domingo, 14 de setembro de 2014

Notícias Pedagogia e Vida


China enfrenta dificuldades com problemas mentais de crianças
As crianças se veem isoladas por conta da política governamental do um filho por casal, e pelos pais que precisam se mudar em busca de trabalho

TANIA BRANIGAN
DO "OBSERVER"

Sim, é só um bicho de pelúcia. Mas coloque-o nas mãos de uma criança e assista enquanto ela finge alimentá-lo, conversa com ele, e até o coroa rei. Para começar, o bicho de pelúcia provê segurança; depois, permite que a criança interprete novos papéis e desenvolva competências sociais.

As autoridades da China esperam que dicas como essa, incluídas em um livro para pais e professores pré-escolares, ajudem a conter os problemas de saúde mental que as crianças do país enfrentam. Os orçamentos dos serviços de saúde mental para crianças e adolescentes estão congelados no Reino Unido, mas a China deseja expandir a provisão desse tipo de serviços, promover abordagens psicoterapêuticas e adotar medidas preventivas.

Desde 2012, as pré-escolas e escolas chinesas vêm promovendo a saúde mental tanto quanto a educação física. No ano passado, a China aprovou sua primeira lei de saúde mental, que instrui os pediatras a buscar sinais de alerta nos pacientes: os olhos dos bebês de três meses de idade acompanham os objetos em movimento? Aos 18 meses, as crianças são capazes de manter contato olhos nos olhos com seus interlocutores? As autoridades também buscaram a ajuda de psicoterapeutas estrangeiros fim de ajudar a treinar especialistas e promover a conscientização.

"O governo está dedicando muita atenção à saúde psicológica", disse o Dr. Zheng Yi, presidente da Sociedade Chinesa de Psiquiatria da Criança e do Adolescente e diretor assistente do Hospital Anding, de Pequim, parte da Universidade Médica da Capital.

Os resultados preliminares de uma pesquisa que ele comandou, e será publicada antes do final do ano, sugerem que cerca de 15% das crianças chinesas têm problemas de saúde mental. Ele afirmou que isso se compara favoravelmente à média de 20% vista em outros países, mas apontou que alguns problemas, como os distúrbios de ansiedade, parecem estar em ascensão.

A melhora nos padrões de vida permitiu que maior número de pais dedicasse atenção ao bem estar emocional de seus filhos, mas o desenvolvimento também causou novos problemas, incluindo mudanças dramáticas nas estruturas familiares e pressões sociais e educacionais intensificadas. "Para muitas crianças, a economia não é problema. O problema é que há menos oportunidade de brincar", disse Zheng.

Outros mencionam o impacto da lacuna geracional criada pela transformação da China, e o da política de um filho por casal. Filhos únicos podem desfrutar de melhores cuidados, mas também podem receber mimos excessivos, se tornando "pequenos imperadores", ou sofrer solidão porque lhes faltam companhias de sua idade.

Viviane Green, do departamento de estudos psicossociais do Birkbeck College, um dos especialistas internacionais que estão desenvolvendo o programa de treinamento, disse que os casos são muitas vezes semelhantes aos encontrados no Reino Unido, com "adolescentes expressando hostilidade; questões de apego já na primeira infância".

Mas ela acrescenta que "o que existe de ligeiramente diferente é provavelmente como as emoções são expressadas, porque a cultura é diferente e o apego filial aos pais é muito forte. As pessoas têm conflitos - mas o senso de self não é um modelo individualizado, como temos aqui - [a ideia] de que boa saúde mental envolve separação, envolve viver sozinho. Ele gira mais em torno do dever para com a família de origem e os elos que a pessoa mantém para com ela".

A psicoterapia está crescendo rápido na China, mas os especialistas do país precisam "ajudar essas novas ideias a se relacionar a outros tipos de experiência que eles extraíram da cultura local, bem como a pessoas como os psiquiatras", disse a Dra. Wang Qian, que organizou o projeto de treinamento internacional como diretora do escritório executivo da unidade psicanalítica nacional.

O Dr. Sverre Varvin, que preside o comitê da Associação Psicanalítica Internacional para a China e há anos oferece treinamento a profissionais chineses, acrescentou que "a cultura chinesa é realmente metafórica, e é preciso dedicar tempo a descobrir essas metáforas".

Continuam a existir problemas sérios na prestação de serviços. Há uma escassez de psiquiatras infantis na China, que segundo Zheng será resolvida pelo treinamento de pediatras e clínicos gerais para que sejam capazes de diagnósticos iniciais e tratamentos básicos de saúde mental.

Os serviços são especialmente escassos nas regiões rurais, onde talvez sejam mais necessários. Muitos trabalhadores migrantes deixam os filhos em casa quando se mudam para trabalhar, porque o sistema de "registro domiciliar" chinês significa que é difícil obter serviços como educação nas cidades. A maioria dessas famílias se reúne na melhor das hipóteses uma vez por ano.

Cerca de 50% dessas crianças "deixadas para trás" sofrem de depressão e ansiedade, ante 30% de suas contrapartes nas cidades, de acordo com um novo estudo bancado pelo governo da província de Heilongjiang. Elas também são mais sujeitas a oscilações de humor e a estresse. Yang Yangjie, da Universidade Médica de Harbin e responsável pela pesquisa, disse que os problemas psicológicos dessas crianças tendiam a ser mais complexos: "As crianças deixadas para trás sofrem de complexos de inferioridade, baixa autoestima e baixa confiança. Muitas parecem desprovidas de senso de segurança e são medrosas demais ou sentem ansiedade demais para interagir com outras pessoas", ela disse.

Algumas dessas crianças são, para todos os fins práticos, criadas por apenas um dos pais, e em alguns casos tanto o pai quanto a mãe trabalham, o que as leva a serem criadas pelos avós, que podem não ter o tempo e energia requeridos para cuidar adequadamente delas. Os guardiões muitas vezes se concentram nas necessidades materiais e ignoram as necessidades emocionais das crianças, disse Yang. Embora existam poucas verbas para os programas dirigidos a grupos vulneráveis, no momento, o apetite por eles é notável. A Save the Children inicialmente oferecia "primeiros socorros psicológicos" em emergências como desastres naturais, provendo assistência básica e identificando as crianças necessitadas de assistência adicional. Mas Pia MacRae, diretora da organização na China, disse que os funcionários e os associados da organização haviam solicitado, além disso, que ela provesse treinamento a trabalhadores de centros de atendimento a crianças de rua.

Zhen acredita que a atenção deve ser concentrada tanto na prevenção quanto na cura. As mudanças sociais não precisam causar danos, se as pessoas se adaptarem apropriadamente: garantindo que os filhos únicos convivam com meninos e meninas de sua idade; e talvez criando um regime de trabalho migrante alternado para que um dos pais esteja sempre em casa.

Mas o primeiro grande desafio, ele disse, era encarar as percepções negativas, para que problemas de saúde mental deixem de portar um estigma para as crianças. "Se pudermos nos livrar disso, consultar um psiquiatra será como ir ao médico quando você tem uma febre", ele disse.

Tradução de PAULO MIGLIACCI
FOLHA DE S.PAULO

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O que mostram os testes de inteligência?


Limitação de tempo impede avaliação de funções cognitivas importantes

crédito: solarseven/shutterstock

Scott Barry Kaufman

Em 1990, os pesquisadores Patrick Kyllönen e Raymond Christal descobriram uma correlação impressionante. Eles aplicaram diversos testes de memória operacional (ou memória de trabalho) a grandes grupos de recrutas da Força Aérea americana. Os participantes realizavam operações simples com base em uma única sequência de letras.

Na tarefa “recodificação do alfabeto”, por exemplo, o computador exibia rapidamente três letras: H, N, C. Em seguida, dava uma instrução como: adicione a quarta letra. A resposta certa seria L, R, G.

É claro que sequenciar quatro letras é fácil. A parte difícil é lembrar a letra enquanto se processa a próxima operação mental e manter as duas em mente ao fazer a terceira operação. Isso pode ficar cada vez mais difícil com instruções mais complexas e mais letras para transformar em sua cabeça.

Em quatro estudos diferentes os pesquisadores detectaram correlações extremamente elevadas, variando de 0,8 a0,9, entre suas medidas de memória operacional e várias medidas de raciocínio. As correlações, de fato, foram tão altas que eles intitularam seu artigo científico: “A habilidade de raciocínio é (pouco mais que) a capacidade de memória operacional?!” (Reasoning ability is (little more than) working memory capacity?!).

Desde então, muitos estudos confirmaram que a memória operacional é um importante fator contribuinte para o raciocínio fluido. De todas as habilidades cognitivas já medidas por pesquisadores da inteligência, o raciocínio fluido é a mais generalizada e explica a maior variação em todas as outras aptidões cognitivas. A capacidade de inferir relações e padrões pontuais a problemas baseados em um mínimo de conhecimentos e experiências anteriores desempenha um papel relevante, em graus variáveis, em praticamente todas as áreas do funcionamento intelectual humano.

Mas qual é, exatamente, a extensão da relação entre a memória operacional e o raciocínio fluido? Como ocorre frequentemente no caso da ciência, a força dessa correlação tem se mostrado em todas as partes, dificultando determinar a verdadeira relação entre memória operacional e raciocínio fluido.

Há muitas razões para as inconsistências. Os diversos estudos incluem uma seleção e um número diferente de testes, além de uma gama de diferentes habilidades cognitivas entre os participantes. Esses tipos de detalhes metodológicos importam.

Um novo estudo sugere um fator adicional: o timing dos testes. Adam Chuderski revisou 26 estudos que ministraram provas de medição de memória de trabalho e o teste Matrizes Progressivas de Raven, que é a medida mais usada para o raciocínio fluido.*

Em cada questão do teste de Raven, a pessoa é apresentada a uma matriz de 3×3, na qual ela tem que identificar a peça que falta para completar o padrão:

MATRIZES PROGRESSIVAS DE RAVEN

O que é preciso para se sair bem nesse teste? Acontece que só há algumas regras necessárias para resolver todos os itens dessa prova. Os problemas mais fáceis exigem que a pessoa aplique uma única regra, como adicionar ou subtrair apenas um atributo (como uma linha). Os mais difíceis exigem uma combinação de várias regras e múltiplos atributos (como formas, tamanhos e cores). A dificuldade na solução dos itens de Raven é que a pessoa tem que separar os atributos relevantes dos irrelevantes e ter em mente as regras enquanto as testa. Além disso, quando algumas regras não funcionam, a pessoa tem que saber quando parar de seguir por esse caminho e recomeçar. Como essa tarefa requer a habilidade de descobrir as relações abstratas entre novos estímulos, ela é uma boa medida do raciocínio fluido não-verbal.

Chuderski constatou que os estudos que intensificam a pressão de tempo no teste de Raven aumentavam significativamente a correlação entre a memória operacional e o raciocínio fluido. Em outras palavras, quando as pessoas tinham mais tempo para raciocinar, a capacidade da memória operacional não era um contribuinte tão forte para o raciocínio fluido.

Como achou suas descobertas intrigantes, ele decidiu investigar a questão mais a fundo em dois outros estudos.

Em seu primeiro estudo, ele ministrou vários testes de memória operacional e raciocínio fluido a 1.377 pessoas com idades entre 15 e 46 anos. Usando uma técnica estatística chamada análise fatorial confirmatória, ele confirmou que a pressão temporal nos testes de raciocínio fluido impactam a força da correlação entre a memória operacional e o raciocínio fluido.

No caso do “grupo altamente acelerado” (20 minutos), a memória operacional explicou toda a variação do raciocínio fluido; enquanto no “grupo subacelerado” (60 minutos), a memória de operacional foi responsável por apenas 38% da variação no raciocínio fluido.

Chuderski replicou sua descoberta em um segundo estudo e descobriu que quando não havia nenhuma pressão de tempo durante o raciocínio fluido, a memória operacional só explicava cerca de um terço das diferenças entre raciocínio e desempenho. Além disso, ele constatou que uma medida de “aprendizagem relacional”, a capacidade de aprender de relações anteriores entre as letras para aumentar a eficiência do processamento posterior de relações numéricas, contribuíam, independentemente, para o grau de variação no raciocínio fluido.

Por que isso importa?

Esses resultados sugerem que podemos estar subestimando seriamente a capacidade do raciocínio fluido das pessoas ao impormos rígidas restrições de tempo. Esse estudo é consistente com outras pesquisas recentes que sugerem que a “inteligência rápida” pode ser distinguida da “inteligência lenta”.

Pesquisadores, educadores e líderes empresariais que tentam avaliar o nível de raciocínio fluido de um candidato enfrentam um dilema: você quer medir sua capacidade de raciocínio fluido através de uma tarefa de alta velocidade ou lhe dar uma oportunidade maior para mostrar seu poder de raciocínio? De acordo com Chuderski:

“O método de ensaio anterior [testes altamente acelerados] medirá a capacidade de lidar com complexidade em um ambiente dinâmico, tendo assim uma elevada validade no mundo real; mas isso pode subestimar pessoas que, independente de sua capacidade limitada, apresentem boas soluções em ambientes menos dinâmicos. Esse método [com pressões de tempo mais flexíveis] resultará em uma visão mais abrangente da capacidade de raciocínio, inclusive da contribuição de faculdades intelectuais além do chamado WM (work management, ou habilidade de trabalho) e parecem ser complementares a ele; mas também poderiam incluir muitos ruídos (por exemplo, estratégias aprendidas dependentes de tarefas) influenciando negativamente a avaliação da eficiência futura de uma pessoa no que diz respeito às exigências, tempo, e tarefas completamente novas”.

Isso é importante porque, tendo mais tempo, as pessoas podem compensar suas limitações de memória operacional, como pessoas que mostram grandes melhorias no raciocínio fluido depois de aprender como desenhar diagramas para representar um problema. Quando Kenneth Gilhooly e seus colegas apresentaram silogismos oralmente, isso exigiu mais da memória de trabalho (operacional) em comparação com as premissas que os participantes tiveram que armazenar em suas cabeças. Mas quando os silogismos eram apresentados com todas as premissas fixas na tela de projeção, as pessoas tinham um desempenho melhor, porque podiam “descarregar” as premissas de suas memórias operacionais, libertando assim recursos limitados para construir um modelo mental eficiente do problema.

No decorrer da última década John Sweller e seus colegas projetaram técnicas de instrução que aliviam a carga de memória operacional em alunos, aumentando o aprendizado e o interesse. Baseando-se tanto na literatura sobre conhecimento como de funcionamento da memória operacional, elas se igualam à complexidade das situações de aprendizagem para o aluno, tentando reduzir cargas de memória desnecessárias que podem interferir com o raciocínio e o aprendizado; otimizando os processos cognitivos mais relevantes para a aprendizagem.

Além disso, há implicações para intervenções de treinamento cerebral. Como mencionei em um artigo anterior, a literatura sobre treinamento cognitivo é um atoleiro. Enquanto alguns estudos concluíram que aprimorar a memória de operacional melhora o raciocínio fluido, outros constataram uma falta de transferência.

Uma causa possível para as inconsistências na literatura de treinamento cognitivo pode ser o timing das tarefas. Susanne Jaeggi e seus colegas, por exemplo, ministraram seus testes de raciocínio fluido sob rígidas restrições de tempo (por exemplo, de10 a 11 minutos para 18 itens do teste de Raven) e constataram que o treinamento da memória operacional mostrou um aumento no desempenho do raciocínio fluido. Comparativamente, Roberto Colom e seus colegas aplicaram testes de raciocínio fluido sob pressão de tempo padrão e não encontraram nenhum efeito do treinamento da memória operacional no raciocínio fluido.

Esses resultados contraditórios fazem sentido à luz do estudo de Chuderski: quando tarefas de raciocínio fluido têm limites rigorosos de tempo, elas são essencialmente testes de memória operacional (de trabalho). Nessas condições, seria de se esperar mais de uma transferência de memória de trabalho para o raciocínio fluido. Mas quando as tarefas de raciocínio fluido têm menor pressão de tempo, a memória de trabalho está mais fracamente associada ao raciocínio fluido e outros mecanismos cognitivos entram em jogo, como a aprendizagem relacional e associativa. Além disso, podem ser empregados auxílios externos, como a utilização de diagramas para facilitar a construção de modelos mentais mais elaborados e eficientes.

Conclusão

A memória operacional (de trabalho) e o raciocínio fluido são iguais ou diferentes? Depende. A imposição de rigorosas pressões de tempo em um teste de QI obriga as pessoas a se basear quase exclusivamente em sua limitada capacidade de memória operacional, ao passo que lhes dar mais tempo para pensar e raciocinar aumenta suas chances de apresentar outras funções cognitivas que contribuem para seu brilho intelectual.
Scientific American Brasil

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Como a Linguagem Modela o Pensamento


Diferentes idiomas afetam de maneiras distintas a percepção do mundo
Lera Boroditsky
Estou diante de uma menina de 5 anos em pormpuraaw, uma pequena comunidade aborígene na borda oeste do Cabo York, no norte da Austrália Quando peço para ela me mostrar o norte, ela aponta com precisão e sem hesitação. A bússola confirma que ela está certa. Mais tarde, de volta a uma sala de conferências na Stanford University, faço o mesmo pedido a um público de ilustres acadêmicos, ganhadores de medalhas de ciência e prêmios de gênios. Peço-lhes para fechar os olhos (para que não nos enganem) e apontem o norte. Muitos se recusam por não saberem a resposta. Aqueles que fazem questão de se demorar um pouco para refletir sobre o assunto, em seguida apontam em todas as direções possíveis. Venho repetindo esse exercício em Harvard e Princeton e em Moscou, Londres e Pequim, sempre com os mesmos resultados.

Uma criança de cinco anos de idade em uma cultura pode fazer algo com facilidade que cientistas eminentes de outras culturas lutam para conseguir. O que poderia explicar isso? Parece que a resposta surpreendente é a linguagem.

A noção de que diferentes idiomas possam transmitir diferentes habilidades cognitivas remonta a séculos. Desde 1930, essa associação foi indicada pelos linguistas americanos Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, que estudaram como as línguas variam, e propuseram maneiras pelas quais os falantes de idiomas distintos podem pensar de forma diferente. Na década de 70, muitos cientistas ficaram decepcionados com a hipótese de Sapir-Whorf, e ela foi praticamente abandonada. Mas agora, décadas depois, um sólido corpo de evidências empíricas demonstrando como os diferentes idiomas modelam o pensamento finalmente emergiu. As evidências derrubam o dogma de longa data sobre a universalidade e rendem visões fascinantes sobre as origens do conhecimento e a construção da realidade. Os resultados têm implicações relevantes para o direito, a política e a educação.

Ao redor do mundo, as pessoas se comunicam usando uma deslumbrante variedade de idiomas – mais ou menos 7 mil ao todo –, e cada um deles exige condições muito diferentes de seus falantes. Suponha, por exemplo, que eu queira dizer que vi a peça Tio Vânia na Rua 42. Em mian, língua falada em Papua, Nova Guiné, o verbo que usei revelaria se o evento acabou de acontecer, aconteceu ontem ou em passado remoto, enquanto na Indonésia, o verbo não denotaria sequer se o evento já aconteceu ou ainda está para acontecer. Em russo, o verbo revelaria o meu gênero. Em mandarim, eu teria de especificar se o tio do título é materno ou paterno e se ele está relacionado por laços de sangue ou de casamento, porque há vocábulos diferentes para todos esses tipos diferentes de tios e assim por diante (ele é irmão da mãe, como a tradução chinesa claramente expressa). E em pirarrã, língua falada no Amazonas, eu não poderia dizer “42”, porque não há palavras que expressem números exatos, apenas vocábulos para “poucos” e “muitos”.

Pesquisas em meu laboratório e em vários outros vêm descobrindo como a linguagem molda até mesmo as dimensões mais fundamentais da experiência humana: espaço, tempo, causalidade e relacionamentos com os outros.
Voltemos a Pormpuraaw. Ao contrário do inglês, o kuuk thaayorre, idioma falado em Pormpuraaw não usa termos relativos ao espaço como esquerda e direita. Em vez disso, os falantes de kuuk thaayorre conversam em termos de pontos cardeais absolutos (norte, sul, leste, oeste, e assim por diante). Claro que, em inglês também há termos designando os pontos cardeais, mas apenas em grandes escalas espaciais. Não diríamos, por exemplo: “Eles colocaram os garfos de sobremesa a sudeste dos garfos grandes.” Mas em kuuk thaayorre os pontos cardeais são usados em todas as escalas. Isso significa que acaba se dizendo coisas como “o copo está a sudeste do prato” ou “o menino em pé ao sul de Mary é meu irmão”. Em Pormpuraaw, deve-se estar permanentemente orientado, apenas para conseguir falar corretamente.

Além disso, o trabalho inovador realizado por Stephen C. Levinson, do Instituto Max Planck de Psicolinguística, em Nijmegen, na Holanda, e John B. Haviland, da University of California em San Diego, durante as duas últimas décadas têm demonstrado que falantes de idiomas que se valem de direções absolutas são especialmente bons em manter o registro de onde estão, mesmo em paisagens desconhecidas ou no interior de edifícios estranhos. Eles fazem isso melhor que quem vive nos mesmos ambientes, mas não falam essas línguas.

Pessoas que pensam de modo diferente sobre o espaço também são suscetíveis a pensar de forma diferente sobre o tempo. Por exemplo, minha colega Alice Gaby, da University of California em Berkeley e eu demos aos falantes de kuuk thaayorre conjuntos de fotos que mostravam progressões temporais: o envelhecimento de um homem, o crescimento de um crocodilo, uma banana sendo consumida. Em seguida, pedimos que organizassem as imagens embaralhadas no chão para indicar a sequência temporal correta.

Testamos cada pessoa duas vezes, cada vez elas olhavam para um ponto cardeal diferente. Os falantes de inglês que recebem esta tarefa vão organizar as cartas de modo que o passar do tempo seja da esquerda para a direita. Os de língua hebraica tenderão a colocar as cartas da direita para a esquerda. Isso mostra que a direção da escrita em uma linguagem influencia a forma como organizamos o tempo. Os kuuk thaayorre, porém, rotineiramente não organizam as cartas da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Eles as arrumaram de leste para o oeste. Isto é, quando estavam sentados de frente para o sul, as cartas ficaram da esquerda para a direita. Quando encaravam o norte, as cartas ficaram da direita para a esquerda. Quando olhavam para o leste, as cartas vinham na direção do corpo, e assim por diante. Nunca dissemos a ninguém que direção eles estavam encarando – os thaayorre kuuk já sabiam disso e espontaneamente usaram essa orientação espacial para construir suas representações do tempo.
As representações do tempo variam de muitas outras maneiras pelo mundo. Por exemplo, os falantes de inglês consideram que o futuro fica “adiante” e o passado “para trás”. Em 2010, Lynden Miles da University of Aberdeen, na Escócia, e seus colegas descobriram que os falantes de inglês, inconscientemente, balançam seus corpos para a frente, ao pensar no futuro, e, para trás, ao considerar o passado. Mas em aimará, um idioma falado na cordilheira dos Andes, dizem que o passado está à frente e o futuro atrás. E a linguagem corporal dos falantes de aimará corresponde ao seu modo de falar: em 2006, Rafael Núñez, da University of Califórnia em San Diego e Eve Sweetser, da mesmo universidade, no campus de Berkeley, descobriram que os aimarás gesticulam na frente deles quando falam do passado, e atrás deles
quando discutem o futuro.

Lembrando “quem fez o quê?”
Os falantes de línguas diferentes também diferem na forma como descrevem os eventos e podem se lembrar bem de quem fez o quê. Todos os acontecimentos, mesmo os acidentes ocorridos em frações de segundos, são complexos e exigem que analisemos e interpretemos o que aconteceu. Tomemos, por exemplo, o caso do ex-vice- presidente Dick Cheney na caça de codornas, na qual, ele atirou em Harry Whittington, por acidente. Pode-se dizer que “Cheney atirou em Whittington” (em que Cheney é a causa direta), ou “Whittington foi baleado por Cheney” (distanciando Cheney do resultado), ou “Whittington levou um bom chumbinho” (deixando Cheney totalmente de fora). O próprio Cheney disse: “Resumindo, eu sou o cara que puxou o gatilho que disparou a bala que atingiu Harry”, interpondo uma longa cadeia de ações entre ele e o resultado. A fala do então presidente George Bush: “Ele ouviu um movimento de pássaro, virou-se, puxou o gatilho e viu seu amigo se ferir”, foi uma desculpa ainda mais magistral, transformando Cheney de agente a mera testemunha em menos de uma frase.

Minha aluna Caitlin M. Fausey e eu descobrimos que diferenças linguísticas influenciam o modo pelo qual as pessoas analisam o que aconteceu e exercem consequências na memória de testemunhas. Em nossos estudos, publicados em 2010, falantes de inglês, espanhol e japonês assistiram a vídeos de dois rapazes estourando balões, quebrando ovos e derramando bebidas intencionalmente, ou sem querer. Mais tarde, passamos aos participantes um teste de memória pelo qual tinham de dizer qual sujeito havia feito a ação, exatamente como numa fileira diante da polícia. Outro grupo de falantes de inglês, espanhol e japonês descreveu os mesmos acontecimentos. Quando olhamos para as informações da memória, encontramos exatamente as diferenças na memória de testemunhas oculares previstas pelos padrões de linguagem. Os falantes de todos os três idiomas descreveram as ações intencionais usando o agente, dizendo coisas como “Ele estourou o balão”, e todos os três grupos lembraram igualmente bem de quem fizera essas ações intencionais. Entretanto, quando passaram para os acidentais, surgiram diferenças interessantes. Os falantes de espanhol e japonês foram menos propensos a descrever os acidentes que os que falavam inglês. E, da mesma forma, lembraram- se menos do agente que os que falavam inglês. Isso não aconteceu por terem pior memória global – eles se lembraram dos agentes de eventos intencionais (para os quais seus idiomas naturalmente mencionariam os agentes), da mesma forma que fizeram os indivíduos de língua inglesa.
Não apenas as línguas influenciam o que lembramos, mas as estruturas dos idiomas podem facilitar ou dificultar o nosso aprendizado de coisas novas. Por exemplo, pelo fato de as palavras correspondentes a número em alguns idiomas revelarem a base decimal implícita mais claramente que em inglês (não há adolescentes problemáticos, com 11 ou 13 anos, em mandarim, por exemplo), as crianças que aprendem essas línguas são capazes de interiorizar mais rapidamente a base decimal. E, dependendo de quantas sílabas as palavras relativas a números têm, será mais fácil ou mais difícil memorizar um número de telefone ou fazer cálculo mental. A linguagem pode até afetar a rapidez com que as crianças descobrem se pertencem ao sexo masculino ou feminino.

O QUE MODELA O QUÊ?
Essas são apenas algumas das fascinantes descobertas das diferenças translinguísticas em cognição. Mas, como saber se as diferenças na linguagem criam diferenças em pensamento, ou se é o contrário? Parece que a resposta inclui os dois: a maneira como pensamos influencia a maneira de falar, mas a influência também age na direção contrária. Durante a década anterior, vimos uma infinidade de demonstrações engenhosas estabelecendo que a linguagem realmente desempenha papel causal na formação da cognição. Estudos demonstraram que ao mudar o modo de falar, mudamos a maneira de pensar. O ensino de novas denominações de cores, por exemplo, muda a capacidade de as pessoas as discriminarem. Pessoas bilíngues mudam o modo de enxergar o mundo dependendo do idioma que falam. Duas descobertas publicadas em 2010 demonstram que mesmo algo tão fundamental quanto de quem você gosta e não gosta depende do idioma em que é feita a pergunta.

Esses estudos, um de Oludamini Ogunnaike e seus colegas de Harvard e outro de Shai Danziger e seus colegas da Universidade Ben-Gurion de Negev, Israel, observaram bilíngues nos idiomas árabe e francês em Marrocos, espanhol e inglês nos Estados Unidos, e árabe e hebraico em Israel, em cada caso foram testadas as tendências implícitas dos participantes. Por exemplo, pediram às pessoass bilíngues em árabe e hebraico que apertassem rapidamente botões em resposta a palavras, mediante várias situações. Em uma delas, foram instruídos para, ao verem um nome hebreu como “Yair”, ou uma característica positiva como “bom” ou “forte”, pressionarem “M”; se vissem um nome árabe como “Ahmed” ou um aspecto negativo como “mesquinho” ou “fraco”, deveriam pressionar “X”. Em outra situação, a paridade foi revertida, de modo que os nomes judaicos e características negativas partilhavam um botão e nomes árabes e aspectos positivos correspondiam a um só botão. Os pesquisadores mediram a rapidez com que os indivíduos foram capazes de responder nas duas condições. Essa tarefa tem sido amplamente utilizada para medir tendências involuntárias ou automáticas – com que naturalidade coisas como características positivas e grupos étnicos parecem se corresponder na mente das pessoas.
Surpreendentemente, os pesquisadores verificaram grandes mudanças nessas tendências involuntárias automáticas em indivíduos bilíngues, dependendo do idioma em que foram testadas. Os bilíngues em árabe e hebraico mostraram atitudes implícitas mais positivas em relação aos judeus quando testados em hebraico que quando testados em árabe.

A linguagem também parece estar envolvida em muitos mais aspectos de nossa vida mental que os cientistas previamente supunham. As pessoas confiam na língua, mesmo quando fazem coisas simples como distinguir manchas de cor, contar pontos em uma tela ou se orientar em uma pequena sala: meus colegas e eu descobrimos que, ao limitar a capacidade de acesso às faculdades linguísticas fluentes de um indivíduo, dando-lhe uma tarefa verbal que exige competição, como repetir uma notícia, prejudica a capacidade de executá-la. Isso significa que as categorias e as distinções que existem em determinados idiomas interferem amplamente em nossa vida mental. O que os pesquisadores vêm chamando de “pensamento” esse tempo todo na verdade parece ser uma reunião de ambos: processos linguísticos e não linguísticos. Assim, pode não existir grande quantidade de pensamento humano adulto quando a linguagem não desempenha um papel significativo.

Uma característica marcante da inteligência humana é a sua adaptabilidade, a capacidade de inventar e reorganizar os conceitos do mundo de modo a se adequar às mudanças de metas e ambientes. Uma consequência dessa flexibilidade é a enorme diversidade de idiomas que surgiu ao redor do mundo. Cada um oferece o seu próprio conjunto de ferramentas cognitivas e engloba o conhecimento e a visão de mundo desenvolvidos ao longo de milhares de anos dentro de uma cultura. Cada um tem uma forma de perceber, classificar e fazer sentido no mundo, um guia inestimável desenvolvido e aperfeiçoado por nossos antepassados. A investigação sobre a forma como o idioma que falamos molda a nossa forma de pensar está ajudando os cientistas a desvendar o modo como criamos o conhecimento e construímos a realidade e como conseguimos ser tão inteligentes e sofisticados. E essa percepção ajuda- nos a compreender exatamente a essência daquilo que nos faz humanos.

Scientific American Brasil

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O problema do mundo sem bullying



A palavra bullying faz qualquer pai se arrepiar de medo. Mas uma linha de especialistas diz que não há o que temer: crianças e adolescentes precisam passar por apuros, e sozinhos. Do contrário, poderão cair numa enrascada ainda pior 
Bruno Romani



Era coisa de criança. Colar chiclete na cadeira dos outros, fazer cuecão no nerd da turma, rir do cabelo cortado do colega. Mas agora brincadeiras como essas ganharam um nome sério: bullying. E passaram a ser resolvidas por adultos: pais, mestres e até, em alguns casos, polícia.

O termo bullying significa a prática de agredir alguém fisicamente, verbalmente, até por atitudes (como caretas). Mas tem sido usado como um alarme, um chamado para que adultos interfiram no relacionamento de seus filhos e alunos. Uma nova linha de pesquisadores, no entanto, vem defendendo que o bullying não é necessariamente um problema para gente grande. Segundo eles, as picuinhas entre crianças e adolescentes devem ser resolvidas pelos próprios envolvidos. Sem adultos como juízes.

Esses especialistas não dizem que crianças devem trocar socos na saída da escola. Nem que apanhar faz bem. Afirmam, sim, que disputar é como um rito, pelo qual passamos no início da vida para saber enfrentar as encrencas maiores do futuro. Afinal, fazemos isso desde os tempos mais remotos. "Em boa parte da história da humanidade a agressão foi um traço adaptativo", escreve Monica J. Harris, professora de psicologia da Universidade do Kentucky, em Bullying, Rejection and Peer Victimization (sem tradução em português). No passado, os homens disputavam comida para garantir a sobrevivência. O conflito definia quem ia perpetuar a espécie e quem ficaria para trás. "Aqueles humanos mais agressivos em termos de buscar as coisas e proteger seus recursos e parentes tinham mais chances de sobreviver e reproduzir", afirma Monica. Enquanto os homens teriam aprendido a usar a força física, as mulheres desenvolveram habilidades mais sutis, como agressões verbais - fofocas e rumores.

Se antes essas táticas garantiam a sobrevivência, hoje nos ajudam no convívio social. Quando as crianças deixam o conforto do lar para frequentar o colégio, descobrem que nem sempre suas vontades são atendidas. E que precisam negociar o tempo todo, como por um brinquedo ou por um lugar para sentar. Sem passar por isso, será mais difícil lidar com um desafeto no futuro, como um chefe, o síndico do prédio ou aquele amigo que empresta dinheiro e nunca paga.

O resultado da superação desses primeiros embates aparece cedo. Um estudo com 2 mil crianças com idade de 11 e 12 anos feito pela Universidade da Califórnia em Los Angeles mostrou que aquelas que tinham algum rival na turma da escola eram vistas como mais maduras pelos professores. As meninas que reagiam a alguma antipatia foram consideradas donas de maior competência social. Os meninos com inimizades foram classificados como alunos com melhor comportamento. Nesses casos - que não envolviam agressões físicas, segundo a pesquisa -, as crianças não só aprenderam a reagir a menosprezo, pressão e sarcasmo como ainda ganharam status no colégio. "Tanto para meninos quanto para meninas, ter uma antipatia mútua com alguém de outro sexo é associado a popularidade", escreve a pesquisadora e autora do estudo Melissa Witkow, hoje professora de psicologia da Universidade Willamette, nos EUA.


Medo: o rival dos pais

A recente onda de crimes ligados a bullying, no entanto, criou o temor de que crianças e adolescentes talvez não deem conta da briga sozinhos. A comprovação disso estaria em casos como o de Wellington Menezes de Oliveira, que guardou por anos o rancor das humilhações que passou em um colégio em Realengo, no Rio de Janeiro - até voltar lá, em abril, e disparar contra alunos, deixando 13 mortos. O resultado de histórias assim foi uma pressão de pais, mestres e legisladores para que o comportamento das crianças seja mais controlado. E para que até a polícia seja chamada para impedir as agressões. Em junho, o Senado brasileiro aprovou um projeto de lei determinando que as escolas inibam atitudes e situações que possam gerar bullying (o projeto segue para a Câmara). Em maio, um americano de 17 anos, que não teve o nome divulgado pela polícia, foi preso por dar notas às colegas de turma - altas para as mais bonitas, baixas para as mais feias - e publicar a avaliação no Facebook.

Essa reação é chamada de superproteção pelos pesquisadores que defendem a não intervenção dos adultos nas disputas entre crianças e adolescentes. "É como se o mundo inteiro estivesse sofrendo de amnésia. Os adultos se esqueceram de que passaram pelas mesmas disputas no colégio", diz Helen Guldberg, psicóloga e professora de desenvolvimento infantil na Open University, Inglaterra. Segundo Helen, estamos julgando as atitudes das crianças com base nos valores de adultos. "O comportamento das crianças - as palavras que usam, o jeito brusco com que, por exemplo, excluem outros de suas brincadeiras - está sendo julgado com a seriedade com que encararíamos o relacionamento entre adultos em um escritório", afirma.

Essa linha de não intervenção defendida por gente como Helen Guldberg é polêmica. Para os críticos, desavenças simples podem ser o início de conflitos mais graves - eventos que poderão deixar marcas físicas e psicológicas. "O bullying é um problema sério que precisa ser combatido", diz Aramis Lopes Neto, pediatra e estudioso do tema. Mas em um ponto as duas linhas concordam: quando a briga se repete e se prolonga por um tempo, e só um lado sai sempre perdendo, é porque a criança já está derrotada. E é hora de os adultos entrarem em ação.

Prestar atenção ao comportamento da criança ajuda a descobrir se é o caso de intervir. Mudanças repentinas, como queda no desempenho escolar ou aumento da agressividade, são sinais importantes. Se o problema não for resolvido, alguns efeitos podem se estender. "Muitos adultos trazem da infância dificuldades de relacionamento social e baixa autoestima", afirma Lopes Neto. Isso atrapalharia a vida profissional e pessoal, como a capacidade de manter relacionamentos estáveis. "Há vítimas que não se desenvolvem profissionalmente por medo de se expor e se tornar alvo de bullying no trabalho", diz o médico. É como se elas não conseguissem nunca sair da zona de conforto. Exatamente o que pode acontecer com quem passa a infância na sombra dos pais, sem enfrentar uma briga sozinho.


Como lidar

Se os pais sentem que a criança não está conseguindo resolver suas disputas sozinha, talvez seja a hora de ajudar. "A família deve mostrar que está atenta às agressões", afirma o pediatra Aramis Lopes Neto. E pedir a colaboração da escola. Programas que incluem esportes, artes e brincadeiras ajudam a inserir a criança no círculo dos colegas. "Melhorar as relações no colégio significa para as crianças um aumento de confiança e o sentimento de que ela é aceita", diz Dan Olweus, professor de psicologia da Universidade da Noruega, no livro Bullying at School.


Para saber mais

Bullying, Rejection and Peer Victimization

Monica J. Harris, 2009, Springer Publishing Company


Bullying Escolar: Perguntas & Respostas

Cleo Fante e José Augusto Pedra, 2011, Artmed Editora
 Revista Superinteressante

E se a gente usasse 100% do cérebro?

 
O que aconteceria se a gente usasse 100% do cérebro? 
 
Bruna Maia e Ivan Martínez



Na verdade, a gente até usa. Só que não 100% dos 100%. Um ato tão simples quanto conversar com o colega ao lado pode ativar todas as áreas do cérebro. Mas só uma parte do potencial de cada uma. Se todas as áreas funcionassem em potência máxima, e ao mesmo tempo, teríamos uma capacidade de digerir informações, sensações e pensamentos muito maior.

É como um computador: usando todos os seus recursos, o cérebro teria muito mais capacidade de processamento. Não ganharíamos superpoderes. Mas quebrar códigos, tirar conclusões e analisar situações seriam tarefas muito mais fáceis. Como não existe registro de homem que tenha vivido com essa supermáquina na cabeça, a referência mais próxima são os superdotados, que têm maior capacidade de raciocínio. "Eles relacionam informações e formam conexões com mais facilidade", diz a psicóloga Cristiane Cruz, presidente da Mensa Brasil, associação que busca reunir os 2% mais inteligentes do país. Ou seja, seríamos todos superdotados - e ainda mais poderosos.

Ainda assim, ninguém seria bom em absolutamente tudo. Alguns teriam facilidade para música, outros para física. "Mesmo mais inteligentes, continuaríamos sendo diferentes um do outro desde o nascimento, porque os genes de cada um interferem na inteligência", diz Ailton Amélio, professor de psicologia da USP. Há algo, no entanto, que seria comum a todos: nosso cérebro ficaria cansado de tanto trabalho. E, exatamente como um computador, daria pau de vez em quando, nos deixando com uma bela dor de cabeça.


De pirar o cabeção

A vida com um cérebro em modo máximo


Deu branco

Áreas estimuladas do cérebro gastam 1% mais energia do que as em repouso. Esse trabalho extra resultaria em uma canseira mental. E o cérebro pifaria vez ou outra, nos dando dor de cabeça e brancos na memória.


Asas à imaginação

A criatividade correria solta e ninguém ficaria preso a uma única área. Seríamos como Leonardo da Vinci: ele pintou quadros, estudou o corpo e inventou geringonças. A inovação caminharia mais rápido.


Bipolares

O tamanho de certas áreas do cérebro está ligado a traços da personalidade. Intensificar a atividade delas seria exacerbar esses traços. Tímidos nem sairiam de casa. Extrovertidos seriam uns palhaços.


Razão e insensibilidade

Usaríamos a lógica para calcular todas as consequências de nossos atos. E as consequências das consequências. Uma pesquisa com superdotados mostrou que 87,5% dos participantes eram perfeccionistas. Como eles, sofreríamos buscando sempre a melhor escolha.


Multitaskeando

Concentrar-se em uma só coisa seria difícil. Ficaríamos o tempo todo ligados, mudando de uma atividade para outra. É o que acontece com os superdotados - 76% deles se mostraram hiperativos em um estudo brasileiro, enquanto na população essa parcela é de só 5%.


Fontes Mensa Brasil; Ailton Amélio da Silva, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP); Alexandre Valotta, neurocientista e professor da Universidade Federal de São Paulo; Testing Predictions from Personality, Neuroscience: Brain Structure and the Big Five, de Colin G. DeYoung e outros; Voices of Perfectionism: Perfectionistic Gifted Adolescents in a Rural Middle School, de Patricia A. Schuler.
 Revista Superinteressante

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O futuro da Internet (e do mundo) segundo o Google



Eric Schmidt, presidente do conselho administrativo do Google, e Jared Cohen, diretor de ideias da empresa, escreveram um livro em que fazem algumas previsões surpreendentes para o futuro. Veja quais são.
Anna Carolina Rodrigues 
Bruno Garattoni


Daqui a dez ou vinte anos, a internet será muito diferente do que é hoje. Mas como? Eric Schmidt, presidente do conselho adminis-trativo do Google, e Jared Cohen, diretor de ideias da empresa, escreveram um livro em que tentam responder a essa pergunta: The New Digital Age, recentemente lançado nos EUA. Nele, fazem algumas previsões surpreendentes, e nem sempre otimistas, para o futuro. Veja quais são.

COMPORTAMENTO

1. O passado vai nos condenar
No mundo físico, você sempre pode mudar. Pode mudar de cidade, de aparência, de estilo, de profissão, de opinião. Na internet, não é assim: tudo o que você já fez ou disse fica gravado para sempre. Cada vez mais, usamos a rede para nos relacionar uns com os outros. Isso está gerando uma massa de dados tão grande, cobrindo tantos detalhes das nossas vidas, que no futuro será muito difícil de controlar - e poderá nos comprometer. "Nunca mais escreva [na internet] nada que você não queira ver estampado na capa de um jornal", advertem Cohen e Schmidt.

A internet não esquece nada. E isso afetará a vida de todo mundo. Se uma criança chamar uma colega de "gorda" na rede, por exemplo, poderá manchar a própria reputação pelo resto da vida - pois todo mundo saberá que, um dia, ela praticou bullying. Inclusive potenciais empregadores, que poderão deixar de contratá-la. Uma foto, um comentário, um post infeliz poderá trazer consequências por muito tempo. "Os pais terão de conversar com os filhos sobre segurança e privacidade [online] antes mesmo de falar sobre sexo", dizem os autores. Schmidt diz que a internet deveria ter um botão "delete", que permitisse apagar para sempre eventuais erros que cometamos online. Isso é muito difícil, pois alguém sempre poderá ter copiado a informação que queremos ver sumir. Mas surgirão empresas especializadas em gerenciar a nossa reputação online, prometendo controlar ou eliminar informações de que não gostamos, e empresas de seguro virtual, que vão oferecer proteção contra roubo de identidade virtual e difamação na internet. "A identidade online será algo tão valioso que até surgirá um mercado negro, onde as pessoas poderão comprar identidades reais ou inventadas", dizem os autores.

O fim do esquecimento terá consequências profundas - que, para o Google, incluirão até a escolha do nome das pessoas. Alguns casais batizarão seus filhos com nomes bem diferentes, que não sejam comuns, e registrarão esses nomes nas redes sociais antes mesmo do nascimento da criança, tudo para que ela se destaque. Outros preferirão nomes comuns e genéricos, do tipo "José Carlos", que sejam muito frequentes e tornem mais difícil identificar a pessoa, permitindo que se esconda na multidão e mantenha algum grau de privacidade online. Hoje, esse tipo de coisa soa meio estranho. No futuro, talvez não seja.


POLÍTICA

2. Haverá um ataque terrorista envolvendo a internet

O vírus Stuxnet, supostamente criado por Israel, foi usado para atacar o programa nuclear iraniano, e quase todas as semanas surge um novo caso de empresa ou universidade americana que teve seus computadores invadidos por hackers chineses. Ou seja: a guerra digital já é uma realidade. Ela tende a aumentar, tanto que o livro do Google fala no surgimento da Code War (guerra de códigos, em inglês), um conflito que envolveria vários países atacando as redes de computadores uns dos outros. Seria um conflito longo e cheio de pequenas sabotagens, sem declarações diretas de guerra, semelhante à Guerra Fria. "Os países vão fazer coisas online uns com os outros que seriam muito provocadoras [como sabotar usinas, espionar, derrubar o acesso à internet] de se fazer offline. Isso vai permitir que os conflitos aconteçam no campo de batalha virtual, enquanto o resto permanece calmo."

Mas o fato de a guerra ser digital não significa que ela não vá derramar sangue. Os executivos do Google imaginam um novo 11 de Setembro, que envolveria uma sequência de ações terroristas online e offline. Um hacker poderia invadir o sistema de tráfego aéreo de algum país, por exemplo, e induzir os aviões a voarem na altitude errada - para que eles se choquem uns contra os outros. Aí, com a atenção mundial voltada para esse caos aéreo, viria a segunda fase do ataque: bombas posicionadas estrategicamente em Nova York, Chicago e em São Francisco explodiriam. Nas horas seguintes, uma nova onda de ataques virtuais atrapalharia a comunicação e a mobilização da polícia, dos bombeiros e ambulâncias. Em seguida, outro ataque poderia prejudicar os sistemas de distribuição de água, energia, óleo e gás do país. "No futuro, a força dos grupos terroristas não virá da disposição de morrer por uma causa, e sim do domínio tecnológico que eles possuírem", preveem os autores.

3. O governo vai migrar para a web
Ir a uma repartição pública costuma ser uma experiência desagradável, cheia de burocracia e filas. Mas e se essa repartição fosse transformada num site - no qual você pudesse resolver todos os seus problemas? Eric Schmidt e Jared Cohen propõem que o governo migre para a internet e seja capaz de funcionar por meio dela. Isso tornaria a operação mais eficiente, permitindo dar um atendimento melhor à população, e também seria uma vantagem em caso de desastres naturais. Se o prédio de um ministério fosse destruído por um terremoto, por exemplo, a instituição poderia continuar a funcionar online, com os funcionários se conectando de qualquer PC com acesso à internet.

4. A rede vai se fragmentar
A internet foi criada, no final dos anos 60, para conectar as redes internas de universidades e instituições do governo americano. Ou seja: ela é, por definição, uma união de pequenas redes (daí seu nome, que significa "inter-rede"). É essa união que nos permite acessar qualquer site, de qualquer lugar do mundo, e foi ela a grande responsável pela universalização da internet. Mas, no futuro, não será assim. Com a desculpa de combater o terrorismo e os crimes online, e também por questões culturais, alguns países criarão suas próprias regras - e, na opinião do Google, isso acabará resultando em internets nacionais, com as características de cada lugar. E o que entra e sai de cada uma delas será monitorado, com direito a censura. Mais ou menos como já acontece em países como Irã e China - só que no mundo inteiro. Essa previsão pode parecer exagerada, mas tem certo respaldo no mundo real. Em março deste ano, o Parlamento Europeu discutiu uma lei que iria proibir o conteúdo pornográfico na internet (e acabou não sendo aprovada). É provável que, no futuro, os Estados tentem exercer algum controle sobre a internet.

Outra tendência, segundo Cohen e Schmidt, é a formação de alianças digitais entre países que tem costumes e opiniões semelhantes. Poderá surgir uma internet regional cobrindo vários países do Oriente Médio, por exemplo, com conteúdo e regras determinadas por eles. Em contrapartida, minorias ou insurgentes também poderão ter seu país online, como a criação de uma internet palestina, por exemplo. "O que começou como a World Wide Web começará a se parecer mais com o próprio mundo, cheio de divisões internas e interesses divergentes", dizem os autores. Eles imaginam até a criação de uma espécie de visto, que controlaria quem pode ou não entrar na internet de cada país. "Isso poderia ser feito de forma rápida e eletronicamente, exigindo que os usuários se registrem e concordem com certas condições de acesso à internet de um país."


SOCIEDADE

5. Um computador saberá tudo sobre você
Quer saber quais informações o Google tem sobre a seu respeito? Acesse o site google.com/dashboard e você provavelmente irá se surpreender. São dezenas de informações, que incluem quais buscas você fez, quem são seus amigos, sua agenda de compromissos, seu endereço, onde você vai e todo o conteúdo dos seus e-mails e documentos. O Google já sabe muita coisa. Mas, no futuro, poderá saber ainda mais. Isso porque as informações que hoje ficam em bancos de dados separados, como a sua identidade (RG), registros médicos e policiais e histórico de comunicações, serão unificadas em um único - e gigantesco - arquivo. Com apenas uma busca, será possível localizar todas as informações referentes à vida de uma pessoa. Algumas delas só poderiam ser acessadas com autorização judicial, mas sempre existe a possibilidade (e o receio) de que isso acabe sendo desrespeitado. Um exemplo recente: em maio, vazou na internet um documento no qual o FBI autoriza seus agentes a grampear os e-mails de qualquer pessoa, mesmo sem permissão de um juiz.

Lutar contra isso, e revelar poucas informações pessoais na internet, será visto como atitude suspeita. Cohen e Schmidt acreditam que o governo vá criar uma lista de "pessoas offline", gente que não posta nada nas redes sociais - e por isso supostamente tem algo a esconder. "Elas poderão ser submetidas a um conjunto de regras diferentes, como revista mais rigorosa no aeroporto ou até não poder viajar para determinados locais", dizem.

6. Um grupo vai desvendar as mentiras da internet
É comum que os governos falsifiquem ou adulterem informações. Era assim na URSS (Stálin mandava apagar pessoas de fotos históricas) e é assim no Irã e na Coreia do Norte, que já foram pegos usando Photoshop para manipular imagens militares. Por isso, os executivos do Google preveem a criação de uma entidade, independente de qualquer governo, que seria responsável pela fiscalização e investigação dos dados divulgados na internet, principalmente os que envolvessem política e conflitos armados. Uma espécie de Cruz Vermelha virtual, que teria representantes de vários países e funcionaria como referência para os órgãos de imprensa.

7. Mais pessoas terão (menos) poder
A internet permite que as pessoas se informem, se comuniquem e se organizem de forma livre e independente. Ou seja, ela dá poder às pessoas. Com o acesso a novas ideias, populações vão questionar mais seus líderes. Imagine o que acontecerá quando o habitante de uma tribo na África, por exemplo, descobrir que aquilo que o curandeiro local diz ser um mau espírito na verdade não passa de uma gripe. "Os governos autoritários vão perceber que suas populações serão mais difíceis de controlar e influenciar. E os Estados democráticos serão forçados a incluir mais vozes em suas decisões", escrevem Jared Cohen e Eric Schmidt.

A Primavera Árabe é um bom exemplo disso. A internet teve um papel fundamental na organização dos grupos populares que derrubaram os governos de quatro países (Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen) e abalaram vários outros. No caso egípcio, o próprio Google acabou sendo envolvido - pois Wael Ghonim, executivo da empresa no Egito, entrou por conta própria em mobilizações online (e ficou 11 dias preso por causa disso).

Na era da internet, minorias antes reprimidas também passam a ter uma voz. Mas, na opinião do Google, isso não terá necessariamente um grande efeito prático. É o chamado ativismo de sofá. A pessoa pode até curtir e compartilhar conteúdo relacionado a uma causa, mas, na hora de ir para as ruas, a coisa fica diferente. A mobilização virtual nem sempre se traduz em engajamento real. Além disso, a internet permite que os movimentos sociais surjam e cresçam muito rápido, de forma descentralizada e diluindo o poder entre muitas pessoas. Isso acaba fazendo com que esses movimentos tenham muitos líderes fracos, em vez de poucos líderes fortes.

Para sustentar essa tese, Cohen e Schmidt citam a Primavera Árabe, em que os regimes totalitários e os ditadores caíram, mas seu lugar acabou sendo tomado por governos muçulmanos, que não são particularmente democráticos, em vez de lideranças egressas da internet. "Sem estadistas, não haverá indivíduos qualificados o suficiente para levar um país adiante. Corre-se o risco de substituir uma forma de autocracia por outra", dizem os autores. Em suma: a internet distribui o poder, mas isso não necessariamente resulta na formação de grandes líderes. Nelson Mandela não era uma celebridade de Facebook.


PARA SABER MAIS
The New Digital Age
Eric Schmidt e Jared Cohen Knopf, 2013.

Revista Superinteressante