quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Crônicas do cotidiano - Rubem Alves


Crônicas do cotidiano
Mariana Branco*


Educador, poeta, filósofo, psicanalista, cronista, ensaísta, teólogo, acadêmico e contador de estórias (e não “histórias”, como ele prefere dizer). Rubem Alves é tudo isso e muito mais. Por trás de seus textos, ele encanta adultos, crianças, alunos e professores e, por onde passa, é recebido com carinho e olhares de admiração. Foi o que vimos recentemente durante a Bienal do Livro de Curitiba, na capital paranaense, quando o intelectual recebeu a Profissão Mestre no estande da editora Nossa Cultura. Nesta entrevista, ele aborda o ensino superior, a relação entre docente e aluno, entre outros assuntos. Dentre suas revelações, ele afirma: “Eu tenho um ideal, meio medieval, renascentista, da relação do professor e do aluno.”

Profissão Mestre - Apenas 21 entre as 2 mil instituições de ensino superior avaliadas em 2008 pelo MEC (Ministério da Educação) obtiveram nota máxima no IGC (Índice Geral de Cursos da Instituição), conforme divulgado este ano. Como o senhor observa as instituições de ensino superior do Brasil?

Rubem Alves - Quando a gente fala de qualidade de ensino, o que estamos procurando? Estamos querendo formar profissionais? O que é um profissional? Ele é alguém que tem capacidade para executar determinadas tarefas. Ele é uma ferramenta. O médico, por exemplo, é uma ferramenta de mexer com o corpo. O advogado, de mexer com as leis. Então, há um sentido que eu diria, quase que para mim pejorativo, de você pensar qualidade na qualidade das ferramentas e isso não quer dizer nada na qualidade do ser humano. Ou seja, o curso superior tem alguma coisa a ver com o ser humano? Uma pergunta muito simples, que é a primeira que se faz, é a seguinte: será que os nossos cursos superiores ensinam nas pessoas o gosto pela leitura? Isso faz parte da qualidade humana, o interesse pelo mundo. Ou simplesmente o profissional é aquele especialista que sabe cada vez mais de cada vez menos? Nesse sentido, eu diria que os nossos cursos superiores são pobrezinhos, já que é muito difícil avaliar a qualidade de gente, não a qualidade de profissional que as nossas instituições estão produzindo.

PM – Mais de 97 mil professores se inscreveram para concorrer a uma das 57 mil vagas oferecidas pelo MEC para qualificar docentes de escolas públicas em exercício que não têm curso superior ou atuam em área diferente da qual se formaram. Essa medida é válida?

RA - Você sabe, ser professor pode ser muito chato. Aquele professor antigo, que dava a matéria todo ano repetindo a mesma coisa, foi dando um tédio, um emburrecimento. Há de se fazer alguma coisa que desperte nos professores novos horizontes. Eu uso várias imagens para me referir aos educadores e agora estou trabalhando com a do professor de espantos. Uma de suas tarefas é mostrar o mundo para os alunos se espantarem, para eles aprenderem a ter “olhos diferentes", problematizarem-se para o mundo, para que a vida fique interessante. E esses cursos, essas tentativas de melhorar o desempenho do professor por meio de cursos com mais informação ... Os docentes não serão melhores professores com mais informação. Eles podem ter mais conhecimento, mas isso não altera a qualidade deles mesmos como professores. Então, para alterar a qualidade dos professores e, portanto, da educação, a gente precisa lidar com a literatura. Eu gostaria, inclusive, que cada professor começasse a sua aula citando apenas um verso de um poeta, de uma poesia.

PM – Como cada docente pode trabalhar a literatura em sala de aula? Esta proposta é complicada de se implementar?

RA - Não vou dizer que seja complicado, mas é alguma coisa que foge do hábito. O docente normalmente vai dizer “isso não é minha matéria, isso é matéria do professor de português”. Ele não compreende que a literatura vai torná-lo uma pessoa mais interessante. É preciso ter olhos diferentes e, para isso, você não deve se limitar exclusivamente. É aquela ideia de transdisciplinaridade que significa que o meu objeto não é apenas uma área pequena de saber, mas abrange o mundo todo. Nesse sentido, a função do professor pode ser extremamente desafiadora. Eu brinco que o educador é um cozinheiro e tem de apresentar aos alunos o gosto bom da comida que faz. Ele apresenta para que o aluno se deleite e chegue a um ponto em que o estudante nem vai mais precisar de professor, porque ele (o aluno) está seduzido pelo gosto bom. Você não precisa de argumentos para seduzir as crianças a chuparem sorvete, sorvete é bom. Essa seria a mesma relação com aquilo que chamamos de disciplina.

PM - Como o professor de física, por exemplo, pode trabalhar esse deleite? É preciso muita criatividade?

RA - O professor tem de brincar com a sua matéria. Ela é um brinquedo e ele vai ensiná-lo para os seus alunos. Na verdade, quando você está pensando criativamente, o pensamento não segue ordem unida; ele dança, vai pra lá, vai pra cá. Vou te dar um exemplo da questão de literatura. Kepler descobriu as três leis dos movimentos dos planetas, que podem ser aprendidas em 15 minutos. Então, em minutos, você fica sabendo a fórmula das leis de Kepler, mas o professor que dá essas leis não conta a história que levou 18 anos para que Kepler chegasse a elas. A coisa mais importante para o desenvolvimento da inteligência não é você saber o resultado, mas o caminho. Você vai contar uma história. Quando eu era jovem, eu me lembro que no curso de admissão eu me fascinava lendo a história dos cientistas, daquele homem que trabalhou, que lutou e teve intuições. Aquilo lá mexia muito comigo. Isso está eliminado dos nossos currículos, que dizer, afinal de contas, quem foi esse cara Albert Einstein? Quantas pessoas sabem que ele teve uma filha que foi rejeitada? Como é esse homem? Como é que as pessoas descobrem as coisas? Eu gosto de chegar para os meninos, os adolescentes, e dizer a eles que escrevam uma história hipotética de um determinado objeto qualquer. Por exemplo: escrevam a história do pau de fósforos. O que tem a ver com ciência? Tem tudo a ver, porque você vai usar imaginação. É sobre isso que Karl Marx chamava de práxis. Ele dizia que, para conhecermos uma coisa, precisávamos saber a práxis, que é o processo pelo qual os seres humanos produziram aquele objeto.

PM – É preciso, então, estimular a curiosidade dos alunos?

RA - As crianças normalmente são muito curiosas e elas perdem a curiosidade na escola porque a instituição de ensino não atende aos questionamentos que elas estão fazendo, que são perguntas absolutamente fantásticas. A curiosidade acontece onde? Eu não a tenho por coisas abstratas que não têm a ver com a minha vida. Já o entorno me dá os problemas, as questões que têm a ver inclusive com a minha sobrevivência, porque o pensamento, a ciência, surgiu na luta do homem para sobreviver. O entorno é que vai dar o programa (pedagógico) que eu tenho de dar.

PM - Em suas crônicas, o senhor aborda a alegria do estudante aprender e que, muitas vezes, o aluno está infeliz, sofrendo. Como o educador pode mudar essa realidade, mesmo com muitos alunos em sala?

RA - Com 60 alunos em sala, eu acho difícil. Esse docente tem que não se transformar naquele professor espetáculo o tempo todo, mantendo a “bola no alto”, engraçado. Não é por aí, porque a curiosidade às vezes é muito discreta. Não é no meio da confusão, é no meio de uma meditação, é pensando em silêncio. E uma coisa que é essencial para os professores é não darem as respostas, é serem provocadores da inteligência dos alunos, fazerem pensar, porque é para isso que existe a escola, para ensinar as pessoas a pensarem. Você pode ter um profissional que aprendeu tudo que pode ser aprendido na sua profissão. Isso não significa que ele seja uma pessoa inteligente, mas que tem boa memória e dominou as técnicas. Você precisa ter um desafio. Eu sempre falei sobre o brinquedo, que eu queria que a escola fosse como uma briquedoteca, e uma pessoa me acusou dizendo “Rubem Alves quer que tudo seja fácil, que tudo seja brinquedo”. Essa pessoa foi um idiota, porque ela não sabe que brinquedo, para ter graça, precisa ser difícil. Não tenho o menor interesse em armar um quebra-cabeça de 50 peças, mas se me derem um de mil peças, aí ele me desafia. Sempre tem de ter um desafio.

PM – O senhor usou a expressão “professor espetáculo”. Como definir a relação ideal do mestre com o aluno?

RA - Eu acho que ela seria uma relação que desenvolve relações pessoais, mas essa situação está ficando cada vez mais difícil de acontecer, porque, com uma turma de 40 alunos, como é que você pode estar atento às limitações, às perguntas de cada um? Eu vejo uma dificuldade muito grande. Eu tenho um ideal, meio medieval, renascentista, da relação do professor e do aluno. Aqueles artesãos ... você pode imaginar um Leonardo da Vinci. Como é que eles ensinavam? Eles tinham oficinas e vários alunos lá, cada um fazendo a sua coisa. Ele não dava preleções, ele chegava para um, dizia assim, tá bom, você pode fazer isso, fazer aquilo, você vai andando por ali, vai indicando as coisas para serem feitas. Então, é uma relação em que o professor está intimamente ligado ao aluno, mas isso é uma utopia do mundo de hoje, pois nós temos que lidar com milhares de pessoas.

PM – E qual é o resultado dessa dificuldade do educador em lidar com um número muito grande de alunos?

RA - Se eu fizer o vestibular, eu não passo. Se os reitores e professores das universidades fizerem o vestibular, eles não passarão. Se os professores dos cursinhos fizerem o vestibular, eles não passarão. Por que esqueceram? Por que têm memória fraca? Não, porque têm memória inteligente, aquela que sabe esquecer aquilo que não faz sentido. Então, tudo aquilo que é supostamente ensinado durante anos, passado o vestibular, é imediatamente esquecido.

*Entrevista publicada na revista Profissão Mestre de novembro/09.


*Editora-chefe das revistas Profissão Mestre e Gestão Educacional

Revista Profissão Mestre

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