quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A democracia do amor

Lucilene Machado

Imagem por DollyHaul/cc


Nos ajustamos à solidão contemporânea e deixamos o universo fluir, à deriva, como se não fizéssemos parte dele. Concordamos que amor é necessário para nos fazer pessoas melhores, no entanto, estamos quase impotentes frente aos desafios de andar sobre essa navalha lírico-passional



Li em algum lugar que o amor é o teatro dos ricos e o circo dos pobres. Em verdade, não sei se eu li, ou se vi em uma dessas séries de TV por assinatura. Certo é que tenho pensado nisso e me intriga o fato do amor da classe média não ter sido inscrito nesse provérbio.

Provavelmente, a classe média não dispõe de tempo nem para o teatro e nem para o circo. Ou não dispõe de energia, a classe média tem se ocupado em pensar o mundo e mover os seus ponteiros, em pleitear direitos, protestar para não perdê-los, defender a natureza, velar diuturnamente a balança da deusa Têmis… e não tem atingido a catarse de chorar ou rir os seus amores.

É possível que a classe média não saiba o que fazer com o amor e o vai postergando para tempos vindouros, para plasmá-lo com a realização de uma longa viagem, como fazem os ricos, e criar seu próprio teatro, idealizado com elementos sofisticados, glamoroso… mas, desiste ao pensar na conta vindoura, parcelada em vários meses, que poderá comprometer a educação dos filhos, o plano de saúde dos pais, a comida na mesa, a academia de ginástica, a prestação do carro, da casa… enfim, tantas coisas a pensar antes de se investir no amor que este fica pequeno, pequenino na escalada dos sonhos.

Sem muitas opções, o amor da classe média sobrevive com um vinho de segunda, comprado em supermercado, e um motel que não tenha baratas. Às vezes, um final de semana num hotel de turismo, em local estratégico, e depois fotos para que amigos em comum celebrem o acasalamento, atribuindo ao ato um pouco mais de magia. É preciso reconhecer que esta é a classe que mais sofre e é também a mais derrotada pelos designíos que motivam ou desmotivam o amor. Ninguém nos oferece uma viagem de presente, os bancos nos marginalizam, os governos nos enganam, não há leis para perdoar nossas dívidas, pagamos juros altíssimos, quando não é o caso de fazer novos empréstimos para quitar os anteriores.

Somos tão vilipendiados em nosso histórico amoroso que, às vezes, optamos por não amar. Nos ajustamos à solidão contemporânea e deixamos o universo fluir, à deriva, como se não fizéssemos parte dele. Concordamos que amor é necessário para nos fazer pessoas melhores, no entanto, estamos quase impotentes frente aos desafios de andar sobre essa navalha lírico-passional.

Já a classe baixa não tem medo, enfrenta o amor com valentia, imediatamente. São acrobatas no assunto. Atiram-se de trapézios altíssimos sem se darem conta do perigo que incorrem. São contorcionistas de um espaço que lhes é negado, mas não refutam os sentimentos. Amam, gozam, fazem filhos por toda a vida e entram no globo da morte, se preciso for, para defender uma paixão. A classe baixa tem pressa. Casa, descasa, volta a se casar como se o mundo terminasse no dia seguinte. Nem a psicologia dá conta de explicar a mágica que é viver o amor em condições tão adversas. A literatura realista venera personagens dessa estratificação social. São cheios de crença, de fé e dispostos a recomeçar sempre, seja onde for e como for. Não se importam em ser nômades, e se inscrevem na existência bruta, se esfregam, se arranham, se entorpecem, se cortam… fazem-se e desfazem-se diante dos nossos olhos como uma mágica circense. O amor da classe baixa desconstrói, sem pudores, os nossos padrões de relacionamentos.


No entanto, para os ricos o amor é o teatro. Idealizado desde Aristóteles, explorado por Homero, ocupa os palcos mais elegantes. É interpretado com graça e brilho sobre lençóis egípcios combinados com tapetes persas. Requer quarto de vestir, prótese de silicone, óvulos congelados e iogurte sem lactose. É o amor com serviço de quarto e massagista para retirar do corpo a tensão. Resguarda um helenismo tardio de perfeição para manter a metáfora heroica de príncipe e princesa.

O amor da classe alta não precisa ser real, tampouco recíproco. Ele se sustenta sem palavras sedutoras, sem jogo de inteligência, sem ética e, nem sempre, segue ideais democráticos, bastam as máscaras definidas pela estratificação da classe milionária e os códigos vigentes que compõem o teatro, muitas vezes, amador, protagonizado por Barbie e Ken.

Talvez a ideia que o provérbio inicial queira difundir é a de que na riqueza ou na pobreza o amor é sempre um espetáculo, porém não profere que é na classe média que ele se expõe ao sol causticante da realidade, que tem os sonhos cortados em nacos para subsistir. Na classe média não temos papéis determinados, temos que assumir muitos deles, fazer experimentos, enfrentar o mais fino dos medos antidemocráticos a escorrer pelos nossos corpos tão carentes e, paradoxalmente, tão cansados.

Lucilene Machado é Doutora em Teoria Literária/ Professora UFMS
LE MONDE DIPLOMATIQUE

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Um touro diferente


A história de Ferdinando é uma lição de pacifismo e tolerância


Foto: Divulgação

É um movimento normal da mente humana voltar-se para a antítese, para o contrário, para a diferença. Isto já dizia Goethe em relação às palavras e conceitos: toda palavra suscita o seu antônimo. Falamos “alma”, vem à memória “corpo”. Pensamos em “noite”, vêm à tona “dia”, “manhã”, “alvorecer”.

A ironia, por exemplo, trabalha com o oposto do explícito. Machado de Assis dizia que era fácil suportar a cólica do próximo. Sem dúvida, a dor do outro está do outro lado, e não me afeta diretamente. A tristeza da dor alheia não me diz respeito, se não pratico a solidariedade. Também o paradoxo baseia-se nessa estratégia intelectual: o mito definido como “o nada que é tudo”, nas palavras de Fernando Pessoa, diz tudo.

A sempre empolgante luta entre o bem e o mal demonstra que polaridade jamais enfrenta problemas de aceitação. Amor e ódio, certo e errado, sim e não, justo e injusto, verdade e mentira, céu e inferno (com um terrível purgatório no caminho de Dante), vida e morte… Romances, filmes, teatro, música, pintura, e todos os diálogos em que Sócrates buscava o que não é para saber o que de fato é. Eis o jogo que leva torcidas e leitores ao delírio.

Ferdinando está de volta

Em 1936, o escritor e ilustrador norte-americano Munro Leaf publicou um livro que rapidamente tornou-se long-seller internacional, com base nas antíteses forte x sensível, ferocidade x mansidão, violência x não violência. The story of Ferdinand, cujo título em português é O touro Ferdinando, completa este ano 82 anos de promissora carreira. Já foi editado em inúmeros países e recebeu duas adaptações para o cinema: em 1938, pelos estúdios da Disney, e agora, em 2018, pela Blue Sky Studios (com direção do brasileiro Carlos Saldanha).

A simplicidade da história (que foi escrita pelo autor em menos de uma hora) realça o contraste entre o mundo da força venerada e o comportamento pacato do touro Ferdinando. O touro que gosta de cheirar flores jamais terá a performance que dele se espera na arena. Em lugar de distribuir chifradas contra toureiros famosos, Ferdinando prefere a tranquilidade do campo. Seu fracasso como animal agressivo não lhe causa o menor aborrecimento. É feliz sendo o que é: um touro diferente.

Por que será O touro Ferdinando (Editora Intrínseca, 2017) leitura educadora? Ferdinando surpreende desde quando era ainda bezerro. Desde pequeno, evita as brincadeiras brutais dos seus colegas de idade. Não gosta de ficar pulando e trocando cabeçadas com os outros bezerros. Para que isso? Prefere ficar sentado, à sombra de uma frondosa árvore, no meio das flores. Ferdinando é um autêntico pacifista. Não à toa, Gandhi e Martin Luther King se encantaram com a narrativa.

Sua mãe, observando o estranho comportamento do filhote, ficava apreensiva. Temia que ele se sentisse sozinho. Ela o procura para conversarem:

— Por que você não brinca de correr, pular e dar cabeçadas com os outros bezerros? — perguntava ela.
Mas Ferdinando respondia:
— Prefiro ficar aqui, quietinho, cheirando as flores.
E assim ela entendeu que Ferdinando não se sentia sozinho. Por ser uma mãe compreensiva, mesmo sendo uma vaca, deixou que ele ficasse ali, quietinho e feliz.

A presença e a compreensão da mãe faz-nos pensar, por outro lado, na falta de compreensão do pai. Aliás, o pai de Ferdinando nem aparece na história. A ausência da figura masculina pode indicar que Ferdinando fosse órfão. Terá o pai dele morrido num espetáculo tauromáquico? É bem possível. Ferdinando herda do pai a força e o tamanho, mas, por algum motivo, não compartilha com os outros touros do pasto o sonho de ser escolhido para as tradicionais touradas espanholas.

Paz e guerra

O sucesso de O touro Ferdinando deve-se à sua contraproposta num tempo de ódios e conflitos. Entre 1936 e 1939, precisamente na Espanha, onde se passa a história, vivia-se a guerra civil. Logo depois, estouraria a Segunda Guerra Mundial. Conta-se que o ditador Franco proibiu que o livro fosse traduzido para o espanhol. Hitler, na Alemanha, disse que se tratava de “propaganda da democracia decadente”, e apenas em 1946 o livro pôde ser lido em alemão: Ferdinand, der Stier (“Ferdinando, o touro”).

Nos Estados Unidos, na mesma época, a crítica dividiu-se. Uns diziam que era um livro comunista, pacifista (algo malvisto em tempos de guerra…) e fascista. Outros afirmavam que era, na verdade, uma sátira ao comunismo, ao pacifismo e ao fascismo. Quando perguntaram ao autor o que pensava ele dessas reações contraditórias, respondeu simplesmente: “O touro Ferdinando é um filósofo”.

Quando cinco homens estranhos foram procurar no campo um touro musculoso e veloz para participar da próxima tourada em Madri, Ferdinando, graças ao acaso de uma ferroada de abelha, pulou, bufou e deu tantos coices no ar que, sem querer, chamou a atenção dos observadores e foi conduzido direto para a capital. Com a intenção de atrair o público sedento de sangue, deram ao jovem touro um cognome assustador: “Ferdinando, o Feroz”!

Ferdinando, porém, no final, por mais que o provocassem, só queria sentir o perfume das flores que enfeitavam os chapéus das mulheres presentes ao evento:

Não importava o que fizessem, Ferdinando se recusava a lutar e ser feroz. Continuava ali sentado, cheirando as flores. Os bandarilheiros ficaram com raiva, os picadores ficaram com mais raiva ainda e o toureiro chegou a chorar de tanta raiva, por não poder se exibir com sua capa e sua espada.

Ferdinando ensina, entre outras coisas, que uma atitude de paz (atitude estética, representada pela fruição do aroma das flores) pode intensificar a raiva dos senhores da guerra. Felizmente, na ficção, levam o touro Ferdinando de volta para o campo. Infelizmente, na história humana, a raiva pode ser cruel com quem pensa e age diferente.

“Bode expiatório” e “atirar a primeira pedra”: as expressões cotidianas que tiveram origem na Bíblia


Se metáfora fosse campeonato de pontos corridos, o futebol seria campeão com muitas rodadas de antecipação – mas o vice talvez ficasse com a Bíblia


Imagem: Bíblia de Lutero

Quais são os grandes referenciais de comunicação comuns a todos os brasileiros? Ao contrário de outros países e épocas, não temos clássicos que todos tenham lido; nem riquíssimos repertórios de provérbios, que, no Oriente, são conhecidos por qualquer criança. Não são patrimônio de todos episódios da história pátria, que possam ser trazidos para aplicação a outros casos. Nem um Alcorão, que nos países árabes abastece de metáforas e frases feitas os diversos setores da vida secular.

Para nós, o futebol é de longe o principal fornecedor de metáforas e expressões para a vida cotidiana: situações políticas, econômicas, afetivas, profissionais etc. são rapidamente compreendidas por meio do recurso a seu amplíssimo repertório. Um par de exemplos, de comunicação aparentemente difícil, mas que se tira de letra, bem e rapidamente, evocando o futebol.

Anedotário

Dois amigos em um restaurante vão pedir pratos individuais e querem, de algum modo, compartilhá-los. Um deles diz:

– “Vamos pedir dois pratos e a gente divide.

Ao que o outro, responde:

– Divide, não: o mando de jogo da carne é meu; o do peixe, é seu”. (Não vai ser meio a meio, mas…)

Final de semestre; a prova final já foi feita, o professor pretende dar aulas muito abreviadas e simbólicas, mas não pode dispensar formalmente os alunos (embora queira passar a mensagem de que vai fazer vista grossa na presença e “esquecer” de fazer a chamada…), mas, claro, não quer formalizar esse relaxamento. E diz:

– Bom, gente, nosso curso praticamente acabou. Ainda temos mais duas aulas, mas é só para cumprir tabela…
Mesmo os que não se interessam por futebol acabam valendo-se de sua linguagem, tal a viveza e o interesse de sua vigência para o brasileiro.

Vice-campeão

Se metáfora fosse campeonato de pontos corridos, o futebol seria campeão com muitas rodadas de antecipação. Mas, e para saber quem é o vice? Bom, aí embolou o meio de campo…

Talvez a Bíblia. Com a desvantagem de que suas metáforas e expressões são usadas, mas sem que se tenha o mesmo vigor e, em alguns casos, os usuários nem se lembram da proveniência bíblica desta ou daquela expressão. Quando Eike Batista diz “Atire a primeira pedra o motorista que nunca tomou uma multa por excesso de velocidade”, seus ouvintes entendem, mas poucos talvez evoquem o episódio de Jo 8, 7, no qual Jesus impede o apedrejamento da mulher adúltera. Para não falar do “bode expiatório” de Lv 16, 8-10; 20-22; que alguns chegam a pensar que é um bode que fica espiando e acaba por levar a culpa.

Recolhemos a seguir algumas expressões e frases feitas, cuja origem bíblica não é evidente para todos (em alguns casos, não se tratará necessariamente de origem, mas de alguma relação de sentido com este ou aquele versículo).
Provérbios do cotidiano

• Quem procura… – Quem, ao ver o célebre slogan-provérbio do SBT em fins dos anos 80 (então, ainda TVS), se lembraria de que é literalmente uma frase de Jesus Cristo (Mt 7, 8): “Quem procura, acha” (ao qual Sílvio Santos acrescentou apenas o advérbio: “Quem procura, acha… aqui”).

• Quem com ferro fere… – Jesus inspirou alguns ditos proverbiais comuns na linguagem popular. Muitos podem se escandalizar ao saber que é bíblico (do Velho Testamento) o duro “Olho por olho, dente por dente”, prescrito três vezes (Ex 21, 24; Lv 24, 20 e Dt 19, 21), mas revogado por Cristo (Mt 5, 38), que propõe, em seu lugar, a também proverbial “oferecer a outra face” (Mt 5, 39) e ainda (Mt 26, 52) a advertência: “quem empunha a espada, pela espada perecerá” (ou, se se prefere: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”). Também é de Jesus, a comparação “Cego que guia outro cego” (Mt 15,14; Lc 6, 39).

• Quem semeia ventos… – São bíblicos os conhecidos provérbios: “Quem semeia ventos, colhe tempestades” (Os 8, 7) e: “Quem dá aos pobres, empresta a Deus” (Pv 19, 17).
Expressões populares

• Dois pesos e duas medidas – É expressão bíblica presente em Prv 20, 10.

• Umbigo do mundo – No sentido de alguém se considerar o centro de tudo, o mais importante: tabur haaretz (umbigo da terra) aparece em Jz 9,37 e Ez 38,12.

• Dar murro em ponta de faca – Formulação ligeiramente modificada de At 26, 14, que recolhe a fala de Cristo a seu perseguidor Saulo: “Dura coisa te é recalcitrar contra o aguilhão”.

• Cruzar os braços – A expressão, hoje corriqueira e integrante do vocabulario sindical, aparece nas formas “cruzar os braços” e “ficar de braços cruzados” já com o sentido de “não trabalhar”, em Pv 6, 10 e Ecl 4,5.

• Adeus – Usado para despedida que se presume definitiva (e, portanto, encomendo-te a Deus), encontra-se em Atos: Paulo despede-se da comunidade e diz “Não voltareis a ver o meu rosto… a Deus vos encomendo” (At 20, 25 e 32).

• O demônio do meio-dia – Uma expressão curiosa, não proverbial e mesmo desconhecida pelos falantes contemporâneos, que o escritor Andrew Solomon foi buscar no Salmo (90[91], 6), na tradução da Vulgata, para o título de seu livro, já clássico sobre a depressão O demônio do meio-dia (The noonday demon).
“Vá para a pqp”

Embora se trate de forma bem portuguesa, a fórmula de insulto: “vá para a puta que o pariu”, ganha sentido às luzes da Bíblia. Como frequentemente ocorre, frases feitas tendem a ser repetidas automaticamente, sem que se atente a seu sentido original. O significado exato de mandar para a pqp faz-se presente no confronto dos cariocas e do mineirinho, que recolho de um destacado site de piadas (orapois.com.br), seção “mineiro”:

Dois cariocas muito espertos foram passar umas férias em Minas.

Ao chegar, um pergunta ao outro:

– Vamox tirar uma com o primeiro mineiro que aparecer nessa extrada?

– Aí, beleza, cara, vamox nessa!

Logo à frente, aparece um mineirinho acanhadinho, coitado…

Os cariocas param o carro e um deles pergunta:

– Aí, mineirinho, para onde nóx vamox falta muito?

O mineirinho, muito acanhado, responde:

– Depende uai! Se oceis vão pra puta que o pariu já passaram; se vão à merda, falta dois quilômetros [a cidadezinha rival]; agora se vão tomar no c é aqui mesmo…

A mensagem subjacente quando se manda alguém para a pqp é a de que o indivíduo mau, sacana, chato etc. não tem lugar no convívio humano e não deveria ter saído da barriga da mãe (no caso, a responsável por ele ser o fdp que ele é…) e para lá deve ser reencaminhado… A ideia de voltar ou de não ter saído do ventre materno ocorre na Bíblia: daquele que o vai entregar, Jesus diz que melhor lhe fora não ter nascido (Mt 26, 24; Mc 14, 21) e o profeta Jeremias, nesse caso, diante das desgraças que sofre, lamenta por ter saído do ventre materno (Jer 20, 14 e ss.). E quem se comporta como néscio, diz o Eclesiástico (23, 14), chegará a desejar voltar ao ventre da mãe, amaldiçoar o dia em que dele saiu…
Semitismos da linguagem

Modos de falar também sofrem influências (ao menos semelhanças) dos raciocínios bíblicos.

Superlativo duplicado

Uma forma de superlativo semita é a conhecida “x dos x”. Aparece, por exemplo, em Apocalipse 17, 14 (ou 19,16), quando se diz de Cristo, que é Rei dos reis e Senhor dos senhores.

Curiosamente, esse formato bíblico reaparece (surpresa das surpresas) no hino do Corinthians: “Salve o Corinthians, o campeão dos campeões”.

Note-se, apenas de passagem, que o próprio nome do time brasileiro é bíblico, remete à Epistola aos Coríntios (em inglês, Corinthians). Mais precisamente à passagem em que São Paulo compara os esforços requeridos pela vida cristã aos de atletas e corredores que desejam vitórias (I Cor. 9: 24 e ss.).

No século 19, ante o preconceito de igrejas contra o esporte (“culto ao corpo”, etc.), o aval do Apóstolo era usado por cristãos esportistas que invocavam a Epístola (daí o nome do time inglês Corinthian, que inspirou o nosso Corinthians).

O uso do passado para indicar futuro

A gramática semita pode valer-se do passado para expressar o futuro, que aparece, assim, como mera resultante do passado. Como ensina Aida Hanania, falando da peculiar visão semita do tempo, ancorada no passado:

“É como se, nessa visão monolítica do tempo, o presente e o futuro não tivessem autonomia em face do passado, este, sim, determinante e determinador. Essa preponderância do passado repercute na gramática”.

Diz o Eclesiastes (1,9): “O que foi é o que será; o que se fez é o que se tornará a fazer: nada há de novo sob o sol!”.

O futuro é, assim, até em termos gramaticais, determinado pelo passado e por ele expresso em sentenças proverbiais, como em “Quem semeia ventos, colhe tempestades”, que no original soa: “semeou ventos, colheu tempestades”.

Tal fato torna-se compreensível quando nos lembramos de alguns exemplos de uso semelhante em nossa língua, especialmente em linguagem publicitária. Como na campanha de 2012 da Skol retornável: “Trocou, economizou” (quem trocar, economizará); ou na antiga do Estadão: “anunciou, vendeu” (quem anunciar, venderá). Ou a da Sedex “mandou, chegou” (se mandar, chegará). E se escrever e não ler, o pau comerá (“Escreveu, não leu, o pau comeu”). E quem bater, levará (“Bateu, levou”).

* Jean Lauand é Professor Titular Sênior da Faculdade de Educação da USP e professor das Faculdades Integradas Campos Salles

Darcy no reino dos áulicos


“Ajudantes de ordens” que vivem à sombra do poder negam educação a milhões de brasileiros; leia mais na coluna de José Pacheco



Crédito: Shutterstock

Na obra O Brasil como problema, Darcy questionava: “Qual é a causa real de nosso atraso e pobreza? Quem implantou esse sistema perverso e pervertido?”. E propunha um diagnóstico dos obstáculos cruciais, que a nação brasileira precisaria ultrapassar, para se desenvolver. Nesse livro, o maior dos obstáculos seria a nefasta ação de um certo tipo de intelectual: o áulico.

O áulico é um ajudante de ordens, aquele que está contente com o mundo tal qual é, e faz o seu papel. E o raciocínio do Darcy permanece atual. Ainda hoje, os áulicos prosperam, vivendo à sombra do poder, produzindo ideias irrelevantes, planos inconsequentes, ou contribuindo para destruir qualquer esboço de inovação educacional.

Identificamos dois tipos de áulicos: os ingênuos e os esquizofrênicos. Os primeiros controlam estruturas do poder público. Os outros infestam universidades e comissões de especialistas. Deixemos estes para próximo artigo e reflitamos sobre diatribes dos ingênuos.

A comunicação social, pródiga em notícias de maus-tratos infligidos à Educação, diz-nos que áulicos verea­dores enquistados no poder público reveem o Plano Municipal de Educação, aproveitando a oportunidade para o extirpar do que não lhes convém manter. A Meta 19 foi quase ignorada. Agora, suprimem a Meta 18, aquela que visa implementar a Educação em Direitos Humanos na Educação Básica, viabilizar ações de combate ao preconceito e discriminação no ambiente escolar. Em total impunidade, “ingênuos” vereadores não cumprem o Plano Nacional de Educação, contribuindo para negar o direito à educação a milhões de jovens brasileiros.

Nas escolas particulares, onde educação se converte em mercadoria, as novas tecnologias assumem-se como diferencial de mercado. Na ânsia de deter a queda da taxa de evasão e para melhorar a captação de alunos, ingênuos gestores recorrem a áulicas consultorias, especializadas no uso da tecnologia para atrair pais e para captar alunos.

O drama se repete nas escolas (ditas) públicas. Em mais uma manifestação de ingenuidade pedagógica e para fomentar o envolvimento das famílias na vida escolar dos filhos, uma secretaria de Educação decidiu abrir concurso e acolher propostas de empresas especializadas em “mecanismos para motivar o aluno e em ferramentas para melhorar a gestão escolar (…) com o objetivo de aumentar a aprovação”. O regulamento do concurso estabelece que apenas poderão concorrer organizações que já tenham prestado serviços envolvendo um mínimo de 5.400 alunos. Mas, o que se poderá esperar de tais organizações, certamente altamente especializadas em projetos conduzidos por áulicos? Exatamente o que os áulicos autores de anteriores projetos produziram: o desperdício de mais alguns milhões.

O secretário de Educação justifica a medida: A educação está anacrônica. O jovem pressente isso e foge. Buscamos alternativas para esse fracasso. Mas o zeloso secretário insiste em anacrônicas medidas de política educativa.

Como diria o Frederico, no reino dos áulicos, reinam a lisonja, a mentira, a ostentação, o usar máscaras, o fato de brincar de comediante diante dos outros e de si mesmo. Mas a crise ética instalada também é tempo de oportunidades. E quase nada é mais inconcebível do que o aparecimento de um instinto de verdade honesto e puro. Oremos…

domingo, 14 de setembro de 2014

Notícias Pedagogia e Vida


China enfrenta dificuldades com problemas mentais de crianças
As crianças se veem isoladas por conta da política governamental do um filho por casal, e pelos pais que precisam se mudar em busca de trabalho

TANIA BRANIGAN
DO "OBSERVER"

Sim, é só um bicho de pelúcia. Mas coloque-o nas mãos de uma criança e assista enquanto ela finge alimentá-lo, conversa com ele, e até o coroa rei. Para começar, o bicho de pelúcia provê segurança; depois, permite que a criança interprete novos papéis e desenvolva competências sociais.

As autoridades da China esperam que dicas como essa, incluídas em um livro para pais e professores pré-escolares, ajudem a conter os problemas de saúde mental que as crianças do país enfrentam. Os orçamentos dos serviços de saúde mental para crianças e adolescentes estão congelados no Reino Unido, mas a China deseja expandir a provisão desse tipo de serviços, promover abordagens psicoterapêuticas e adotar medidas preventivas.

Desde 2012, as pré-escolas e escolas chinesas vêm promovendo a saúde mental tanto quanto a educação física. No ano passado, a China aprovou sua primeira lei de saúde mental, que instrui os pediatras a buscar sinais de alerta nos pacientes: os olhos dos bebês de três meses de idade acompanham os objetos em movimento? Aos 18 meses, as crianças são capazes de manter contato olhos nos olhos com seus interlocutores? As autoridades também buscaram a ajuda de psicoterapeutas estrangeiros fim de ajudar a treinar especialistas e promover a conscientização.

"O governo está dedicando muita atenção à saúde psicológica", disse o Dr. Zheng Yi, presidente da Sociedade Chinesa de Psiquiatria da Criança e do Adolescente e diretor assistente do Hospital Anding, de Pequim, parte da Universidade Médica da Capital.

Os resultados preliminares de uma pesquisa que ele comandou, e será publicada antes do final do ano, sugerem que cerca de 15% das crianças chinesas têm problemas de saúde mental. Ele afirmou que isso se compara favoravelmente à média de 20% vista em outros países, mas apontou que alguns problemas, como os distúrbios de ansiedade, parecem estar em ascensão.

A melhora nos padrões de vida permitiu que maior número de pais dedicasse atenção ao bem estar emocional de seus filhos, mas o desenvolvimento também causou novos problemas, incluindo mudanças dramáticas nas estruturas familiares e pressões sociais e educacionais intensificadas. "Para muitas crianças, a economia não é problema. O problema é que há menos oportunidade de brincar", disse Zheng.

Outros mencionam o impacto da lacuna geracional criada pela transformação da China, e o da política de um filho por casal. Filhos únicos podem desfrutar de melhores cuidados, mas também podem receber mimos excessivos, se tornando "pequenos imperadores", ou sofrer solidão porque lhes faltam companhias de sua idade.

Viviane Green, do departamento de estudos psicossociais do Birkbeck College, um dos especialistas internacionais que estão desenvolvendo o programa de treinamento, disse que os casos são muitas vezes semelhantes aos encontrados no Reino Unido, com "adolescentes expressando hostilidade; questões de apego já na primeira infância".

Mas ela acrescenta que "o que existe de ligeiramente diferente é provavelmente como as emoções são expressadas, porque a cultura é diferente e o apego filial aos pais é muito forte. As pessoas têm conflitos - mas o senso de self não é um modelo individualizado, como temos aqui - [a ideia] de que boa saúde mental envolve separação, envolve viver sozinho. Ele gira mais em torno do dever para com a família de origem e os elos que a pessoa mantém para com ela".

A psicoterapia está crescendo rápido na China, mas os especialistas do país precisam "ajudar essas novas ideias a se relacionar a outros tipos de experiência que eles extraíram da cultura local, bem como a pessoas como os psiquiatras", disse a Dra. Wang Qian, que organizou o projeto de treinamento internacional como diretora do escritório executivo da unidade psicanalítica nacional.

O Dr. Sverre Varvin, que preside o comitê da Associação Psicanalítica Internacional para a China e há anos oferece treinamento a profissionais chineses, acrescentou que "a cultura chinesa é realmente metafórica, e é preciso dedicar tempo a descobrir essas metáforas".

Continuam a existir problemas sérios na prestação de serviços. Há uma escassez de psiquiatras infantis na China, que segundo Zheng será resolvida pelo treinamento de pediatras e clínicos gerais para que sejam capazes de diagnósticos iniciais e tratamentos básicos de saúde mental.

Os serviços são especialmente escassos nas regiões rurais, onde talvez sejam mais necessários. Muitos trabalhadores migrantes deixam os filhos em casa quando se mudam para trabalhar, porque o sistema de "registro domiciliar" chinês significa que é difícil obter serviços como educação nas cidades. A maioria dessas famílias se reúne na melhor das hipóteses uma vez por ano.

Cerca de 50% dessas crianças "deixadas para trás" sofrem de depressão e ansiedade, ante 30% de suas contrapartes nas cidades, de acordo com um novo estudo bancado pelo governo da província de Heilongjiang. Elas também são mais sujeitas a oscilações de humor e a estresse. Yang Yangjie, da Universidade Médica de Harbin e responsável pela pesquisa, disse que os problemas psicológicos dessas crianças tendiam a ser mais complexos: "As crianças deixadas para trás sofrem de complexos de inferioridade, baixa autoestima e baixa confiança. Muitas parecem desprovidas de senso de segurança e são medrosas demais ou sentem ansiedade demais para interagir com outras pessoas", ela disse.

Algumas dessas crianças são, para todos os fins práticos, criadas por apenas um dos pais, e em alguns casos tanto o pai quanto a mãe trabalham, o que as leva a serem criadas pelos avós, que podem não ter o tempo e energia requeridos para cuidar adequadamente delas. Os guardiões muitas vezes se concentram nas necessidades materiais e ignoram as necessidades emocionais das crianças, disse Yang. Embora existam poucas verbas para os programas dirigidos a grupos vulneráveis, no momento, o apetite por eles é notável. A Save the Children inicialmente oferecia "primeiros socorros psicológicos" em emergências como desastres naturais, provendo assistência básica e identificando as crianças necessitadas de assistência adicional. Mas Pia MacRae, diretora da organização na China, disse que os funcionários e os associados da organização haviam solicitado, além disso, que ela provesse treinamento a trabalhadores de centros de atendimento a crianças de rua.

Zhen acredita que a atenção deve ser concentrada tanto na prevenção quanto na cura. As mudanças sociais não precisam causar danos, se as pessoas se adaptarem apropriadamente: garantindo que os filhos únicos convivam com meninos e meninas de sua idade; e talvez criando um regime de trabalho migrante alternado para que um dos pais esteja sempre em casa.

Mas o primeiro grande desafio, ele disse, era encarar as percepções negativas, para que problemas de saúde mental deixem de portar um estigma para as crianças. "Se pudermos nos livrar disso, consultar um psiquiatra será como ir ao médico quando você tem uma febre", ele disse.

Tradução de PAULO MIGLIACCI
FOLHA DE S.PAULO

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O que mostram os testes de inteligência?


Limitação de tempo impede avaliação de funções cognitivas importantes

crédito: solarseven/shutterstock

Scott Barry Kaufman

Em 1990, os pesquisadores Patrick Kyllönen e Raymond Christal descobriram uma correlação impressionante. Eles aplicaram diversos testes de memória operacional (ou memória de trabalho) a grandes grupos de recrutas da Força Aérea americana. Os participantes realizavam operações simples com base em uma única sequência de letras.

Na tarefa “recodificação do alfabeto”, por exemplo, o computador exibia rapidamente três letras: H, N, C. Em seguida, dava uma instrução como: adicione a quarta letra. A resposta certa seria L, R, G.

É claro que sequenciar quatro letras é fácil. A parte difícil é lembrar a letra enquanto se processa a próxima operação mental e manter as duas em mente ao fazer a terceira operação. Isso pode ficar cada vez mais difícil com instruções mais complexas e mais letras para transformar em sua cabeça.

Em quatro estudos diferentes os pesquisadores detectaram correlações extremamente elevadas, variando de 0,8 a0,9, entre suas medidas de memória operacional e várias medidas de raciocínio. As correlações, de fato, foram tão altas que eles intitularam seu artigo científico: “A habilidade de raciocínio é (pouco mais que) a capacidade de memória operacional?!” (Reasoning ability is (little more than) working memory capacity?!).

Desde então, muitos estudos confirmaram que a memória operacional é um importante fator contribuinte para o raciocínio fluido. De todas as habilidades cognitivas já medidas por pesquisadores da inteligência, o raciocínio fluido é a mais generalizada e explica a maior variação em todas as outras aptidões cognitivas. A capacidade de inferir relações e padrões pontuais a problemas baseados em um mínimo de conhecimentos e experiências anteriores desempenha um papel relevante, em graus variáveis, em praticamente todas as áreas do funcionamento intelectual humano.

Mas qual é, exatamente, a extensão da relação entre a memória operacional e o raciocínio fluido? Como ocorre frequentemente no caso da ciência, a força dessa correlação tem se mostrado em todas as partes, dificultando determinar a verdadeira relação entre memória operacional e raciocínio fluido.

Há muitas razões para as inconsistências. Os diversos estudos incluem uma seleção e um número diferente de testes, além de uma gama de diferentes habilidades cognitivas entre os participantes. Esses tipos de detalhes metodológicos importam.

Um novo estudo sugere um fator adicional: o timing dos testes. Adam Chuderski revisou 26 estudos que ministraram provas de medição de memória de trabalho e o teste Matrizes Progressivas de Raven, que é a medida mais usada para o raciocínio fluido.*

Em cada questão do teste de Raven, a pessoa é apresentada a uma matriz de 3×3, na qual ela tem que identificar a peça que falta para completar o padrão:

MATRIZES PROGRESSIVAS DE RAVEN

O que é preciso para se sair bem nesse teste? Acontece que só há algumas regras necessárias para resolver todos os itens dessa prova. Os problemas mais fáceis exigem que a pessoa aplique uma única regra, como adicionar ou subtrair apenas um atributo (como uma linha). Os mais difíceis exigem uma combinação de várias regras e múltiplos atributos (como formas, tamanhos e cores). A dificuldade na solução dos itens de Raven é que a pessoa tem que separar os atributos relevantes dos irrelevantes e ter em mente as regras enquanto as testa. Além disso, quando algumas regras não funcionam, a pessoa tem que saber quando parar de seguir por esse caminho e recomeçar. Como essa tarefa requer a habilidade de descobrir as relações abstratas entre novos estímulos, ela é uma boa medida do raciocínio fluido não-verbal.

Chuderski constatou que os estudos que intensificam a pressão de tempo no teste de Raven aumentavam significativamente a correlação entre a memória operacional e o raciocínio fluido. Em outras palavras, quando as pessoas tinham mais tempo para raciocinar, a capacidade da memória operacional não era um contribuinte tão forte para o raciocínio fluido.

Como achou suas descobertas intrigantes, ele decidiu investigar a questão mais a fundo em dois outros estudos.

Em seu primeiro estudo, ele ministrou vários testes de memória operacional e raciocínio fluido a 1.377 pessoas com idades entre 15 e 46 anos. Usando uma técnica estatística chamada análise fatorial confirmatória, ele confirmou que a pressão temporal nos testes de raciocínio fluido impactam a força da correlação entre a memória operacional e o raciocínio fluido.

No caso do “grupo altamente acelerado” (20 minutos), a memória operacional explicou toda a variação do raciocínio fluido; enquanto no “grupo subacelerado” (60 minutos), a memória de operacional foi responsável por apenas 38% da variação no raciocínio fluido.

Chuderski replicou sua descoberta em um segundo estudo e descobriu que quando não havia nenhuma pressão de tempo durante o raciocínio fluido, a memória operacional só explicava cerca de um terço das diferenças entre raciocínio e desempenho. Além disso, ele constatou que uma medida de “aprendizagem relacional”, a capacidade de aprender de relações anteriores entre as letras para aumentar a eficiência do processamento posterior de relações numéricas, contribuíam, independentemente, para o grau de variação no raciocínio fluido.

Por que isso importa?

Esses resultados sugerem que podemos estar subestimando seriamente a capacidade do raciocínio fluido das pessoas ao impormos rígidas restrições de tempo. Esse estudo é consistente com outras pesquisas recentes que sugerem que a “inteligência rápida” pode ser distinguida da “inteligência lenta”.

Pesquisadores, educadores e líderes empresariais que tentam avaliar o nível de raciocínio fluido de um candidato enfrentam um dilema: você quer medir sua capacidade de raciocínio fluido através de uma tarefa de alta velocidade ou lhe dar uma oportunidade maior para mostrar seu poder de raciocínio? De acordo com Chuderski:

“O método de ensaio anterior [testes altamente acelerados] medirá a capacidade de lidar com complexidade em um ambiente dinâmico, tendo assim uma elevada validade no mundo real; mas isso pode subestimar pessoas que, independente de sua capacidade limitada, apresentem boas soluções em ambientes menos dinâmicos. Esse método [com pressões de tempo mais flexíveis] resultará em uma visão mais abrangente da capacidade de raciocínio, inclusive da contribuição de faculdades intelectuais além do chamado WM (work management, ou habilidade de trabalho) e parecem ser complementares a ele; mas também poderiam incluir muitos ruídos (por exemplo, estratégias aprendidas dependentes de tarefas) influenciando negativamente a avaliação da eficiência futura de uma pessoa no que diz respeito às exigências, tempo, e tarefas completamente novas”.

Isso é importante porque, tendo mais tempo, as pessoas podem compensar suas limitações de memória operacional, como pessoas que mostram grandes melhorias no raciocínio fluido depois de aprender como desenhar diagramas para representar um problema. Quando Kenneth Gilhooly e seus colegas apresentaram silogismos oralmente, isso exigiu mais da memória de trabalho (operacional) em comparação com as premissas que os participantes tiveram que armazenar em suas cabeças. Mas quando os silogismos eram apresentados com todas as premissas fixas na tela de projeção, as pessoas tinham um desempenho melhor, porque podiam “descarregar” as premissas de suas memórias operacionais, libertando assim recursos limitados para construir um modelo mental eficiente do problema.

No decorrer da última década John Sweller e seus colegas projetaram técnicas de instrução que aliviam a carga de memória operacional em alunos, aumentando o aprendizado e o interesse. Baseando-se tanto na literatura sobre conhecimento como de funcionamento da memória operacional, elas se igualam à complexidade das situações de aprendizagem para o aluno, tentando reduzir cargas de memória desnecessárias que podem interferir com o raciocínio e o aprendizado; otimizando os processos cognitivos mais relevantes para a aprendizagem.

Além disso, há implicações para intervenções de treinamento cerebral. Como mencionei em um artigo anterior, a literatura sobre treinamento cognitivo é um atoleiro. Enquanto alguns estudos concluíram que aprimorar a memória de operacional melhora o raciocínio fluido, outros constataram uma falta de transferência.

Uma causa possível para as inconsistências na literatura de treinamento cognitivo pode ser o timing das tarefas. Susanne Jaeggi e seus colegas, por exemplo, ministraram seus testes de raciocínio fluido sob rígidas restrições de tempo (por exemplo, de10 a 11 minutos para 18 itens do teste de Raven) e constataram que o treinamento da memória operacional mostrou um aumento no desempenho do raciocínio fluido. Comparativamente, Roberto Colom e seus colegas aplicaram testes de raciocínio fluido sob pressão de tempo padrão e não encontraram nenhum efeito do treinamento da memória operacional no raciocínio fluido.

Esses resultados contraditórios fazem sentido à luz do estudo de Chuderski: quando tarefas de raciocínio fluido têm limites rigorosos de tempo, elas são essencialmente testes de memória operacional (de trabalho). Nessas condições, seria de se esperar mais de uma transferência de memória de trabalho para o raciocínio fluido. Mas quando as tarefas de raciocínio fluido têm menor pressão de tempo, a memória de trabalho está mais fracamente associada ao raciocínio fluido e outros mecanismos cognitivos entram em jogo, como a aprendizagem relacional e associativa. Além disso, podem ser empregados auxílios externos, como a utilização de diagramas para facilitar a construção de modelos mentais mais elaborados e eficientes.

Conclusão

A memória operacional (de trabalho) e o raciocínio fluido são iguais ou diferentes? Depende. A imposição de rigorosas pressões de tempo em um teste de QI obriga as pessoas a se basear quase exclusivamente em sua limitada capacidade de memória operacional, ao passo que lhes dar mais tempo para pensar e raciocinar aumenta suas chances de apresentar outras funções cognitivas que contribuem para seu brilho intelectual.
Scientific American Brasil

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