domingo, 9 de dezembro de 2018

A jovem Malala conta sua incrível história


Reportagem de Revista VEJA desta semana mostra como a menina paquistanesa que desafiou os radicais islâmicos do Talibã por querer estudar — quase pagando com a vida por isso — se tornou símbolo da luta pela liberdade e pelos direitos da mulher. Agora, ela lança sua biografia

Malala Yousafzai recebeu prêmio em Haia em 6 de setembro (Bas Czerwinski/AFP/AFP)

Quando Malala Yousafzai nasceu, nenhum vizinho foi dar os parabéns aos seus pais. Em regiões do Paquistão como o Vale do Swat, onde ela vivia, só o nascimento de meninos é celebrado. Das meninas, espera-se apenas que vivam quietinhas atrás das cortinas, cozinhem e tenham filhos – preferencialmente antes dos 18 anos. “Malala” significa “tomada pela tristeza”. Mas a primogênita dos Yousafzai driblou duas vezes o destino: escapou da profecia do batismo e trocou as cortinas por onde deveria espreitar o mundo pelo centro do palco. Aos 12 anos, para poder continuar indo à escola, desafiou uma das mais cruéis e violentas milícias em ação, o fundamentalista Talibã. Aos 15, foi baleada na cabeça numa tentativa do grupo de silenciá-la. Malala sobreviveu ao atentado e, aos 16 anos, tornou-se porta-voz mundial de uma causa até há pouco quase obscura, entre outros motivos, por ter surgido em uma região que já parecia ter problemas demais a tratar: os milhares de meninas no Afeganistão e no Paquistão que, graças a uma interpretação do Islã eivada de ignorância e ódio, são impedidas de ter acesso à educação e a um futuro melhor. Na quinta-feira, Malala recebeu o prêmio Sakharov, dado pelo Parlamento Europeu. Na sexta, concorreu ao Nobel da Paz como a mais jovem indicada na existência da premiação. O livro Eu Sou Malala (Companhia das Letras; 344 páginas; 34,50 reais, ou 24 reais na versão digital), a ser lançado no Brasil neste mês, conta como essa história improvável e extraordinária aconteceu.

Nele, Malala relata que cresceu em um lar barulhento, lotado de tios, primos e agregados. As crianças jogavam críquete no quintal, a mãe vivia na cozinha pilando açafrão e o pai passava a maior parte do tempo fora de casa. Seria uma tradicional família paquistanesa, não fosse por um detalhe. Ziauddin Yousafzai, pai de Malala, é professor e viu na filha – curiosa e vivaz – sua aluna perfeita. Contrariando os hábitos locais, punha os meninos para dormir e deixava a garota ficar na sala, ouvindo-o falar de história e política. Ziauddin estimulou Malala a gostar de física e literatura e a se indignar com as injustiças do mundo – apresentadas a ela em toda a sua magnitude quando tinha 10 anos e o Talibã fez do Vale do Swat seu território. Sob o governo paralelo da milícia fundamentalista, os homens foram obrigados a deixar a barba crescer, as mulheres que saíam de casa desacompanhadas eram açoitadas na rua e as escolas femininas receberam ordens de fechar as portas – as que desobedeceram foram dinamitadas.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Países onde pais não podem bater nos filhos são menos violentos


Estudo mostra que punição de crianças com uma simples palmada pode causar problemas no futuro

Agência Estado

Violência gera violência. Os países que proibiram os pais de bater em seus filhos são menos violentos, revela uma nova pesquisa. De acordo com o estudo, as brigas entre jovens são menos comuns e o ambiente se torna particularmente mais seguro para as meninas crescerem. O trabalho da Universidade McGill, do Canadá, foi publicado na BMJ Open e traz mais indícios de que a punição de crianças com violência - mesmo que seja uma simples palmada - pode causar problemas no futuro. 
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Em países onde o castigo corporal foi inteiramente banido (tanto em casa, quanto na escola) houve uma redução de brigas físicas 31% entre os jovens do sexo masculino e de 42% entre as meninas. Nos países em que a proibição foi parcial (caso do Canadá, dos Estados Unidos e do Reino Unido, onde o castigo físico não foi proibido em casa), não houve alteração significativa.

Estudos anteriores já tinham mostrado uma clara relação entre o castigo físico das crianças e o surgimento de diversos problemas na vida adulta, desde o comportamento agressivo até problemas mentais. No estudo atual, os cientistas estabeleceram que a relação entre castigo físico e violência na juventude se mantinha, a despeito de outras variáveis, como a renda per capita e as taxas de assassinato. O novo trabalho, no entanto, não oferece mais detalhes sobre a relação.

"O que podemos dizer é que os países onde o uso do castigo corporal é proibido são menos violentos para as crianças do que os países que não fizeram o mesmo", explicou o principal autor do estudo, Frank Elgar, do Instituto de Políticas Sociais e de Saúde da McGill. "Neste momento, estamos olhando para a questão de um ponto de vista bem amplo e em nível internacional e notamos a correlação. Mas para mostrar os efeitos diretos da proibição na violência entre jovens, precisamos voltar mais alguns anos para trás e coletar mais dados. Precisamos também perguntar às crianças e aos jovens mais perguntas sobre o que acontece em casa, coisa que, normalmente, os pesquisadores ficam um pouco constrangidos de fazer."

As brigas são geralmente mais comuns entre jovens do sexo masculino (cerca de 10%) do que entre meninas (3%). O porcentual de brigas também varia muito de um país para o outro, indo de menos de 1% entre as meninas da Costa Rica para cerca de 35% dos meninos de Samoa. 

Os pesquisadores usaram dados provenientes de 88 países da Organização Mundial de Saúde (OMS), envolvendo cerca de 400 mil jovens.

Os países foram divididos entre os que proíbem completamente o castigo corporal, tanto em casa quanto na escola (a maioria na Europa e em alguns lugares da América Latina, da Ásia e da África), aqueles que proibiram nas escolas, mas não em casa (como China, Estados Unidos e Canadá) e os que não proibiram nem nas escolas (como Myanmar e Ilhas Salomão).
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Entre histéricos, demagogos e financistas

Resultado de imagem para Escola sem Partido

José Ruy Lozano

Imagem por Caio Borges

Escola sem Partido, militarização dos colégios estaduais e entrada do grande capital na rede privada. O que importa é que, ao contrário dos filhos das famílias mais ricas, os jovens pobres estejam sujeitados à disciplina mais restrita, aquela necessária a quem vai se inserir na sociedade em posição subalterna



“O conhecimento não só amplia como multiplica nossos desejos. Portanto, o bem-estar e a felicidade de todo Estado ou Reino requerem que o conhecimento dos trabalhadores pobres fique confinado dentro dos limites de suas ocupações e jamais se estenda […] além daquilo que se relaciona com sua missão. Quanto mais um pastor, um arador ou qualquer outro camponês souber sobre o mundo e sobre o que lhe é alheio ao seu trabalho e emprego, menos capaz será de suportar as fadigas e as dificuldades de sua vida com alegria e contentamento.” Esse trecho foi extraído de um famoso compêndio de filosofia moral do século XVIII: A fábula das abelhas: vícios privados, benefícios públicos, de Bernard de Mandeville (1670-1733). A lição de Mandeville volta a fazer sentido no momento atual da educação brasileira, cuja herança de inovação se depara com diversas ameaças. Inventariamos algumas no texto que se segue.

Escola sem Partido

Boletim de ocorrência. Esse é um dos links presentes no site do movimento Escola sem Partido, e o nome já anuncia, ou denuncia, como seus integrantes veem a educação. Caso de polícia.

Acessando a página, o leitor é convidado a apontar episódios de pretensa doutrinação ideológica perpetrada por docentes de escolas e universidades, ou até mesmo fora de sala de aula, em opiniões nas redes sociais, por exemplo. O discurso persecutório é evidente, e as “acusações” abundam, num linguajar grotesco que denuncia desde a defesa dos direitos humanos básicos, inscritos na Constituição, até a análise das condições de trabalho na Revolução Industrial, presente em livros de História, como opiniões de esquerda.

Nada mais partidarizado que o Escola sem Partido. A pretexto de expurgar um suposto viés político à esquerda dos professores, seus militantes querem extirpar da escola sua institucionalidade pública, de espaço de debate e formação acima e além das crenças familiares e valores religiosos de caráter privado. O verdadeiro pavor do Escola sem Partido é a inserção das crianças no mundo fora da família, que começa na escola. O que o movimento combate é a ideia de escola como espaço público, onde crianças e jovens vão necessariamente ao encontro da diferença, transcendendo a vida privada.



Militarização nas redes estaduais

A publicação do último Atlas da violência no Brasil expõe a situação dramática na segurança pública. As séries estatísticas, incluindo a impressionante cifra de homicídios, não escondem a principal vítima dos crimes contra a vida: o jovem pobre, morador das periferias dos grandes centros urbanos. Famílias assustadas são alvo fácil da mais recente solução simples – e errada – para o complexo problema da violência juvenil, correlato da evasão escolar: a militarização dos colégios estaduais.

A ideia consiste em colocar, na direção e nas coordenações dos colégios estaduais, oficiais da Polícia Militar. Com sua autoridade, restaurariam a disciplina, eliminariam os desvios e melhorariam o rendimento dos alunos. Os indicadores dos colégios militares brasileiros seriam a prova da eficiência.

Enquanto os países com os melhores indicadores de educação (e os mais caros colégios particulares brasileiros) adotam metodologias ativas e investem fortemente na formação de professores, para que as aulas sejam dialogadas, baseadas em problemas e desenvolvedoras do raciocínio e do pensamento crítico, nos colégios militarizados nada disso tem vez. O professor fala, o aluno limita-se a ouvir e anotar.

Evidente que o milagre dos colégios militares tradicionais não vai se repetir. Neles, há seleção prévia e os alunos têm vocação para a carreira castrense. O que importa é que, ao contrário dos filhos das famílias mais ricas, os jovens pobres estejam sujeitados à disciplina mais restrita, aquela necessária a quem vai se inserir na sociedade em posição subalterna.


A articulação do grande capital

O Ministério da Educação é hoje campo de atuação de fundações de direito privado, alimentadas pelo financiamento de grandes grupos econômicos. Fundação Lehman, Instituto Península (Abílio Diniz), Itaú Cultural e Todos pela Educação são alguns dos braços que articulam políticas públicas educacionais dentro do governo. A reforma do ensino médio e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nasceram das demandas dessas entidades.

Não se nega a situação precaríssima do segmento médio da educação básica, cuja evasão chega à metade dos alunos matriculados, tampouco a necessidade de um mínimo curricular nacional, importante fator de equidade. A condução de tais temas, no entanto, tem por objetivo mais a adequação da escolaridade a parâmetros supostamente objetivos de quantificação e preparação de mão de obra do que às condições de produção autônoma do conhecimento.

Simultaneamente, grupos educacionais gigantescos, como a Kroton, controladora de dezenas de faculdades e grande vitoriosa na expansão das matrículas no ensino superior privado via Fies, avança no nicho de mercado da educação básica. Recentemente, a Kroton adquiriu a Somos Educação, que agrega colégios, cursos pré-vestibulares como o Anglo e as editoras Saraiva, Ática e Scipione, que têm como principal fonte de receita a venda de livros didáticos para o governo.

Empresas privadas sustentadas pelos fundos públicos: na educação, essa constante brasileira se repete. Para uma empresa como a Kroton, tanto a BNCC como a reforma do ensino médio podem representar verdadeiras minas de ouro. Seus técnicos já estão elaborando as “soluções” necessárias, com livros adequados às novas normas e programas de ensino a distância para a parte flexível do nível médio, vendidos a preço módico às escolas de todo o país.

A histeria aparece na mídia, a demagogia ganha o noticiário, mas o capital trabalha mais discretamente. Enquanto os palhaços ocupam o palco e distraem o público, os diretores do espetáculo fazem seu trabalho discreta e minuciosamente. Como diria Mandeville, nada de desejos: apenas o necessário ao trabalho… e ao lucro.



*José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro da Comunidade Reinventando a Educação (Core – www.coreduc.org) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.
LE MONDE DIPLOMATIQUE

A democracia do amor

Lucilene Machado

Imagem por DollyHaul/cc


Nos ajustamos à solidão contemporânea e deixamos o universo fluir, à deriva, como se não fizéssemos parte dele. Concordamos que amor é necessário para nos fazer pessoas melhores, no entanto, estamos quase impotentes frente aos desafios de andar sobre essa navalha lírico-passional



Li em algum lugar que o amor é o teatro dos ricos e o circo dos pobres. Em verdade, não sei se eu li, ou se vi em uma dessas séries de TV por assinatura. Certo é que tenho pensado nisso e me intriga o fato do amor da classe média não ter sido inscrito nesse provérbio.

Provavelmente, a classe média não dispõe de tempo nem para o teatro e nem para o circo. Ou não dispõe de energia, a classe média tem se ocupado em pensar o mundo e mover os seus ponteiros, em pleitear direitos, protestar para não perdê-los, defender a natureza, velar diuturnamente a balança da deusa Têmis… e não tem atingido a catarse de chorar ou rir os seus amores.

É possível que a classe média não saiba o que fazer com o amor e o vai postergando para tempos vindouros, para plasmá-lo com a realização de uma longa viagem, como fazem os ricos, e criar seu próprio teatro, idealizado com elementos sofisticados, glamoroso… mas, desiste ao pensar na conta vindoura, parcelada em vários meses, que poderá comprometer a educação dos filhos, o plano de saúde dos pais, a comida na mesa, a academia de ginástica, a prestação do carro, da casa… enfim, tantas coisas a pensar antes de se investir no amor que este fica pequeno, pequenino na escalada dos sonhos.

Sem muitas opções, o amor da classe média sobrevive com um vinho de segunda, comprado em supermercado, e um motel que não tenha baratas. Às vezes, um final de semana num hotel de turismo, em local estratégico, e depois fotos para que amigos em comum celebrem o acasalamento, atribuindo ao ato um pouco mais de magia. É preciso reconhecer que esta é a classe que mais sofre e é também a mais derrotada pelos designíos que motivam ou desmotivam o amor. Ninguém nos oferece uma viagem de presente, os bancos nos marginalizam, os governos nos enganam, não há leis para perdoar nossas dívidas, pagamos juros altíssimos, quando não é o caso de fazer novos empréstimos para quitar os anteriores.

Somos tão vilipendiados em nosso histórico amoroso que, às vezes, optamos por não amar. Nos ajustamos à solidão contemporânea e deixamos o universo fluir, à deriva, como se não fizéssemos parte dele. Concordamos que amor é necessário para nos fazer pessoas melhores, no entanto, estamos quase impotentes frente aos desafios de andar sobre essa navalha lírico-passional.

Já a classe baixa não tem medo, enfrenta o amor com valentia, imediatamente. São acrobatas no assunto. Atiram-se de trapézios altíssimos sem se darem conta do perigo que incorrem. São contorcionistas de um espaço que lhes é negado, mas não refutam os sentimentos. Amam, gozam, fazem filhos por toda a vida e entram no globo da morte, se preciso for, para defender uma paixão. A classe baixa tem pressa. Casa, descasa, volta a se casar como se o mundo terminasse no dia seguinte. Nem a psicologia dá conta de explicar a mágica que é viver o amor em condições tão adversas. A literatura realista venera personagens dessa estratificação social. São cheios de crença, de fé e dispostos a recomeçar sempre, seja onde for e como for. Não se importam em ser nômades, e se inscrevem na existência bruta, se esfregam, se arranham, se entorpecem, se cortam… fazem-se e desfazem-se diante dos nossos olhos como uma mágica circense. O amor da classe baixa desconstrói, sem pudores, os nossos padrões de relacionamentos.


No entanto, para os ricos o amor é o teatro. Idealizado desde Aristóteles, explorado por Homero, ocupa os palcos mais elegantes. É interpretado com graça e brilho sobre lençóis egípcios combinados com tapetes persas. Requer quarto de vestir, prótese de silicone, óvulos congelados e iogurte sem lactose. É o amor com serviço de quarto e massagista para retirar do corpo a tensão. Resguarda um helenismo tardio de perfeição para manter a metáfora heroica de príncipe e princesa.

O amor da classe alta não precisa ser real, tampouco recíproco. Ele se sustenta sem palavras sedutoras, sem jogo de inteligência, sem ética e, nem sempre, segue ideais democráticos, bastam as máscaras definidas pela estratificação da classe milionária e os códigos vigentes que compõem o teatro, muitas vezes, amador, protagonizado por Barbie e Ken.

Talvez a ideia que o provérbio inicial queira difundir é a de que na riqueza ou na pobreza o amor é sempre um espetáculo, porém não profere que é na classe média que ele se expõe ao sol causticante da realidade, que tem os sonhos cortados em nacos para subsistir. Na classe média não temos papéis determinados, temos que assumir muitos deles, fazer experimentos, enfrentar o mais fino dos medos antidemocráticos a escorrer pelos nossos corpos tão carentes e, paradoxalmente, tão cansados.

Lucilene Machado é Doutora em Teoria Literária/ Professora UFMS
LE MONDE DIPLOMATIQUE

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Um touro diferente


A história de Ferdinando é uma lição de pacifismo e tolerância


Foto: Divulgação

É um movimento normal da mente humana voltar-se para a antítese, para o contrário, para a diferença. Isto já dizia Goethe em relação às palavras e conceitos: toda palavra suscita o seu antônimo. Falamos “alma”, vem à memória “corpo”. Pensamos em “noite”, vêm à tona “dia”, “manhã”, “alvorecer”.

A ironia, por exemplo, trabalha com o oposto do explícito. Machado de Assis dizia que era fácil suportar a cólica do próximo. Sem dúvida, a dor do outro está do outro lado, e não me afeta diretamente. A tristeza da dor alheia não me diz respeito, se não pratico a solidariedade. Também o paradoxo baseia-se nessa estratégia intelectual: o mito definido como “o nada que é tudo”, nas palavras de Fernando Pessoa, diz tudo.

A sempre empolgante luta entre o bem e o mal demonstra que polaridade jamais enfrenta problemas de aceitação. Amor e ódio, certo e errado, sim e não, justo e injusto, verdade e mentira, céu e inferno (com um terrível purgatório no caminho de Dante), vida e morte… Romances, filmes, teatro, música, pintura, e todos os diálogos em que Sócrates buscava o que não é para saber o que de fato é. Eis o jogo que leva torcidas e leitores ao delírio.

Ferdinando está de volta

Em 1936, o escritor e ilustrador norte-americano Munro Leaf publicou um livro que rapidamente tornou-se long-seller internacional, com base nas antíteses forte x sensível, ferocidade x mansidão, violência x não violência. The story of Ferdinand, cujo título em português é O touro Ferdinando, completa este ano 82 anos de promissora carreira. Já foi editado em inúmeros países e recebeu duas adaptações para o cinema: em 1938, pelos estúdios da Disney, e agora, em 2018, pela Blue Sky Studios (com direção do brasileiro Carlos Saldanha).

A simplicidade da história (que foi escrita pelo autor em menos de uma hora) realça o contraste entre o mundo da força venerada e o comportamento pacato do touro Ferdinando. O touro que gosta de cheirar flores jamais terá a performance que dele se espera na arena. Em lugar de distribuir chifradas contra toureiros famosos, Ferdinando prefere a tranquilidade do campo. Seu fracasso como animal agressivo não lhe causa o menor aborrecimento. É feliz sendo o que é: um touro diferente.

Por que será O touro Ferdinando (Editora Intrínseca, 2017) leitura educadora? Ferdinando surpreende desde quando era ainda bezerro. Desde pequeno, evita as brincadeiras brutais dos seus colegas de idade. Não gosta de ficar pulando e trocando cabeçadas com os outros bezerros. Para que isso? Prefere ficar sentado, à sombra de uma frondosa árvore, no meio das flores. Ferdinando é um autêntico pacifista. Não à toa, Gandhi e Martin Luther King se encantaram com a narrativa.

Sua mãe, observando o estranho comportamento do filhote, ficava apreensiva. Temia que ele se sentisse sozinho. Ela o procura para conversarem:

— Por que você não brinca de correr, pular e dar cabeçadas com os outros bezerros? — perguntava ela.
Mas Ferdinando respondia:
— Prefiro ficar aqui, quietinho, cheirando as flores.
E assim ela entendeu que Ferdinando não se sentia sozinho. Por ser uma mãe compreensiva, mesmo sendo uma vaca, deixou que ele ficasse ali, quietinho e feliz.

A presença e a compreensão da mãe faz-nos pensar, por outro lado, na falta de compreensão do pai. Aliás, o pai de Ferdinando nem aparece na história. A ausência da figura masculina pode indicar que Ferdinando fosse órfão. Terá o pai dele morrido num espetáculo tauromáquico? É bem possível. Ferdinando herda do pai a força e o tamanho, mas, por algum motivo, não compartilha com os outros touros do pasto o sonho de ser escolhido para as tradicionais touradas espanholas.

Paz e guerra

O sucesso de O touro Ferdinando deve-se à sua contraproposta num tempo de ódios e conflitos. Entre 1936 e 1939, precisamente na Espanha, onde se passa a história, vivia-se a guerra civil. Logo depois, estouraria a Segunda Guerra Mundial. Conta-se que o ditador Franco proibiu que o livro fosse traduzido para o espanhol. Hitler, na Alemanha, disse que se tratava de “propaganda da democracia decadente”, e apenas em 1946 o livro pôde ser lido em alemão: Ferdinand, der Stier (“Ferdinando, o touro”).

Nos Estados Unidos, na mesma época, a crítica dividiu-se. Uns diziam que era um livro comunista, pacifista (algo malvisto em tempos de guerra…) e fascista. Outros afirmavam que era, na verdade, uma sátira ao comunismo, ao pacifismo e ao fascismo. Quando perguntaram ao autor o que pensava ele dessas reações contraditórias, respondeu simplesmente: “O touro Ferdinando é um filósofo”.

Quando cinco homens estranhos foram procurar no campo um touro musculoso e veloz para participar da próxima tourada em Madri, Ferdinando, graças ao acaso de uma ferroada de abelha, pulou, bufou e deu tantos coices no ar que, sem querer, chamou a atenção dos observadores e foi conduzido direto para a capital. Com a intenção de atrair o público sedento de sangue, deram ao jovem touro um cognome assustador: “Ferdinando, o Feroz”!

Ferdinando, porém, no final, por mais que o provocassem, só queria sentir o perfume das flores que enfeitavam os chapéus das mulheres presentes ao evento:

Não importava o que fizessem, Ferdinando se recusava a lutar e ser feroz. Continuava ali sentado, cheirando as flores. Os bandarilheiros ficaram com raiva, os picadores ficaram com mais raiva ainda e o toureiro chegou a chorar de tanta raiva, por não poder se exibir com sua capa e sua espada.

Ferdinando ensina, entre outras coisas, que uma atitude de paz (atitude estética, representada pela fruição do aroma das flores) pode intensificar a raiva dos senhores da guerra. Felizmente, na ficção, levam o touro Ferdinando de volta para o campo. Infelizmente, na história humana, a raiva pode ser cruel com quem pensa e age diferente.

“Bode expiatório” e “atirar a primeira pedra”: as expressões cotidianas que tiveram origem na Bíblia


Se metáfora fosse campeonato de pontos corridos, o futebol seria campeão com muitas rodadas de antecipação – mas o vice talvez ficasse com a Bíblia


Imagem: Bíblia de Lutero

Quais são os grandes referenciais de comunicação comuns a todos os brasileiros? Ao contrário de outros países e épocas, não temos clássicos que todos tenham lido; nem riquíssimos repertórios de provérbios, que, no Oriente, são conhecidos por qualquer criança. Não são patrimônio de todos episódios da história pátria, que possam ser trazidos para aplicação a outros casos. Nem um Alcorão, que nos países árabes abastece de metáforas e frases feitas os diversos setores da vida secular.

Para nós, o futebol é de longe o principal fornecedor de metáforas e expressões para a vida cotidiana: situações políticas, econômicas, afetivas, profissionais etc. são rapidamente compreendidas por meio do recurso a seu amplíssimo repertório. Um par de exemplos, de comunicação aparentemente difícil, mas que se tira de letra, bem e rapidamente, evocando o futebol.

Anedotário

Dois amigos em um restaurante vão pedir pratos individuais e querem, de algum modo, compartilhá-los. Um deles diz:

– “Vamos pedir dois pratos e a gente divide.

Ao que o outro, responde:

– Divide, não: o mando de jogo da carne é meu; o do peixe, é seu”. (Não vai ser meio a meio, mas…)

Final de semestre; a prova final já foi feita, o professor pretende dar aulas muito abreviadas e simbólicas, mas não pode dispensar formalmente os alunos (embora queira passar a mensagem de que vai fazer vista grossa na presença e “esquecer” de fazer a chamada…), mas, claro, não quer formalizar esse relaxamento. E diz:

– Bom, gente, nosso curso praticamente acabou. Ainda temos mais duas aulas, mas é só para cumprir tabela…
Mesmo os que não se interessam por futebol acabam valendo-se de sua linguagem, tal a viveza e o interesse de sua vigência para o brasileiro.

Vice-campeão

Se metáfora fosse campeonato de pontos corridos, o futebol seria campeão com muitas rodadas de antecipação. Mas, e para saber quem é o vice? Bom, aí embolou o meio de campo…

Talvez a Bíblia. Com a desvantagem de que suas metáforas e expressões são usadas, mas sem que se tenha o mesmo vigor e, em alguns casos, os usuários nem se lembram da proveniência bíblica desta ou daquela expressão. Quando Eike Batista diz “Atire a primeira pedra o motorista que nunca tomou uma multa por excesso de velocidade”, seus ouvintes entendem, mas poucos talvez evoquem o episódio de Jo 8, 7, no qual Jesus impede o apedrejamento da mulher adúltera. Para não falar do “bode expiatório” de Lv 16, 8-10; 20-22; que alguns chegam a pensar que é um bode que fica espiando e acaba por levar a culpa.

Recolhemos a seguir algumas expressões e frases feitas, cuja origem bíblica não é evidente para todos (em alguns casos, não se tratará necessariamente de origem, mas de alguma relação de sentido com este ou aquele versículo).
Provérbios do cotidiano

• Quem procura… – Quem, ao ver o célebre slogan-provérbio do SBT em fins dos anos 80 (então, ainda TVS), se lembraria de que é literalmente uma frase de Jesus Cristo (Mt 7, 8): “Quem procura, acha” (ao qual Sílvio Santos acrescentou apenas o advérbio: “Quem procura, acha… aqui”).

• Quem com ferro fere… – Jesus inspirou alguns ditos proverbiais comuns na linguagem popular. Muitos podem se escandalizar ao saber que é bíblico (do Velho Testamento) o duro “Olho por olho, dente por dente”, prescrito três vezes (Ex 21, 24; Lv 24, 20 e Dt 19, 21), mas revogado por Cristo (Mt 5, 38), que propõe, em seu lugar, a também proverbial “oferecer a outra face” (Mt 5, 39) e ainda (Mt 26, 52) a advertência: “quem empunha a espada, pela espada perecerá” (ou, se se prefere: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”). Também é de Jesus, a comparação “Cego que guia outro cego” (Mt 15,14; Lc 6, 39).

• Quem semeia ventos… – São bíblicos os conhecidos provérbios: “Quem semeia ventos, colhe tempestades” (Os 8, 7) e: “Quem dá aos pobres, empresta a Deus” (Pv 19, 17).
Expressões populares

• Dois pesos e duas medidas – É expressão bíblica presente em Prv 20, 10.

• Umbigo do mundo – No sentido de alguém se considerar o centro de tudo, o mais importante: tabur haaretz (umbigo da terra) aparece em Jz 9,37 e Ez 38,12.

• Dar murro em ponta de faca – Formulação ligeiramente modificada de At 26, 14, que recolhe a fala de Cristo a seu perseguidor Saulo: “Dura coisa te é recalcitrar contra o aguilhão”.

• Cruzar os braços – A expressão, hoje corriqueira e integrante do vocabulario sindical, aparece nas formas “cruzar os braços” e “ficar de braços cruzados” já com o sentido de “não trabalhar”, em Pv 6, 10 e Ecl 4,5.

• Adeus – Usado para despedida que se presume definitiva (e, portanto, encomendo-te a Deus), encontra-se em Atos: Paulo despede-se da comunidade e diz “Não voltareis a ver o meu rosto… a Deus vos encomendo” (At 20, 25 e 32).

• O demônio do meio-dia – Uma expressão curiosa, não proverbial e mesmo desconhecida pelos falantes contemporâneos, que o escritor Andrew Solomon foi buscar no Salmo (90[91], 6), na tradução da Vulgata, para o título de seu livro, já clássico sobre a depressão O demônio do meio-dia (The noonday demon).
“Vá para a pqp”

Embora se trate de forma bem portuguesa, a fórmula de insulto: “vá para a puta que o pariu”, ganha sentido às luzes da Bíblia. Como frequentemente ocorre, frases feitas tendem a ser repetidas automaticamente, sem que se atente a seu sentido original. O significado exato de mandar para a pqp faz-se presente no confronto dos cariocas e do mineirinho, que recolho de um destacado site de piadas (orapois.com.br), seção “mineiro”:

Dois cariocas muito espertos foram passar umas férias em Minas.

Ao chegar, um pergunta ao outro:

– Vamox tirar uma com o primeiro mineiro que aparecer nessa extrada?

– Aí, beleza, cara, vamox nessa!

Logo à frente, aparece um mineirinho acanhadinho, coitado…

Os cariocas param o carro e um deles pergunta:

– Aí, mineirinho, para onde nóx vamox falta muito?

O mineirinho, muito acanhado, responde:

– Depende uai! Se oceis vão pra puta que o pariu já passaram; se vão à merda, falta dois quilômetros [a cidadezinha rival]; agora se vão tomar no c é aqui mesmo…

A mensagem subjacente quando se manda alguém para a pqp é a de que o indivíduo mau, sacana, chato etc. não tem lugar no convívio humano e não deveria ter saído da barriga da mãe (no caso, a responsável por ele ser o fdp que ele é…) e para lá deve ser reencaminhado… A ideia de voltar ou de não ter saído do ventre materno ocorre na Bíblia: daquele que o vai entregar, Jesus diz que melhor lhe fora não ter nascido (Mt 26, 24; Mc 14, 21) e o profeta Jeremias, nesse caso, diante das desgraças que sofre, lamenta por ter saído do ventre materno (Jer 20, 14 e ss.). E quem se comporta como néscio, diz o Eclesiástico (23, 14), chegará a desejar voltar ao ventre da mãe, amaldiçoar o dia em que dele saiu…
Semitismos da linguagem

Modos de falar também sofrem influências (ao menos semelhanças) dos raciocínios bíblicos.

Superlativo duplicado

Uma forma de superlativo semita é a conhecida “x dos x”. Aparece, por exemplo, em Apocalipse 17, 14 (ou 19,16), quando se diz de Cristo, que é Rei dos reis e Senhor dos senhores.

Curiosamente, esse formato bíblico reaparece (surpresa das surpresas) no hino do Corinthians: “Salve o Corinthians, o campeão dos campeões”.

Note-se, apenas de passagem, que o próprio nome do time brasileiro é bíblico, remete à Epistola aos Coríntios (em inglês, Corinthians). Mais precisamente à passagem em que São Paulo compara os esforços requeridos pela vida cristã aos de atletas e corredores que desejam vitórias (I Cor. 9: 24 e ss.).

No século 19, ante o preconceito de igrejas contra o esporte (“culto ao corpo”, etc.), o aval do Apóstolo era usado por cristãos esportistas que invocavam a Epístola (daí o nome do time inglês Corinthian, que inspirou o nosso Corinthians).

O uso do passado para indicar futuro

A gramática semita pode valer-se do passado para expressar o futuro, que aparece, assim, como mera resultante do passado. Como ensina Aida Hanania, falando da peculiar visão semita do tempo, ancorada no passado:

“É como se, nessa visão monolítica do tempo, o presente e o futuro não tivessem autonomia em face do passado, este, sim, determinante e determinador. Essa preponderância do passado repercute na gramática”.

Diz o Eclesiastes (1,9): “O que foi é o que será; o que se fez é o que se tornará a fazer: nada há de novo sob o sol!”.

O futuro é, assim, até em termos gramaticais, determinado pelo passado e por ele expresso em sentenças proverbiais, como em “Quem semeia ventos, colhe tempestades”, que no original soa: “semeou ventos, colheu tempestades”.

Tal fato torna-se compreensível quando nos lembramos de alguns exemplos de uso semelhante em nossa língua, especialmente em linguagem publicitária. Como na campanha de 2012 da Skol retornável: “Trocou, economizou” (quem trocar, economizará); ou na antiga do Estadão: “anunciou, vendeu” (quem anunciar, venderá). Ou a da Sedex “mandou, chegou” (se mandar, chegará). E se escrever e não ler, o pau comerá (“Escreveu, não leu, o pau comeu”). E quem bater, levará (“Bateu, levou”).

* Jean Lauand é Professor Titular Sênior da Faculdade de Educação da USP e professor das Faculdades Integradas Campos Salles

Darcy no reino dos áulicos


“Ajudantes de ordens” que vivem à sombra do poder negam educação a milhões de brasileiros; leia mais na coluna de José Pacheco



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Na obra O Brasil como problema, Darcy questionava: “Qual é a causa real de nosso atraso e pobreza? Quem implantou esse sistema perverso e pervertido?”. E propunha um diagnóstico dos obstáculos cruciais, que a nação brasileira precisaria ultrapassar, para se desenvolver. Nesse livro, o maior dos obstáculos seria a nefasta ação de um certo tipo de intelectual: o áulico.

O áulico é um ajudante de ordens, aquele que está contente com o mundo tal qual é, e faz o seu papel. E o raciocínio do Darcy permanece atual. Ainda hoje, os áulicos prosperam, vivendo à sombra do poder, produzindo ideias irrelevantes, planos inconsequentes, ou contribuindo para destruir qualquer esboço de inovação educacional.

Identificamos dois tipos de áulicos: os ingênuos e os esquizofrênicos. Os primeiros controlam estruturas do poder público. Os outros infestam universidades e comissões de especialistas. Deixemos estes para próximo artigo e reflitamos sobre diatribes dos ingênuos.

A comunicação social, pródiga em notícias de maus-tratos infligidos à Educação, diz-nos que áulicos verea­dores enquistados no poder público reveem o Plano Municipal de Educação, aproveitando a oportunidade para o extirpar do que não lhes convém manter. A Meta 19 foi quase ignorada. Agora, suprimem a Meta 18, aquela que visa implementar a Educação em Direitos Humanos na Educação Básica, viabilizar ações de combate ao preconceito e discriminação no ambiente escolar. Em total impunidade, “ingênuos” vereadores não cumprem o Plano Nacional de Educação, contribuindo para negar o direito à educação a milhões de jovens brasileiros.

Nas escolas particulares, onde educação se converte em mercadoria, as novas tecnologias assumem-se como diferencial de mercado. Na ânsia de deter a queda da taxa de evasão e para melhorar a captação de alunos, ingênuos gestores recorrem a áulicas consultorias, especializadas no uso da tecnologia para atrair pais e para captar alunos.

O drama se repete nas escolas (ditas) públicas. Em mais uma manifestação de ingenuidade pedagógica e para fomentar o envolvimento das famílias na vida escolar dos filhos, uma secretaria de Educação decidiu abrir concurso e acolher propostas de empresas especializadas em “mecanismos para motivar o aluno e em ferramentas para melhorar a gestão escolar (…) com o objetivo de aumentar a aprovação”. O regulamento do concurso estabelece que apenas poderão concorrer organizações que já tenham prestado serviços envolvendo um mínimo de 5.400 alunos. Mas, o que se poderá esperar de tais organizações, certamente altamente especializadas em projetos conduzidos por áulicos? Exatamente o que os áulicos autores de anteriores projetos produziram: o desperdício de mais alguns milhões.

O secretário de Educação justifica a medida: A educação está anacrônica. O jovem pressente isso e foge. Buscamos alternativas para esse fracasso. Mas o zeloso secretário insiste em anacrônicas medidas de política educativa.

Como diria o Frederico, no reino dos áulicos, reinam a lisonja, a mentira, a ostentação, o usar máscaras, o fato de brincar de comediante diante dos outros e de si mesmo. Mas a crise ética instalada também é tempo de oportunidades. E quase nada é mais inconcebível do que o aparecimento de um instinto de verdade honesto e puro. Oremos…

A jovem Malala conta sua incrível história

Reportagem de Revista VEJA desta semana mostra como a menina paquistanesa que desafiou os radicais islâmicos do Talibã por querer estudar...