sábado, 17 de setembro de 2011

Educação ambiental na escola


Sandra LestingeI, 1; Marcos SorrentinoII

IZootecnista. Doutora em Recursos Florestais. Docente visitante, Universidade de Brasília, Centro de Educação a Distância (CEAD). Brasília, DF.
IIBiólogo e Pedagogo. Pós-doutorado em Educação. Diretor do Departamento de Educação Ambiental, Ministério do Meio Ambiente. Brasília, DF.


Educação ambiental na escola

Para que um estudo do meio seja caracterizado como atividade de educação ambiental, ele precisa estar em consonância com um pensamento mais complexo sobre "meio ambiente". Parece haver um consenso, entre alguns autores, de que a educação ambiental tenha um caráter além do relativo (separação do "lixo", reciclagem), mas uma intenção maior de politizar e capacitar cidadãos e cidadãs a tomarem posicionamentos, por exemplo, sobre os altos padrões de consumo de países industrializados do hemisfério norte e a sustentabilidade do planeta. Assim, Freire (2000), Sato (2001), Carvalho (2000), Mendonça (2003) entre outros autores, apontam para a necessidade de que haja um comprometimento verdadeiro perante essas discussões.

É nesse sentido que algumas atividades práticas de educação ambiental passam por críticas como as que Michele Sato aponta:

Proliferam-se, assim, ações pontuais de abraçar árvores ou oficinas de reciclagem de papel, sem nenhuma postura crítica dos modelos de consumo vivenciados pelas sociedades, ou pela análise do modo de relação dominadora do ser humano sobre a natureza, com alto valor antropocêntrico. (SATO, 2001, p. R-16)

Se, de um lado, o simples abraçar árvores não conduz a uma análise do modo de relação dominadora sobre a natureza, pode promover uma compreensão profunda (não analítica, não racional, mas perceptiva, experiencial) do que significa não dominar, do que significa estar integrado. E, além disso, do bem-estar – perceptível – quando da compreensão de que existem outras possibilidades a serem exploradas, estando em um ambiente menos impactado, numa relação dialética entre corpo, mente e espírito.

Com um questionamento pertinente sobre outras práticas educacionais, Carvalho (2000) questiona a transmissão de informações por educadores que utilizam as trilhas de interpretação, em geral, com grande peso para os conhecimentos vindos da Biologia, como o funcionamento dos ecossistemas e as interações entre os elementos da natureza. Ressalta que a "tradição explicativa das ciências naturais" se contrapõe a uma "ação interpretativa e via compreensiva de acesso ao meio ambiente", que indicariam um caminho para uma educação ambiental de perspectiva filosófica hermenêutica. "Educar, compreender, tornam-se desde uma perspectiva hermenêutica, uma aventura onde o sujeito e os sentidos do mundo vivido estão se constituindo mutuamente da dialética da compreensão/interpretação" (CARVALHO, 2000, p. 8).

Sendo assim, acredita-se no potencial do uso dos EM para a relação de ensino-aprendizagem, visando criar, fortalecer laços e vínculos – objetivos e subjetivos – que contribuam tanto para a compreensão da realidade quanto para a consolidação do sentimento de pertença nos indivíduos, numa perspectiva de emancipação sociopolítica em prol de um projeto de felicidade.

Os estudos do meio, até hoje, foram mais utilizados no ensino da Geografia; mas outras disciplinas, como, por exemplo, Biologia, História, Ciências, Matemática, Literatura, utilizam-nos como estratégia de ensino-aprendizagem (PONTUSCHKA, 1994; DEBESSE-ARVISET, 1985; NIDELCOFF, 1979), com bastante sucesso entre docentes e discentes.

Considerando-se determinado território, os estudos do meio podem acontecer desde o entorno mais próximo dos estudantes - observações a partir do próprio corpo; e, num caracol imaginário, ir se expandindo para: a sala de aula, o prédio (ou local dos estudos), o jardim ou o espaço em volta, o quarteirão que abriga a escola e os adjacentes, o bairro e comunidades nele envolvidas e, assim por diante, até onde o fôlego e entusiasmo ou a necessidade indiquem como adequados e oportunos. "Qualquer pessoa pode fazer uma expedição no quintal da própria casa ou no jardim mais próximo. O que distingue, porém, uma expedição de um simples passeio é o fato de termos, no primeiro caso, um objetivo: o de conhecer" (BRANCO, 1984, p. 5).

Um estudo do meio pode ser caracterizado como um método na medida em que permite ao estudante observar, descobrir, documentar, utilizar diferentes meios de expressão, desenvolvendo, assim, um espírito de síntese; ou como técnica pelo seu valor informativo em diferentes áreas do conhecimento, de forma não "livresca", por meio da experiência vivida, como aponta Magaldi (1994, apud PONTUSCHKA, 1994). No entanto é importante se utilizarem estratégias e vivências específicas que favoreçam as relações interpessoais e intrapessoais.

Nidelcoff (1979) considera que o estudo do meio pode ser "integral" ou "parcial". No primeiro caso, exemplifica como "o estudo de uma população, de um bairro, de uma cidade, sob todos os seus aspectos", e ressalta que este é um trabalho mais difícil, que requer "ação coordenada de várias equipes, durante bastante tempo"; na outra possibilidade, de um estudo parcial, sugere um "recorte" ou apenas um aspecto de um tema, por exemplo: o estudo da localização e instalações de uma fábrica, os hábitos alimentares de uma população, entre outros (NIDELCOFF, 1987, p. 12-3).

Para complementar a idéia de estudo do meio, supracitada, cabe mencionar que:

El estúdio de los médios geográficos, a través del análisis de las situaciones complejas a partir de todos los factores implicados: tiempo, espacio, fuerzas económicas y financieras, es una orientación intelectual, un verdadero estruturalismo. Obligando a pensar "juntas", causas múltiples y no siempre suficientes, ejerce una dialética que ya no puede confundirse con la demonstración matemática ni con la comprensión literaria. (DEBESSE-ARVISET, 1985, p. 169-70)

É o que Larosa Bondía chama de dar sentido à experiência, "sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece", e discute os termos "informação", "conhecimento" e "aprendizagem", pois conhecimento e sabedoria passam pela quantidade de informação ou uma opinião que se tem sobre algo. A importância da experiência, na citação de Bondía, remete e reforça além do modo de ser/viver experienciado, à necessidade do "momento de parada":

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (BONDÍA, 2001, p. 5)

Para Tuan (1983), a experiência pode ter a conotação de passividade, pelo que uma pessoa suportou, tem sofrido ou aprendido com os acontecimentos. Mas experienciar é também aprender com base na própria vivência, atuar e criar a partir de dados, apesar de não se poder conhecer sua essência, "o que pode ser conhecido é uma realidade que é um constructo da experiência, uma criação de sentimento e pensamento". Então, pode-se depreender que, para experienciar, atuar e criar a partir de dados, como nos indica Tuan, é necessário o "gesto de interrupção", a que se refere Bondía, para completar os processos cognitivos.

Partir de la observación del entorno es un ejercicio de atención, de la aptitud para distinguir lo esencial de lo contingente; una incitación a imaginar comparaciones verificadores, esbozo de generalidad. Cada uno descubre los efectos de su propia acción en este medio físico, biológico, humano, y su poder a veces destructivo, así como la posibilidad de una belleza nueva. (DEBESSE-ARVISET, 1985, p. 161)

Nos estudos do meio, o exercício de observação e atenção deve ser adequado à faixa etária do grupo, bem como as atividades e temas coerentes com a proposta pedagógica do ensino básico à pós-graduação. É importante o comprometimento, a responsabilidade e o envolvimento do coletivo no estudo. Sem giz, quadro-negro ou carteiras, o estudo do meio torna-se um momento especial, único, pela oportunidade de se inovarem metodologias de ensino – aprendendo-se em outros ambientes, mas não só. Os estudantes, via de regra, sentem-se mais "soltos", ficam mais entusiasmados, participam, se expõem com comentários e observações, despertando a atenção também do educador "aprendente". A paisagem – urbana e/ou rural – é mais do que apenas um cenário. Os estudantes, educadores e cidadãos/moradores, são pessoas que se expõem ao compartilharem, socializarem, indagarem, pesquisarem.

O conhecimento se adquire através da observação prolongada de cada objeto: animal, vegetal ou mineral; da comparação com os demais objetos; do acompanhamento demorado e paciente do seu modo de ser, de viver, de relacionar-se com o meio, com os outros seres, com os elementos e fenômenos da natureza. É, realmente, enxergar o mundo que nos cerca. (BRANCO, 1984, p. 6)

É importante observar a mudança de comportamento em relação àquele que os estudantes normalmente têm em sala de aula. É possível que isso se deva a outras habilidades que são estimuladas nesses eventos. Assim, um estudante mais "inquieto e falante" pode ser um bom interlocutor, vindo a motivar e agregar a turma; uma aluna mais tímida pode revelar-se uma excelente observadora de pássaros e insetos, contribuindo para um contato afetivo e efetivo com outras fronteiras do conhecimento.

Pensando-se em contribuir para a construção de sociedades com pessoas mais conscientes sobre a importância de se conhecer, respeitar e conservar a natureza, os estudos do meio, de modo geral, destinam-se à aplicação de alguns recursos didáticos fora da sala de aula, utilizando-se a natureza ou o ambiente "extraclasse" como espaço pedagógico, mais do que um "laboratório vivo", de forma a contribuir, em última instância, para a discussão da problemática ambiental.

As atividades de campo são os laboratórios onde se concretizam, emergem e interagem os conteúdos teóricos, elaborados em sala de aula, com a realidade concreta das transformações da natureza. É o local onde se confrontam os valores exibidos dentro de "quatro paredes" com os praticados nas atividades de campo. (TAMAIO, 2002, p. 93-4)

O propósito de um estudo do meio deve ser (e estar) bem claro, definido e detalhado, tanto para os proponentes (professores, direção, coordenadores, guias) quanto para os estudantes. Nesse sentido, algumas perguntas podem ajudar: Qual (quais) o(s) objetivo(s) do estudo? A quem se destina? Qual a duração? Quais as maiores dificuldades ou limites?

Para os proponentes, há, no mínimo, dois caminhos que devem ser percorridos concomitantemente: o "pedagógico" e o "logístico".

O "logístico" compreende tudo o que diz respeito ao planejamento e realização da saída em si: transporte, trajeto, agendamento de horários, alimentação, primeiros socorros, entre outros. É importante fornecer algumas orientações sobre roupas e alimentos mais adequados, cuidados com objetos de uso pessoal (máquina fotográfica, medicamentos etc), detalhar e verificar cada item e, por segurança, deve-se manter o que foi acordado, isto é, evitar mudar – aleatoriamente - um roteiro preestabelecido no "meio do caminho". As decisões tomadas no coletivo geralmente têm mais credibilidade e geram confiança para o desempenho dos trabalhos no campo.

A necessidade de realizar um estudo do meio pode surgir dos próprios estudantes, ou então ser prevista dentro do planejamento ou do projeto político pedagógico da escola. Dependendo da complexidade da saída, o ideal é que a apresentação dos conteúdos curriculares se inicie com alguma antecedência, na sala de aula, para o envolvimento e motivação, visando estimular a noção de responsabilidade e firmar os compromissos entre os estudantes.

É imprescindível que, a partir de um projeto, se construa um roteiro que auxilie a sistematização das anotações e observações, dos comentários pessoais, dos dados históricos, geográficos, socioeconômicos, desenhos/croquis, pequenas entrevistas, horários previstos, etc. Este roteiro, que pode ser um guia de campo, caderno de anotações ou diário de bordo, serve como um orientador, uma "base de dados" tanto para o educador quanto para os estudantes utilizarem antes, durante e após o "evento"; pois envolve pesquisa, organização, memória das questões investigadas, possibilita a seleção de informações, facilita a comparação entre os dados levantados e os conhecimentos de outros pesquisadores, e pode ser fonte das interpretações pessoais, lembranças e conclusões.

Uma saída pode ser utilizada para várias atividades/momentos diferenciados. Desta forma podem-se conjugar as "tarefas" que os estudantes deverão realizar com as atividades de socialização e/ou percepção. Eles podem estar todos juntos assistindo uma palestra, e depois, em grupos, entrevistando/conversando com pessoas, e num outro momento (num solo, por exemplo), cada um individualmente fazendo sua "síntese histórica" ou memória do dia.

A compreensão deste mundo passa, evidentemente, pela compreensão das relações que ligam o ser humano ao seu meio ambiente. Não se trata de acrescentar uma nova disciplina a programas escolares já sobrecarregados, mas de reorganizar os ensinamentos de acordo com uma visão de conjunto dos laços que unem homens e mulheres ao meio ambiente, recorrendo às ciências da natureza e às ciências sociais [...] numa perspectiva de uma educação que se estenda ao longo de toda a vida. (DELORS, 2000, p. 47)

A idéia de se usarem estudos do meio parece estar sintonizada com os quatro pilares da educação, que constituem uma via do saber, pelos "múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta" entre eles:

Aprender a conhecer, isto é, adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. (DELORS, 2000, p. 90)

Cada estudo do meio deve, portanto, ser minuciosamente planejado, organizado, detalhado, aproveitado, pois é único, experiência única, e como aprendizado, requer um gesto de interrupção, pois é impossível de ser repetido. É um tempo de disponibilidade e abertura para aprender sobre si mesmo, o outro, o mundo.

parte integrante do artigo
As contribuições a partir do olhar atento: estudos do meio e a educação para a vida
Revista de Ciência & Educação (Bauru)- UNESP

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