quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Entre histéricos, demagogos e financistas

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José Ruy Lozano

Imagem por Caio Borges

Escola sem Partido, militarização dos colégios estaduais e entrada do grande capital na rede privada. O que importa é que, ao contrário dos filhos das famílias mais ricas, os jovens pobres estejam sujeitados à disciplina mais restrita, aquela necessária a quem vai se inserir na sociedade em posição subalterna



“O conhecimento não só amplia como multiplica nossos desejos. Portanto, o bem-estar e a felicidade de todo Estado ou Reino requerem que o conhecimento dos trabalhadores pobres fique confinado dentro dos limites de suas ocupações e jamais se estenda […] além daquilo que se relaciona com sua missão. Quanto mais um pastor, um arador ou qualquer outro camponês souber sobre o mundo e sobre o que lhe é alheio ao seu trabalho e emprego, menos capaz será de suportar as fadigas e as dificuldades de sua vida com alegria e contentamento.” Esse trecho foi extraído de um famoso compêndio de filosofia moral do século XVIII: A fábula das abelhas: vícios privados, benefícios públicos, de Bernard de Mandeville (1670-1733). A lição de Mandeville volta a fazer sentido no momento atual da educação brasileira, cuja herança de inovação se depara com diversas ameaças. Inventariamos algumas no texto que se segue.

Escola sem Partido

Boletim de ocorrência. Esse é um dos links presentes no site do movimento Escola sem Partido, e o nome já anuncia, ou denuncia, como seus integrantes veem a educação. Caso de polícia.

Acessando a página, o leitor é convidado a apontar episódios de pretensa doutrinação ideológica perpetrada por docentes de escolas e universidades, ou até mesmo fora de sala de aula, em opiniões nas redes sociais, por exemplo. O discurso persecutório é evidente, e as “acusações” abundam, num linguajar grotesco que denuncia desde a defesa dos direitos humanos básicos, inscritos na Constituição, até a análise das condições de trabalho na Revolução Industrial, presente em livros de História, como opiniões de esquerda.

Nada mais partidarizado que o Escola sem Partido. A pretexto de expurgar um suposto viés político à esquerda dos professores, seus militantes querem extirpar da escola sua institucionalidade pública, de espaço de debate e formação acima e além das crenças familiares e valores religiosos de caráter privado. O verdadeiro pavor do Escola sem Partido é a inserção das crianças no mundo fora da família, que começa na escola. O que o movimento combate é a ideia de escola como espaço público, onde crianças e jovens vão necessariamente ao encontro da diferença, transcendendo a vida privada.



Militarização nas redes estaduais

A publicação do último Atlas da violência no Brasil expõe a situação dramática na segurança pública. As séries estatísticas, incluindo a impressionante cifra de homicídios, não escondem a principal vítima dos crimes contra a vida: o jovem pobre, morador das periferias dos grandes centros urbanos. Famílias assustadas são alvo fácil da mais recente solução simples – e errada – para o complexo problema da violência juvenil, correlato da evasão escolar: a militarização dos colégios estaduais.

A ideia consiste em colocar, na direção e nas coordenações dos colégios estaduais, oficiais da Polícia Militar. Com sua autoridade, restaurariam a disciplina, eliminariam os desvios e melhorariam o rendimento dos alunos. Os indicadores dos colégios militares brasileiros seriam a prova da eficiência.

Enquanto os países com os melhores indicadores de educação (e os mais caros colégios particulares brasileiros) adotam metodologias ativas e investem fortemente na formação de professores, para que as aulas sejam dialogadas, baseadas em problemas e desenvolvedoras do raciocínio e do pensamento crítico, nos colégios militarizados nada disso tem vez. O professor fala, o aluno limita-se a ouvir e anotar.

Evidente que o milagre dos colégios militares tradicionais não vai se repetir. Neles, há seleção prévia e os alunos têm vocação para a carreira castrense. O que importa é que, ao contrário dos filhos das famílias mais ricas, os jovens pobres estejam sujeitados à disciplina mais restrita, aquela necessária a quem vai se inserir na sociedade em posição subalterna.


A articulação do grande capital

O Ministério da Educação é hoje campo de atuação de fundações de direito privado, alimentadas pelo financiamento de grandes grupos econômicos. Fundação Lehman, Instituto Península (Abílio Diniz), Itaú Cultural e Todos pela Educação são alguns dos braços que articulam políticas públicas educacionais dentro do governo. A reforma do ensino médio e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nasceram das demandas dessas entidades.

Não se nega a situação precaríssima do segmento médio da educação básica, cuja evasão chega à metade dos alunos matriculados, tampouco a necessidade de um mínimo curricular nacional, importante fator de equidade. A condução de tais temas, no entanto, tem por objetivo mais a adequação da escolaridade a parâmetros supostamente objetivos de quantificação e preparação de mão de obra do que às condições de produção autônoma do conhecimento.

Simultaneamente, grupos educacionais gigantescos, como a Kroton, controladora de dezenas de faculdades e grande vitoriosa na expansão das matrículas no ensino superior privado via Fies, avança no nicho de mercado da educação básica. Recentemente, a Kroton adquiriu a Somos Educação, que agrega colégios, cursos pré-vestibulares como o Anglo e as editoras Saraiva, Ática e Scipione, que têm como principal fonte de receita a venda de livros didáticos para o governo.

Empresas privadas sustentadas pelos fundos públicos: na educação, essa constante brasileira se repete. Para uma empresa como a Kroton, tanto a BNCC como a reforma do ensino médio podem representar verdadeiras minas de ouro. Seus técnicos já estão elaborando as “soluções” necessárias, com livros adequados às novas normas e programas de ensino a distância para a parte flexível do nível médio, vendidos a preço módico às escolas de todo o país.

A histeria aparece na mídia, a demagogia ganha o noticiário, mas o capital trabalha mais discretamente. Enquanto os palhaços ocupam o palco e distraem o público, os diretores do espetáculo fazem seu trabalho discreta e minuciosamente. Como diria Mandeville, nada de desejos: apenas o necessário ao trabalho… e ao lucro.



*José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro da Comunidade Reinventando a Educação (Core – www.coreduc.org) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.
LE MONDE DIPLOMATIQUE

A democracia do amor

Lucilene Machado

Imagem por DollyHaul/cc


Nos ajustamos à solidão contemporânea e deixamos o universo fluir, à deriva, como se não fizéssemos parte dele. Concordamos que amor é necessário para nos fazer pessoas melhores, no entanto, estamos quase impotentes frente aos desafios de andar sobre essa navalha lírico-passional



Li em algum lugar que o amor é o teatro dos ricos e o circo dos pobres. Em verdade, não sei se eu li, ou se vi em uma dessas séries de TV por assinatura. Certo é que tenho pensado nisso e me intriga o fato do amor da classe média não ter sido inscrito nesse provérbio.

Provavelmente, a classe média não dispõe de tempo nem para o teatro e nem para o circo. Ou não dispõe de energia, a classe média tem se ocupado em pensar o mundo e mover os seus ponteiros, em pleitear direitos, protestar para não perdê-los, defender a natureza, velar diuturnamente a balança da deusa Têmis… e não tem atingido a catarse de chorar ou rir os seus amores.

É possível que a classe média não saiba o que fazer com o amor e o vai postergando para tempos vindouros, para plasmá-lo com a realização de uma longa viagem, como fazem os ricos, e criar seu próprio teatro, idealizado com elementos sofisticados, glamoroso… mas, desiste ao pensar na conta vindoura, parcelada em vários meses, que poderá comprometer a educação dos filhos, o plano de saúde dos pais, a comida na mesa, a academia de ginástica, a prestação do carro, da casa… enfim, tantas coisas a pensar antes de se investir no amor que este fica pequeno, pequenino na escalada dos sonhos.

Sem muitas opções, o amor da classe média sobrevive com um vinho de segunda, comprado em supermercado, e um motel que não tenha baratas. Às vezes, um final de semana num hotel de turismo, em local estratégico, e depois fotos para que amigos em comum celebrem o acasalamento, atribuindo ao ato um pouco mais de magia. É preciso reconhecer que esta é a classe que mais sofre e é também a mais derrotada pelos designíos que motivam ou desmotivam o amor. Ninguém nos oferece uma viagem de presente, os bancos nos marginalizam, os governos nos enganam, não há leis para perdoar nossas dívidas, pagamos juros altíssimos, quando não é o caso de fazer novos empréstimos para quitar os anteriores.

Somos tão vilipendiados em nosso histórico amoroso que, às vezes, optamos por não amar. Nos ajustamos à solidão contemporânea e deixamos o universo fluir, à deriva, como se não fizéssemos parte dele. Concordamos que amor é necessário para nos fazer pessoas melhores, no entanto, estamos quase impotentes frente aos desafios de andar sobre essa navalha lírico-passional.

Já a classe baixa não tem medo, enfrenta o amor com valentia, imediatamente. São acrobatas no assunto. Atiram-se de trapézios altíssimos sem se darem conta do perigo que incorrem. São contorcionistas de um espaço que lhes é negado, mas não refutam os sentimentos. Amam, gozam, fazem filhos por toda a vida e entram no globo da morte, se preciso for, para defender uma paixão. A classe baixa tem pressa. Casa, descasa, volta a se casar como se o mundo terminasse no dia seguinte. Nem a psicologia dá conta de explicar a mágica que é viver o amor em condições tão adversas. A literatura realista venera personagens dessa estratificação social. São cheios de crença, de fé e dispostos a recomeçar sempre, seja onde for e como for. Não se importam em ser nômades, e se inscrevem na existência bruta, se esfregam, se arranham, se entorpecem, se cortam… fazem-se e desfazem-se diante dos nossos olhos como uma mágica circense. O amor da classe baixa desconstrói, sem pudores, os nossos padrões de relacionamentos.


No entanto, para os ricos o amor é o teatro. Idealizado desde Aristóteles, explorado por Homero, ocupa os palcos mais elegantes. É interpretado com graça e brilho sobre lençóis egípcios combinados com tapetes persas. Requer quarto de vestir, prótese de silicone, óvulos congelados e iogurte sem lactose. É o amor com serviço de quarto e massagista para retirar do corpo a tensão. Resguarda um helenismo tardio de perfeição para manter a metáfora heroica de príncipe e princesa.

O amor da classe alta não precisa ser real, tampouco recíproco. Ele se sustenta sem palavras sedutoras, sem jogo de inteligência, sem ética e, nem sempre, segue ideais democráticos, bastam as máscaras definidas pela estratificação da classe milionária e os códigos vigentes que compõem o teatro, muitas vezes, amador, protagonizado por Barbie e Ken.

Talvez a ideia que o provérbio inicial queira difundir é a de que na riqueza ou na pobreza o amor é sempre um espetáculo, porém não profere que é na classe média que ele se expõe ao sol causticante da realidade, que tem os sonhos cortados em nacos para subsistir. Na classe média não temos papéis determinados, temos que assumir muitos deles, fazer experimentos, enfrentar o mais fino dos medos antidemocráticos a escorrer pelos nossos corpos tão carentes e, paradoxalmente, tão cansados.

Lucilene Machado é Doutora em Teoria Literária/ Professora UFMS
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