terça-feira, 21 de julho de 2009

Por que (não) estudar latim hoje?

Se a língua latina é considerada a mãe da língua portuguesa e de outras línguas ocidentais, será que seu estudo não seria importante ainda hoje?
por Francisco Edmar Cialdine Arruda*

Qual a importância do latim hoje? Por que estudá-lo? Essas são as perguntas que geralmente nós nos fazemos tão logo entramos na primeira aula de latim da faculdade. Motivados pelo medo de alguns veteranos, às vezes chegamos até a negar a importância da disciplina com tais questionamentos. É claro que, muitas vezes, esse temor é corroborado quando somos obrigados a decorar listas e mais listas de desinências de casos, conjugações e etc., todavia, deixar de lado a língua que não só deu origem ao português e demais línguas neolatinas, como também influenciou tantas outras, é deixar de lado a oportunidade de entender, historicamente, como todas essas línguas se relacionam e se transformam. Foi pensando nisso que resolvi escrever esta apologia ao ensino de latim.

O latim nosso de cada dia

Ao contrário do que muitos possam pensar, o latim não é uma língua morta. Ele está mais vivo do que nunca. Não só vivo nas línguas neolatinas, mas em seu uso propriamente dito. Utilizamos a língua latina em algumas situações de nosso dia a dia. Deixamos o curriculum vitae nas empresas para conseguir emprego, fazemos cursos de pós-graduação lato sensu ou stricto sensu, nossa universidade pode estar localizada em diferentes campi etc. Esses são apenas alguns exemplos de expressões latinas comuns ao nosso cotidiano. É claro que sua influência se estende a outras línguas, por exemplo - ou melhor e.g.: em latim, temos a palavra dominus, que significa "senhor". A partir dessa palavra vieram as palavras "dominar", "condomínio" e o dia dedicado ao Senhor ("domingo"). Note que, há alguns séculos, tínhamos o título de "dom" (Dom Manuel, Dom Pedro I etc.), que caiu em desuso em português - porém, permanece em espanhol. O nome original do seu Madruga, famoso personagem do seriado de TV "Chaves", é, na verdade don Ramón. Temos o resquício dessa palavra apenas em seu feminino "dona" e seu diminutivo "donzela" (que veio de dominicella).

Se formos falar de língua inglesa, os exemplos não são menores. Apenas para citar alguns, temos university, que significa "universidade" - ambas as palavras vieram do latim universitas, isto é, o "universo", a "totalidade das coisas"; e não é essa a ideia de universidade? Outro exemplo curioso: o verbo to delete chegou ao português como "deletar", isto é, apagar algo que foi digitado no computador. Mas o verbo inglês tem origem latina: delere, "destruir" (incrivelmente, a segunda pessoa do plural do imperativo é delete). Então eu deixo a pergunta: será que Kaiser (imperador em alemão) e czar (imperador em russo) têm alguma relação com o império dos césares romanos? (Só para dar uma dica, César se escreve Caeser em latim e uma possível pronúncia é "cáisser").

Deixar de lado a língua que não só deu origem ao português e demais línguas neolatinas, como também influenciou tantas outras, é deixar de lado a oportunidade de entender como todas essas línguas se relacionam e se transformam

Internauta
Há, inclusive, sites e comunidades no site de relacionamentos Orkut em latim e que tentam "modernizar" a língua. Confira por exemplo em http://www.cirlapa.org/ locutorium.htm


Voltando para nossa língua, conhecer latim nos faz raciocinar sobre os sentidos das palavras. Observe: a palavra latina para água é aqua, daí a natação ser um esporte aquático, os seus peixes ficarem em um aquário. Então eu pergunto o que seria aquicultura? Você pode até nem saber ao certo, mas fará uma ideia.

Podemos também falar sobre o que algumas gramáticas chamam de irregularidades da língua e perceber que elas têm explicação na sua história. Uma grande pedra no sapato dos alunos é o plural de palavras terminadas em "-ão". Na verdade, a irregularidade está em conhecer a origem dos três possíveis plurais ("-ãos", "-ões", "-ães"). O plural de "nação" é "nações" porque veio do latim, natione; em "pão" (pane), temos "pães", mas "cristãos" para "cristão" (christianu).

O latim está tão vivo que ainda hoje ele ajuda a criar neologismos. Além do exemplo de "deletar", podemos citar mais esse: "marinheiro", em latim, é nauta - daí o porquê do adjetivo náutico para coisas ligadas à marinha. De nauta teremos "astronauta" ou "cosmonauta", o navegante dos astros ou dos cosmos. Por isso dizemos que quem navega na Internet é internauta.

O rei do latim

O latim ainda influencia tanta gente que um estudioso, fã de Elvis Presley, traduziu algumas músicas do rei para o idioma. Professor de linguística da universidade de Jyväskylä, na Finlândia, Dr. Ammondt também já traduziu tangos finlandeses para o latim. Seu primeiro álbum com as versões da música de Elvis, "The Legend Lives Forever in Latin" (A Lenda Vive para Sempre em Latim), foi lançado em 1995 e contém sucessos como "Love me tender" e "Can't Help Falling in Love". Saiba mais no site do professor, http://www.drammondt.com/english/index.php (em inglês), e no site voltado para cultura (em espanhol): http://www.culturaclasica.com/musica/elvis.htm.


LOVE ME TENDER
Love me tender, love me sweet,
never let me go.
You have made my life complete,
and I love you so.
Love me tender, love me true,
all my dreams fulfill.
For, my darlin´, I love you,
and I always will.

Love me tender, love me long;
take me to your heart.
For it´s there that I belong,
and we´ll never part (love me tender...)

Love me tender, love me dear;
tell me you are mine.
I´ll be yours through all the years,
till the end of time (love me tender...)

TENERE ME, SUAVITER
Tenere me, suaviter,
ama intime.
Me beasti dulciter,
et nunc amo te.
Tenere me adama,
vero somnio.
Amo te, o lux mea,
fiat unio.

Tenere me longius
corde fer tuo.
Illic sum haud impius,
numquam abeo (tenere me adama...).

Tenere me ama, dic
meam esse te.
Tuus sum per saeculum,
in perpetuum (tenere me adama...)


Língua oficial da Igreja Católica Apostólica Romana
Existe um país no mundo em que o latim é a língua oficial: Status Civitatis Vaticanae (Stato Cittá del Vaticano, ou Estado da Cidade do Vaticano). A Repubblica di San Marino (Res Publica Sancti Marini, ou República de San Marino) tem o latim como segunda língua oficial.

A importância do latim

A despeito de tudo isso há as questões culturais que circundam a língua. "Velho" em latim é senex. Em Roma, surgiu uma instituição que era composta pelos mais velhos, tidos como mais sábios - o membro dessa instituição era conhecido como senator. Temos, então, a origem do senado em Roma.

Outro detalhe, o latim é uma língua muito precisa por conta de seus casos e declinações, de modo que ela foi muito utilizada nas ciências e, principalmente, no Direito. Ainda hoje, em alguns países da Europa, é possível escrever uma tese em latim. De igual modo, a língua oficial da Igreja Católica Apostólica Romana é o latim. Perceba que o latim é um ponto em comum entre a Ciência e a Igreja.



Crença negativa
Para promover o latim, o Papa Paulo VI criou, quando ainda era subsecretário do Vaticano, a fundação Opus fundatum "Latinitas", que, durante o seu papado, em 1976, foi elevada a instituição. A fundação tem a tarefa de favorecer o estudo do latim clássico, eclesiástico e medieval, além de estimular seu uso na literatura. Confira em http://www.vatican.va/ roman_curia/institutions_ connected/latinitas/ documents/index_lt.htm



Não podemos também esquecer que o latim está vivo também nas músicas. Temos desde cantos religiosos (canto gregoriano), óperas "profanas" (como trechos de Carmina Burana) e até de bandas de heavy metal que fazem músicas em latim (vide box).

Por fim, cabe-nos agora hipotetizar sobre as razões que levam a língua latina a ser considerada persona non grata dos cursos de Letras. O primeiro motivo, certamente, é a ausência de metodologias de ensino que ultrapassem os tradicionais e extensos exercícios de declinação e conjugação. Os alunos muitas vezes se veem obrigados a decorar listas e mais listas de terminações sem compreenderem como aquele conteúdo pode contribuir com a formação de um professor de língua portuguesa. De fato, apesar de o latim contribuir para a solidificação profissional do aluno e mesmo para o aprendizado de outras disciplinas da grade curricular, não raro a língua latina é estudada sincronicamente isolada. A língua latina pode fornecer bases sólidas para estudos históricos da língua, estudos de análise sintática, estudos literários e de crítica literária e até mesmo estudos sociolinguísticos - desde que o professor de latim apresente ao aluno essas relações interdisciplinares. De igual modo, outras disciplinas podem contribuir para o desenvolvimento dos estudos clássicos. Um exemplo seria as contribuições possíveis que as novas teorias de ensino e aprendizagem de língua, desenvolvidas no campo da Linguística aplicada, podem oferecer. Esse campo tem crescido muito - mas apenas em nível de línguas modernas. Também a Lexicografia moderna, hoje voltada para a sala de aula, poderia oferecer ferramentas metodológicas para a produção de dicionários acessíveis ao grande público. Essas ideias, inclusive, poderiam ajudar a combater a crença negativa de que não há nenhum caráter científico nos estudos clássicos.

Outra barreira para o sucesso do ensino do latim nos cursos superiores é a acessibilidade ao material didático. O pouco material existente em língua portuguesa é raro, caro e feito em uma linguagem imprópria para iniciantes. Muitos deles datam de décadas atrás, quando os estudos clássicos eram comuns nas escolas. É claro que, se o aluno lê em outras línguas, as opções se ampliam - na verdade, há uma considerável gama de material em alemão, francês ou mesmo inglês.

De modo geral, são essas barreiras que acabam por difamar o ensino do latim nas faculdades. Por outro lado, é a existência de tais barreiras e a possibilidade de superá-las que tornam esse campo de estudos um ambiente fértil de pesquisa.


PEQUENO VOCABULÁRIO

alibi: em outro lugar
alter ego: outro eu
a posteriori: a partir do que vem depois
a priori: a partir do que vem antes
Agnus Dei: Cordeiro de Deus
carpe diem: aproveite o dia
Corpus Christi: Corpo de Cristo
curriculum vitae: percurso de vida
exempli gratia (e.g.): por exemplo
et caetera (etc): e outras coisas
habeas corpus: que tenhas o corpo
in loco: no lugar
in memoriam: em memória de
in vitro: no vidro
ipsis litteris: pelas mesmas letras
lato sensu: no sentido lato, geral
per capita: por cabeça
persona non grata: pessoa indesejada
pro forma: por mera formalidade
quo vadis?: aonde vais?
sine qua non: sem a qual não
stricto sensu: sentido restrito
tabula rasa: tábua raspada


*Francisco Edmar Cialdine Arruda é mestrando em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Lexicografia, Terminologia e Ensino (LETENS), atuando principalmente com os temas Terminologia, Ensino, Lexicografia, Surdez e Latim. Contato: ed0904@gmail.com

Revista Língua Portuguesa

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