagens seriam reações independentes de qualquer tradição cultural e que dessa forma se deveria admitir a existência de elementos mitológicos no psiquismo inconsciente; a esses elementos Jung chamou de arquétipos.

Arquétipos seriam uma disposição estrutural básica presente em todos os seres humanos, como uma forma à espera de complementos que formariam as subestruturas de sentimentos, emoções, fantasias e ações. Segundo Dr. Jung esses temas ou motivos, os arquétipos, são esquemas básicos da psique humana e se encontram no “inconsciente coletivo” – a camada profunda do inconsciente.

Esses temas ou motivos que aparecem nos sonhos, presentes nos contos e mitos e se repetem em todos os tempos e culturas são: a grande Mãe, o Pai, a Criação do Mundo, Nascimento, Herói, Morte, Abandono etc.

Os arquétipos se manifestam por meio das imagens dos contos, sonhos ou mitos, sendo chamadas por Jung de Imagens Arquetípicas. É por meio delas que podemos entrar em contato com os conteúdos do inconsciente e como disse Jung “restabelecer a conexão consciente e inconsciente”, sendo que dessa experiência arquetípica é que ocorre a verdadeira cura da alma. Para que isso aconteça o arquétipo da grande mãe, por exemplo, ao aparecer num conto ou mito como imagem arquetípica tem que ser visto não apenas como um pensamento padrão, mais sim como uma experiência emocional daquele que o ouve ou lê.

Segundo Marie-Louise V. Franz, “só se essa imagem tiver um valor emocional e afetivo para o indivíduo ela poderá ter vida e significação”. Assim, segundo Jung, podem se compilar todas as grandes mães do mundo, que não significará absolutamente nada, caso se deixe de lado a experiência afetiva do indivíduo.


O efeito causado pelos contos é sempre muito positivo; toda magia do conto cria um momento especial de cumplicidade entre as pessoas. Os contos nos dão verdadeiras lições de como resolver problemas complexos da vida. Não é necessário acreditar nos feitos heróicos presentes neles, pois certamente isso não passaria pelo crivo da razão, no entanto isso não impede que atinjam outras camadas, para além do inconsciente.

As histórias falam “da realidade do ser humano, de sua busca, de seus traumas e difi- culdades para lidar com papai e mamãe, de seus desejos de ser herói, dos monstros que às vezes sente que tem que combater durante sua vida...” Jette Bonaventure. Mitos e contos, segundo Jung, “dão expressão a processos inconscientes e sua narração provoca a revitalização desses processos restabelecendo assim a conexão entre consciente e inconsciente”.

HÁ MILHARES DE ANOS...
Para entender por que os contos e mitos encantam a todos, geração após geração, é preciso compreender do que tratam essas imagens e o que elas realmente representam.


Como em Chapeuzinho Vermelho, os animais representam tendências humanas arquetípicas
Muitos se dedicaram ao estudo e interpretação da linguagem simbólica dos contos de fada e mitos; uma grande especialista no tema é a Dra. Marie Louise Von Franz, discípula e colaboradora de Jung, a quem muitos outros seguem dentro da escola de Psicologia Analítica. Além dela cito Erich Neumann e, aqui no Brasil, a Dra. Jette Bonaventure, licenciada em Filologia Românica em Copenhague, Psicopedagogia e Psicologia pela Sorbonne, revisora técnica da tradução da obra completa de C.G. Jung, para o português, de quem sigo os passos.

Diversas são as formas e linhas de interpretação dos contos e mitos. Neste artigo apresento o olhar psicopedagógico que, além de reconhecer a importância do simbolismo das imagens, também reconhece nos contos e mitos inúmeras possibilidades para a educação, estabelecendo, assim, a parceria afeto-cognição. Também usarei a visão junguiana de interpretação, sem com isso desmerecer qualquer outra forma de olhar.

Os contos nos falam das diferentes situações da vida, o relacionamento das pessoas, entre si e com a sociedade, com a natureza, com o Divino, com as famílias etc. A maneira como o homem vem lidando com esses problemas durante todas as épocas e culturas não difere muito.

O tema em todos os contos e mitos é “o ser humano em busca de si mesmo e em busca do sentido da sua vida” (Jette Bonaventure). Não seria este o tema da vida de todos nós?

Podemos dizer que ao ler ou ouvir um conto “nós somos a personagem principal e tudo a nossa volta são os nossos arquétipos, bichos que falam, árvores, fadas, bruxas...”

OS CONTOS E MITOS NAS TERAPIAS
Ao utilizar os contos podemos falar de algo aparentemente inexistente, mágico, que para muitos é puro faz-de-conta, apenas histórias para fazer crianças dormirem; no entanto, o que não se percebe é que como os contos falam de temas universais, evocam imagens inconscientes no indivíduo e, quando aproveitadas, nos ajudam a dar muito mais sentido a nossas vidas. Modificando olhares e atitudes, sem que o ser humano se dê conta, estará falando de si mesmo por meio do conto.

O terapeuta deve conhecer muitos contos e mitos para assim utilizar-se precisamente daquele que está mais relacionado com os problemas específicos de seu paciente.

Conhecendo o que realmente “conta um conto”, ou seja, seu valor simbólico e psicológico, o terapeuta poderá ajudar crianças e adultos aliviando os problemas que parecem sem solução. Ao entrar em contato com bruxas, feras, dragões, ogros ou vizires que nunca estão satisfeitos (como muitos papais), os pacientes acabam percebendo que apesar de essas forças darem impressão de indestrutíveis, uma personagem de aparência frágil é capaz de derrotá-los, mostrando ser ela dotada de um grande poder.

Os contos também ajudam a despotencializar a carga emocional presente nas pessoas, por deixarem de olhar seus problemas de forma tão individual.

Para as crianças não é preciso nenhuma interpretação intelectual; elas não estão preocupadas com racionalizações, apenas entram na história de corpo e alma e são elas mesmas o “João e a Maria” entrando e ficando perdidos na floresta escura, tendo que descobrir recursos internos que irão ajudá-las a vencer as forças do mal. É bem verdade que para isso muitas vezes são ajudadas pelos bichos da floresta, que cuidam das tarefas psicopedagógicas como separar sementes, selecionar coisas, classificar, eleger, nomear, fazer descobertas junto às pistas, o que as crianças e os adolescentes adoram; para processar esse aprendizado precisam de muito pouca ajuda do terapeuta.

Os contos falam de temas universais, evocam imagens inconscientes no indivíduo e nos ajudam a dar muito mais sentido a nossas vidas

Difícil é convencer as mentes apenas intelectuais que por meio dos contos aprendemos tanto. Nem bem entramos na escola e já começamos a ser treinados para usar nossa mente objetiva, reprimindo tanto quanto possível nossas reações pessoais e emocionais. A justificativa para isso é sempre o discurso: “um vestibular muito em breve”.

Os Tipos Psicológicos
Uma das grandes contribuições de Jung para a Educação foi sua teoria dos Tipos Psicológicos que é muito respeitada quando usamos os contos na terapia; isso porque, segundo esta teoria, existem quatro “Tipos Psicológicos”. Cada indivíduo apresenta um deles como predominante, sendo que, é por meio desse seu jeito de ser que ele fará seus aprendizados na vida, inclusive na escola. Todos nós possuímos as quatro funções, mas sempre uma delas se apresenta mais desenvolvida e mais consciente que as outras três. Utilizando aquela que lhe é mais favorável o aprendizado será muito mais facilitado obtendo-se, assim, melhores resultados.

Tipo perceptivo sensorial: a sensação me diz algo; não exprime o que é, nem qualquer outra particularidade do que está em questão. É a função dos sentidos, todas as minhas percepções dos fatos externos que chegam até mim pelos sentidos.
Tipo pensamento: na sua forma mais simples exprime o que uma coisa é. O indivíduo a nomeia, vai conceituá-la, pois pensar é perceber e julgar; classificando e discriminando- a, o indivíduo se mantém firme nos seus objetivos mantendo- se distante do estado emocional para não se influenciar.
Tipo sentimento: o sentimento exprime o valor atribuído a uma coisa e nos informa por meio da carga emocional esse valor; ele nos diz se algo é aceitável, se isso nos agrada ou não. Ele também julga e pensa, mas a sua lógica é a do “coração”.
Tipo intuitivo: é uma percepção via inconsciente, uma espécie de faculdade mágica pela qual se antevê algo; é vislumbrar possibilidades ainda não conhecidas pela consciência, um tipo de percepção que não passa pelos sentidos, mas que nos coloca em contato com o que não podemos perceber, pensar ou sentir devido a uma não manifestação concreta. Registra-se ao nível inconsciente e não busca a lógica.


Tarefa difícil para o psicopedagogo que acredita que para educar não se pode desconsiderar o fator sentimento, sendo a base de seu trabalho o enfoque afetivo-cognitivo.


Em O Pequeno Polegar, a figura do grande ogro malvado se contrapõe ao arquétipo da criança
Ao utilizar contos e mitos como ferramenta psicopedagógica conseguimos contemplar todos os tipos psicológicos, pois qualquer que seja a forma de entrar em contato com as imagens dos contos será sempre a melhor, além do fato de que utilizando os contos para a intervenção psicopedagógica, favorecemos e ao mesmo tempo estimulamos todas as funções tipológicas.

Ao definir os tipos, Jung deixa claro que não foi para colocar rótulos nas pessoas, mas apenas por uma necessidade de criar uma ordem que compreendesse e explicasse os comportamentos.

Ao conhecer os vários tipos, reconhecemos também a necessidade de se ter formas diferentes de ensinar, para não cairmos no erro de privilegiar apenas um dos tipos em particular, por exemplo, o pensamento que é uma tendência da nossa Educação.

São nossas imagens internas que serão colocadas nas imagens do conto, com nossa carga de sentimentos e emoções

Para o terapeuta que deseja interpretar contos é fundamental reconhecer sua própria tipologia, mas isso não basta, pois o mais importante é conseguir transitar pelas quatro funções. “Quanto mais diferenciadas forem as quatro funções numa pessoa, tanto melhor será sua interpretação porque interpretar um conto é, ao mesmo tempo, uma arte, uma profissão e um artesanato”, discorreu Leon Bonaventure, em palestra proferida na PUC – SP, 1967.

O SIMBOLISMO DOS CONTOS DE FADA
É preciso dizer que o essencial não é a interpretação e compreensão das fantasias ou conteúdo dos contos, mas sim, a possibilidade de reviver plenamente esses conteúdos.

Para Jung, compreender intelectualmente um sentimento negativo, ou reconhecer sua falsidade, não é suficiente para eliminá-lo. Os sentimentos não podem ser atacados pelo intelecto porque não têm base intelectual.

É exatamente o que os contos nos ajudam a fazer: reviver sentimentos escondidos ou viver desconhecidos. Os contos falam diretamente à alma do ser humano; sozinhos eles causam raiva, dor, insegurança, indignação, orgulho, força. Isso porque somos nós a personagem principal e são nossas imagens internas que serão colocadas nas imagens do conto, com nossa carga de sentimentos e emoções, pois eles são desprovidos disso.

As imagens e figuras arquetípicas que estão presentes nos contos e mitos nos fornecem material simbólico que nos permite trabalhar em todos os estágios da vida lidando com muitos arquétipos, principalmente com a sombra, o lado escuro da personalidade, em que se encontram os aspectos desconhecidos e geralmente desprezados por nós, como a raiva, inveja, ciúmes etc.


As crianças se identificam com as personagens dos contos e assim conseguem vivenciar seus sentimentos de abandono, rejeição, nascimento de irmãos, ciúme, o fato de ser a(o) filha(o) preterida(o) ou a(o) mais querida(o) etc. com essas personagens; com elas são submetidas às mais terríveis provas, com a vantagem de poderem pedir ajuda para seres fantásticos ou animaizinhos humanizados. Esses animais representam tendências humanas arquetípicas. Não representam os verdadeiros instintos dos animais, mas também nossos instintos animais, isto é, se o tigre representa na história a agressividade ou a avidez não é aquela característica realmente do tigre, mas a nossa própria agressividade ou avidez. Os animais são portadores da projeção de fatores psíquicos humanos.

É cumprindo toda essa trajetória, a chamada “jornada do herói” que nossas crianças podem, de maneira simbólica, atingir a maturidade representada pelo encontro do “diamante perdido” ou pelo “resgate do parceiro” que estava em terras distantes.

Com as personagens dos contos, crianças, adolescentes e adultos provarão seu verdadeiro valor de herói ou heroína, superando seus medos, inseguranças e dificuldades.

As fadas geralmente representam o lado positivo do arquétipo da grande mãe, bem como as bruxas o seu aspecto mais terrível, porém, tão fundamental para impulsionar nosso crescimento – imaginem as histórias sem bruxas ou gigantes...nada aconteceria!

Quer saber mais sobre o assunto?



Por Marie-Louise Von Franz (Editora Paulus, 248 páginas e 278 páginas), Marie-Louise Von Franz é autora dos livros A interpretação dos contos de fadas e A individuação nos contos de fadas. A primeira obra é um compêndio para quem deseja compreender mais profundamente a riqueza simbólica dos contos de fadas. Nos primeiros capítulos, a autora traça uma teoria psicológica dos contos, circunscrevendo as origens, estruturação e suas formas de interpretação. Em seguida, analisa alguns contos de fadas, ampliando seus simbolismos com outros contos, mitos, ritos etc. Já na segunda obra, a autora escolhe alguns contos interessantes que tratam da individuação como O papagaio Branco e Os Banhos de Bâdgerd. Com sua linguagem clara, instigante e bem humorada, ao mesmo tempo em que nos ensina a leitura interpretativa dos contos de fadas, nos encaminha para cantos da nossa própria alma e revela o seu encanto com a vida.

Mães excessivamente boas tendem a paralisar seus filhos impedindo seu desenvolvimento e autonomia. Quantas mamães chegam a impedir que seus filhos saiam de casa sozinhos, mesmo quando eles já têm idade e maturidade para isso. Para elas seus filhos nunca estarão suficientemente crescidos. É por essa razão que em muitos contos as mães boazinhas demais morrem no início deixando seus filhos e filhas sozinhos no mundo, ou melhor, nas mãos de uma madrasta terrível. Nesse momento do conto pode ser despertado nas crianças um pensar sobre “como me afastar de mamãe e descobrir minhas verdadeiras forças”, “quais são essas forças em mim?”, “é possível eu me virar sozinho?”. Lógico que nem sempre será tão consciente para elas esse pensar.

Os sentimentos não podem ser atacados pelo intelecto porque não têm base intelectual; os contos nos ajudam a reviver sentimentos escondidos ou desconhecidos

As mamães ao ouvirem o conto, quando tocadas por essa imagem, talvez entrem em contato com: “posso deixar morrer o meu lado superprotetor saindo um pouco de cena e permitindo que meus filhos enfrentem o mundo com seus próprios recursos?” ou “como é esse aspecto em mim?” ou ainda “existe um lado madrasta dentro de mim?”.

É assim que os contos e mitos nos ajudam a organizar nossos pensamentos e direcionar nossas ações de forma coerente e mais sábia, por nos permitir refletir sobre aspectos tão presentes em todos nós.

Os heróis dos contos representam os esforços que fazemos para cuidar do nosso crescimento e aprender a dialogar com os problemas que surgem o tempo todo. A figura do herói é o meio simbólico por meio do qual o ego emerge; para isso ele tem que olhar de frente para a sombra; assim, o herói, mesmo tendo que enfrentar um caminho de pedras, estará suficientemente preparado para vencer o dragão.

Para encerrar, escolhi um conto de Apuleio: Amor e Psiquê – interpretado por Erich Neumann que fez uma análise com enfoque junguiano, reconhecendo no seu simbolismo O Desenvolvimento da Alma da Mulher, o feminino no seu mais amplo sentido.

Amor e psique
Conta a lenda que a extraordinária beleza de Psiquê despertou o ciúme de Afrodite que encarregou seu filho Eros de atingir a linda jovem com suas flechas, fazendo-a amar o homem mais horrendo sobre a face da Terra. Amor ou Eros, de tão perturbado pela beleza de Psiquê, feriu- se com sua própria flecha e se apaixonou por ela. O deus ordenou então que o vento Zéfiro a transportasse para seu palácio e passou a relacionar-se com ela. Havia, porém, uma condição: Psiquê jamais poderia ver seu rosto ou saber seu nome, ou o perderia para sempre.

A jovem aceitou as condições e viveu feliz com seu amado até que suas irmãs, invejosas do romance, convenceram- na de que o amante misterioso era, na verdade, um monstro disfarçado que, cedo ou tarde, a mataria. Psiquê decidiu matá-lo; pegou um punhal para desferir o golpe, mas antes quis ver pela primeira vez a face do parceiro. Iluminou- a com uma lamparina, e só então descobriu que o objeto de seu desejo era o belo deus do amor. Embevecida, deixou cair no rosto dele um pouco de óleo quente da lâmpada. Eros despertou com fortes dores e, sentido-se traído em sua confiança, voou para longe, terminando o relacionamento.

Desesperada, Psiquê tentou o suicídio, mas foi salva pelo deus Pã. Segue em busca do amado até finalmente ter que recorrer à própria deusa do amor, a vingativa Afrodite, mãe de Eros, que prometeu facilitar a reaproximação com seu filho desde que a linda mortal cumprisse quatro tarefas praticamente impossíveis. Com a ajuda de seres mágicos Psiquê superou todas as provas.

A primeira tarefa era separar de um gigantesco monte de cereais as sementes de grão de bico, milho, etc., por espécie e durante uma única noite. Psiquê é ajudada pelas formigas, criaturas da terra.

A segunda tarefa era trazer para Afrodite flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros selvagens ferozes. Nessa tarefa quem a ajuda é um caniço verde, que lhe murmura instruções.

A terceira tarefa é trazer uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios Estige e o Cocito, ambos infernais; além disso, a montanha que teria que subir era guardada por serpentes terríveis. A ajuda nesse momento veio da Águia de Zeus.

Na quarta tarefa, Psiquê tem que descer ao mundo dos mortos e pegar a caixa com a beleza imortal de Perséfone, rainha dos infernos, para entregá-la a Afrodite; essa tarefa Psiquê cumpre sozinha apenas recebendo a orientação da Torre.

Ao voltar do mundo dos mortos ela não resistiu ao desejo de obter um pouco da beleza imortal e, curiosa, abriu a caixa. No mesmo instante caiu num sono mortal. Foi assim, desfalecida, que Eros a encontrou. O deus conseguiu despertá-la, conduziu-a ao Olimpo e suplicou a Zeus permissão para desposá-la. Comovido, o deus dos deuses autorizou a união, promoveu a reconciliação entre Afrodite e a jovem e ainda concedeu a Psiquê a imortalidade. Eros e sua amada viveram felizes para sempre e tiveram uma filha, Volúpia.

Nesse conto, encontramos alguns dos principais temas ou motivos presentes nos contos de fada mais conhecidos como Cinderela, Branca de Neve, Vasalisa, A Bela Adormecida: a disputa pelo poder feminino, a beleza invejada, a beleza como símbolo do poder, a madrasta, bruxa ou, como no mito, a deusa Afrodite, sogra terrível, as irmãs invejosas, as tarefas a cumprir e a curiosidade feminina.

A abordagem junguiana focaliza a trajetória da humanização do amor. Psiquê adquire consciência de suas forças enfrentando seus desafios com êxito. Ela representa o arquétipo feminino ou ânima, enquanto Eros ou Amor aparece como a representação do animus, a face masculina da mulher. Juntos, representam a integração harmoniosa dos opostos, que leva o ser humano a uma vivência amadurecida.

INTERPRETAÇÃO
Psiquê é castigada porque os homens lhe tributaram honras divinas e a consagraram a nova Afrodite por causa de sua beleza. Psiquê aceita seu castigo porque acredita ser a beleza a grande desgraça da sua vida.


Ao ler ou ouvir Cinderela, a garota experimenta ser a personagem principal e, como diz Jung, pode restabelecer conexão consciente e inconsciente
Por muito tempo a vida no castelo é o Paraíso; porém o preço é alto, o amor tem que ser vivido no escuro. Isso quer dizer de forma inconsciente, na verdade como são vividos tantos relacionamentos ainda hoje.

Os contos ajudam a tirar a carga emocional presente nas pessoas; eles deixam de olhar seus problemas de forma tão individual

A felicidade noturna não pode durar para sempre. As serpentes desse Paraíso – as irmãs – são o lado sombra de Psiquê e quem a leva a tomar consciência da sua situação. São elas que marcam todo o desenvolvimento para que nossa heroína se torne uma Psiquê feminina. São elas que levam a ação.

Assim, Psiquê entra em conflito; ao mesmo tempo ama e odeia o marido. Agora não pode mais ficar no mesmo estágio de inconsciência. O lado sombra faz com que agora veja seu casamento como a “prisão bem-aventurada”, mas sente falta de contato humano.

Pela primeira vez emerge do seu inconsciente a mulher. O amor como expressão da totalidade do feminino não acontece no escuro como um processo inconsciente, um encontro legítimo com o outro envolve a consciência.

Afrodite, a grande mãe, representa o amor material, deusa da atração mística entre os opostos. Psiquê traz o princípio do amor que associa conhecimento, crescimento de consciência e desenvolvimento psíquico. Surge com ela um novo princípio do feminino com o masculino que se processa com base na individuação.

PSIQUÊ E AS TAREFAS
■ 1ª tarefa: Usando a percepção sensorial - Sensação
Separar as sementes é usar nosso aspecto formiguinha, criaturas ágeis e mãe de todos. Elas são o contato com a terra, trabalho interno, incansável, colocando ordem onde há desordem; é o elemento ordenador em nós, símbolo dos instintos. O nosso lado formiga é o aspecto que nos permite selecionar, avaliar, diferenciar e assim encontrar o próprio rumo no meio da confusão de sentimentos e emoções.


Tal como em Pinóquio, o tema em todos os contos é o ser em busca de si mesmo e do sentido de sua vida
Separar é perguntar-se o que realmente procuramos e desejamos, é o exercício de discriminar os desejos, os sentidos, as nossas necessidades, o bem do mal, o prazer do desprazer, masculino do feminino, as diferentes funções - pensamento, sentimento, intuição e percepção.

É necessário diferenciar para selecionar, excluir, incluir, priorizar e reorganizar todos esses conteúdos. É o momento de seletividade e para isso precisamos de uma boa função perceptiva sensorial. A mistura no monte é o desorganizado, o caótico, a confusão, mas também é fecunda de talentos e possibilidades que estão disponíveis no feminino que só depois da organização é que se tornarão úteis.

Graças a Afrodite e às irmãs, forças malignas, mas muito bem-vindas, já que geram o crescimento, é que Psiquê sai da passividade para a ação.

■ 2ª tarefa – Usando o Sentimento
Retirar a lã de ouro, resgatar a sua força, tem que ser ao anoitecer, sem confronto destrutivo com os carneiros selvagens. Trabalho de espera, de paciência, de discriminar a hora certa, cuidar dos sentimentos de ansiedade, impulsividade, impotência, acalmar a própria angústia e impulso agressivo, buscar a flexibilidade do caniço das águas para se mover levemente a fim de atingir o seu objetivo.

Simbolicamente, Psiquê consegue despotencializar a carga masculina negativa representada pelos carneiros selvagens que destroem, incorporando apenas o necessário desse masculino para se fortalecer e não ser possuída por ele. Aprende a lidar com os sentimentos, não com a passividade, mas com a atenção consciente para não ser destruída pelo feroz.

■ 3ª tarefa – Usando a Intuição
Trazer o jarro de cristal contendo água da fonte que alimenta dois rios infernais não é tarefa para um humano; assim, a ajuda vem do alto, é a águia do próprio deus Zeus quem irá socorrê-la.

A água representa a nossa energia vital que se encontra no inconsciente e é eternamente fluida; se tentarmos contê-la de uma forma qualquer certamente será uma viagem sem volta. Por isso, a ajuda vem do alto. Simbolicamente é como se, utilizando seu aspecto águia, Psiquê estivesse mergulhada dentro de si mesma, indo em busca dessa energia vital tão necessária, energia essa que está dentro de cada um de nós.

Essa energia nos desperta para além do concreto, pois subir a montanha com a águia de Zeus é nos permitir enxergar outras possibilidades até então não vistas; mas é preciso não perder o foco e, principalmente, permanecer atentos aos perigos da jornada.

A águia é nosso lado intuitivo que, se bem usado, leva-nos a mergulhar no inconsciente e voltar de lá com nosso vaso de cristal cheio de orientações e sabedoria.

■ 4ª tarefa – Usando o pensamento
Agora Psiquê não precisa mais da ajuda de forças do seu inconsciente. Basta a orientação objetiva da Torre, representante simbólica da cultura humana.

Descer aos infernos e retornar com um pouco da beleza eterna não é tarefa fácil, principalmente porque, para cumpri-la, são necessários direcionamento, assertividade, estabilidade e firmeza, um ego centrado, forte e concentrado em seu objetivo para não ficar perdido no submundo. Sem dúvida, qualidades muito masculinas que precisam estar bem integradas ao feminino para que Psiquê possa descer aos infernos e ao voltar à Terra ver as coisas num nível superior.

É justamente o que acontece no nosso conto, mas a pergunta que fica é:

Ao voltar o fato de Psiquê ter aberto a caixinha não seria um indicador de regressão e fracasso? A resposta é não. Apenas significa que, para derrotar o dragão, é preciso primeiro aceitá-lo. Foi o que Psiquê fez: ao usar o creme da beleza eterna, passa a aceitar o que antes considerava uma desgraça – sua própria beleza! Passa a aceitar o que realmente é!

Os heróis dos contos representam os esforços que fazemos para cuidar do nosso crescimento e aprender a dialogar com os problemas que surgem o tempo todo

Simbolicamente, o morrer de Psiquê ao abrir a caixa significa a morte de uma Psiquê ingênua, passiva, dispersa, imatura para deixar nascer outra muito mais consciente de suas forças e do seu feminino, finalmente capaz de conduzir sua própria vida.

É pelo seu ato que ocorre a grande transformação, tanto dela como do seu amado Eros. Até mesmo a grande mãe Afrodite, ou melhor, a grande sogra, é obrigada a renderse diante da vitória da pequena Psiquê.

E é assim que os contos continuam a nos encantar e certamente permanecerão por toda a eternidade.

REFERÊNCIAS :
BONAVENTURE, J. O que Conta um Conto. Ed. Paulus, 1992.
_____________. Variações do tema Mulher. Ed. Paulus, 2000.
VON FRANZ, M. L. A Interpretação dos contos de Fada. Ed. Paulus.
_____________. Individuação nos contos de Fada. Ed. Paulus.
JUNG, C.G. O homem e seus símbolos. Ed. Nova Fronteira, 1964.
________. Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Ed. Vozes, 2000.
HILLMAN, J.; VON FRANZ, M.L. A tipologia Junguiana. Ed Cultrix, 1971.
PINA, V. M. Textos retirados do curso A Interpretação dos contos e Mitos, uma visão junguiana. Ministrado no Instituto Sedes Sapientiae

Vera Márcia Gonçalves da Silva Pina
é psicopedagoga clínica e institucional, mestranda em
Distúrbios do Desenvolvimento na Universidade Mackenzie e
orientadora familiar. Docente dos cursos de Pós-graduação
em Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae e UniABC;
coordenadora do Departamento de Pós-graduação em
Psicopedagogia e do Instituto Sedes Sapientiae; coordenadora
e docente do curso A visão Junguiana dos Contos de Fada sua
Linguagem Simbólica e o Arquétipo do Herói; coordenadora de
grupos de estudo sobre o tema Contos e Mitos.

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