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domingo, 14 de setembro de 2014

Notícias Pedagogia e Vida


China enfrenta dificuldades com problemas mentais de crianças
As crianças se veem isoladas por conta da política governamental do um filho por casal, e pelos pais que precisam se mudar em busca de trabalho

TANIA BRANIGAN
DO "OBSERVER"

Sim, é só um bicho de pelúcia. Mas coloque-o nas mãos de uma criança e assista enquanto ela finge alimentá-lo, conversa com ele, e até o coroa rei. Para começar, o bicho de pelúcia provê segurança; depois, permite que a criança interprete novos papéis e desenvolva competências sociais.

As autoridades da China esperam que dicas como essa, incluídas em um livro para pais e professores pré-escolares, ajudem a conter os problemas de saúde mental que as crianças do país enfrentam. Os orçamentos dos serviços de saúde mental para crianças e adolescentes estão congelados no Reino Unido, mas a China deseja expandir a provisão desse tipo de serviços, promover abordagens psicoterapêuticas e adotar medidas preventivas.

Desde 2012, as pré-escolas e escolas chinesas vêm promovendo a saúde mental tanto quanto a educação física. No ano passado, a China aprovou sua primeira lei de saúde mental, que instrui os pediatras a buscar sinais de alerta nos pacientes: os olhos dos bebês de três meses de idade acompanham os objetos em movimento? Aos 18 meses, as crianças são capazes de manter contato olhos nos olhos com seus interlocutores? As autoridades também buscaram a ajuda de psicoterapeutas estrangeiros fim de ajudar a treinar especialistas e promover a conscientização.

"O governo está dedicando muita atenção à saúde psicológica", disse o Dr. Zheng Yi, presidente da Sociedade Chinesa de Psiquiatria da Criança e do Adolescente e diretor assistente do Hospital Anding, de Pequim, parte da Universidade Médica da Capital.

Os resultados preliminares de uma pesquisa que ele comandou, e será publicada antes do final do ano, sugerem que cerca de 15% das crianças chinesas têm problemas de saúde mental. Ele afirmou que isso se compara favoravelmente à média de 20% vista em outros países, mas apontou que alguns problemas, como os distúrbios de ansiedade, parecem estar em ascensão.

A melhora nos padrões de vida permitiu que maior número de pais dedicasse atenção ao bem estar emocional de seus filhos, mas o desenvolvimento também causou novos problemas, incluindo mudanças dramáticas nas estruturas familiares e pressões sociais e educacionais intensificadas. "Para muitas crianças, a economia não é problema. O problema é que há menos oportunidade de brincar", disse Zheng.

Outros mencionam o impacto da lacuna geracional criada pela transformação da China, e o da política de um filho por casal. Filhos únicos podem desfrutar de melhores cuidados, mas também podem receber mimos excessivos, se tornando "pequenos imperadores", ou sofrer solidão porque lhes faltam companhias de sua idade.

Viviane Green, do departamento de estudos psicossociais do Birkbeck College, um dos especialistas internacionais que estão desenvolvendo o programa de treinamento, disse que os casos são muitas vezes semelhantes aos encontrados no Reino Unido, com "adolescentes expressando hostilidade; questões de apego já na primeira infância".

Mas ela acrescenta que "o que existe de ligeiramente diferente é provavelmente como as emoções são expressadas, porque a cultura é diferente e o apego filial aos pais é muito forte. As pessoas têm conflitos - mas o senso de self não é um modelo individualizado, como temos aqui - [a ideia] de que boa saúde mental envolve separação, envolve viver sozinho. Ele gira mais em torno do dever para com a família de origem e os elos que a pessoa mantém para com ela".

A psicoterapia está crescendo rápido na China, mas os especialistas do país precisam "ajudar essas novas ideias a se relacionar a outros tipos de experiência que eles extraíram da cultura local, bem como a pessoas como os psiquiatras", disse a Dra. Wang Qian, que organizou o projeto de treinamento internacional como diretora do escritório executivo da unidade psicanalítica nacional.

O Dr. Sverre Varvin, que preside o comitê da Associação Psicanalítica Internacional para a China e há anos oferece treinamento a profissionais chineses, acrescentou que "a cultura chinesa é realmente metafórica, e é preciso dedicar tempo a descobrir essas metáforas".

Continuam a existir problemas sérios na prestação de serviços. Há uma escassez de psiquiatras infantis na China, que segundo Zheng será resolvida pelo treinamento de pediatras e clínicos gerais para que sejam capazes de diagnósticos iniciais e tratamentos básicos de saúde mental.

Os serviços são especialmente escassos nas regiões rurais, onde talvez sejam mais necessários. Muitos trabalhadores migrantes deixam os filhos em casa quando se mudam para trabalhar, porque o sistema de "registro domiciliar" chinês significa que é difícil obter serviços como educação nas cidades. A maioria dessas famílias se reúne na melhor das hipóteses uma vez por ano.

Cerca de 50% dessas crianças "deixadas para trás" sofrem de depressão e ansiedade, ante 30% de suas contrapartes nas cidades, de acordo com um novo estudo bancado pelo governo da província de Heilongjiang. Elas também são mais sujeitas a oscilações de humor e a estresse. Yang Yangjie, da Universidade Médica de Harbin e responsável pela pesquisa, disse que os problemas psicológicos dessas crianças tendiam a ser mais complexos: "As crianças deixadas para trás sofrem de complexos de inferioridade, baixa autoestima e baixa confiança. Muitas parecem desprovidas de senso de segurança e são medrosas demais ou sentem ansiedade demais para interagir com outras pessoas", ela disse.

Algumas dessas crianças são, para todos os fins práticos, criadas por apenas um dos pais, e em alguns casos tanto o pai quanto a mãe trabalham, o que as leva a serem criadas pelos avós, que podem não ter o tempo e energia requeridos para cuidar adequadamente delas. Os guardiões muitas vezes se concentram nas necessidades materiais e ignoram as necessidades emocionais das crianças, disse Yang. Embora existam poucas verbas para os programas dirigidos a grupos vulneráveis, no momento, o apetite por eles é notável. A Save the Children inicialmente oferecia "primeiros socorros psicológicos" em emergências como desastres naturais, provendo assistência básica e identificando as crianças necessitadas de assistência adicional. Mas Pia MacRae, diretora da organização na China, disse que os funcionários e os associados da organização haviam solicitado, além disso, que ela provesse treinamento a trabalhadores de centros de atendimento a crianças de rua.

Zhen acredita que a atenção deve ser concentrada tanto na prevenção quanto na cura. As mudanças sociais não precisam causar danos, se as pessoas se adaptarem apropriadamente: garantindo que os filhos únicos convivam com meninos e meninas de sua idade; e talvez criando um regime de trabalho migrante alternado para que um dos pais esteja sempre em casa.

Mas o primeiro grande desafio, ele disse, era encarar as percepções negativas, para que problemas de saúde mental deixem de portar um estigma para as crianças. "Se pudermos nos livrar disso, consultar um psiquiatra será como ir ao médico quando você tem uma febre", ele disse.

Tradução de PAULO MIGLIACCI
FOLHA DE S.PAULO

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O que mostram os testes de inteligência?


Limitação de tempo impede avaliação de funções cognitivas importantes

crédito: solarseven/shutterstock

Scott Barry Kaufman

Em 1990, os pesquisadores Patrick Kyllönen e Raymond Christal descobriram uma correlação impressionante. Eles aplicaram diversos testes de memória operacional (ou memória de trabalho) a grandes grupos de recrutas da Força Aérea americana. Os participantes realizavam operações simples com base em uma única sequência de letras.

Na tarefa “recodificação do alfabeto”, por exemplo, o computador exibia rapidamente três letras: H, N, C. Em seguida, dava uma instrução como: adicione a quarta letra. A resposta certa seria L, R, G.

É claro que sequenciar quatro letras é fácil. A parte difícil é lembrar a letra enquanto se processa a próxima operação mental e manter as duas em mente ao fazer a terceira operação. Isso pode ficar cada vez mais difícil com instruções mais complexas e mais letras para transformar em sua cabeça.

Em quatro estudos diferentes os pesquisadores detectaram correlações extremamente elevadas, variando de 0,8 a0,9, entre suas medidas de memória operacional e várias medidas de raciocínio. As correlações, de fato, foram tão altas que eles intitularam seu artigo científico: “A habilidade de raciocínio é (pouco mais que) a capacidade de memória operacional?!” (Reasoning ability is (little more than) working memory capacity?!).

Desde então, muitos estudos confirmaram que a memória operacional é um importante fator contribuinte para o raciocínio fluido. De todas as habilidades cognitivas já medidas por pesquisadores da inteligência, o raciocínio fluido é a mais generalizada e explica a maior variação em todas as outras aptidões cognitivas. A capacidade de inferir relações e padrões pontuais a problemas baseados em um mínimo de conhecimentos e experiências anteriores desempenha um papel relevante, em graus variáveis, em praticamente todas as áreas do funcionamento intelectual humano.

Mas qual é, exatamente, a extensão da relação entre a memória operacional e o raciocínio fluido? Como ocorre frequentemente no caso da ciência, a força dessa correlação tem se mostrado em todas as partes, dificultando determinar a verdadeira relação entre memória operacional e raciocínio fluido.

Há muitas razões para as inconsistências. Os diversos estudos incluem uma seleção e um número diferente de testes, além de uma gama de diferentes habilidades cognitivas entre os participantes. Esses tipos de detalhes metodológicos importam.

Um novo estudo sugere um fator adicional: o timing dos testes. Adam Chuderski revisou 26 estudos que ministraram provas de medição de memória de trabalho e o teste Matrizes Progressivas de Raven, que é a medida mais usada para o raciocínio fluido.*

Em cada questão do teste de Raven, a pessoa é apresentada a uma matriz de 3×3, na qual ela tem que identificar a peça que falta para completar o padrão:

MATRIZES PROGRESSIVAS DE RAVEN

O que é preciso para se sair bem nesse teste? Acontece que só há algumas regras necessárias para resolver todos os itens dessa prova. Os problemas mais fáceis exigem que a pessoa aplique uma única regra, como adicionar ou subtrair apenas um atributo (como uma linha). Os mais difíceis exigem uma combinação de várias regras e múltiplos atributos (como formas, tamanhos e cores). A dificuldade na solução dos itens de Raven é que a pessoa tem que separar os atributos relevantes dos irrelevantes e ter em mente as regras enquanto as testa. Além disso, quando algumas regras não funcionam, a pessoa tem que saber quando parar de seguir por esse caminho e recomeçar. Como essa tarefa requer a habilidade de descobrir as relações abstratas entre novos estímulos, ela é uma boa medida do raciocínio fluido não-verbal.

Chuderski constatou que os estudos que intensificam a pressão de tempo no teste de Raven aumentavam significativamente a correlação entre a memória operacional e o raciocínio fluido. Em outras palavras, quando as pessoas tinham mais tempo para raciocinar, a capacidade da memória operacional não era um contribuinte tão forte para o raciocínio fluido.

Como achou suas descobertas intrigantes, ele decidiu investigar a questão mais a fundo em dois outros estudos.

Em seu primeiro estudo, ele ministrou vários testes de memória operacional e raciocínio fluido a 1.377 pessoas com idades entre 15 e 46 anos. Usando uma técnica estatística chamada análise fatorial confirmatória, ele confirmou que a pressão temporal nos testes de raciocínio fluido impactam a força da correlação entre a memória operacional e o raciocínio fluido.

No caso do “grupo altamente acelerado” (20 minutos), a memória operacional explicou toda a variação do raciocínio fluido; enquanto no “grupo subacelerado” (60 minutos), a memória de operacional foi responsável por apenas 38% da variação no raciocínio fluido.

Chuderski replicou sua descoberta em um segundo estudo e descobriu que quando não havia nenhuma pressão de tempo durante o raciocínio fluido, a memória operacional só explicava cerca de um terço das diferenças entre raciocínio e desempenho. Além disso, ele constatou que uma medida de “aprendizagem relacional”, a capacidade de aprender de relações anteriores entre as letras para aumentar a eficiência do processamento posterior de relações numéricas, contribuíam, independentemente, para o grau de variação no raciocínio fluido.

Por que isso importa?

Esses resultados sugerem que podemos estar subestimando seriamente a capacidade do raciocínio fluido das pessoas ao impormos rígidas restrições de tempo. Esse estudo é consistente com outras pesquisas recentes que sugerem que a “inteligência rápida” pode ser distinguida da “inteligência lenta”.

Pesquisadores, educadores e líderes empresariais que tentam avaliar o nível de raciocínio fluido de um candidato enfrentam um dilema: você quer medir sua capacidade de raciocínio fluido através de uma tarefa de alta velocidade ou lhe dar uma oportunidade maior para mostrar seu poder de raciocínio? De acordo com Chuderski:

“O método de ensaio anterior [testes altamente acelerados] medirá a capacidade de lidar com complexidade em um ambiente dinâmico, tendo assim uma elevada validade no mundo real; mas isso pode subestimar pessoas que, independente de sua capacidade limitada, apresentem boas soluções em ambientes menos dinâmicos. Esse método [com pressões de tempo mais flexíveis] resultará em uma visão mais abrangente da capacidade de raciocínio, inclusive da contribuição de faculdades intelectuais além do chamado WM (work management, ou habilidade de trabalho) e parecem ser complementares a ele; mas também poderiam incluir muitos ruídos (por exemplo, estratégias aprendidas dependentes de tarefas) influenciando negativamente a avaliação da eficiência futura de uma pessoa no que diz respeito às exigências, tempo, e tarefas completamente novas”.

Isso é importante porque, tendo mais tempo, as pessoas podem compensar suas limitações de memória operacional, como pessoas que mostram grandes melhorias no raciocínio fluido depois de aprender como desenhar diagramas para representar um problema. Quando Kenneth Gilhooly e seus colegas apresentaram silogismos oralmente, isso exigiu mais da memória de trabalho (operacional) em comparação com as premissas que os participantes tiveram que armazenar em suas cabeças. Mas quando os silogismos eram apresentados com todas as premissas fixas na tela de projeção, as pessoas tinham um desempenho melhor, porque podiam “descarregar” as premissas de suas memórias operacionais, libertando assim recursos limitados para construir um modelo mental eficiente do problema.

No decorrer da última década John Sweller e seus colegas projetaram técnicas de instrução que aliviam a carga de memória operacional em alunos, aumentando o aprendizado e o interesse. Baseando-se tanto na literatura sobre conhecimento como de funcionamento da memória operacional, elas se igualam à complexidade das situações de aprendizagem para o aluno, tentando reduzir cargas de memória desnecessárias que podem interferir com o raciocínio e o aprendizado; otimizando os processos cognitivos mais relevantes para a aprendizagem.

Além disso, há implicações para intervenções de treinamento cerebral. Como mencionei em um artigo anterior, a literatura sobre treinamento cognitivo é um atoleiro. Enquanto alguns estudos concluíram que aprimorar a memória de operacional melhora o raciocínio fluido, outros constataram uma falta de transferência.

Uma causa possível para as inconsistências na literatura de treinamento cognitivo pode ser o timing das tarefas. Susanne Jaeggi e seus colegas, por exemplo, ministraram seus testes de raciocínio fluido sob rígidas restrições de tempo (por exemplo, de10 a 11 minutos para 18 itens do teste de Raven) e constataram que o treinamento da memória operacional mostrou um aumento no desempenho do raciocínio fluido. Comparativamente, Roberto Colom e seus colegas aplicaram testes de raciocínio fluido sob pressão de tempo padrão e não encontraram nenhum efeito do treinamento da memória operacional no raciocínio fluido.

Esses resultados contraditórios fazem sentido à luz do estudo de Chuderski: quando tarefas de raciocínio fluido têm limites rigorosos de tempo, elas são essencialmente testes de memória operacional (de trabalho). Nessas condições, seria de se esperar mais de uma transferência de memória de trabalho para o raciocínio fluido. Mas quando as tarefas de raciocínio fluido têm menor pressão de tempo, a memória de trabalho está mais fracamente associada ao raciocínio fluido e outros mecanismos cognitivos entram em jogo, como a aprendizagem relacional e associativa. Além disso, podem ser empregados auxílios externos, como a utilização de diagramas para facilitar a construção de modelos mentais mais elaborados e eficientes.

Conclusão

A memória operacional (de trabalho) e o raciocínio fluido são iguais ou diferentes? Depende. A imposição de rigorosas pressões de tempo em um teste de QI obriga as pessoas a se basear quase exclusivamente em sua limitada capacidade de memória operacional, ao passo que lhes dar mais tempo para pensar e raciocinar aumenta suas chances de apresentar outras funções cognitivas que contribuem para seu brilho intelectual.
Scientific American Brasil

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Como a Linguagem Modela o Pensamento


Diferentes idiomas afetam de maneiras distintas a percepção do mundo
Lera Boroditsky
Estou diante de uma menina de 5 anos em pormpuraaw, uma pequena comunidade aborígene na borda oeste do Cabo York, no norte da Austrália Quando peço para ela me mostrar o norte, ela aponta com precisão e sem hesitação. A bússola confirma que ela está certa. Mais tarde, de volta a uma sala de conferências na Stanford University, faço o mesmo pedido a um público de ilustres acadêmicos, ganhadores de medalhas de ciência e prêmios de gênios. Peço-lhes para fechar os olhos (para que não nos enganem) e apontem o norte. Muitos se recusam por não saberem a resposta. Aqueles que fazem questão de se demorar um pouco para refletir sobre o assunto, em seguida apontam em todas as direções possíveis. Venho repetindo esse exercício em Harvard e Princeton e em Moscou, Londres e Pequim, sempre com os mesmos resultados.

Uma criança de cinco anos de idade em uma cultura pode fazer algo com facilidade que cientistas eminentes de outras culturas lutam para conseguir. O que poderia explicar isso? Parece que a resposta surpreendente é a linguagem.

A noção de que diferentes idiomas possam transmitir diferentes habilidades cognitivas remonta a séculos. Desde 1930, essa associação foi indicada pelos linguistas americanos Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que estudaram como as línguas variam, e propuseram maneiras pelas quais os falantes de idiomas distintos podem pensar de forma diferente. Na década de 70, muitos cientistas ficaram decepcionados com a hipótese de Sapir-Whorf, e ela foi praticamente abandonada. Mas agora, décadas depois, um sólido corpo de evidências empíricas demonstrando como os diferentes idiomas modelam o pensamento finalmente emergiu. As evidências derrubam o dogma de longa data sobre a universalidade e rendem visões fascinantes sobre as origens do conhecimento e a construção da realidade. Os resultados têm implicações relevantes para o direito, a política e a educação.

Ao redor do mundo, as pessoas se comunicam usando uma deslumbrante variedade de idiomas – mais ou menos 7 mil ao todo –, e cada um deles exige condições muito diferentes de seus falantes. Suponha, por exemplo, que eu queira dizer que vi a peça Tio Vânia na Rua 42. Em mian, língua falada em Papua, Nova Guiné, o verbo que usei revelaria se o evento acabou de acontecer, aconteceu ontem ou em passado remoto, enquanto na Indonésia, o verbo não denotaria sequer se o evento já aconteceu ou ainda está para acontecer. Em russo, o verbo revelaria o meu gênero. Em mandarim, eu teria de especificar se o tio do título é materno ou paterno e se ele está relacionado por laços de sangue ou de casamento, porque há vocábulos diferentes para todos esses tipos diferentes de tios e assim por diante (ele é irmão da mãe, como a tradução chinesa claramente expressa). E em pirarrã, língua falada no Amazonas, eu não poderia dizer “42”, porque não há palavras que expressem números exatos, apenas vocábulos para “poucos” e “muitos”.

Pesquisas em meu laboratório e em vários outros vêm descobrindo como a linguagem molda até mesmo as dimensões mais fundamentais da experiência humana: espaço, tempo, causalidade e relacionamentos com os outros.
Voltemos a Pormpuraaw. Ao contrário do inglês, o kuuk thaayorre, idioma falado em Pormpuraaw não usa termos relativos ao espaço como esquerda e direita. Em vez disso, os falantes de kuuk thaayorre conversam em termos de pontos cardeais absolutos (norte, sul, leste, oeste, e assim por diante). Claro que, em inglês também há termos designando os pontos cardeais, mas apenas em grandes escalas espaciais. Não diríamos, por exemplo: “Eles colocaram os garfos de sobremesa a sudeste dos garfos grandes.” Mas em kuuk thaayorre os pontos cardeais são usados em todas as escalas. Isso significa que acaba se dizendo coisas como “o copo está a sudeste do prato” ou “o menino em pé ao sul de Mary é meu irmão”. Em Pormpuraaw, deve-se estar permanentemente orientado, apenas para conseguir falar corretamente.

Além disso, o trabalho inovador realizado por Stephen C. Levinson, do Instituto Max Planck de Psicolinguística, em Nijmegen, na Holanda, e John B. Haviland, da University of California em San Diego, durante as duas últimas décadas têm demonstrado que falantes de idiomas que se valem de direções absolutas são especialmente bons em manter o registro de onde estão, mesmo em paisagens desconhecidas ou no interior de edifícios estranhos. Eles fazem isso melhor que quem vive nos mesmos ambientes, mas não falam essas línguas.

Pessoas que pensam de modo diferente sobre o espaço também são suscetíveis a pensar de forma diferente sobre o tempo. Por exemplo, minha colega Alice Gaby, da University of California em Berkeley e eu demos aos falantes de kuuk thaayorre conjuntos de fotos que mostravam progressões temporais: o envelhecimento de um homem, o crescimento de um crocodilo, uma banana sendo consumida. Em seguida, pedimos que organizassem as imagens embaralhadas no chão para indicar a sequência temporal correta.

Testamos cada pessoa duas vezes, cada vez elas olhavam para um ponto cardeal diferente. Os falantes de inglês que recebem esta tarefa vão organizar as cartas de modo que o passar do tempo seja da esquerda para a direita. Os de língua hebraica tenderão a colocar as cartas da direita para a esquerda. Isso mostra que a direção da escrita em uma linguagem influencia a forma como organizamos o tempo. Os kuuk thaayorre, porém, rotineiramente não organizam as cartas da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Eles as arrumaram de leste para o oeste. Isto é, quando estavam sentados de frente para o sul, as cartas ficaram da esquerda para a direita. Quando encaravam o norte, as cartas ficaram da direita para a esquerda. Quando olhavam para o leste, as cartas vinham na direção do corpo, e assim por diante. Nunca dissemos a ninguém que direção eles estavam encarando – os thaayorre kuuk já sabiam disso e espontaneamente usaram essa orientação espacial para construir suas representações do tempo.
As representações do tempo variam de muitas outras maneiras pelo mundo. Por exemplo, os falantes de inglês consideram que o futuro fica “adiante” e o passado “para trás”. Em 2010, Lynden Miles da University of Aberdeen, na Escócia, e seus colegas descobriram que os falantes de inglês, inconscientemente, balançam seus corpos para a frente, ao pensar no futuro, e, para trás, ao considerar o passado. Mas em aimará, um idioma falado na cordilheira dos Andes, dizem que o passado está à frente e o futuro atrás. E a linguagem corporal dos falantes de aimará corresponde ao seu modo de falar: em 2006, Rafael Núñez, da University of Califórnia em San Diego e Eve Sweetser, da mesmo universidade, no campus de Berkeley, descobriram que os aimarás gesticulam na frente deles quando falam do passado, e atrás deles
quando discutem o futuro.

Lembrando “quem fez o quê?”
Os falantes de línguas diferentes também diferem na forma como descrevem os eventos e podem se lembrar bem de quem fez o quê. Todos os acontecimentos, mesmo os acidentes ocorridos em frações de segundos, são complexos e exigem que analisemos e interpretemos o que aconteceu. Tomemos, por exemplo, o caso do ex-vice- presidente Dick Cheney na caça de codornas, na qual, ele atirou em Harry Whittington, por acidente. Pode-se dizer que “Cheney atirou em Whittington” (em que Cheney é a causa direta), ou “Whittington foi baleado por Cheney” (distanciando Cheney do resultado), ou “Whittington levou um bom chumbinho” (deixando Cheney totalmente de fora). O próprio Cheney disse: “Resumindo, eu sou o cara que puxou o gatilho que disparou a bala que atingiu Harry”, interpondo uma longa cadeia de ações entre ele e o resultado. A fala do então presidente George Bush: “Ele ouviu um movimento de pássaro, virou-se, puxou o gatilho e viu seu amigo se ferir”, foi uma desculpa ainda mais magistral, transformando Cheney de agente a mera testemunha em menos de uma frase.

Minha aluna Caitlin M. Fausey e eu descobrimos que diferenças linguísticas influenciam o modo pelo qual as pessoas analisam o que aconteceu e exercem consequências na memória de testemunhas. Em nossos estudos, publicados em 2010, falantes de inglês, espanhol e japonês assistiram a vídeos de dois rapazes estourando balões, quebrando ovos e derramando bebidas intencionalmente, ou sem querer. Mais tarde, passamos aos participantes um teste de memória pelo qual tinham de dizer qual sujeito havia feito a ação, exatamente como numa fileira diante da polícia. Outro grupo de falantes de inglês, espanhol e japonês descreveu os mesmos acontecimentos. Quando olhamos para as informações da memória, encontramos exatamente as diferenças na memória de testemunhas oculares previstas pelos padrões de linguagem. Os falantes de todos os três idiomas descreveram as ações intencionais usando o agente, dizendo coisas como “Ele estourou o balão”, e todos os três grupos lembraram igualmente bem de quem fizera essas ações intencionais. Entretanto, quando passaram para os acidentais, surgiram diferenças interessantes. Os falantes de espanhol e japonês foram menos propensos a descrever os acidentes que os que falavam inglês. E, da mesma forma, lembraram- se menos do agente que os que falavam inglês. Isso não aconteceu por terem pior memória global – eles se lembraram dos agentes de eventos intencionais (para os quais seus idiomas naturalmente mencionariam os agentes), da mesma forma que fizeram os indivíduos de língua inglesa.
Não apenas as línguas influenciam o que lembramos, mas as estruturas dos idiomas podem facilitar ou dificultar o nosso aprendizado de coisas novas. Por exemplo, pelo fato de as palavras correspondentes a número em alguns idiomas revelarem a base decimal implícita mais claramente que em inglês (não há adolescentes problemáticos, com 11 ou 13 anos, em mandarim, por exemplo), as crianças que aprendem essas línguas são capazes de interiorizar mais rapidamente a base decimal. E, dependendo de quantas sílabas as palavras relativas a números têm, será mais fácil ou mais difícil memorizar um número de telefone ou fazer cálculo mental. A linguagem pode até afetar a rapidez com que as crianças descobrem se pertencem ao sexo masculino ou feminino.

O QUE MODELA O QUÊ?
Essas são apenas algumas das fascinantes descobertas das diferenças translinguísticas em cognição. Mas, como saber se as diferenças na linguagem criam diferenças em pensamento, ou se é o contrário? Parece que a resposta inclui os dois: a maneira como pensamos influencia a maneira de falar, mas a influência também age na direção contrária. Durante a década anterior, vimos uma infinidade de demonstrações engenhosas estabelecendo que a linguagem realmente desempenha papel causal na formação da cognição. Estudos demonstraram que ao mudar o modo de falar, mudamos a maneira de pensar. O ensino de novas denominações de cores, por exemplo, muda a capacidade de as pessoas as discriminarem. Pessoas bilíngues mudam o modo de enxergar o mundo dependendo do idioma que falam. Duas descobertas publicadas em 2010 demonstram que mesmo algo tão fundamental quanto de quem você gosta e não gosta depende do idioma em que é feita a pergunta.

Esses estudos, um de Oludamini Ogunnaike e seus colegas de Harvard e outro de Shai Danziger e seus colegas da Universidade Ben-Gurion de Negev, Israel, observaram bilíngues nos idiomas árabe e francês em Marrocos, espanhol e inglês nos Estados Unidos, e árabe e hebraico em Israel, em cada caso foram testadas as tendências implícitas dos participantes. Por exemplo, pediram às pessoass bilíngues em árabe e hebraico que apertassem rapidamente botões em resposta a palavras, mediante várias situações. Em uma delas, foram instruídos para, ao verem um nome hebreu como “Yair”, ou uma característica positiva como “bom” ou “forte”, pressionarem “M”; se vissem um nome árabe como “Ahmed” ou um aspecto negativo como “mesquinho” ou “fraco”, deveriam pressionar “X”. Em outra situação, a paridade foi revertida, de modo que os nomes judaicos e características negativas partilhavam um botão e nomes árabes e aspectos positivos correspondiam a um só botão. Os pesquisadores mediram a rapidez com que os indivíduos foram capazes de responder nas duas condições. Essa tarefa tem sido amplamente utilizada para medir tendências involuntárias ou automáticas – com que naturalidade coisas como características positivas e grupos étnicos parecem se corresponder na mente das pessoas.
Surpreendentemente, os pesquisadores verificaram grandes mudanças nessas tendências involuntárias automáticas em indivíduos bilíngues, dependendo do idioma em que foram testadas. Os bilíngues em árabe e hebraico mostraram atitudes implícitas mais positivas em relação aos judeus quando testados em hebraico que quando testados em árabe.

A linguagem também parece estar envolvida em muitos mais aspectos de nossa vida mental que os cientistas previamente supunham. As pessoas confiam na língua, mesmo quando fazem coisas simples como distinguir manchas de cor, contar pontos em uma tela ou se orientar em uma pequena sala: meus colegas e eu descobrimos que, ao limitar a capacidade de acesso às faculdades linguísticas fluentes de um indivíduo, dando-lhe uma tarefa verbal que exige competição, como repetir uma notícia, prejudica a capacidade de executá-la. Isso significa que as categorias e as distinções que existem em determinados idiomas interferem amplamente em nossa vida mental. O que os pesquisadores vêm chamando de “pensamento” esse tempo todo na verdade parece ser uma reunião de ambos: processos linguísticos e não linguísticos. Assim, pode não existir grande quantidade de pensamento humano adulto quando a linguagem não desempenha um papel significativo.

Uma característica marcante da inteligência humana é a sua adaptabilidade, a capacidade de inventar e reorganizar os conceitos do mundo de modo a se adequar às mudanças de metas e ambientes. Uma consequência dessa flexibilidade é a enorme diversidade de idiomas que surgiu ao redor do mundo. Cada um oferece o seu próprio conjunto de ferramentas cognitivas e engloba o conhecimento e a visão de mundo desenvolvidos ao longo de milhares de anos dentro de uma cultura. Cada um tem uma forma de perceber, classificar e fazer sentido no mundo, um guia inestimável desenvolvido e aperfeiçoado por nossos antepassados. A investigação sobre a forma como o idioma que falamos molda a nossa forma de pensar está ajudando os cientistas a desvendar o modo como criamos o conhecimento e construímos a realidade e como conseguimos ser tão inteligentes e sofisticados. E essa percepção ajuda- nos a compreender exatamente a essência daquilo que nos faz humanos.

Scientific American Brasil

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A força do diálogo

Defender opiniões é importante, mas sem agredir ou ofender o outro. É imprescindível saber dialogar, o que pressupõe o equilíbrio entre falar e ouvir

Eduardo Shinyashiki


É normal encontrarmos nas empresas pessoas que querem impor sua opinião e ter razão a qualquer custo, criando mal-estar no contexto profi ssional. Quantas vezes nós mesmos, tendo em mente o nosso trabalho, pensamos na imagem de um ringue de boxe onde lutas acontecem?

Mas querer ter sempre razão tem limite? Aquele que diz o que pensa a qualquer custo, dando a sensação de imposição, tende a criar confl itos no ambiente em que trabalha, não gera cooperação e integração com os colaboradores na empresa e com a própria equipe. O indivíduo acaba utilizando o julgamento e a crítica na sua comunicação, em vez da compreensão e do diálogo.

Portanto, reagir agressivamente na defesa da opinião e entrar em confl ito não levam a resultados positivos. Entrar em uma discussão com uma atitude mental de "eu ganho", "você perde", "eu tenho razão", "você está errado", "eu falo" e "você fi ca calado", claramente, não ajuda a desenvolver boas relações. A base da conversa saudável é conseguir se comunicar e criar vínculos gratifi cantes com as pessoas. Para isso, a tolerância, a abertura ao diálogo e a aceitação do outro são fundamentais.

Qual é o ponto de equilíbrio, então, para poder defender nossas opiniões e fazer com que sejam respeitadas sem ser agressivo demais? O limite de uma atitude saudável para defender ideias é quando a conversação produtiva acaba e se instaura uma batalha para impor o que se pensa e a própria imagem, faltando respeito ao interlocutor e tornando a interação autoritária, inconcludente e destrutiva.

Saber expressar e defender opiniões e pontos de vista sem agredir ou ofender o outro, mas também agir com assertividade e saber "dialogar", pressupõe o equilíbrio entre falar e ouvir dos interlocutores, como nos mostra o signifi cado da palavra "diálogo", em que dia quer dizer "através", e logos, "palavra". Resumindo, é a palavra que passa e se movimenta entre as partes envolvidas que interagem, permitindo um aprendizado colaborativo.

Ele é uma das formas mais importantes de interação entre as pessoas e permite abrir a mente a outras maneiras de pensar e a novos conhecimentos. Mostra-nos, também, como sentir e ver o mundo de diferentes jeitos, colocando em confronto diálogos mentais e fortalecendo a consciência de si mesmo e do outro. Porém, ao mesmo tempo, ele é um processo delicado, pois a tendência da nossa mente é de se apegar às próprias opiniões e defendê-las, difi cultando a conversa e criando o confl ito.

A BASE DA CONVERSA SAUDÁVEL É CONSEGUIR SE COMUNICAR E CRIAR VÍNCULOS GRATIFICANTES COM AS PESSOAS. PARA ISSO, A TOLERÂNCIA, A ABERTURA AO DIÁLOGO E A ACEITAÇÃO DO OUTRO SÃO FUNDAMENTAIS

Nesse sentido, podemos evidenciar alguns pontos de refl exão para atingir a qualidade desejada no diálogo, ser assertivos e conseguir um verdadeiro debate: - Atenção às comunicações verbal e não verbal. Usar palavras que demonstrem confi ança em si mesmo e no outro, evitando julgamentos em relação ao interlocutor, ordens e ofensas, é tão importante como utilizar a fl exibilidade comunicativa, ou seja, se fazer entender e se adaptar ao contexto do outro. Cuidado com o tom de voz, o volume, as expressões do rosto, os gestos, pois a linguagem corporal tem um papel decisivo no resultado do diálogo.

- Não interromper o interlocutor no meio de um pensamento e mostrar interesse pelo que a pessoa está dizendo são elementos que mantêm viva a conversa.

- Ouvir as opiniões do outro cria empatia e abertura ao diálogo. Procurar entender quais os seus objetivos e desejos diminui possíveis divergências e fatores de confl ito interpessoal.

- Ter clareza, ser direto e honesto na exposição dos pontos de vista, permitindo ao interlocutor compreender as nossas opiniões.

- Ser gentil na comunicação. Lembrando que ser assertivo não significa ser agressivo, mas saber o que se quer, se expressando de forma respeitosa, clara e efi caz. Atitudes gentis criam um clima positivo e sereno, além de ser a expressão de força e segurança interiores.

Podemos concluir que é possível criar um diálogo efetivo, objetivo, sem perder o limite da razão, sem humilhar, ofender ou desqualifi car o outro, expressando as próprias ideias, e que tem como pressupostos principais o respeito ao interlocutor e uma atitude interna de autoestima e autoconfi ança.

A pessoa com essas duas qualidades consegue se relacionar melhor com os outros sem medo de se confrontar consigo mesma e com os demais, sem se tornar presunçosa e arrogante na comunicação.

O desenvolvimento dessas características nasce do confronto entre si mesmo e do mundo ao redor. Tendo mais consciência de quem é você e do que se quer, há a possibilidade de defender ideias de forma clara e adequada, utilizando o diálogo que, por sua estrutura intrínseca, considera sempre o bem de todas as partes envolvidas.



Eduardo Shinyashiki é consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Especializado em Preparação Psicológica de Equipes de Alto Rendimento com o dr. Octavio Rivas Solis e em Leitura Corporal com o dr. José Angelo Gaiarsa.
www.edushin.com.br
Revista Psicologia

sábado, 30 de abril de 2011

Que som é esse?

Crianças com dislexia têm dificuldade em diferenciar a língua falada de outros ruídos
© JESPER ELGAARD/ISTOCKPHOTO
Dentro da sala de aula os sons se misturam: conversas em voz alta, barulho de papel e arrastar de cadeiras, e, ainda assim, a maioria das crianças consegue acompanhar a voz do professor. Porém, para vários alunos com dificuldades de leitura isso não acontece. O que foi dito se perde em meio ao barulho, e eles não conseguem distinguir todos os outros sons a sua volta.

Segundo neurocientistas da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, a raiz do problema está no tronco encefálico: em crianças disléxicas essa área aparentemente não reage bem. Os pesquisadores estudaram 30 crianças com idade entre 8 e 13 anos, das quais metade sofria de distúrbios de leitura.

Os participantes assistiram a um filme escolhido por eles ao mesmo tempo que ouviam a sílaba “da” no fone de ouvido. Com a ajuda de eletrodos os pesquisadores registraram a atividade cerebral das crianças. Em um segundo teste, os voluntários repetiam frases inteiras que lhes eram ditas, e o volume do barulho que estava ao fundo, usado para distraí-los, aumentava gradativamente.

Os resultados foram os esperados: apesar de todas as crianças terem se concentrado no filme, o cérebro dos voluntários sem distúrbios percebeu a sílaba pronunciada com grande exatidão, fato percebido pela linearidade do padrão no eletroencefalograma (EEG). Em crianças com dislexia, esse sinal não ocorreu e o desempenho no segundo teste foi pior do que nas demais.

O tronco encefálico funciona como primeiro ponto de conversão de sinais acústicos depois que o ouvido interno transformou as ondas sonoras em impulsos elétricos. Crianças disléxicas aparentemente têm nesse estágio inicial do processamento sensorial problemas relevantes para diferenciar a fala de outros ruídos ambientes, explica o neurocientista Bharath Chandrasekaran, coordenador do estudo.

Essas descobertas podem explicar o resultado de outros estudos que demonstraram que a dislexia muitas vezes surge associada a uma percepção acústica ruim da fala. Os pesquisadores sugerem que os professores podem ajudar crianças com esse distúrbio: alunos disléxicos deveriam sentar-se na frente do professor para acompanhar melhor a explicação e, em casos mais graves, usar aparelho auditivo adaptado.


Revista Viver Mente e Cérebro

Excluídos pela inclusão

Colocar crianças com necessidades especiais em salas separadas divide educadores: parte deles acredita que é segregação, outros defendem que é uma alternativa eficiente para o aprendizado
por Ana Elizabeth Cavalcanti
© Lisa F. Young/ istockphoto
A educação escolar de crianças com necessidades educacionais especiais não é uma experiência nova. Em meados da década de 70, as chamadas escolas alternativas já faziam as primeiras tentativas de acolher esses alunos no espaço escolar. Desde então, as escolas vêm acumulando as mais diversas experiências, e hoje se consolida cada vez mais a tendência de pensar numa educação de qualidade para todos. Mas o que seria isso? No início da década de 90, surgiu nos Estados Unidos um movimento que propunha a inclusão de todas as crianças com necessidades especiais em escolas regulares. Após a Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais, realizada em Salamanca, Espanha, em 1994, o “discurso da inclusão” tomou feições internacionais e, no Brasil, foi incorporado pelo Ministério da Educação e pela Secretaria de Educação Especial.


Se por um lado o princípio é indiscutível – todas as crianças, independentemente de suas condições, têm direito e devem ter acesso à escolarização de qualidade – por outro, ele cria dificuldades, quando se propõe a definir o que seria esse processo ou como deveria se dar. Em que pesem as diferenças existentes entre eles, os defensores da inclusão preconizam que todas as crianças devem estar em escolas e em classes regulares. Mas o que os autoriza, por exemplo, a afirmar que os surdos se escolarizam melhor em escolas e classes de ouvintes se eles próprios pensam exatamente o contrário? O que os leva a pensar que as chamadas crianças autistas e psicóticas devem estar obrigatoriamente em classes regulares, quando existem experiências tão diversas de sua escolarização e pouco se conhece ainda de seus particularíssimos modos de aprendizagem?


Em uma conversa sobre inclusão com um grupo de professoras da Rede Estadual de Ensino de Pernambuco, uma delas falou sobre suas experiências pedagógicas com crianças com necessidades especiais. Para algumas delas, disse a professora, as classes especiais ou integradas eram condição para estarem na escola, um meio de se tornarem visíveis. Para outras, essas classes foram dispositivos que promoveram a segregação e acentuaram a condição de inexistência. O mesmo se poderia dizer das salas regulares. “O que a minha experiência mostra e eu defendo”, disse a professora, “é que não há um modelo a ser seguido.” E concluiu: “Por isso, sou contra a inclusão”. Finalmente, movida por certo desconforto decorrente de seu posicionamento, acrescentou que, óbvio, não defendia a exclusão.


A fala dessa professora explicita o que incomoda no discurso da inclusão: ele tornou-se um discurso hegemônico e ideológico. Ou seja, o que é uma entre várias possibilidades de pensar a educação para todos tornou-se A forma, aquela que anuncia uma verdade única e indiscutível. O fato de a professora sentir-se obrigada a justificar que não era defensora da exclusão evidencia o efeito do modo maniqueísta de pensar presente nesse discurso: quem não está comigo, que represento o bem, está contra mim e com o mal. Ou seja, não aderir ao discurso da inclusão implica defender a exclusão. E aqueles que não aderem passam a fazer parte de uma extensa lista de excluídos – composta de professores, diretores de escolas, pais e dos próprios alunos com necessidades especiais, como os surdos, por exemplo –, tachados de resistentes, preconceituosos e segregacionistas.


Isso leva a supor que talvez, para pensar sobre uma educação de qualidade para todas as crianças, o paradigma binário inclusão/exclusão não ajude. Assim, a ideia de uma escola inclusiva deveria ser substituída pela de escolas diversas e plurais, efeito de experiências bem-sucedidas, sempre particulares, que já foram construídas ou estão por construir. Elas poderiam ser uma espécie de antídoto contra a atração fatal de homogeneizar o que é diverso por condição.

Ana Elizabeth Cavalcanti é psicóloga com formação em psicanálise, trabalha no Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) de Recife.

Revista Viver Mente e Cérebro

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Criança: objeto a liberado?


Criança: objeto a liberado?

Glaucineia Gomes de Lima
Psicanalista; Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e Professora do Curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. E-mail: glaucigomes@uol.com.br

Qual o lugar que a criança ocupa no "mal-estar" da civilização atual? Para abordar o tema em questão, partirei da afirmação de Lacan, em seu texto "Radiofonia" (1970, p. 411), em que ele se refere à ascensão ao zênite social do objeto a: "Para isso, bastaria a ascensão do objeto a, pelo efeito de angústia provocado pelo esvaziamento com que nosso discurso o produz, por faltar à sua produção". O movimento de ascensão se iniciou há bastante tempo, tendo em vista que o zênite é o grau mais elevado e Lacan se referia a um efeito particular do mestre contemporâneo, o capitalista, que produz o objeto a cavando a falta da mais-valia.

Lacan (2008) refere-se à passagem em que o capitalista não consegue deixar de rir, ao propor o contrato de trabalho. A apropriação da mais-valia é encoberta, inscrevendo-se no bolso do capitalista como valor excedente. Ele se apóia em Marx, que demonstra que o trabalho é comprado pelo capitalista pelo preço de mercado, o que produz um resto, uma parte suplementar que não é jamais paga. A produção de tal quantidade suplementar que não é paga ao trabalhador é chamada por Marx de mais-valia. Para Lacan (1970, p. 434), a mais-valia

É a causa do desejo, do qual uma economia faz o seu princípio: o da produção excessiva, insaciável, da falta-a-gozar. Esta se acumula, por um lado, para aumentar os meios desta produção como capital. Por outro lado, amplia o consumo, sem o qual essa produção seria inútil, justamente por sua inépcia em proporcionar um gozo com que possa tornar-se mais lenta.

Na teoria marxista, a mais-valia é extraída do trabalho, uma parte não-paga e jamais recuperada. Há um ganho do lado do capitalista e, em conseqüência, do lado do trabalhador se instaura uma perda. Os direitos do sujeito, o trabalhador, dos quais ela é extraída, são instantaneamente excluídos, pois o mercado opera tal subtração.

A homenagem que Lacan presta a Marx deve-se à invenção do sintoma e da mais-valia. O valor do trabalho que nunca é pago ao trabalhador é resultado da subtração do valor de uso do valor de troca. Ao embolsar a mais-valia, há um excedente produzido e jamais recuperado. Há uma perda de gozo definitiva. Na formulação lacaniana, a construção do objeto a é homóloga à mais-valia. Aflalo (2008, p. 83-84) explicita:

O objeto a é uma falta primeira que engendra uma incessante recuperação de gozo, pois a defasagem não é reabsorvida. O sujeito é empresário do seu próprio desejo, e a renúncia pulsional, necessária ao estabelecimento do discurso nutre o supereu. A gula do supereu é estrutural, não é um efeito da civilização. Um mesmo circuito econômico vale no capitalismo e na pulsão: perda e retorno de gozo sintomático.

Laurent (2007) afirma que o conceito lacaniano de objeto a refere-se a uma parte de gozo que sobra como resto de uma operação de extração. O objeto também está em ruptura com o Outro, no que este tem de universal, mas, diferentemente do sujeito, localiza-se com relação a algo prévio ao Outro.

Desde meados do século XX, o mundo assiste a uma inflação do consumo, em uma sociedade que não cessa de produzir objetos. O avanço da ciência e da tecnologia convive, paradoxalmente, com um mundo que parece se descompor, progressivamente. A produção incessante de objetos elevados ao lugar mais alto do mercado - o zênite - de modo insaciável e o seu destino inexorável, o de dejetos. A serviço do consumo, a ciência e a tecnologia não cessam de produzir o apagamento da subjetividade, como aponta Monique Amirault (2008, p. 22):

Apesar do bem que a ciência pode nos trazer, hoje ela está a serviço não mais do sujeito, que apaga, e sim do consumidor, que instrumenta. Mesmo assim, os objetos surgidos dessa ciência são desejados, levando a modos de gozar estandardizados, pela via de um mercantilismo do qual o homem é servo, embora lhe seja possível crer que aí encontra sua liberdade. Tudo lhe é oferecido para que ele "dê prazer a si mesmo". (Grifo da autora)

Na lógica do mercado, a criança aparece como consumidor privilegiado. Confrontada, muito cedo, às marcas, etiquetas, mensagens publicitárias, ela parece não poder viver sem os objetos comuns, chegando a quase desaparecer na massificação dos objetos. Nesse sentido, ela pode ser desembaraçada do seu valor de objeto precioso e ocupar o lugar de objeto a liberado, tornando-se mais um objeto entre a multiplicidade de objetos produzidos ao infinito no mercado. Amirault (2008) refere-se a um site que apresenta um bebê louro de olhos azuis para um banco de esperma dinamarquês Cryos e propõe pequenos vikings ao preço de 112 euros cada lâmina, com o slogan: "Parabéns, é um viking".

Lacan (1968), na "Nota sobre a criança", refere-se ao sintoma da criança como o que pode responder ao par familiar ou ao objeto do fantasma materno. Ele aponta que a criança tanto pode ser colocada no lugar de substituto fálico para os pais, quanto ser posta no lugar de objeto. Consumidor em potencial na sociedade de consumo, a criança é reduzida a objeto, esvaziada de subjetividade e condenada a sucumbir como objeto-dejeto da miséria da sociedade globalizada?

Segundo Brousse (2008), vive-se uma orientação para o desenvolvimento dos objetos, enunciados por Lacan pelo neologismo latusas. A produção em massa de objetos leva a empurrá-los para o destino de lixo, que tem seu lugar na contemporaneidade, não pelo fato de seres humanos serem tomados como objetos, pois eles sempre assim foram colocados. A novidade é o lugar de objetos/dejetos que passam a ser assumir. Em função do imperativo de gozar a qualquer custo do objeto, surge a idéia de que só pode haver satisfação no objeto, o que está em desacordo com a proposição da psicanálise de que as tentativas de saturar o desejo com o objeto estão condenadas a fracassar.

O IMPERATIVO DO CONSUMO NA SOCIEDADE GLOBALIZADA

É importante situar a psicanálise, em relação ao mundo contemporâneo. Há algum tempo, busca-se um suporte conceitual que dê legibilidade às transformações em que vivemos. Fala-se de Pós-modernidade (Lyotard), Hipermodernidade (Lipovetsky), Alta Modernidade (Guiddens) ou Modernidade Líqüida (Baumann).

O processo de globalização, na chamada modernidade tardia, originou um tipo de mudança estrutural que transformou a sociedade moderna, a partir da metade do século XX. Declinaram velhas identidades estabilizadas, o que fez surgir uma verdadeira crise de identidade, em função da multiplicidade dos sistemas de fragmentação e representações culturais. Representações foram dissolvidas, relações envelheceram, se desmancharam. As representações e as relações parecem se diluir, tal como preconizou Marx, ao afirmar: "Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas" (MARX; ENGELS, 1848, s/p.).

Segundo Hall (1998), o mundo denominado moderno é marcado pela fragmentação de velhas identidades estabilizadoras que declinaram. Deslocaram-se as estruturas e processos centrais das sociedades modernas que abalaram antigos quadros de referência. As transformações de tempo e espaço provocam indefinições e descontinuidades. A estrutura se viu deslocada e houve a substituição do centro para a pluralidade de espaços de poder. Tal política de fragmentação acabou por levar à pluralização das identidades. Para este autor, o processo no qual se projetam as identidades culturais tornou-se provisório, variável e problemático.

De acordo com Giddens (2003), vivemos uma era que caminha sob o impacto da ciência, da tecnologia e da racionalidade. Assiste-se ao mundo em descontrole cada vez maior. A inovação, cada vez mais freqüente, caminha junto ao risco e à incerteza. A idéia de risco refere-se aos infortúnios avaliados a partir das possibilidades futuras. Assim, viver no mundo globalizado significa enfrentar a diversidade de situações de risco.

Para Bauman (2005), na globalização, o Estado não tem mais o poder ou o desejo de manter uma união sólida com a nação. O que é da nação está aberto ao capital global e são derrubadas as barreiras ao fluxo das finanças internacionais. Ao transferir o capital aos mercados globais, há menos necessidade de reserva e fervor patriótico. O patriotismo foi transferido para as forças do mercado, o direito econômico ficou fora das mãos do Estado, os direitos políticos foram limitados e circunscritos ao pensamento do livre mercado neoliberal desregulado. Quanto aos direitos sociais, foram substituídos pelo dever do cuidado consigo mesmo. Como conseqüência, flutua-se em um espaço pouco definido, no qual a fase sólida da modernidade foi substituída pela fase fluida. O ambiente fluido leva ao não-saber o que esperar e vive-se num mundo esvaziado de valores, que se finge serem duradouros.

A civilização, na era da globalização, apresenta-se fragmentada, dispersa, não-localizada. Na era do capitalismo globalizado, estamos na ilusão da conquista virtual pretensamente ilimitada, espaço de desregulações em que reina a incerteza e não se encontra certeza, os mercados comuns parecem procurar um significante mestre e não o encontram.

Enquanto as sociedades ditas modernas, em sua fase inicial, eram caracterizadas por centrar-se na produção, engajando seus membros como produtores, nas sociedades denominadas supra-modernas, pós-modernas ou hipermodernas, engajam-se os seus membros na condição de consumidores. A transformação da sociedade moderna de produtores para a sociedade de consumo faz com que os sujeitos sejam transformados, ao mesmo tempo, em produtores de mercadorias e nas próprias mercadorias, passando a ser comandados pela lógica do "mercado" (BAUMAN, 1999; 2008).

Bauman (2008) salienta, ainda, que a sociedade de consumidores distingue-se pela reconstrução das relações à semelhança das relações entre os consumidores e os produtos a serem consumidos. O mundo fica dividido entre o sujeito consumidor e o objeto a ser consumido, com a transformação do consumidor em mercadoria a ser consumida. A coisificação do consumidor promove sua dissolução enquanto o sujeito, o que leva Bauman a falar de fetichismo da subjetividade.

a "subjetividade" dos consumidores é feita de opções de compra - opções assumidas pelo sujeito e seus potenciais compradores; sua descrição adquire a forma de uma lista de compras. O que se supõe ser a materialização da verdade interior do self é uma idealização dos traços imateriais - "objetificados" - das escolhas do consumidor. (BAUMAN, 2008, p. 24. Grifo do autor)

A ascensão dos objetos de consumo passou a regular as relações entre os semelhantes. As relações se coisificaram e os humanos foram reduzidos aos objetos. A produção maciça de objetos e sua constante desvalorização levam a uma estratégia de empuxo ao hiperconsumo e a uma conseqüente fabricação de lixos, de dejetos. Ao opor consumidores em potencial aos não-consumidores, coloca-se estes últimos na condição de inúteis, não porque estejam desempregados, mas porque não podem consumir. Deles nada se poderá esperar ou precisar, pois são indesejáveis e excluídos das sociedades humanas, puro lixo, meros dejetos, rebotalho da sociedade de consumo, como argumenta Bauman (2008).

Segundo Laurent (2007), depois do fim da Primeira Guerra Mundial, o mundo do pensamento foi tomado pelo sentimento de inutilidade da civilização. Se o sujeito tratava sua angústia antes da Segunda Guerra Mundial com sonhos de restauração totalitários, no pós-Segunda Guerra Mundial, o sujeito tratou de se abrigar dos novos significantes mestres que emergiram. Com a ascensão do mercado comum, houve a crença na extensão do universal autorizado pelo tratamento científico da civilização. Tal crença, segundo Laurent, negligenciou o retorno do gozo, o que não deixou de ter efeitos de práticas segregacionistas.

Laurent (2007) argumenta, ainda, que, com a desqualificação dos antigos ideais, surgiu um verdadeiro colapso no campo das identificações. A civilização fragmentária, dispersa e inconsistente leva à lógica da não-totalização. Sem um Deus para acreditar, o sujeito busca o êxtase ou a overdose, na civilização da "entrega para a morte", desde o matar-se de trabalhar, correr riscos nos esportes radicais, em vários gêneros de apetite pela ou gozar da própria morte.

Lipovetsky (2005) discute o processo de individualismo contemporâneo, enfatizando o fascínio pelo nada, no qual as formas de aniquilação assumem dimensões a ponto de que o deserto é a paisagem geográfica que designa o vazio no qual estão imersos os sujeitos. Com o desmoronamento dos ideais, surgem a estética de objetividade e a frieza que permite a aceleração das experimentações propícias às inovações da era capitalista globalizada. Como conseqüência, tem-se a despolitização e o desinteresse pela res publica e um hiperinvestimento no espaço privado, com a substituição do homo politicus pelo homo psycologicus. A falta de engajamento nas questões coletivas, marca da era do vazio, convive com o narcisismo e o hedonismo exacerbados. No campo do dever, também surgiram mudanças, de acordo com Lipovetsky (2005). Na civilização consumista, o Bem se transforma em bem-estar. Há uma sobreposição da felicidade à moral, dos prazeres à proibição, da fascinação ao dever. O desejo, outrora refreado, proibido, é antes exacerbado ao extremo. Na era do "basta querer para ser feliz", as obrigações morais foram substituídas pelo dever de felicidade. São legitimados os prazeres, os excessos, o conforto: "A sedução tomou o lugar do dever, o bem-estar tornou-se Deus e a publicidade é seu profeta" (LIPOVETSKY, 2005, p. 31).

O dever que se escrevia em letras maiúsculas foi minimizado, que era severo e está organizado em shows recreativos, que ordenava submissão incondicional do desejo à lei foi reconciliado com o prazer. O dever cedeu lugar ao serás feliz, pois o declínio dos ideais foi acompanhado por exigências de gozo.

Para Eric Laurent (2007), no hedonismo de massa não há dificuldades para se manter nos limites do princípio do prazer, o que pode levar a subestimar a verdadeira natureza do supereu, sua exigência pulsional e poder ilimitado, num estado de civilização em que a pulsão revela ainda mais sua face mortal. A cultura assume aspectos superegóicos, o que impulsiona os sujeitos a se orientar em busca do gozo, um menos em relação aos ideais e um conseqüente mais de gozar, o que pode levar a fazer desaparecer a particularidade do sintoma. A visão hedonista do mundo apóia o império no acesso ao gozo para todos. Maximizar o gozo está ao alcance de cada um, mas o sujeito pode dizer não para o impulso a gozar que impede de emergir a particularidade do sintoma.

Se, em 1930, Freud acentuou a renúncia ao gozo com o trabalho, atualmente é com o excesso de trabalho que se pode obter os bens oferecidos pelo mercado. Para gozar dos bens materiais produzidos ao infinito, é imperativo se exceder no trabalho, até se matar de tanto trabalhar, pois é imperativo se submeter às exigências do mercado. O excesso de produção dos objetos de consumo exerce fascínio pela promessa de satisfação plena, de gozo generalizado.

EDUCAR PARA O CONSUMO?

Pode-se pensar nos efeitos dessas fragmentação, dispersão e fluidez na educação das crianças nas sociedades capitalistas. Com o desenvolvimento do capitalismo, o tempo das crianças e suas atividades foram colonizados em função da realidade social e econômica, fazendo com que elas se encaminhem para os seus novos locais de "trabalho".

Anny Cordiè (1996) assinala que, nas sociedades ocidentais, o dinheiro, a posse de bens e o poder acabam se constituindo em ideais e valores que todos devem almejar. Ancorados em ideais narcísicos, visam a manter a ilusão de completude, de júbilo e gozo. É nessa via que a idéia de sucesso escolar ocupa um lugar proeminente na vida de crianças, pais, professores e governantes. Ser bem-sucedido na escola, assim, ocupa a perspectiva do ter acesso irrestrito ao consumo de bens.

Regido pela lógica do ter, o sujeito poderá ser considerado alguém, possuindo o poder e o dinheiro que indicam o alcance da felicidade absoluta, o acesso aos bens de consumo e bem-estar que ocupam o lugar do Bem supremo? A metamorfose do bem, nessa óptica, se situa entre o acesso aos bens de consumo e o ideal narcísico de bem-estar.

Crianças e adultos tornam-se parceiros na construção de mundo em que vivemos, mesmo que as primeiras estejam historicamente invisibilizadas pela definição social de que são "passivo" ou custo social. A infância legitima-se, assim, como posição de pouca importância da criança nas políticas públicas e repartição das riquezas socialmente geradas, por meio do processo cultural de menorização ou familiarização.

Segundo a lógica de produção capitalista, crianças são coadjuvantes dos adultos, se preparam, pelo trabalho escolar, para assumir seu lugar eventual de trabalhador e cidadão. Mudanças ocorrentes na consolidação do capitalismo introduzem nova relação entre produção e consumo e a preponderância entre valores de troca e valores de uso. Vê-se, portanto, numa era do consumo que se exacerba, um novo lugar para a infância, que passa a se situar em nova efetividade social.

Na lógica capitalista de todos iguais perante o consumo, a escola declina de lei educativa, impondo dessimetria entre educador e educando. A mestria ocupa outro lugar na transmissão do saber. A ética da globalização conecta homens por intermédio dos meios de comunicação e evidencia a solidão de cada um. A televisão transforma estranhos em figuras íntimas, elimina limites entre público e privado, promove a "banalização do mal", reduz a violência a espetáculo de luzes e efeitos especiais.

Hannah Arendt (2007) refere-se ao desaparecimento da autoridade, à perda da tradição e ao distanciamento do alicerce do passado. Quanto à crise na educação, destaca alguns pressupostos básicos: a crença em uma autonomia das crianças, a quem se deve permitir governar; a emancipação, por parte do professor, do saber competente na matéria ensinada; a substituição do saber pelo fazer. A perda da autoridade não deixa de ter conseqüências: "A autoridade foi recusada pelos adultos, e isso somente pode significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo no qual trouxeram as crianças" (ARENDT, 2007, p. 240).

A autora salienta também ser necessário compreender que a escola deve ensinar aos alunos sobre o mundo como ele é e não instruir sobre a arte de viver, não se deveria tratar crianças como se fossem adultos, não se deve educar sem ensinar, pois uma educação sem aprendizagem é vazia.

Ruth Cohen (2006) refere-se a Chomsky, que entende que o saber se vincula diretamente à busca de lucro e que os atuais governos, ditos democráticos, exercem política de proteção da propriedade privada em que a força de mercado globalizada, rege a vida dos cidadãos. A versão contemporânea da lógica do para todos, característica da globalização, leva a vários tipos de segregação. O poder tecnológico e científico empregado na transmissão de valores de uma sociedade é sempre desigual. Assim, democracia e capitalismo - em conexão com o saber globalizado - pressupõem um universal democrático, contraditório, que promove a segregação. Assim, pode-se pensar o fracasso escolar articulado aos ideais impostos pela sociedade do consumo, na sociedade atual.

Se o fracasso escolar surge como um dos sintomas do mal-estar na infância na contemporaneidade, pode-se pensar quais as conseqüências da educação que se baseia na suposta igualdade entre adultos e crianças, regidos pela ética do consumo. Negação da diferença, que, longe de garantir a igualdade, não faz mais do que garantir a exclusão. Ao ser difundida a promessa de um alcance do prazer a qualquer preço, em que tudo é permitido, qual o preço que se paga em relação ao além do princípio do prazer?

Segundo Cohen (2006), ao se identificar como o Outro do saber, o educador pode sustentar o imperativo capitalista como forma de guiar os seus alunos: "Estudar é forma de usufruir melhor os bens do futuro". Tal demanda é atendida por algumas escolas, pois instituições são procuradas como uma espécie de passaporte para a universidade, mesmo a preço muito alto a ser pago pelo aluno. Existem instituições privadas de ensino que obedecem à ética que promove políticas educacionais segregacionistas, convidando os alunos que não passam de ano a se retirar da escola. Assim, o fracasso escolar que expulsa a criança da escola gera a exclusão subjetiva, porque, como objeto, ela é posta fora do discurso da educação.

As promessas de um gozo ilimitado promovem a ilusão de que é possível ter tudo ao alcance de qualquer um. Tenta-se saturar o desejo com a promessa de possuir o saber como se fosse um objeto comum, à disposição no mercado. Cohen (2006) lembra também que a sobrecarga de informações provoca demanda de aceleração, que impõe a necessidade de nivelar os sujeitos pelo consumo, como se depreende da proliferação de projetos especiais destinados a torná-lo professor. Os professores, mal começam a aprender a lidar com um projeto, este já se torna obsoleto e o império da efemeridade, a lógica do gosto pela novidade, caracteriza a nossa líqüida civilização, invadindo a chamada "formação de professores". As causas do fracasso escolar estariam relacionadas à demanda do Outro contemporâneo, seja a escola, a família ou a política. As tensões inconscientes em jogo nos processos de aprendizagem podem ser entendidas como respostas às demandas do tecido social (representado por escola, família, Estado).

Se a lógica capitalista tende a igualar os sujeitos à mera condição de rebotalhos do tecido social, faz-se necessário ao educador se recusar a participar do imperativo do consumo que ordena o gozo absoluto, desmedido e insano que se impõe na educação regida pela lógica do mercado.

Cohen (2006) lembra também que o educador pode ser confrontado tanto com o não-saber dos seus alunos como com o excesso de saber. A criança pode ocupar o lugar de objeto para o professor, encarnando o resíduo recalcado da mestria situado sob o saber-fazer do Outro. Ao deixar a criança presa no lugar de um produto que serve de sustentação para o Outro, faz-se dela um excesso, um resto ou dejeto, sobre o qual a dinâmica capitalista nada quer saber.

Segundo a autora citada, a educação, ao vestir a máscara de saber totalizante, traduz-se em uma promessa de gozo, como se fosse algo que, um dia, livraria o aluno da impossibilidade de um saber "todo", por meio de imperativos do tipo "estude para gozar melhor o futuro". O professor pode encarnar o Outro absoluto do saber, identificado a um perigoso ideal, mostrando à criança um lugar de insuficiência e debilidade. O educador deve levar em conta a possibilidade de se tornar um agente de reprodução de neuroses, pois a criança pode estar submetida à economia e à política de um discurso pedagógico que a inscreve no lugar de objeto. O que pode ser observado em casos em que a política educacional, em nome do poder da ciência, usa e abusa de métodos educacionais arrojados que fazem das crianças cobaias de suas experimentações.

Se, de um lado, assiste-se à queda de ideais, por outro, há uma proliferação deles. A sobrecarga de ideais e de valores hedonistas, em que se postula uma ilusória ausência de mal-estar aumenta, a tendência à frustração e à decepção, como sustenta Lipovetsky (2007, p. 6):

Quando se põe em destaque um fantasioso conceito de "carência zero" generalizante, como é possível escapar do aumento da decepção? Quanto mais os imperativos do bem-estar e do bem-viver são fixados como meta imprescindível, mais intransitáveis se tornam as alamedas do desapontamento.

A queda dos ideais de outrora e as promessas totalizadoras de um futuro no qual, pretensamente, poder-se-ia abolir a falta localiza a "crise na educação" na ausência de autoridade, nos ideais de igualdade e negação das diferenças entre o adulto e a criança, na desqualificação do saber do educador e na imposição de gozo no campo educativo. Os efeitos segregativos do discurso da ciência e da tecnologia sustentados pelo discurso capitalista fazem-se sentir no campo da educação por meio da massificação do ensino, o que pode levar ao apagamento da subjetividade da criança e do adulto que por ela deveria se responsabilizar.

Para Barros (2008), a criança recebe a transmissão do legado da miséria dos adultos e, caso a miséria dos adultos não se refira à castração, essa transmissão é dificultada e pode levar a criança a sucumbir como objeto-dejeto. Nesse sentido, é necessário fazer entrar em jogo a lógica da castração como modo de recusa ao gozo generalizado ofertado pela lógica mercantilista da sociedade atual.

A INDIFERENÇA PURA NO DESERTO DO REAL ATUAL

Lipovetsky (2005) enfatiza não a angústia, mas o tédio e a indiferença em decorrência do desmoronamento dos ideais. O deserto de significações não se traduz pela revolta, o grito ou o desafio da comunicação. Diante do declínio da autoridade do educador, cuja palavra foi dessacralizada, tornando-se banal e em pé de igualdade com a palavra da mídia, o ensino se transformou em uma máquina neutralizada pela apatia escolar, feita de atenção dispersa e de ceticismo desenvolto em relação ao saber. Surgiu o desafeto pelo saber, que parece ser mais significativo que o tédio dos estudantes.

A escola assemelha-se ao deserto onde jovens vegetam sem motivação ou interesse. Assim, é preciso inovar a qualquer preço, cada vez mais liberalismo, participação, pesquisa pedagógica. Mas quanto mais a escola dá ouvidos aos alunos, mais eles abandonam esse lugar vazio. Desapareceram as greves após 1968, a escola transformou-se em um corpo mumificado e os professores compõem um corpo fatigado e incapaz de insuflar vida.

Freud (1910), no texto "Contribuições para uma discussão acerca do suicídio", coloca a escola no lugar traumático com que se confrontam os adolescentes. Alerta que a escola deveria não conseguir mais que impelir os alunos ao suicídio, promovendo-lhes o desejo de viver. Caso a escola não possa adjudicar-se o caráter de vida, ela não poderá barrar a pulsão de morte. Assim, o deserto em que se constitui a escola nos tempos atuais parece não barrar o gozo mortífero, e a acentuação das diferenças não cessa de produzir a indiferença ou o gozo autístico que impede o laço com o semelhante. O afeto do tédio surge diante do sem-sentido em que parece se constituir o espaço escolar, pois, diante da proliferação de sentidos, faz falta buscar um acesso possível ao saber.

O SOFRIMENTO NA INFÂNCIA - A CRIANÇA VÍTIMA GENERALIZADA

Na alocução sobre as psicoses na infância, Lacan decreta: "Havemos de destacar pelo termo criança generalizado a conseqüência disso" (1968, p. 367). E acrescenta: "Acabei acreditando, veja só, neste declínio da minha vida (...) que não existe gente grande" (ibidem, p. 367). Na denúncia lacaniana de que vivemos a era da infância generalizada, ele apontou não haver pessoas grandes, pessoas dispostas a cuidar das crianças, acolhendo com presteza as suas necessidades. Laurent (2007) destaca uma verdadeira epidemia de gozo mortífero, em que se delineia o estranho lugar ocupado pela criança vítima. Refere-se a atos de pedofilia, prostituição e práticas incestuosas cometidas contra as crianças pelos próprios pais.

De pretensa majestade, a criança ocupa o lugar de vítima e os comportamentos irracionais de quem deveria cuidar da criança provocam impotência na assistência social e na família. A epidemia de gozo mortífero que surge como expressão da pulsão de morte aponta para o fora-do-sentido. Para tentar verificar o lugar da criança vitimizada, faz-se necessário ouvir as crianças. Para Laurent, trata-se de vitimizar duplamente a criança.

Em seu entendimento, Laurent considera que o lugar da criança vitimizada é o inverso do estado dado à subjetividade, que é a de ser um sujeito que corre riscos. Cada risco é apresentado como uma espécie de cálculo e sem sentido sob um nível estrito de igualdade, mas o risco generalizado e as vítimas que ele engendra apagam a dimensão da responsabilidade em nome do risco, que acaba se constituindo em vetor de subjetividade vazia e, no lugar da questão, o risco. A posição da psicanálise, pelo contrário, é buscar, a partir de uma vítima, a chance de criar um sujeito responsável por seu gozo.

É nesse sentido que se pode retomar a posição da criança como objeto a liberado, produzido. No texto "Nota sobre a criança", Lacan (1969) afirma que a criança pode realizar a presença de objeto na fantasia materna, o que a deixaria exposta a todas as capturas fantasísticas. Ao se tornar o objeto da mãe, não teria outra função senão a de revelar a verdade desse objeto.

Entender a criança como objeto é entendê-la de outro modo que não como revestida por uma significação fálica. Na perspectiva freudiana, a criança era vista como substituto do falo e, no lugar do ideal do eu parental, o lugar de sua Majestade, o bebê, revivescência do narcisismo parental. Na perspectiva dos psicanalistas que se ocuparam da psicanálise de crianças, iniciou-se uma teorização sobre o lugar de objeto (parcial, transicional) ocupado pela criança. Ao entendê-la como objeto, enfatiza-se o lugar que a criança ocupa em relação ao gozo, à satisfação pulsional. A ênfase não é a criança capturada como ideal, mas como objeto do qual se pode gozar.

No seminário "De um Outro ao outro", Lacan (1968-9) denuncia a criança como objeto a liberado, produzido. Nesse sentido, ele aponta a criança não só como objeto a da fantasia materna, mas como objeto de gozo da família, da civilização, o que não é sem conseqüências para a subjetividade da criança.

Na era do hedonismo mortífero, em que se trata de gozar a qualquer custo, as famílias, que deveriam se ocupar da educação das crianças, não se apoiando na falta que causa o desejo, não oferecem a transmissão irredutível apoiada na relação com um desejo não anônimo. Ao expor a criança às capturas fantasísticas pela impossibilidade de oferecer uma identificação ideal, sem mediação da falta materna e da Lei do desejo do pai, não resta outra saída senão manter a criança como vítima do gozo mortífero da infância generalizada que responde ao imperativo hedonista da sociedade de consumo.

Se o que está em jogo no drama das famílias é a liberação do objeto a, cabe indagar como oferecer à criança outro lugar que não o de objeto do gozo mortífero. Para Laurent (2007), o sintoma depende da civilização. Ele alerta que foi necessário o declínio do pai para que o parricídio deixasse de interessar e para que a criança maltratada tomasse a frente da cena. Com o declínio da imago paterna, o crime atual não é mais o parricídio, mas o abuso, a pedofilia, o infanticídio, a vitimização da criança. Se há um resto não-contabilizável na produção da mais-valia, esse retorno de gozo mortífero que vitimiza a criança é sintoma do mal-estar na civilização do consumo globalizado. Se é proibido proibir, se é imperativo o prazer, como permitir um freio ao gozo que possibilite o desejo?

ESCUTAR O SINTOMA

Num mundo tão permissivo, o que caberia à psicanálise? Pode-se dizer, com Lacan (1968), que é próprio da formação humana pôr um freio ao gozo. Pode-se dizer não ao impulso ao hedonismo generalizado, não permitindo que o "pronto para gozar generalizado" possa impedir de escutar a particularidade do sintoma. Assim, pode-se intervir nos lugares em que os sintomas contemporâneos são recolhidos.

Para Laurent (2007), o analista cidadão pode intervir na polis com o seu dizer silencioso, que implica tomar partido de maneira ativa, silenciar a dinâmica de grupo que rodeia a organização social. O analista deve ser sensível às formas de segregação, contribuindo para que não se esqueça a particularidade de cada um, seja em nome da universalidade ou de qualquer outro universal.

Concluo com uma indicação preciosa de Hanna Arendt (2007, p. 247) que aponta a saída pelo amor à criança, um modo de o gozo condescender ao desejo:

A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum.

domingo, 9 de maio de 2010

Criança, a escola e a família


Criança, a escola e a família
Miriam Altman

No início da vida, o bebê e a mãe estão num relacionamento muito próximo, não existe ainda para o bebê uma diferenciação entre ele e a mãe.

É necessário que seja assim, pois é esta proximidade que mantém a mãe e o pai também, tão atentos e disponíveis para atender as necessidades do bebê. A partir desta primeira relação a criança vai começar a se diferenciar da mãe e poder se ver separada dela, com uma existência própria, mas para que isto ocorra muito tempo e condições favoráveis serão necessárias.

Isto porque a criança pode ir formando dentro dela, em sua mente, uma imagem segura de uma mãe amiga e protetora. Essa imagem anterior pode confortar a criança nos períodos de ausência da mãe.

Também a mãe, se tudo correu bem, pode voltar a encarar sua vida e suas ocupações, quanto mais a dupla mãe-bebê tenha sido capaz de desfrutar da sua relação inicial, tanto mais provável que ocorra a gradativa separação em duas pessoas.

As relações familiares, os mundos conhecidos da rotina da casa se tornam as primeiras referências da criança. A ida para a escola maternal pode significar uma ruptura com este mundo conhecido e por isso se tornar muito assustador para a criança, assim como para seus pais.

É natural que uma situação nova e desconhecida suscite medos, ansiedades e insegurança por isto é importante que os educadores possam considerar essas emoções como algo esperado nesta situação e na medida do possível ir conversando com a criança e com seus pais a respeito da repercussão destas vivências.

A intensidade com que cada um vai experimentar essa situação depende muito de aspectos particulares da personalidade e também da dinâmica familiar. Essas vivências podem ter um caráter bastante primitivo e fogem de qualquer tentativa de explicação racional. Vamos procurar descrever algumas das fantasias e angústias que podem estar envolvidas nestas experiências de separação.

Estes sentimentos e fantasias podem referir-se à idéia de que o crescimento e a conseqüente separação impliquem numa ruptura muito brusca e sem volta. Se for assim a mãe pode não tolerar que o filho se afaste dela, tenha seus amigos e interesses particulares dos quais ela não faz parte, pois esse fato passa a ser ameaçador. Da mesma forma é muito comum os sentimentos possessivos, ciumentos e o desejo de controlar a mãe presente na mente infantil.

A criança pode ter medo de que a mãe não voltará e que, portanto está diante de um abandono. Nestes momentos, em função das fantasias inconscientes, a separação pode ser sentida como algo terrível, por ambas as partes, e pode tentar ser evitada.

O comportamento de muito agarramento pode também estar relacionado com as fantasias e com desejos de posse, exclusividade e controle sobre o objeto, sem poder aceitar que a outra pessoa tenha uma vida própria, decida suas ações com liberdade, tenha seus pensamentos, enfim, seja uma pessoa em separado.

O fato é que a separação é inevitável na vida de cada um de nós, para que haja crescimento é necessário que a separação seja tolerada, mesmo considerando que é muitas vezes um processo doloroso pois implica em mudança, em perdas por situações conhecidas e no enfrentamento das angústias e fantasias decorrentes destas vivências.

Outro aspecto presente é a crença de que o filho é como uma extensão dos pais, sem uma diferenciação. Alguns pais se relacionam com o filho como se fosse um eterno bebê sem reconhecer as condições e os recursos da criança, dessa forma infantilizam seus filhos. Podem ser alertados e orientados pela escola, podendo repensar sua conduta e agir mais de acordo com a realidade da criança.

Quem observou muito bem esses fenômenos psíquicos infantis foi a psicanalista inglesa Melanie Klein. Notou o quanto a separação pode também despertar o ódio na criança e como conseqüência surgirem fantasias muito primitivas e hostis como as que relatamos acima dificultando muitas vezes a separação com a mãe e o ingresso no maternal.

A experiência da criança no maternal e na pré-escola pode ter pouca semelhança com a educação e o aprendizado formais dos anos seguintes, entretanto o que ela aprender pode ser de grande valor para sua vida. Além de ter espaço e liberdade para brincar, pode começar a aprender a conviver com outras crianças, que é ao nosso ver um aspecto muito importante.

Poder experimentar o dar e receber dos relacionamentos sociais, aprender que é possível experimentar raiva sem fazer muito mal, descobrir que as outras crianças podem ser amistosas ao mesmo tempo em que são hostis. O papel do educador é fundamental, pois pode propiciar um ambiente seguro onde estas descobertas vão ocorrendo.

Quanto mais cedo uma criança com dificuldades puder ser ajudada, mais possibilidades de se desenvolver de forma satisfatória ela terá; progredindo em sua autoconfiança e desenvolvendo sentimentos de segurança.

Estes sentimentos são na maior parte das vezes inconscientes e a mãe não se dá conta, mas a criança pode estar reagindo a algum tipo de comunicação sem palavras. Os aspectos inconscientes estão sempre presentes nas relações humanas, é da natureza deles que não tenham um sentido lógico nem coerente.

A maior contribuição de Freud foi mostrar que estes processos inconscientes além de existirem têm uma força considerável em nossas ações e comportamentos. Tanto é, que na maior parte das vezes nos vemos tendo certas atitudes sem que saibamos porque. Às vezes procuramos dar explicações racionais e lógicas, mas não podemos captar o real sentido, pois não nos é acessível.

Estamos sempre diante de situações, sobretudo nas relações humanas, onde a presença do desconhecido se faz presente. A crença no poder da razão e na força dos processos da consciência foi profundamente abalada depois das descobertas de Freud e seus seguidores.

Estas fantasias descritas, por nós anteriormente, são inconscientes, elas surgem na mente de cada um de nós independente da nossa vontade, da nossa razão e mesmo do nosso controle. Esta visão compreensiva dos processos psíquicos pode ajudar o educador a olhar para os acontecimentos cotidianos ao qual está exposto na escola sem o vértice moral ou crítico, pois os pais não agem de forma inadequada com os filhos por maldade.

A escola pode ajudar a incentivar com que os pais façam uma reflexão sobre os aspectos emocionais envolvidos na relação com os filhos, a perceber o quanto estes aspectos se fazem presentes e influem no desenvolvimento, crescimento e socialização das crianças; desta forma tomando consciência das suas próprias emoções e atitudes possam ser orientados a adotar uma conduta mais adequada e realista com relação ao filho.

Alguns pais são mais abertos e maleáveis o que facilita muito a comunicação, outros são mais rígidos, fechados e impenetráveis. Podem se mostrar muito sensíveis às observações e comentários sentido-se criticados. Por isto, a função da escola não é fácil e exige habilidade para lidar com estas situações.

Vamos descrever à seguir o que é o “objeto transacional” e qual sua função no desenvolvimento infantil. Quando estamos falando em separações, em situações novas e desconhecidas onde a criança experimenta angústia medo e desamparo, o “objeto transacional” serve como suporte, um apoio para a criança.

Quem nos apresentou este conceito foi um pediatra e psicanalista inglês D. W. Winnicott que observou e trabalhou com crianças.

Segundo ele, este objeto é escolhido pela criança, não é imposto pela mãe e nem por nada externo a ela, ao seu desejo e vontade. Às vezes uma fralda velha, um pedaço de roupa dos pais, um cobertor, possui características muito particulares, como por exemplo o cheiro, por isto não pode ser lavado.

Este objeto não é auto-erótico, como por exemplo, chupar o dedo ou enrolar o cabelo; é externo ao corpo da criança, por isto dizemos que é uma ponte que faz a ligação entre a criança e o mundo externo.

Para cada criança tem um sentido, sente como algo seu que lhe passa segurança, pois é algo muito familiar, pode sentir que tem a posse e o controle pode levar para aonde quer. Tem poderes sobre este objeto, é seu e não varia independente do seu desejo como tantas outras coisas sobre as quais não pode ter controle nenhum.

Até uma certa idade o uso desse objeto é esperado e faz parte, ajuda a criança a levar consigo algo que pode lhe tranqüilizar e a lidar com a ausência-presença da mãe, mas depois de certa idade a necessidade premente da presença deste objeto pode indicar que algo não vai bem com a criança.

O papel do educador é poder ajudar a criança pequena a criar outros interesses, mostrando que não está em situação de perigo ou ameaça que precise se agarrar a este único objeto, “tábua de salvação”. Esta passagem deve ser gradual, o objeto fica por perto e mais tarde pode ser devolvido à criança. Se a retirada deste objeto “apoio” for brusca, sem respeito ao ritmo pessoal de cada criança, corre-se o risco de criar um clima de angústia e insegurança, o que só pode dificultar o processo de adaptação.

Pois, participar de uma atividade, interagir com outras crianças podem ser situações novas e desconhecidas para as crianças pequenas, causadoras de ansiedades, mas que paulatinamente, com a ajuda do educador, podem se encorajar a experimentar e por fim tirar muito proveito.

Outro aspecto que vamos abordar hoje é a presença dos sintomas e o sentido que podem ter como expressão de conflitos internos. As dificuldades não se expressam de forma clara e direta, mas sim com disfarces para que possam ser aceitas pela consciência e causa o mínimo de dor psíquica possível.

Este fato é que pode dar o caráter estranho e bizarro a certos sintomas. Como falávamos anteriormente da presença das fantasias e processos inconscientes podemos agora compreender que os sintomas têm sempre um sentido que está relacionado com as fantasias inconscientes.

Vamos pensar em um exemplo: uma criança não quer ir à escola, apresenta isto de forma muito intensa que chega a se expressar como uma fobia. Não há razão aparente para este tipo de medo e terror. Aqui os fatores são internos e desconhecidos para a própria criança que está sofrendo e não sabe porque, para os pais e educadores. Não há, portanto uma explicação lógica nem racional.

Como a criança não pode tomar contato com o real sentido desses medos, expressa sua angústia projetando, ou seja colocando seu terror num objeto externo a ela mesma, no caso a escola. Dessa forma pode temporariamente se esquivar de uma dor se afastando da escola. Este medo de estar na escola pode estar relacionado com as fantasias inconscientes que estávamos descrevendo no início do artigo, às vezes é preciso paciência até que estas fantasias possam ir naturalmente sendo elaboradas.

Neste sentido os sintomas se apresentam como arranjos entre forças mentais antagônicas e conflitantes com o intuito de evitar percepções dolorosas; só que a pessoa sem se dar conta acaba criando situações muito difíceis e sofridas para ela mesma.

Entendemos que a escola e os pais, estando atentos ao desenvolvimento das crianças, possam observar seus comportamentos e cheguem a notar quando algo se expressa de forma exagerada e muito desarmônica. É importante usar a intuição como um meio de se localizar e captar o pedido de ajuda que não costuma ser expresso de forma tão direta e clara.

Esperamos através desta breve exposição colaborar para a compreensão das complexas interações entre a criança, a escola e a sua família.

Miriam Altman é Psicóloga Clínica, Coordena grupo de estudos voltados para educadores e psicólogos. http://www.revistapsicologia.com.br/


Revista Catharsis

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