domingo, 14 de setembro de 2014

Notícias Pedagogia e Vida


China enfrenta dificuldades com problemas mentais de crianças
As crianças se veem isoladas por conta da política governamental do um filho por casal, e pelos pais que precisam se mudar em busca de trabalho

TANIA BRANIGAN
DO "OBSERVER"

Sim, é só um bicho de pelúcia. Mas coloque-o nas mãos de uma criança e assista enquanto ela finge alimentá-lo, conversa com ele, e até o coroa rei. Para começar, o bicho de pelúcia provê segurança; depois, permite que a criança interprete novos papéis e desenvolva competências sociais.

As autoridades da China esperam que dicas como essa, incluídas em um livro para pais e professores pré-escolares, ajudem a conter os problemas de saúde mental que as crianças do país enfrentam. Os orçamentos dos serviços de saúde mental para crianças e adolescentes estão congelados no Reino Unido, mas a China deseja expandir a provisão desse tipo de serviços, promover abordagens psicoterapêuticas e adotar medidas preventivas.

Desde 2012, as pré-escolas e escolas chinesas vêm promovendo a saúde mental tanto quanto a educação física. No ano passado, a China aprovou sua primeira lei de saúde mental, que instrui os pediatras a buscar sinais de alerta nos pacientes: os olhos dos bebês de três meses de idade acompanham os objetos em movimento? Aos 18 meses, as crianças são capazes de manter contato olhos nos olhos com seus interlocutores? As autoridades também buscaram a ajuda de psicoterapeutas estrangeiros fim de ajudar a treinar especialistas e promover a conscientização.

"O governo está dedicando muita atenção à saúde psicológica", disse o Dr. Zheng Yi, presidente da Sociedade Chinesa de Psiquiatria da Criança e do Adolescente e diretor assistente do Hospital Anding, de Pequim, parte da Universidade Médica da Capital.

Os resultados preliminares de uma pesquisa que ele comandou, e será publicada antes do final do ano, sugerem que cerca de 15% das crianças chinesas têm problemas de saúde mental. Ele afirmou que isso se compara favoravelmente à média de 20% vista em outros países, mas apontou que alguns problemas, como os distúrbios de ansiedade, parecem estar em ascensão.

A melhora nos padrões de vida permitiu que maior número de pais dedicasse atenção ao bem estar emocional de seus filhos, mas o desenvolvimento também causou novos problemas, incluindo mudanças dramáticas nas estruturas familiares e pressões sociais e educacionais intensificadas. "Para muitas crianças, a economia não é problema. O problema é que há menos oportunidade de brincar", disse Zheng.

Outros mencionam o impacto da lacuna geracional criada pela transformação da China, e o da política de um filho por casal. Filhos únicos podem desfrutar de melhores cuidados, mas também podem receber mimos excessivos, se tornando "pequenos imperadores", ou sofrer solidão porque lhes faltam companhias de sua idade.

Viviane Green, do departamento de estudos psicossociais do Birkbeck College, um dos especialistas internacionais que estão desenvolvendo o programa de treinamento, disse que os casos são muitas vezes semelhantes aos encontrados no Reino Unido, com "adolescentes expressando hostilidade; questões de apego já na primeira infância".

Mas ela acrescenta que "o que existe de ligeiramente diferente é provavelmente como as emoções são expressadas, porque a cultura é diferente e o apego filial aos pais é muito forte. As pessoas têm conflitos - mas o senso de self não é um modelo individualizado, como temos aqui - [a ideia] de que boa saúde mental envolve separação, envolve viver sozinho. Ele gira mais em torno do dever para com a família de origem e os elos que a pessoa mantém para com ela".

A psicoterapia está crescendo rápido na China, mas os especialistas do país precisam "ajudar essas novas ideias a se relacionar a outros tipos de experiência que eles extraíram da cultura local, bem como a pessoas como os psiquiatras", disse a Dra. Wang Qian, que organizou o projeto de treinamento internacional como diretora do escritório executivo da unidade psicanalítica nacional.

O Dr. Sverre Varvin, que preside o comitê da Associação Psicanalítica Internacional para a China e há anos oferece treinamento a profissionais chineses, acrescentou que "a cultura chinesa é realmente metafórica, e é preciso dedicar tempo a descobrir essas metáforas".

Continuam a existir problemas sérios na prestação de serviços. Há uma escassez de psiquiatras infantis na China, que segundo Zheng será resolvida pelo treinamento de pediatras e clínicos gerais para que sejam capazes de diagnósticos iniciais e tratamentos básicos de saúde mental.

Os serviços são especialmente escassos nas regiões rurais, onde talvez sejam mais necessários. Muitos trabalhadores migrantes deixam os filhos em casa quando se mudam para trabalhar, porque o sistema de "registro domiciliar" chinês significa que é difícil obter serviços como educação nas cidades. A maioria dessas famílias se reúne na melhor das hipóteses uma vez por ano.

Cerca de 50% dessas crianças "deixadas para trás" sofrem de depressão e ansiedade, ante 30% de suas contrapartes nas cidades, de acordo com um novo estudo bancado pelo governo da província de Heilongjiang. Elas também são mais sujeitas a oscilações de humor e a estresse. Yang Yangjie, da Universidade Médica de Harbin e responsável pela pesquisa, disse que os problemas psicológicos dessas crianças tendiam a ser mais complexos: "As crianças deixadas para trás sofrem de complexos de inferioridade, baixa autoestima e baixa confiança. Muitas parecem desprovidas de senso de segurança e são medrosas demais ou sentem ansiedade demais para interagir com outras pessoas", ela disse.

Algumas dessas crianças são, para todos os fins práticos, criadas por apenas um dos pais, e em alguns casos tanto o pai quanto a mãe trabalham, o que as leva a serem criadas pelos avós, que podem não ter o tempo e energia requeridos para cuidar adequadamente delas. Os guardiões muitas vezes se concentram nas necessidades materiais e ignoram as necessidades emocionais das crianças, disse Yang. Embora existam poucas verbas para os programas dirigidos a grupos vulneráveis, no momento, o apetite por eles é notável. A Save the Children inicialmente oferecia "primeiros socorros psicológicos" em emergências como desastres naturais, provendo assistência básica e identificando as crianças necessitadas de assistência adicional. Mas Pia MacRae, diretora da organização na China, disse que os funcionários e os associados da organização haviam solicitado, além disso, que ela provesse treinamento a trabalhadores de centros de atendimento a crianças de rua.

Zhen acredita que a atenção deve ser concentrada tanto na prevenção quanto na cura. As mudanças sociais não precisam causar danos, se as pessoas se adaptarem apropriadamente: garantindo que os filhos únicos convivam com meninos e meninas de sua idade; e talvez criando um regime de trabalho migrante alternado para que um dos pais esteja sempre em casa.

Mas o primeiro grande desafio, ele disse, era encarar as percepções negativas, para que problemas de saúde mental deixem de portar um estigma para as crianças. "Se pudermos nos livrar disso, consultar um psiquiatra será como ir ao médico quando você tem uma febre", ele disse.

Tradução de PAULO MIGLIACCI
FOLHA DE S.PAULO

2 comentários:

  1. Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens é um bom blog,gostei de o conhecer é daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
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    Minhas saudações.
    António Batalha.
    Peregrino E Servo

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    António Jesus Batalha.

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