sexta-feira, 4 de junho de 2010

Questões im-pertinentes para a Filosofia da Educação


Questões im-pertinentes para a Filosofia da Educação

Pedro Goergen
Pedro Goergen é professor titular da Universidade de Sorocaba (Uniso) e professor titular colaborador aposentado da Unicamp. goergen@unicamp.br

Mesmo os que são céticos com relação ao conceito de pós-modernidade, hão de se interessar pelas razões desse grande debate internacional que os pós-modernos provocaram. Dentre os muitos pontos polêmicos que marcam esse debate, destacam-se três temas para os quais converge grande parte das discussões. Trata-se, em primeiro lugar, da tese que afirma o ocaso das grandes ideologias e metanarrativas, ou seja, o fim da idéia de filosofia da história; em segundo lugar, a desconstrução do conceito moderno de sujeito, capaz de conhecer, dominar e conduzir os rumos da história; e, por último, a relativização dos valores e o surgimento de uma sociedade sem referências, na qual todos os valores são comutáveis. Em outros termos, faz-se referência à atrofia da consciência histórica, do enfraquecimento da estrutura do sujeito e da relativização dos valores universais. Essa leitura pós-moderna reflete a desconfiança com relação às expectativas modernas, centradas nos conceitos de progresso histórico, de sujeito autônomo e de valores laicos.

Vivemos um momento histórico conturbado em que não só a filosofia da história, mas também a razão e a subjetividade, os fundamentos e os valores, as identidades e as certezas se tornam ambíguos. O estremecimento desses conceitos angulares, que orientam o pensamento e a ação do homem moderno, afeta a vida em todas as suas dimensões. Particularmente a educação se vê diante de novos desafios que são cruciais para o estabelecimento de seus objetivos e suas práticas. Não sendo possível voltar no tempo e recuperar os fundamentos e valores do passado nem tolerável seguir vivendo na instabilidade, torna-se premente encontrar novas formas de legitimação. Essa é a tarefa que a Filosofia e, no contexto da educação, a Filosofia da Educação pode e deve assumir.

Como pequena contribuição a esse debate, o presente ensaio oferece algumas reflexões sobre os temas mencionados – história, sujeito e valores –, procurando demarcar alguns espaços que têm especial relevância para a Filosofia da Educação.

Parece adequado iniciar tratando de um dos temas mais polêmicos da atualidade que é o conceito de história. Os pós-modernos assumem a polêmica tese do fim dos metarrelatos e declaram sem fundamento a crença numa filosofia da história, numa história do progresso. Teria sido uma grande ilusão moderna acreditar na razão como garantia do curso unitário da história em direção a uma sociedade mais justa e uma vida melhor. Com isso, colocam sob suspeita o principal fundamento de toda a educação moderna que opera precisamente a partir do suposto de que a humanidade se encontra numa trajetória de progresso em direção a um futuro melhor.

A seguir, chama-se a atenção para o suposto definhamento do sujeito que se liga à crise de fundamentos. Tantas e tão profundas são as mudanças que vêm ocorrendo na contemporaneidade que o sujeito parece perder sua identidade e, com ela, a pretensão moderna de se tornar senhor e dominador da realidade e de seu destino. O mundo administrado e automatizado ofusca a autonomia do sujeito, limita e exterioriza o pensamento de modo que os homens se tornam seres genéricos de massa, uns iguais aos outros, governados pelos acontecimentos sobre os quais não têm mais controle. No contexto da educação, é importante saber se a idéia de formação do sujeito ainda representa um elemento importante da paideia contemporânea ou se tal suposto deve ser substituído pela instrução do indivíduo adaptada às exigências do mercado.

Por último, são feitas algumas considerações em torno da questão dos fundamentos e valores como um dos temas mais discutidos na atualidade, com o objetivo de destacar as inferências da crise ética sobre o agir educativo. Tradicionalmente, a educação fundava-se nos grandes supostos da metafísica ocidental como Deus, Natureza, Homem, Razão. Desde a crise desses supostos, que inicia com Nietzsche, avança com Heidegger e Foucault e se dissemina com os pós-modernos, a teoria educacional ainda hesita em colocar-se, reflexivamente, no horizonte dessa crise de fundamentos. Produz-se dessa forma uma desconexão entre teoria e prática que deve ser tematizada do ponto de vista filosófico. A Filosofia da Educação deve perguntar, com rigor e radicalidade, em nome de quem se educa.

São essas algumas questões que caracterizam os nossos tempos e que devem ser lembradas ao se pensar o sentido e os rumos da educação. A pretensão do texto não vai além de assinalar a importância desse debate e de trazer algumas contribuições, por ora ainda sucintas e dispersas, no sentido de destacar sua relevância para o campo da Educação. Não é preciso dizer que os três grandes temas aqui lembrados encontram-se separados apenas formalmente e que, na realidade, estão profundamente imbricados uns nos outros. São questões im-pertinentes porque são polêmicas, requerem acolhimento e exame crítico. São incômodas porque desacomodam e exigem posicionamento.



A questão da história

Os pós-modernos entendem que estamos dando adeus ao conceito moderno de historia, como idéia de constante progresso em direção a um mundo e a uma vida melhores. Em vez de história, Lyotard fala de "aventura biográfica e intelectual", como permanente re-escritura e busca sem fim. Nessa perspectiva, o homem vive a constante tentativa de tornar-se testemunho de um acontecer sem lei nem fundamento últimos que lhe dêem sentido e rumo como história. Disso resulta uma espécie de relativismo histórico, uma carência de fundamento, de verdade e de orientação. Apenas há aberturas históricas e os humanos se encontram ante a tarefa de "inventar uma humanidade capaz de existir num mundo em que a crença numa história unitária, dirigida a um fim [...] foi substituída pela perturbadora experiência da multiplicação indefinida dos sistemas de valores e dos critérios de legitimação" (Vattimo apud Mardones 2003, p. 29). Com o fim da unidade da história, estaríamos chegando também ao fim da ética, uma vez que, sem uma certa idéia de história e de humanidade, ficaríamos igualmente sem projeto de liberdade e de justiça. Estaríamos, portanto, presos ao que há, ao que existe e ao que se impõe a todos.

Segundo os pós-modernos, a confiança na razão, com seu metarrelato de progresso em direção a um estágio melhor da humanidade, revelou-se uma falácia, tendo em vista as barbáries humanas e ecológicas que marcam o percurso da modernidade. Não há filosofia da história, não há metarrelato, não há progresso natural e necessário. Se um dia acreditamos que o progresso aconteceria por ser o caminho natural da razão humana que, por sua bondade intrínseca, não poderia percorrer outro caminho, incorremos em erro. Os fatos não deixam margem a dúvidas: guerras, bombas atômicas, holocaustos, destruição do meio ambiente, miséria, fome; no entender dos pós-modernos, são trágicas insanidades que ferem de morte a idéia de progresso (Vattimo, 1996).

Apesar do tom radical, não parece justificado supor que os pós-modernos pretendam dizer que o progresso seja impossível; apenas negam que ele se dê na forma de um curso constante que, ao abrigo de uma metanarrativa ou de uma filosofia da história, conduza a humanidade para um estágio melhor. Lembram que, ao contrário dessa pretensão moderna, estamos vivendo a confirmação das previsões de Weber de que o mundo se tornará burocratizado e racionalizado e que a própria razão ficará presa por entre as grades da burocracia e da racionalização, num cenário por completo desencantado e mecanizado. No dizer de Vattimo (1996), não existe o 'para onde' e "suprimido o 'para onde', a secularização se torna também dissolução da própria noção de progresso..." (p. XIII).

O pós-modernismo, no afã de resistir à metafísica objetivadora (Vattimo, 1996) ou aos metarrelatos de um projeto que se revelou corrompido (Lyotard, 1985), deixa-nos numa situação de "indigência crítica e sem forças para resistir à invasão e ao domínio das estruturas e poderes contra os quais se pretende lutar" (Mardones, 2003, p. 32). Com isso, o pós-modernismo assume ares de uma racionalidade funcional, como também de uma ética circunstancial e circunstanciada. Se concordarmos com seus principais pontos de vista, ou seja, se aceitarmos a idéia da falência dos princípios e sentidos universais, dos critérios e das metas abrangentes, estaremos condenados à resignação por falta de critérios legitimantes da ação transformadora do real. Parece, então, justificada a acusação de neo-conservadores feita por Habermas aos pós-modernos. A leitura conformista pós-moderna inviabiliza o projeto da ilustração que, apesar das incongruências, insinua-se não só como justificado, mas também como vital para o futuro da sociedade.

Embora tais expectativas preocupantes justifiquem as reações contra o pensamento pós-moderno, não é teoricamente sustentável ignorar suas sinalizações. Muitas de suas críticas devem ser levadas a sério porque tocam em pontos nevrálgicos dos des-caminhos da razão moderna, tão bem salientados por Adorno e Horkheimer (1985) na sua Dialética do esclarecimento que inicia com as seguintes palavras:

O esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investí-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplendece sob o signo de uma calamidade triunfal. (p. 19)

As palavras de Adorno e Horkheimer atingem o âmago do paradoxo moderno: a terra esclarecida, iluminada, representa ou, pelo menos, corre o risco de representar uma calamidade triunfal. Coloca-se ao nosso discernimento a escolha do melhor caminho a seguir diante da calamidade.

Em vista da barbárie que se instala, os pós-modernos saem a campo para denunciar o fim do sonho moderno. Na sua opinião, as desgraças ocorridas no último século e a realidade socioecológica contemporânea encontram-se em flagrante contradição com o otimismo do início da trajetória moderna. Mesmo divergindo das posições radicais de Lyotard, Wellmer acredita, com ele, que de fato o pós-modernismo reflete em boa medida os problemas, o enodoamento e as convulsões da nossa era: "Se há algo, é isso que justifica ver no pós-modernismo mais que uma passageira e rapidamente esquecida moda" (Wellmer, 1996 p. 58).

Até um pensador engajado na defesa da razão como Horkheimer (1976) reconhece que a mecanização é, na verdade, essencial à expansão da indústria, mas não sem acrescentar criticamente que

[...] se isso se torna a marca característica das mentalidades, se a própria razão é instrumentalizada, tudo isso conduz a uma certa materialidade e cegueira, torna-se um fetiche, uma entidade mágica que é aceita ao invés de ser intelectualmente aprendida. (p. 31)

E quais seriam, pergunta Horkheimer (1976) na seqüência de seu raciocínio, as conseqüências dessa formalização da razão? Conceitos como justiça, igualdade, felicidade e tolerância que no passado tinham a chancela da razão, parecem ter perdido suas raízes intelectuais, carecendo de confirmação da razão em seu sentido moderno. A única autoridade que resta é a das ciências naturais e exatas, as quais, no entanto, não abrangem aquelas dimensões do humano que não se enquadram nos seus critérios de certeza.

O discurso de Horkheimer (1976) pressente os rumos do desenvolvimento que levaria a um cenário em que "a arte foi separada da verdade, assim como a política ou a religião"; um cenário em que "nenhum objetivo como tal é melhor do que outro" (p. 49-50). Percebe também que a tendência geral de "reviver as teorias da razão objetiva do passado, a fim de dar algum fundamento filosófico à hierarquia de valores" mostra-se como inviável, uma vez que a

[...] verdade se forja numa evolução de idéias mutantes e em conflito. O pensamento é fiel a si mesmo sobretudo quando está pronto a se contradizer, porquanto preserva, como elemento inerente à verdade, a memória do processo em que esta foi alcançada. (p. 73)

Ao contrário de Horkheimer, os pós-modernos não só constatam tais tendências, mas as consideram irreversíveis, reconhecendo nelas o anúncio do fim da idéia moderna de progresso e de filosofia da história.

Diante disso, Mardones (2003) levanta a suspeita de que

[...] os que vêem neste abandono da história à sua evolução, a confirmação de que os pós-modernos, por detrás da morte do sujeito e do fim da história, nos deixam nas mãos do 'imperativo técnico' da sociedade cibernética. (p. 30)

Estaria, então confirmada a tese de Niklas Luhmann (1996) de que a emancipação é algo obsoleto, porquanto, de hora em diante, quem resolve os problemas do homem é o funcionamento sistêmico. A razão que comanda esse sistema é uma razão funcionalista que tudo regula num processo que se fecha em si mesmo, transformando-se em autolegitimação. "O momento da pós-modernidade", conclui Welmer (1996), "é uma espécie de explosão da episteme moderna, na qual a razão e o seu sujeito – como lugar-tenente da 'unidade' e do 'todo' – se estilhaçam" (p. 50). E é precisamente essa, dirão os pós-modernos, a intenção uma vez que a modernidade se revelou um grande fracasso.

A análise teórica dos pós-modernos encontra seus limites em certas realidades que não podem satisfazer-se com idéias como o fim da história, como a 'des-construção', o fragmento ou a vida privada. Trata-se da situação de carência e necessidade de grande parte da humanidade absolutamente carente de projetos sociais coletivos que lhe abram perspectivas de um futuro melhor, mais justo e digno. Podemos concordar com suas teses no referente à análise da realidade, mas nem por isso devemos conformar-nos e aceitar a barbárie e a desumanidade como a cristalização de um destino, de uma visão política hegemônica e acomodada quando se trata de enfrentar os grandes problemas do mundo contemporâneo. Abdicar da idéia de um esforço planejado e coordenado de desenvolvimento – que parece estar subjacente à idéia de fim da história – e resignar-se à administração das cruéis assimetrias socioeconômicas com benefícios compensatórios que, no melhor dos casos, podem aliviar a tragédia e o sofrimento, não é a melhor estratégia para se chegar a uma sociedade mais justa e democrática.

O grande desafio que se coloca como tarefa é saber se a busca da vida boa, feliz e humana se resolve pelo 'grande relato', conforme a idéia moderna, ou pelos 'pequenos relatos', como sugerem os pós-modernos. O que já sabemos é que os grandes projetos universais enfrentam dificuldades ante o ainda avassalador avanço do capitalismo que, pela inusitada incursão na microfísica da consciência humana, parece estar inserindo em sua estrutura marcas indeléveis de individualismo, egoísmo e mercadorização. Os pequenos relatos, propostos pelos pós-modernos, por sua vez, ameaçam despotencializar qualquer impulso transformador mais radical, permitindo que a realidade se torne refém dos poderes que hoje a dominam e comandam.

Lendo com cuidado certas passagens do polêmico livro A condição pós-moderna, no qual Lyotard declara o fim das metanarrativas e da filosofia da história, fica-se com a impressão de que Lyotard mais descreve o momento histórico atual do que o declara como definitivo ou bem-vindo. Primeiro, é mister admitir que Lyotard tem razão quanto aos seus prognósticos relativos à crise das metanarrativas e à instrumentalização do conhecimento. O mesmo vale para outras idéias expressas na mesma obra como, por exemplo, a crítica ao conceito de sociedade como uma totalidade ou uma unicidade, sustentada desde Comte até Luhmann (Lyotard, 1985). O debilitamento das narrativas, a crise do sujeito, a desconstrução do otimismo são todos fenômenos muito reais, visíveis, por assim dizer, a olho nu no quotidiano de nossas vidas. Tais constatações, no entanto, não significam que devamos conformar-nos com semelhante realidade. Há uma passagem no próprio livro de Lyotard (1985) que chama nossa atenção para a vontade e a capacidade de decidir do ser humano:

Só se pode decidir que o principal papel do saber é o de ser um elemento indispensável do funcionamento da sociedade, e agir em conseqüência, quando se decidiu que esta é uma grande máquina. Inversamente, só se pode contar com a sua função crítica e desejar orientar-lhe o desenvolvimento e a difusão nesse sentido quando se decidiu que ela não constitui um todo integrado e que permanece dominada por um princípio de contestação. (p. 33)

Parece estar subentendido nessa passagem que não se deve abrir mão do princípio da contestação. No entanto, não foi esse o entendimento que prevaleceu.

A falácia e o risco do pensamento pós-moderno residem no fato de ter-se transformado em um novo iluminismo. Se, de um lado, os pós-modernos detectam corretamente as aporias e os descaminhos da modernidade e seus efeitos contrários aos anúncios otimistas dos profetas modernos, falham, de outro, ao elevarem essa realidade ao nível de uma nova epifania. A um só tempo, detectam as patologias do iluminismo e as consagram como legítimas e definitivas. Essa naturalização dos des-caminhos disseminou-se pelo mundo intelectual e acadêmico, impregnando todas as áreas do pensamento com conseqüências até hoje imprevisíveis sobre os ideais e as práticas libertárias.

As características gerais dessa mentalidade pós-moderna também influenciaram de forma particularmente significativa o ambiente educativo, favorecendo a implantação de um modelo educacional que privilegia a 'formação' vinculada à face mais aparente do sistema capitalista que é o mercado. Para comprová-lo, basta lembrar alguns aspectos de nossa prática educativa com os quais estamos todos muito familiarizados: transformação do conhecimento em mercadoria; enaltecimento da competitividade como elemento central das relações humanas como critério principal da determinação de objetivos, escolha de métodos e seleção de conteúdos; aceitação das exigências do mercado como norte orientador da ação educativa; aceleramento e despersonalização das relações pedagógicas; mudança dos conceitos de espaço e de tempo com desqualificação do espaço social como contexto de interação; colonização do mundo da vida e da privacidade pelos interesses do sistema; valorização do particular em prejuízo dos princípios articuladores ou organizadores da totalidade; fortalecimento das divisões e dos antagonismos que dificultam a construção da identidade e aceleram a falência do sujeito.

Por mais aparentes que sejam tais transformações no cenário pedagógico e por maior que seja a visibilidade teórica das teses pós-modernas, a prática pedagógica continua sendo realizada sob a inspiração dos tradicionais relatos do progresso, da razão e do conhecimento. De um lado, temos a desesperança, a desorientação, a fragmentação e o nihilismo teóricos muito presentes no quotidiano dos agentes educacionais; de outro, sobrevivem as crenças iluministas como essa que confia na missão redentora da educação. Reside nisso uma ambivalência que precisa ser tematizada e aprofundada do ponto de vista da Filosofia da Educação. Os grandes debates teóricos ainda não chegaram à escola, pelo menos não de forma sistemática e rigorosa. Há uma certa penumbra teórica que oculta a crise da Bildung, da eventual emergência de uma nova paideia. A escola segue um tanto a esmo, tantando encontrar respostas pragmáticas para os desafios que surgem pelo caminho. O resultado é curso inseguro e vacilante de aderências que lhe são exigidas pelo mercado e pelos modismos teóricos, pela celeridade do novo, pela superficialidade do informático.

No tempo em que as mudanças ocorriam de forma mais lenta, o homem tinha condições de olhar para o passado e ver nele enraizado o presente e as expectativas de futuro. As pessoas tinham como se orientar, sentir-se seguras em relação ao que acontecia e viria a acontecer. Hoje, ao contrário, as mudanças acontecem céleres, o passado perde sua força orientadora, deixa de oferecer amparo e perspectivas ante um futuro que ninguém sabe como será. Imerso na mudança, o homem torna-se parte dela, tomado por uma espécie de embriaguez do movimento dionisíaco que o cativa e envolve, impedindo que assuma seu próprio caminho e destino. Se antes era possível, pela mesura das transformações, valer-se do passado como ponto de partida para a interpretação do presente e previsão do futuro, agora nada está distante o suficiente para que tendências possam ser percebidas e pedagogicamente aproveitadas para além do puro movimento. Tudo passa a assumir traços de impulsos ao sabor de um utilitarismo banal, guiado pela circunstância, sem sentidos abrangentes do ponto de vista humano. Os interesses e as ideologias que evidentemente existem assumem traços de crime perfeito, como diz Baudrillard (1979), que não deixa rastos.

A Educação encontra-se entre paradoxais e contraditórias exigências. De um lado, sabe-se que ela precisa da tradição como condição educativa para o presente e para o futuro e, de outro, necessita considerar o ritmo e a celeridade das mudanças e transformações. Se no passado o próprio acontecer histórico tinha o sentido alegórico que ilustrava as grandes idéias de Homem, de Deus, da Natureza que orientavam o mundo, agora o movimento não é símbolo de nada; ele é apenas movimento, símbolo de si mesmo, sem significado exterior a ele próprio. O esvaziamento dos grandes cenários de sentidos ou significados teleológicos que governavam o mundo e o homem na sua história e que serviam de paradigma de leitura, interpretação e orientação, privou o homem de sua condição de dominador. O homem foi jogado para dentro do próprio movimento que, ao tornar-se autônomo, o consome na medida em que o integra no próprio movimento. O movimento deixa de ter um sentido de história, de orientação para um ponto futuro, ideal ou utópico, e se esgota em si mesmo.

Pelo menos é esta a perspectiva assumida pela leitura dos pós-modernos que merece atenção crítica da Filosofia da Educação pelo que evidencia a respeito das novas condições de existência no mundo industrial tardio e pelo que estas interferem no processo educativo. Não se trata de submeter o pensamento pós-moderno a um processo sumário de julgamento e condenação, mas de impor-lhe o rigor do pensamento crítico desde o viés do interesse emancipatório do homem e da sociedade. É preciso examinar com o máximo de cuidado e rigor o que significa identificar sentido, realidade e verdade1 com a totalidade social; é preciso examinar o que significa subsumir a idéia de história2 às noções de progresso e de superação; é preciso examinar o que significa assumir um pensamento identificatório que desconsidera a natureza contraditória da realidade e a vontade de mudança manifestada por indivíduos e grupos pelo mundo afora; é preciso examinar o que significa conformar-se com uma realidade que se revela perversa e injusta com a maioria dos seres humanos.



A questão do sujeito

O primeiro e mais palpável reflexo da falta de perspectiva histórica se constata no enfraquecimento do sujeito. Definha o sujeito forte que sabia o que é a realidade, que era dono dos objetos, que em seu percurso dispunha de fundamentos e perspectivas estáveis que o orientavam no sentido de um futuro melhor a conquistar. Diante da debilitação desse sujeito forte, Vattimo sugere a idéia de um sujeito fraco3, um sujeito que já não domina desde o alto de seu pedestal de identidade, mas que se sente fraco e afetado pelas mudanças e transformações que o circundam e determinam. Para Mardones (2003), essa é uma saida que aceita,

[...] o imperialismo objetivante, encarnado na tecno-ciência ocidental e a própria burocracia da administração pública do Estado moderno [...] que tem um dinamismo expansivo que não cessa de manipular e colonizar mais e mais âmbitos. Desde a política até a educação ou as relações pessoais estão impregnadas de modelos tecnocráticos, fortes de coação e orientação. (p. 25)

Para os críticos do posicionamento pós-moderno, importa não silenciar a pergunta: se para suplantar o espírito objetivante do sujeito forte for preciso enfraquecer o sujeito a ponto de abandonar o pensamento crítico, de ingressar na experiência do erro, de tornar-se vagabundo incerto de um esteticismo presentista, não estaríamos debilitando de morte o sujeito? Um sujeito, como foi dito acima, permanentemente imerso no fluxo dos acontecimentos, das sensações, sem consciência e memória, sem critérios e princípios para combater a sua desumanização, ainda poderia ser chamado de sujeito? E se abandonarmos a idéia de sujeito, por quais caminhos estaríamos enveredando em termos de seres humanos?

Mardones (2003) resume num parágrafo o núcleo dessa preocupação salientando os riscos do pensamento pós-moderno:

A esperança de alcançar uma 'estetização geral da vida' (Vattimo,1996) como alternativa ao funcionalismo predominante na sociedade e no pensamento atuais, pode transformar-se na chegada de um sujeito tão débil e fatigado para a rememoração das ambigüidades e barbáries da história, que nos abandona à invasão do que existe. (p. 26)

Efetivamente, conceitos como 'vagabundagem incerta' ou 'fruição estética' parecem pouco adequados ao fomento das relações humanas e da consciência histórica, urgentes em sociedades imersas no subdesenvolvimento, no analfabetismo, na miséria, na fome e na violência. Nessas condições, soa irônico ou mesmo cínico falar de um 'presentismo estético' quando o presente se apresenta feio, triste e mísero.

No entanto, esse aporte ao difícil cenário do terceiro mundo e dos riscos, que representa o caráter conformista e eurocêntrico das posições pós-modernas, não justifica o descarte a priori de seus argumentos críticos que destacam os descaminhos da modernidade. Nunca é demais salientar a importância da memória que não nos deixa esquecer o que não deve ser esquecido, que não nos deixa esquecer o que não pode ser repetido. E isso que não pode acontecer de novo ocorreu não no terceiro mundo, mas na Europa. Foi ali que, ao amparo do pensamento técnico-científico moderno, aconteceu a tragédia de Auschwitz, uma oclusão do pensamento iluminista. Ou não teria sido uma mera oclusão, mas um desdobramento irrefreável dos princípios fundantes do próprio iluminismo moderno?

Os frankfurtianos, particularmente Adorno e Horkheimer, defendem o ponto de vista de que as barbáries do último século não são uma decorrência dos princípios modernos, mas resultado de desvios, deturpações ou unilateralizações de tais princípios. Desvios esses que podem ser corrigidos pela razão crítica. Consciente dessa relação entre Auschwitz e os rumos do pensamento moderno, Adorno (1995) escreveu sua famosa frase: "a exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para qualquer educação" (p. 119). Ela nos leva a perguntar, trazendo a metáfora para o nosso contexto, se com o acolhimento da razão identificatória moderna, tecno-científica, performativa e autoritária, e com o fim da autonomia crítica do sujeito, capaz de resistir e de se rebelar com base em princípios diferentes daqueles que o sistema faz prevalecer, não estaríamos nos expondo inconscientemente ao risco de permitir uma nova Auschwitz que, sem repetir o que aconteceu na Europa, não lhe ficaria devendo nada em termos de tragédia pelos efeitos letais na sua nova versão em forma de miséria, de fome, de criminalidade e de exclusão social.

Para a educação que se preocupa com a formação do homem de hoje e de amanhã, que se empenha na construção de uma sociedade justa e democrática, essas questões são da mais alta relevância. Agora, no momento em que "quanto mais o processo de autoconservação é assegurado pela divisão burguesa do trabalho, tanto mais ele força a auto-alienação dos indivíduos, que têm que se formar no corpo e na alma segundo a aparelhagem técnica", se impõe a pergunta a respeito da natureza dessa educação, que necessariamente deve ser emancipadora (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 41). Como libertar "o eu integralmente capturado pela civilização", no momento em que ele "se reduz a um elemento dessa inumanidade" ou imundície (Mattéi, 2002) no momento em que

[...] os homens se reconverteram exatamente naquilo contra o que se voltara a lei evolutiva da sociedade, o princípio do eu: meros seres genéricos, iguais uns aos outros pelo isolamento na coletividade governada pela força. (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 47)

E Vattimo (1996) radicaliza ainda mais essas incertezas ao dizer que

[...] o sujeito que nos é proposto defender da desumanização técnica era, precisamente ele, a raiz dessa desumanização, já que a subjetividade que se define doravante como sujeito do objeto é pura função do mundo da objetividade, tendendo [...] irrefreavelmente, a também se tornar objeto de manipulação. (p. 35)

Se, por esse lado, podemos reconhecer méritos na crítica pós-moderna aos rumos do pensamento e do sujeito modernos com sua lógica de domínio identificador e excludente responsabilizada pelos descalabros contemporâneos, temos que, de outra parte, perguntar também se o entendimento dessa realidade, a partir de conceitos como sujeito débil, jogo de linguagem, des-construção, fragmentação, estetização e fruição da vida, destituídos de sentido crítico, não se torna igualmente perigoso pela falta de memória, acriticidade e sentido social. Temos que indagar quais os rumos de uma inteligência sem história que "não percebe a dureza da vida e nem a situação dos que nesta sociedade e neste mundo mal alcançam a categoria de seres humanos", que não nota a "carência de solidariedade com os maltratados da história e da sociedade", que não se preocupa com "o sofrimento evitável da humanidade e sem moral" (Mardones, 2003, p. 27). O fato de as feridas abertas da sociedade global como a exclusão, a fome, a doença, o analfabetismo só aparecerem marginalmente nos textos dos autores pós-modernos europeus, comprovam sua pouca preocupação com o outro real, imerso no sofrimento, na injustiça e na dor dos vencidos da história.

Para evitar imagens caricatas, é preciso entender que quando os pós-modernos falam do fim do sujeito, não se referem ao fim do sujeito em si, mas ao fim do sujeito moderno como autor, supremo juiz e fundador de sentidos. Em outros termos, o discurso pós-moderno não representa uma resposta à pergunta cética, mas é apenas uma crítica às aporias modernas, decorrentes de um conceito objetivista e autoritário de razão, de sujeito, de homem e de história. Nesse sentido, tais críticas somam-se as de Adorno e Horkheimer, que assinalam com igual insistência a coisificação do ser humano. As práticas coisificantes da sociedade moderna estão inseparavelmente relacionadas à coisificação do homem pela ciência e pela técnica. O homem coisificado é apenas um exemplar, um representante da espécie ou da instituição, o executor de uma função e não mais um sujeito. No entanto, ao contrário de Adorno e Horkheimer, cuja crítica ao sujeito moderno tem o sentido de abrir caminho para o surgimento de um sujeito menos coisificado e instrumentalizado e, ao mesmo tempo, mais autônomo e crítico com relação aos des-caminhos da própria modernidade, os pós-modernos jogam a criança com a água do banho.

Do ponto de vista da educação, cujo discurso enaltece a formação do sujeito como um de seus principais objetivos, é necessário refletir a partir do debate antes mencionado, sobre o que significa, no contexto contemporâneo, formar o sujeito humano, livre e autônomo. Como entender os conceitos de cidadania, de autonomia, de responsabilidade social que supõem sempre o sujeito como seu portador num momento em que se fala de um sujeito débil? Um dos ângulos principais deverá ser o da relação da idéia de sujeito individual com a dos sujeitos coletivos. Desde o liberalismo moderno, a liberdade é entendida como a 'liberdade de', ou seja, a liberdade da tutela do Estado, da submissão dos indivíduos à coletividade. A liberdade é a liberdade que se identifica com autonomia, isto é, com a obediência à lei que cada um impõe a si mesmo (Rousseau, 1973). A liberdade liberal dos modernos representa a libertação, que se deseja definitiva, de toda a forma de organicidade. Nesse sentido, as leituras pós-modernas não só se aproximam, mas representam a radicalização do discurso liberal. Tudo é fragmento, jogo de linguagem, des-construção, sujeitos e conceitos 'fracos', individualidades.

Talvez o pensamento pós-moderno nos ensine, na contramão de seus próprios argumentos, que há a urgente necessidade de se repensar, além da noção de sujeito em si, também a relação da noção de sujeito com conceitos identificatórios como classe, massa e povo que, com a valorização da individualidade, perderam sua força expressiva e congregadora ou até mesmo seu poder explicativo. O sujeito desintegrado da abrangência identificatória de tais conceitos não se sente mais atingido de modo que os discursos ou apelos político-revolucionários não surtem mais efeito, caem no vazio, não atingem a consciência das pessoas. E isso não ocorre ao acaso: o capitalismo fortalece ao máximo o indivíduo, insuflando-lhe auto-confiança e ilusão de autonomia e poder para que ele não se conscientize da fraqueza que o assalta quando se separa da coletividade.

O mesmo fenômeno pode-se constatar no campo do discurso pedagógico. Tal discurso, quando fundamentado em conceitos identificatórios, parece não afetar mais as pessoas. Interpretar e refletir sobre as conseqüências desse fenômeno é certamente uma das principais tarefas da Filosofia da Educação, ou seja, esta precisa colocar uma questão radical: como ainda podemos nos entender como seres falantes, como sujeitos de discursos e ações que buscam entender e transformar a realidade? No contexto de um mundo, de um sistema que, quase autônomo, se torna mais e mais imprevisível e refratário aos nossos conceitos e ao nosso agir como sujeitos, poderíamos dizer que o sentido da filosofia da educação consiste na tentativa de explicar o que ainda é ou voltou a ser indizível. Quando a realidade ultrapassa a capacidade de expressá-la ou de apreendê-la é porque o aparato conceitual envelheceu e é a hora e o momento da filosofia e do esclarecimento.

Por isso, é importante que o esclarecimento não se restrinja ao âmbito da filosofia, mas se torne uma consciência e um debate do qual todos participem. Criar as condições para isso é uma tarefa econômica, política e educativa. "O esclarecimento", diz Scalfari (2001), "antes de ser uma filosofia, é uma prática de vida e um compromisso ético do qual nenhum homem que tem em conta a dignidade do ser humano pode sentir-se exonerado" (p. 101). Por isso, o esclarecimento não deve ser considerado como uma teoria, mas uma prática e uma ação comum aos seres humanos, devendo, pela mesma razão, estar intimamente ligado a um projeto educativo.

E a tarefa não parece fácil uma vez que a desconfiança crítica com relação à modernidade não se limita apenas aos conceitos de ciência e de progresso, mas estremece também a crença em valores e instituições tradicionais como a função da família, do gênero, dos sindicatos e mesmo das classes. Com o enfraquecimento da família, do papel do gênero, do sindicato e da classe, o indivíduo fica isolado, sozinho e enfraquecido. A solidariedade e o sentimento de pertencimento ao grupo se esvanecem sob o efeito da individualização e atomização, provocados pela sociedade industrial. E pior: apesar das aparências de reversão desse cenário no contexto da globalização e das novas formas de comunicação, o quadro de anomia e estranhamento de si mesmo não parece alterar-se na sociedade pós-industrial. O ser humano perde a sua identidade pessoal e, por isso, põe-se à procura reflexiva de sua identidade. Esse é o momento em que nos encontramos e que precisa ser aproveitado.

Infelizmente, essa busca é muitas vezes banalizada como egoísmo e narcisismo. Na verdade, é preciso entender o sentido dialético mais profundo dos gestos egóicos e narcisistas e reconhecer neles a nostalgia do indivíduo de sua própria identidade como sujeito, seja como pessoa seja como coletividade. É preciso que a reflexão filosófica leve essas tendências a sério e considere suas conseqüências para o campo da Educação. Se a modernidade não pode cumprir as promessas de progresso, justiça, igualdade e democracia, nada mais correto que pensar formas de retomar, nas atuais condições históricas, tais objetivos que continuam sendo dignos e justos.



A questão dos valores

Para J. F. Lyotard, estamos vivendo em meio a uma pluralidade de regras, de expectativas e de comportamentos que expressam os diferentes contextos vitais que nos cercam e não temos condições de encontrar denominadores comuns que tenham validade para além dos limites do contexto (jogos) do aqui e do agora. Vivemos imersos num pluralismo heteromorfo, de sorte que as regras não podem ser senão heterogêneas também. A busca de valores transcendentes ou mesmo de consensos, radicaliza Lyotard, transformou-se num desiderato obsoleto e suspeito porque por detrás dos princípios universais se esconde sempre o terror dos dominadores e a tendência ao totalitarismo. Consensos só são possíveis nos limites do local e na medida em que forem flexíveis e passiveis de revisão (Lyotard, 1985).

Esse diagnóstico de Lyotard nos leva a perguntar se, dado o caso, nos encontraríamos diante de um avanço ou de um grande retrocesso. Se não dispusermos mais de nenhum critério universal de verdade, de justiça, de preferibilidade racional ou de discernimento ético, como poderemos escapar da arbitrariedade do poder, da violência do mais ousado e selvagem utilitarismo? Os pequenos contextos e localismos, ao invés de apontarem para uma maior liberdade, não estariam representando uma tirania mais severa do que aquela que pretendem evitar? Se por detrás dos velhos universalismos epistemológicos e éticos se escondia o terror dos dominadores e do totalitarismo, não estaríamos, agora, às voltas com uma nova forma de domínio e de terror do imediato, do fragmento, do ativismo, do individualismo, da performance?

Essas questões, aqui formuladas de forma direta e simples, permeiam todo o debate entre modernos e pós-modernos. Independente do lado em que estejamos, parece inegável que o mundo contemporâneo vive, efetivamente, uma forte crise de fundamentos e de referências universais capazes de orientar o pensamento e a ação.

O iluminismo é a confiança na razão. Geralmente se identifica o pós-modernismo como a negação dessa crença. Na verdade, o anti-iluminismo contemporâneo não equivale a uma desconfiança da razão teórica e científica (expressão máxima do iluminismo), mas a um ceticismo em relação aos confrontos e às contradições entre a razão teórica e a razão prática. Isso fica bastante evidente tanto na Dialética do esclarecimento de Adorno e Horkheimer quanto na Condição pós-moderna de Lyotard, para ficar apenas nesses dois exemplos. Para muitos pós-modernos, somente é possível haver uma moral comum entre os membros de um mesmo grupo (étnico, político, religioso ou mesmo criminoso). Em conseqüência, não pode haver uma moral comum numa sociedade aberta que, por definição, é povoada por membros de diferentes grupos. Nesse sentido, crêem que já não se possa fazer uso público da razão com vista a fins práticos, ou seja, éticos. Se a razão moderna desencantou (Weber, 1997) o mundo dos valores transcendentais e religiosos, buscando ela mesma impor-se como novo fundamento de tudo, hoje ela precisa reconhecer seus limites que não extrapolam o espaço do conhecimento científico e da produção.

Esse pensamento pós-moderno representa o rompimento de todos os compromissos de natureza axiológica e talvez resida nisso a razão de seu sucesso num momento histórico em que o homem busca a satisfação e o prazer individuais, desvinculando-se do grupo, da comunidade e da sociedade. Os iluministas, ao contrário, confiavam e confiam no uso público e prático da razão. É nesse sentido que, ao abrigo das teses de Kant (1974), Habermas (1989) e Rawls (2005) falam de uma ética pública como a possibilidade de encontrar respostas filosóficas no interior e com os recursos da tradição iluminista para as questões práticas de cada época.

Com esse ponto de vista, concorda até Vattimo que, ao criticar o apelo à natureza, à verdade e às leis eternas das coisas defendidas pelos iluministas, diz que "se desejo viver num mundo que garanta a minha liberdade devo necessariamente expor-me ao risco de viver numa sociedade democrática, na qual as leis são feitas através do consenso argumentado entre todos. Posso somente reduzir o risco de deixar triunfar os loucos contribuindo para o desenvolvimento da cultura coletiva, com investimentos na escola, participando ativamente da escola pública e também evitando politicamente que alguém possa impor a todos as próprias idéias sem debate". Mas Vattimo (2001) acrescenta que "valores co-divisos com base em argumentações histórico-culturais, ética da responsabilidade e política não têm necessidade de fundamentos absolutos" (p. 39). Dessa forma, o autor italiano parecer abrir espaço para uma fundamentação racional e, portanto, ainda moderna de valores. Ao mesmo tempo em que aceita o pluralismo de valores e dispensa o recurso às verdades absolutas, confia na competência da razão prática para encontrar princípios éticos suficientemente consistentes e legítimos para orientar as ações e merecer o reconhecimento de todos.

Na tradição do humanismo iluminista, o sentido comum de humanidade e solidariedade nasce da com-ciência da pertença comum ao gênero humano, da identificação de cada ser humano com o núcleo da humanidade comum a todos, da participação da natureza ou essência do ser humano. Era, portanto, em torno dos princípios universais que se congregavam e se sentiam humanos os humanos. Hoje, ao contrário, vivemos um momento em que os valores da solidariedade, do sentimento e da co-pertença nascem de uma mediação muito mais direta. Não nos sentimos humanos pela identificação com princípios universais e abstratos, mas porque compreendemos o outro como um de nós. No iluminismo, o dever da solidariedade nasce da adesão a um princípio universal, à lei moral como um fato da razão prática. A obediência ao princípio do dever, da lei moral, não negocia nem conhece compromissos.

No entanto, alguma coisa não funcionou bem no projeto iluminista. Como já foi mencionado em outros momentos deste texto, pode-se constatar que há pouca luz no mundo contemporâneo. Depois de ter tomado o caminho em direção à terra iluminada, muita coisa ficou no escuro: na terra da razão iluminada, brilha um sol de desventura e barbárie. É lapidar a constatação de Adorno e Horkheimer (1985) de que "a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal" (p. 19). Diante dos descaminhos identificatórios e autoritários do iluminismo, a única alternativa é aceitar a diferença e os conflitos como humanos e dignos de respeito. Entretanto, não basta aceitar o pluralismo de valores, pois eles conflitam entre si e se conflitam, é preciso escolher. E a escolha não deve transformar-se num massacre, mas no diálogo, no debate e no respeito.

Ao rigorismo kantiano que representa o paradigma de uma ética universalista de princípios, opõe-se a ética da responsabilidade que atenta não para a coerência entre nossos atos e princípios universais, mas para a coerência de nossas ações em termos de suas conseqüências. Essa tendência desembocou, segundo Zima (2001), numa era da indiferença dos indivíduos, das relações, dos valores e das ideologias intercambiáveis. Uma era em que "valores morais, estéticos, políticos e até ideologias inteiras (como o fascismo e o comunismo) aparecem como intercambiáveis", tornando-se "radicalmente questionável sua pretensão de validade universal e sua capacidade de generalização". Nesse contexto, "não há mais conjuntos de valores cristãos, liberais, socialistas ou nacionais que sejam inquestionáveis e passíveis de consenso" (p. 44). Se a realidade efetivamente confirma esse prognóstico, é preciso lembrar novamente que as diferentes formas de viver tal liberdade geram tensões: as diferenças culturais, éticas e religiosas, que decorrem da maneira como o homem declina a sua liberdade, geram conflitos difíceis de serem administrados especialmente no mundo globalizado. Posto que já não dispomos do recurso aos valores transcendentais e o relativismo inviabiliza a convivência civilizada entre os homens, é necessário buscar novos caminhos.

Habermas discorda da leitura dos pós-modernos e recorre aos supostos kantianos para desenvolver uma ética do discurso que busca superar o relativismo ético fundando a legitimidade em consensos discursivamente alcançados. Faz uma leitura de Kant segundo a qual se exige do iluminista que busque a verdade, não que a encontre. Quando Kant fala do uso público da razão, ele não estaria pressupondo que tal uso deva levar a um único e previsto resultado. O 'sapere aude' não estaria propondo uma certeza, mas um programa de busca e reflexão sobre nossa realidade, observando os sentidos aparentes e escondidos do que é humanidade ou, talvez, do que queremos que ela seja, a fim de pensar coisas novas e melhores para o homem.

Com sua teoria, Habermas (2004) busca encontrar uma saída para os impasses éticos que se tornam bem aparentes nas perguntas assim formuladas por Volpi:

[...] dispomos hoje de uma antropologia partilhada à altura dos problemas colocados pela atual sociedade cultural de massa? Uma humanidade para cultivar como terreno comum às muitas culturas no momento em que aquela do humanismo tradicional perde cada vez mais o reconhecimento e a força de persuasão? E para que idéias convém educar as novas gerações de modo que a nossa frágil identidade tenha sucesso? [...] A razão e os valores universais dos quais essa era portadora, com o seu eurocentrismo, representam, ainda, uma visão de mundo e uma base sólida para perfazer o caminho? (p. 87)

Parece que o discurso de natureza universalizante está perdendo legitimidade em decorrência de seu déficit de contextualidade, ou seja, é um discurso que não oferece respostas à diversidade e à polissemia que, bem ou mal, marcam o mundo contemporâneo. Do alto de seu pedestal autoritário, não atende às especificidades e contextualidades que regem as expectativas do homem atual, razão pela qual sofre uma recusa baseada no pluralismo e no particularismo. O posicionamento plural, em contrapartida, não considera que facilmente pode transformar-se em indiferença que julga igualmente legítimas quaisquer constelações de valores. O tão difundido discurso da tolerância, na verdade, assume traços de indiferença. Assim, a chamada sociedade pós-moderna pode ser representada como o movimento que oscila entre a tolerância e a indiferença. A liberação dos mecanismos do mercado e do consumo certamente contribui para a disseminação da indiferença. A grande pergunta que precisa ser respondida diz respeito aos possíveis caminhos que poderiam conduzir a uma superação da indiferença que aos poucos contamina todos os âmbitos da vida.

A marcha aparentemente irreversível da globalização representa o brutal processo ante o qual a singularidade individual, grupal ou cultural necessita afirmar-se. De outra parte, a existência humana nunca é uma existência isolada; ao contrário, é uma existência que só se constitui em comunicação com a existência dos outros. No contexto do mundo real, o homem só pode desenvolver-se na união com os outros homens e essa convivência só pode ser pacífica e democrática, baseada em normas e valores respeitados por todos.

Lembrando novamente Baudrillard (1999),

[...] os próprios valores se degradam terminando por se confundirem no seio de um universo fractal, aleatório e estatístico, na indiferença e na equivalência, segundo uma aceleração perpétua semelhante ao movimento browniano das moléculas. (p. 11)

E as tentativas de reabilitação dos valores frustram-se uma a uma por não sabermos recriar a eletricidade de sua contradição. Assim acontece com os valores individuais: "nós os reabilitamos, não em sua tensão dialética com o social, mas sim no mesmo nível que o social" (Baudrillard, 1999, p. 10). Essas palavras do filósofo francês nos alertam para o aspecto fundamental da indiferença. Tudo se decide não com base em princípios e valores dialogicamente consensuados, mas com base no princípio da troca que desconhece o princípio da contradição que é, exatamente, o seu princípio vivificante. Os valores não devem derivar da realidade como seu espelhamento indiferente, mas constituir-se em contradição com ela, alimentar-se e adquirir sentido no movimento de tensão com a realidade ou com atos que não correspondem à felicidade do ser humano.

Mesmo admitindo que o grande confronto entre o particular e o universal esteja sendo decido a favor do particular, que "o espelho do universal está quebrado", que "a democracia, os direitos humanos, circulam como qualquer outro produto global, tal como o petróleo ou os capitais", Baudrillard (1999) mantém a esperança e reconhece que

[...] talvez esteja aí uma possibilidade, já que nos fragmentos desse espelho quebrado ressurgem todas as singularidades, ou seja, aquelas que acreditávamos ameaçadas sobrevivem, as que acreditávamos desaparecidas ressuscitam. (p. 23)

E não poderia ser diferente, pois, como nos ensina a história, todas as teorias que apressadamente declaram definitivas certas situações ou certos períodos se revelaram falsas, porquanto fracassaram sob a pressão irreversível da dinâmica da história material e espiritual da humanidade. Ainda existem movimentos originais de desafio e de resistência sociais e políticos à globalização, à identificação de tudo sob o signo da integração no indiferente. Essa esperança não alivia a preocupação com os rumos da história contemporânea que, após a frustrada revolta de 1968 e a derrocada da União Soviética na década de 1990, relegou o político e a ideologia política a um papel cada vez menos relevante, mas pelo menos nos permite não perder as esperanças no futuro.

No entanto, como reflorestar os espaços desertificados de valores e princípios depois de todas as críticas de Nietzsche, Heidegger, Foucault, Bataille, Derrida, Vattimo, dentre tantos outros? O que fazer depois da 'morte de Deus' e da desvalorização dos valores supremos? No campo da filosofia, dentre os muitos e importantes autores como Vasquez, Rawls, Jonas, Macintyre, Tugendhadt, Comparato, que se dedicam a essa tarefa, merece particular atenção a já lembrada teoria de Habermas que, apoiando-se em Apel, desenvolve uma ética do discurso universalista e dialógica, tentando encontrar fundamentos para um novo universalismo, sem necessidade de recursos transcendentais. Habermas (juntamente com Apel) pressupõe a existência de uma competência comunicativa entre os diferentes jogos de linguagem que se aprende ao se aprender a própria linguagem. Ou seja, Habermas e Apel vêem a possibilidade de comunicação entre os diferentes jogos de linguagem e não sua separação absoluta. Isso não quer dizer uniformismo ou submissão à tirania dos metarrelatos, mas apenas uma abertura comunicativa, o diálogo, a conversa permanente. Segundo a teoria de Habermas, não basta mais apelar para fundamentos transcendentais a partir e em nome dos quais se possa decidir sobre questões éticas, políticas ou de convivência. As normas ou os fundamentos da convivência precisam ser permanentemente justificados ou validados por meio do diálogo, com base em argumentos. A partir daí, pode-se prosseguir dizendo que a norma social tem um único fundamento que é a estrutura da argumentação: o convencimento mútuo, mediante o processo argumentativo entre os membros da sociedade, de que certa norma é a mais adequada para todos. Há, portanto, a possibilidade de universalizar uma norma, na medida em que, por argumentos, ela é considerada a mais adequada para todos. A norma universal será aquela que todos, em comum acordo, concordam em aceitar como norma universal.

Pouco antes de sua morte, Jacques Derrida disse que as expressões 'vou educá-lo' e 'vou amestrá-lo' tornaram-se hoje basicamente equivalentes. Para amestrar, não é necessário muita reflexão, já que os objetivos estão postos e estes não 'podem' ser tematizados quanto aos seus fundamentos4. É preciso apenas conhecer a realidade, respeitar suas urgências e exigências, e preparar os indivíduos para enfrentá-las da forma mais competente possível. Para tanto, além de conhecer bem as expectativas do real, é necessário apenas dominar os conteúdos ou as habilidades e aplicar os métodos e as técnicas adequados para transferi-los aos educandos. A partir desse binômio – conhecimento e metodologia –, é possível realizar uma educação eficiente e desenvolver nos educandos as competências necessárias para sua inserção no sistema (mercado) e assim fazer jus às compensações oferecidas àqueles que atendem às suas exigências.

Essa parece ser a tendência dominante nos diferentes âmbitos da atividade educativa hoje. Os fundamentos dessa atividade não entram em tela de juízo por parte dos atores educacionais a não ser em duas dimensões. A primeira, de caráter social, de orientação marxista ou socialista, preocupada com um projeto de transformação social, com a democracia, justiça e direitos humanos. Essa tendência revela-se teoricamente consistente e ativa, mas na prática pouco influente fora do ambiente acadêmico. A segunda, religiosa, conservadora e individualista, preocupa-se sim com o sentido do homem, da vida e do destino, mas desde uma perspectiva teológico-metafísica. Busca preservar os valores tradicionais ligados à família, aos preceitos divinos e às doutrinas das diferentes Igrejas. Ao contrário da primeira, essa última é teoricamente discreta, mas exerce grande influência, velada e difusa, sobre a prática educativa, tanto formal quanto informal.

Além dessas duas dimensões, teoricamente mais elaboradas, a tendência dominante que marca a educação contemporânea é o ativismo cego, não reflexivo, orientado para o atendimento às exigências do mercado. Esse ativismo, que representa a soma de burocracia, urgência e performatividade, ocupa, quase por inteiro, o espaço, o tempo e os sentidos do educar, visando sempre adaptar e integrar os educandos no sistema. Trata-se de um agir educativo que se orienta pragmaticamente nas exigências do sistema econômico e do mercado, sem qualquer compromisso com referências ou valores transcendentes.

À semelhançca do que constatamos no âmbito dos conceitos de filosofia da história e do sujeito, também no campo da moral vivemos um momento profundamente ambivalente. Até que ponto – esta é a pergunta que se impõe – a educação ética ainda promete algum resultado se buscar convencer os educandos a pautarem seu comportamento em princípios universais num contexto cultural em que tais princípios já perderam sua legitimidade e não representam critério de julgamento moral dos atos das pessoas? Os jovens já se tornam indiferentes aos valores universais e se envolvem na fundação de uma cultura fortemente particularista. Ora, é preciso não perder de vista que essa tendência, à primeira vista sugestiva e progressista porque promete superar o tradicional autoritarismo dos valores absolutos, também implica sérios riscos que não podem ser esquecidos. Se aceitarmos os argumentos daqueles que acreditam ser impossível ou inócuo discutir a respeito da universalização e generalização de valores, devemos admitir também que não temos como argumentar contra interesses privados que, alçados a valores pela força ou pela influência da mídia, tentam se impor a todos. O que está em jogo é o confronto entre um discurso prescritivo e monológico de uma normatividade impositiva tradicional e o discurso da diversidade, da policemia e da pluralidade éticas.



Conclusão

O fim da filosofia da história, o enfraquecimento do sujeito e da deslegitimação dos valores são três teses que perpassam o assim chamado pensamento pós-moderno. São três aspectos que, se confirmados, apontam para novos rumos do pensamento moderno, com importantes inferências sobre a teoria e a prática educacionais. Na verdade, trata-se de uma eventual desestabilização dos fundamentos da educação moderna que exige a atenção rigorosa e crítica por parte da Filosofia da Educação. Quem, para que e em nome de quem se educa são as questões subjacentes a essas temáticas e não é preciso insistir na sua relevância para a práxis educativa.

Nos limites do texto, só foi possivel tangenciar algumas das inúmeras questões, mas que mesmo assim nos permitem algumas conclusões. Primeiro, é importante realizar um debate sobre as principais teses levantadas pelos pós-modernos e examiná-las à luz da realidade, averiguando o grau de sua validade. O que parece necessário, desde já, é, portanto, superar uma certa atitude maniqueista, bastante disseminada na educação do 'a favor ou contra' e passar ao exame cuidadoso e crítico dos pontos de vista defendidos por tantos pensadores pós-modernos. Segundo, que é urgente alertar para os riscos do ativismo performático dominante que tem como mandamento máximo o ajuste das teorias e práticas às demandas do mercado, sem considerar o que tal opção representa para o indivíduo e para a sociedade a médio e longo prazos. Por último, que é necessário construir uma nova base dialógica como estratégia de validação de princípios educacionais.

Pode-se dizer que a teoria educacional ou a Filosfia da Educação ostenta um déficit reflexivo no que diz respeito ao enfrentamento das grandes questões que emergem do debate entre modernos e pós-modernos. A maior dificuldade parece consistir na falta de coragem ou de vontade de abandonar as posições dualistas e maniqueístas cujos radicalismos e dogmatismos inibem, de parte a parte, o diálogo fecundo e fecundador de práticas transformadoras. Talvez seja mais produtivo começar a falar de pontos de vista ou, como disse acima, de problemáticas modernas ou pós-modernas postas em relação dialético-dialógica do que seguir no confronto entre posições fechadas que se excluem a priori. Poderíamos dizer que vivemos hoje uma nova problemática que exige novas respostas, adequadas às novas circunstâncias. São essas novas circunstâncias que nolens volens fazem emergir a pergunta se as antigas soluções ainda dão conta da nova realidade ou não.

A Filosofia da Educação, como fizeram todos os grandes filósofos e sociólogos das últimas décadas, deve voltar-se reflexivamente sobre os pressupostos e as conseqüências da modernidade. Isso implica em refletir sobre o significado da absolutização da razão instrumental, do universalismo, do domínio técnico-econômico da natureza, da mercantilização e objetalização do sujeito, da desconstrução dos valores. A Filosofia da Educação, e por conseqüência a própria educação, deve dar-se conta de que não é mais justificado ficar dogmaticamente preso a supostos que há muito tempo vêm sendo submetidos a uma reflexão crítica tanto por filósofos e sociólogos quanto também pelos próprios cientistas.

Se tomarmos os quatro elementos essenciais da modernidade – a liberdade individual, a construção ativa do mundo, a racionalidade e a solidariedade –, restam-nos chances de encontrar saídas menos pessimistas que a de Max Weber com relação à racionalização. No entanto, para que isso ocorra, é preciso colocar efetivamente mãos à obra, mesmo no contexto adverso de desemprego, criminalidade, corrupção e decadência política. Weber pensou a teoria da racionalização e burocratização do mundo até suas últimas conseqüências e chegou a conclusões pessimistas a respeito das possibilidades de uma futura liberdade individual e social. Até hoje, suas previsões parecem confirmar-se, mas registram-se também contramovimentos que, embora ainda tímidos e sem caráter revolucionário, permitem manter acesas as esperanças num futuro melhor. A Filosofia da Educação também pode e deve ter sua parte de responsabilidade nisso, fazendo aflorar as ambivalências e contradições que subjazem às leituras que vêm sendo feitas da contemporaneidade, sinalizando suas características e visualizando suas implicações para, mediante o diálogo, avançar orientações para a praxis educativa.

Referências bibliográficas
Revista Educação e Pesquisa - USP

A busca do sentido da formação humana: tarefa da Filosofia da Educação


A busca do sentido da formação humana: tarefa da Filosofia da Educação

Antônio Joaquim Severino
Antônio Joaquim Severino é doutor em Filosofia; livre-docente em Filosofia da Educação. Professor titular de Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. ajsev@uol.com.br

Na cultura ocidental, a educação foi sempre vista como processo de formação humana. Essa formação significa a própria humanização do homem, que sempre foi concebido como um ente que não nasce pronto, que tem necessidade de cuidar de si mesmo como que buscando um estágio de maior humanidade, uma condição de maior perfeição em seu modo de ser humano. Portanto, a formação é processo do devir humano como devir humanizador, mediante o qual o indivíduo natural devém um ser cultural, uma pessoa – é bom lembrar que o sentido dessa categoria envolve um complexo conjunto de dimensões que o verbo formar tenta expressar: constituir, compor, ordenar, fundar, criar, instruir-se, colocar-se ao lado de, desenvolver-se, dar-se um ser. É relevante observar que seu sentido mais rico é aquele do verbo reflexivo, como que indicando que é uma ação cujo agente só pode ser o próprio sujeito. Nessa linha, afasta-se de alguns de seus cognatos, por incompletude, como informar, reformar e repudia outros por total incompatibilidade, como conformar, deformar. Converge apenas com transformar... A idéia de formação é pois aquela do alcance de um modo de ser, mediante um devir, modo de ser que se caracterizaria por uma qualidade existencial marcada por um máximo possível de emancipação, pela condição de sujeito autônomo. Uma situação de plena humanidade. A educação não é apenas um processo institucional e instrucional, seu lado visível, mas fundamentalmente um investimento formativo do humano, seja na particularidade da relação pedagógica pessoal, seja no âmbito da relação social coletiva. Por isso, a interação docente é considerada mediação universal e insubstituível dessa formação, tendo-se em vista a condição da educabilidade do homem.

Trata-se, sem dúvida, de um objetivo que soa utópico e de difícil consecução à vista da dura realidade histórica de nossa existência. No entanto, foi sempre um horizonte constantemente almejado e buscado. E ainda o continua sendo mesmo diante das condições atuais da civilização, por mais que estejam marcadas pelo poder de degradação no mundo técnico e produtivo do trabalho: de opressão na esfera da vida social; e de alienação no universo cultural. Essas condições manifestam-se, em que pesem as alegações em contrário de variados discursos, como profundamente adversas à formação, o que tem levado a um crescente descrédito quanto ao papel e à relevância da Educação, como processo intencional e sistemático. No entanto, essa situação degradada do momento histórico-social que atravessamos só faz aguçar o desafio da formação humana, necessária pelas carências ônticas e pela contingência ontológica dos homens, mas possível pela educabilidade humana. Quando se fala, pois, em educação para além de qualquer processo de qualificação técnica, o que está em pauta é uma autêntica Bildung, uma paidéia, formação de uma personalidade integral.

O objetivo deste ensaio é desenvolver uma reflexão sobre como a educação, na qualidade de processo de formação humana, foi concebida, buscando ver quais os sentidos que essa formação recebeu ao longo de nossa tradição filosófica, uma vez que ocorreram mudanças nas concepções que os homens fizeram do ideal de sua humanização. Sob tal perspectiva, recoloco em discussão as relações entre as diversas dimensões da educabilidade humana, destacando as dimensões ética e política que, até o atual momento, prevaleceram como fundamentos da compreensão da própria natureza da educação. Ao refletir assim sobre a natureza da educação, busco igualmente explicitar o lugar e o papel da Filosofia da Educação como esforço hermenêutico de desvelamento da prática educacional, tal como ela precisa se desenrolar nas mudadas condições histórico-culturais da atualidade. Essa discussão permite assim não apenas interpelar momentos significativos da expressão histórica da filosofia na cultura ocidental, mas também retomar conteúdos teóricos fundamentais do debate filosófico atual sobre o sentido da educação.

O propósito é o de trazer à tona a questão da natureza da educação em relação à formação ética e à formação política, campos da prática humana que sempre foram associados à educação pela reflexão filosófica. E a hipótese que me proponho defender é a de que a educação vem sendo pensada hoje como formação cultural, perspectiva que realiza uma síntese superadora das perspectivas anteriores que a conceberam como formação ética, num primeiro momento, e como formação política num segundo momento. A elaboração desse novo modo de se conceituar a educação, na minha leitura, ocorreu tanto como processo histórico-cultural e como processo de construção lógico-conceitual.

Com efeito, constata-se – no âmbito da história da filosofia, no contexto do desenvolvimento da cultura ocidental que, num primeiro momento histórico-teórico, identificável com os períodos da Antiguidade grega e da Medievalidade latina – que a ética prevaleceu como matriz paradigmática da formação humana, ou seja, o ideal humano era o aprimoramento ético-pessoal e esta era a finalidade essencial da educação. Já num segundo momento, historicamente situado na Era Moderna, esse ideal se delineava como uma adequada inserção da pessoa na sociedade. A política era a grande matriz. E agora, no momento histórico recente da contemporaneidade, a reflexão filosófica passa por uma inflexão nesse modo de se conceber a própria idéia da formação humana e, conseqüentemente, também se transforma o modo de se ver a educação. Mesmo sem a nitidez das perspectivas anteriores, o que parece estar se delineando é uma dimensão do formar que afirma, nega e supera as perspectivas éticas e políticas da educação, tais quais delineadas ao longo da nossa tradição filosófica ocidental. Sem perder as imprescindíveis referências éticas e políticas, mais que se afirmar como processo de formação de um sujeito ético ou de um sujeito cidadão, o que está em pauta é a própria construção do sujeito humano no tempo histórico e no espaço social, como sujeito integralmente ético e político, pessoa-habitante de um universo coletivo. Para o olhar da contemporânea Filosofia da Educação, o homem, ser em devir, ser inacabado e lacunar, não tem um ideal a ser buscado ou a ser realizado, mas encontra-se condenado a construir para si uma configuração própria não prevista nem previsível, como se tivesse que dar a si mesmo uma destinação. E assim tanto a ética como a política perdem suas, até então, exacerbadas autonomia e preponderância como referências básicas isoladas para a prática educacional. Agora, nessa prática, o homem não se desenha mais como um ser pessoal, desempenhando um modelo de ação, nem como puro ser social, membro devidamente adequado à sociedade, tal parece ser o significado que vem tomando hoje, no quadro da filosofia contemporânea, o próprio conceito de formação, perspectiva articulada particularmente pela Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, marco referencial da emergência do modo atual de filosofar. Sem dúvida, ao longo dos três milênios da expressão cultural da filosofia no Ocidente, ética e política sempre apareceram como referentes da educação. Já a Antiguidade expressava explicitamente essa relação tanto quanto a Modernidade nunca descartara a referência à ética. Também hoje continua recorrente a presença dessas perspectivas nos discursos educacionais. No entanto, nesses três momentos, sua força significadora assume conotações específicas diferenciadoras em função do papel que assumem nessa relação.

Em que pese a forte inspiração da matriz frankfurtiana dessa reflexão, meu ângulo de abordagem centra a atenção no significado da educação, tal qual eu o vejo no processo de constituição teórica no âmbito da atual tendência da Filosofia da Educação. É para destacar esse momento de instauração que vi a necessidade de me reportar a momentos articuladores da trajetória histórica de grandes expressões filosófico-antropológicas da Filosofia da Educação no contexto da cultura ocidental. Essa retomada apresenta-se-me não apenas como uma circunstância contextuante, mas como uma exigência propriamente filosófica, por entender que também o pensamento se constitui historicamente, não sendo possível compreender suas manifestações atuais sem acompanhar sua gênese e formação. No entanto, o objetivo do presente trabalho é refletir sobre o sentido em si da educação, frente a suas modificadas relações com a ética e a política, tais como essas dimensões foram vistas até hoje.

Nunca é demais lembrar que a Filosofia da Educação não é uma revisita à história da Filosofia. O seu objeto de preocupação e estudo são as condições reais da educação, tais como se desenham a cada momento histórico, e o recurso às referências históricas só se justifica quando se precisa estabelecer algumas balizas contextuais ou quando se trata de evidenciar a historicidade das manifestações lógico-conceituais do pensamento humano. Trata-se, pois, de uma reflexão analítica e crítica sobre a problemática da educação, com o propósito de tentar decifrar o seu sentido possível. Entretanto, por outro lado, é também oportuno lembrar que, embora precise considerar os conhecimentos produzidos pelas Ciências da Educação e pelas Ciências Humanas, a perspectiva filosófica é diferente dessas ciências, dada sua intenção de buscar fundamentos, entendidos estes como nexos conceituais explicativos. Isso justifica a démarche filosófica como exercício mais autônomo da subjetividade em relação a procedimentos metodológicos e técnicos e a abordagens empíricas dos fenômenos, objetos das ciências. A questão fundamental que cabe à Filosofia da Educação responder é aquela do sentido e da finalidade da educação. Em assim sendo, sua perspectiva é diferente daquela da Sociologia da Educação, da Psicologia da Educação, da História da Educação, da Economia da Educação etc., encarregadas de estudar os fatos educativos sob os diversos aspectos de suas manifestações concretas.

A educação sob o signo da ética

O testemunho da história da filosofia autoriza a afirmar que a educação foi primeiramente pensada como formação ética. De fato, o discurso filosófico da Antiguidade e da Medievalidade sempre concebeu a educação como proposta de transformação aprimoradora do sujeito humano. De imediato, essa proposta se radica na pressuposta universalidade da natureza humana e a educação é vista como formação ética.

Ainda que etimologicamente ética e moral retirem seu sentido de costume (ethos, em grego, e mos, em latim) e este, por sua vez, do habitat, da moradia habitual, estrutura modal dos seres vivos de habitar o mundo, o conceito quer designar, no categorial filosófico, uma qualidade do sujeito humano como ser sensível aos valores, com um agir cuja configuração se deixe marcar por esses valores a que sua consciência subjetiva está sempre se referindo. Sensibilidade axiológica que, do ponto de vista de sua experiência pelo sujeito, é análoga à sensibilidade epistêmica da razão. Característica específica dos seres humanos, ela precisa ser cultivada e sustentada, pois, tanto quanto o conhecimento, essa experiência não é fruto da ação exclusiva das forças vitais e instintivas do ser vivo. Daí o papel primordial que é atribuído à educação: empreendimento ético-formativo, processo de autoconstituição do sujeito como pessoa ética. É a paidéia proposta no quadro da cultura clássica grega e latina.

No entanto, desse processo de constituição do sujeito ético, não estão ausentes, na filosofia antiga e medieval, as alusões às dimensões social, política, comunitária da existência histórica dos seres humanos. Basta citar como exemplos as clássicas obras A república, de Platão, e a Política, de Aristóteles. No entanto, todas as referências ao político, que são feitas nessas e em outras obras, direcionam-se à ação dos indivíduos. A política fica como que condicionada à ética, ou seja, à qualidade e à intensidade do aprimoramento da postura e das ações morais das pessoas individuais. A boa qualidade da pólis está na dependência direta da qualidade da vida individual dos seus habitantes. Platão, ao construir seu modelo da cidade ideal, desenvolve uma proposta filosófica de uma pedagogia ético-política, na qual o conhecimento e a prática da virtude vão garantir a viabilidade e a legitimidade do Estado. Para Platão, a educação, se praticada pela razão procedendo dialeticamente, torna-se o fundamento e a sustentação da justiça. Entretanto, a justiça nada mais é do que a dimensão social da virtude, o princípio da ética social que sustenta a vida digna da comunidade. A sociedade justa se sustenta nos princípios da ética.

Primeiro a estabelecer uma Filosofia da Educação na cultura ocidental, de acordo com parecer de Moreau (1978), Platão via a educação como a necessária formação do espírito. Ao ensino, cabia o conhecimento em geral, mas a educação visava uma boa conduta de vida, a virtude. A grande questão era como formar os homens de bem e levá-los ao conhecimento do bem assim como à sua prática. Em pauta, pois, como lembra no Banquete, "... a transcendência soberana do espírito" (Platão, 1979, 205-212).

Também a idéia aristotélica de política está intrinsecamente vinculada a um fundamento ético. É bem verdade que, muito mais que Platão, Aristóteles valoriza a realidade empírica do Estado e a condição social do indivíduo. Sua célebre fórmula de que "o homem é, por natureza, um animal político" (Política, I, 1. 1253a 3; III, 6, 1278b 19; Ética a Nicômaco, I. 7, 1097b 11) sintetiza bem seu pensamento a respeito. Quis dizer com isso que o indivíduo não basta a si mesmo. No entanto, Aristóteles também é incisivo em afirmar que a finalidade da pólis não é apenas biológica, mas sobretudo moral (Política, III 9, 1280 b 13-17). A cidade é antes o ambiente em que pode ser realizada, graças à independência que ela assegura, o ideal de uma vida perfeita, o lugar onde o homem pode atingir a felicidade pelo exercício da virtude, no respeito da justiça (Política, III, 9, 1289 b 30). Afinal, o fim do Estado não é propriamente nem a defesa comum nem a organização das trocas, mas o reino da justiça (Política, I, 2, 1253 a 37-38). No entanto, apesar desse avanço, Aristóteles continua entendendo que a formação ética do indivíduo é o único caminho para a virtude, para cujo desenvolvimento as estruturas político-administrativas devem fornecer as condições objetivas e a educação, as subjetivas.

A relação íntima da educação com a formação ética, de acordo com o essencialismo típico da filosofia grega, consolida-se com a teoria do ato e da potência, pois a educação não será nada mais do que um processo de atualização das potencialidades do ser humano, uma vez que a infância é a idade adulta em potência. As posições aristotélicas são ainda mais reforçadas nessa direção com sua apropriação pela teologia cristã, graças ao profundo trabalho filosófico de São Tomás de Aquino, que incorpora o aristotelismo de modo análogo ao que Agostinho fizera com o platonismo. Na própria Ética a Nicômaco, Aristóteles (1973) enfatiza as referências à vida política, à inserção na sociedade. Diz ele: "... o objetivo da vida política é o melhor dos fins, e essa ciência dedica o melhor de seus esforços a fazer com que os cidadãos sejam bons e capazes de nobres ações" (p. 259, passagens 1.1099 b-30). Entretanto, toda sua investigação visa explicitar o bem para se viver com felicidade e justiça. O homem precisa da virtude para inserir-se na sociedade.

Assim, a idéia-força que predomina na Filosofia da Educação na Antiguidade é que a dimensão política é inteiramente derivada da qualidade ética dos sujeitos pessoais. É por isso mesmo que, desde Sócrates, a ética é a força motriz de todo investimento pedagógico. Trata-se de levar o aprendiz a incorporar uma típica atitude espiritual, dar-lhe consistência e permanência de modo que possa tornar-se fonte reguladora de seu agir, que passará a qualificar-se como agir moralmente bem. E se todos os indivíduos se tornarem pessoas éticas, a cidade, a pólis, será igualmente uma comunidade justa. O político decorre do ético, nele encontrando seu fundamento. A ética assume lugar tão relevante na filosofia socrática que todo o empenho essencial do conhecimento deve ser aquele que visa descobrir o bem. A natureza do homem passa a ser objeto do conhecimento filosófico na exata medida em que aspira ao bem, ao comportamento virtuoso. Virtude e bem são os efetivos critérios e guia para toda ação pessoal e, conseqüentemente, também para a vida na cidade. Não é por outra razão que o modelo de sociedade proposto por Santo Agostinho, em A cidade de Deus, como lugar da verdadeira felicidade, é aquele que é constituído por homens virtuosos. Virtuoso é o homem que escolhe o caminho do bem para viver, como esclarece o próprio Santo Agostinho em seu outro texto, Do livre arbítrio.

É essa maneira de entender a natureza do homem como ser ético que explica a força do conceito de alma na filosofia de lastro socrático, bem como da importância que nela assumirá a categoria de substância essencial. A alma, como a substância humana, é o sujeito da ética e o seu cuidado é o que há de mais divino no homem, cuidado a ser exercido mediante o conhecimento dos valores da bondade e da verdade.

Com base nessas noções de alma e de bem, a ética socrática, objeto por excelência da educação, busca atingir a interioridade humana, centro em que se encontra a lei do autodomínio, da ordenação dos valores, da virtude e da felicidade. Domínio do homem sobre si mesmo, o que o eleva à liberdade moral como autonomia frente à sua co-natureza animal. Com a impregnação profunda da cultura helênica pelo Cristianismo, a natureza da educação como essencialmente formação ética ganhou ainda mais força, como podemos ver na obra dos Padres da Igreja e, destacadamente, em Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

Nessa tradição da Filosofia, a educação é vista como garantindo a humanização do homem na medida em que ela possa contribuir diretamente para a construção do próprio sujeito. A imagem é dada pela metáfora da identidade e da autonomia do sujeito espiritual, individual, pessoal que, princípio de atividade, atua pela força energética de sua vontade livre. A transformação do mundo, a construção da sociedade, o aprimoramento da existência objetiva, decorrem agora diretamente da transformação, do aprimoramento íntimo do sujeito. A pólis, como cidade justa e democrática, será resultante das ações, eticamente respaldadas, postas pelos indivíduos transformados. O direito positivo só pode se legitimar se fundado em diretrizes éticas, âmbito em que deve prevalecer a dignidade subjetiva da pessoa humana.

Nessa tradição de valorização da autonomia subjetiva, a educação é sempre entendida como um investimento feito pelos sujeitos, dos recursos da exterioridade, com vistas ao desenvolvimento de sua interioridade subjetiva. A educação identifica-se então com o próprio método do conhecimento, com o exercício da vivência da consciência, uma vez que educar-se é apreender-se cada vez mais como sujeito, buscando agir com vistas a realizar-se cada vez mais como tal. O ético predomina sobre o político, atuando o educacional como mediação. É por isso que essa orientação enfatiza mais os fundamentos antropológicos e éticos dos processos do que suas mediações práticas ou suas implicações políticas.

A educação como formação política

Sem dúvida, pode-se afirmar com segurança que o Iluminismo, como amplo movimento cultural e filosófico que aconteceu na Europa na era moderna, ao instaurar sua proposta pedagógica, retoma as idéias da natureza humana, da autonomia racional e moral do indivíduo e da perfectibilidade humana. No entanto, por outro lado, essas categorias têm seu sentido profundamente modificado. Marcado pela longa, lenta e sofrida constituição da moderna sociedade burguesa e mercantil, que vai se distanciando cada vez mais do mundo feudal e cristão, o pensamento iluminista se instaura sob o crescente impacto da formação dos estados como entidades políticas autônomas. A consciência ética se confronta agora com a realidade da vida política que não é mais mera circunstância na existência dos indivíduos mas, ao contrário, é uma forte e densa realidade autônoma, ditando e impondo regras e leis. Agora, a legitimação da existência não se sustenta apenas na conformação à lei interior do espírito, mas também necessariamente num acordo com a lei exterior estabelecida, autonomamente, pela sociedade. É preciso doravante considerar também os dispositivos do contrato social. E essa sociedade determinante não se apresenta como entidade aprioristicamente definida, mas como processo histórico real a ser empiricamente abordado e esquadrinhado. Recusando o modo metafísico de pensar, a filosofia moderna opõe-se também à ética essencialista da vida puramente interior.

Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant podem ser tomados com os mais significativos representantes dos construtores do projeto iluminista da modernidade no que se refere a essa perspectiva de uma outra pedagogia de acordo com a qual a formação humana, visada pela educação, passa necessariamente pela consideração da condição natural do homem como ser social. A filosofia moderna refere-se aos indivíduos, mas pressupondo-os como partes integrantes de um corpo social que os atravessa de fora a fora. Consciência, liberdade moral, perfeição humana, vontade livre são dimensões relacionadas à vida dos indivíduos, mas elas só ganham consistência plena com a inserção dos indivíduos na estrutura social. É por isso que as propostas pedagógicas de Rousseau (1968) não podem ser plenamente compreendidas separadas de sua teoria política (Rousseau, 1999). Do mesmo modo, a proposta educativa de Kant não faz sentido separada de sua visão do destino da civilização humana como um todo. Desse modo, na modernidade, o critério fundamental da educação, o aspecto que recebe maior ênfase na formação humana, é aquele da formação política, a formação do cidadão, entendida esta à luz de seus pressupostos antropológicos e epistemológicos do racionalismo naturalista. Como bem o resume Lyotard,

[...] a educação tem uma finalidade explícita na modernidade do fim do século XVIII. É a do projecto geral das Luzes: libertar a humanidade do despotismo, do despotismo político, mas também da ignorância e da miséria [...]. A educação tem pois uma intenção fundamental: [...] fazer com que a nação, a comunidade de facto, se torne numa República de direito. (apud Kechikian, 1993, p. 49)

Para Kant (1996), "a educação prática e moral é aquela que diz respeito à construção do homem, para que viver como ser livre [...] o qual pode bastar-se a si mesmo, constituir-se membro da sociedade" (p. 20). Ainda que se trate de aprimorar o homem em sua individualidade, tal objetivo diz respeito ao seu viver em sociedade, sua ineludível moradia. Na Modernidade, são todas as modalidades da vida que assumem mais explicitamente essa dimensão política.

Essa condição do homem viver em sociedade modifica profundamente o seu processo de auto-aperfeiçoamento, pois seu aprimoramento ou sua degradação não mais dependem apenas da lei interior de sua vontade, mas também das determinações exteriores da vida social. Assim, o 'instinto divino da consciência', de que fala Rousseau, que é fonte da excelência moral do indivíduo, confronta-se com as exigências da vida em sociedade, esfera da liberdade civil. É por isso que o homem que "nasce livre, por toda parte encontra-se a ferros" (Rousseau, 1999, p. 53). Parafraseando-se os metafísicos clássicos, pode-se afirmar que, na modernidade, o social é o elemento que constitui a substância da essência humana, não é mais um mero acidente.

De acordo com os princípios filosóficos de Rousseau (1958), o homem só pode ser bom numa sociedade racional. A finalidade da educação é a reconstrução do homem, por isso mesmo, ela pode ser até 'desnaturação'. Ela deve "dar às almas a forma racional e dirigir de tal forma as suas opiniões e gostos que sejam patriotas por inclinação, paixão e necessidade" (cap. 4, p. 605). A cidade deve ser sobreposta a tudo mais. A liberdade consiste na obediência total à lei da cidade ideal (Chateau, 1956).

Essa participação do elemento social na natureza intrínseca do modo de ser humano torna-se marca característica da antropologia fundante da compreensão da educação no século XIX, constituindo a base central do conhecimento que, nessa fase, já se constitui como conhecimento científico, graças à emergência das ciências humanas. É que, ao lado da expressão filosófica, dando-se como filosofia social ou filosofia política, as ciências humanas se instauram fundamental e preponderantemente como ciências sociais. E sob as inspirações de todos os paradigmas epistemológicos daquele momento, o pensamento teórico se manifesta enfatizando a primazia do social.

É o que podemos conferir na obra de Émile Durkheim. Na esteira da perspectiva positivista, inaugurada por Auguste Comte, Durkheim dedica todo o seu engenho em mostrar a consistência e a centralidade do social como elemento explicativo do modo de existir humano. O social não reduz jamais ao individual nem a Sociologia a uma Psicologia de grandes número de indivíduos. Sua obra teórica sistematiza a solidariedade social, o trabalho social, a consciência coletiva, a anomia social, enfim, a vida autonomizada da sociedade, uma entidade que, embora formada pelos indivíduos, tem uma realidade própria, distinta. É independente das condições particulares dos indivíduos; estes passam, ela permanece. É sob a prática do trabalho que os indivíduos se vinculam intrinsecamente à sociedade, fortificados por uma solidariedade orgânica que os mantém unidos, como se estivessem atraídos por uma força centrípeta. Por isso mesmo, a realização dos indivíduos em particular depende da boa realização da sociedade. Só que essa realização está sempre ameaçada pela anomia que pode impedir que a sociedade preencha sua função de regulação e controle.

De igual modo, o pensamento de outro grande profeta da modernidade, Max Weber (1864-1920), segue a mesma linha de consagração da prevalência das leis impessoais da sociedade. Weber (1974) enfoca a política como tema central de sua obra, fazendo uma análise profunda e completa da modernidade. Busca explicitar as leis das ações humanas. Embora muito cauteloso para evitar uma entificação da sociedade mediante o uso de categorias coletivas, preocupado em livrar as ciências históricas dos pressupostos metafísicos do idealismo alemão, Weber vê na ação racional, mediada pelos tipos ideais, critério da prática que independe da vontade individual dos agentes. Um sistema político e econômico que – com uma lógica própria: a da racionalidade – dita leis para o comportamento humano.

É certamente na obra de Karl Marx (1818-1883) que o caráter determinante da essência humana pelo social é mais assumido teoricamente e justificado, questionando, de vez, qualquer referência metafísica de caráter essencialista. Herdeiro da tradição dialética hegeliana, Marx e Engels (1997) vê o homem se constituindo historicamente mediante seu agir prático coletivo. Em que pese seu idealismo metafísico exacerbado e romântico, Hegel já havia integrado em sua síntese filosófica a participação do processo histórico real da sociedade humana e de sua manifestação política sob a forma do Estado, como figuras substanciais da realização do Espírito Absoluto. Escoimando o hegelianismo dessas dimensões metafísicas, que entende ser puras ilusões ideológicas, Marx incorpora a dialeticidade do processo histórico real que se realiza na história da sociedade humana. Muito sensível, por outro lado, à dura realidade histórica e social de sua época, quando o modo de produção capitalista já se encontra em pleno vigor, Marx adentra-se, sob a perspectiva da ciência histórica, no estudo da economia política, solo da efetiva realização dos seres humanos. Analisando as condições reais em que se dá a produção concreta da existência humana sob os ditames da economia capitalista, Marx explicita a tragédia da existência histórica do homem como despossuído de sua essência pela alienação do trabalho imposta pelas 'leis' da produção material. E para chegar à realização de si mesmo como homem inteiramente emancipado e totalmente humano, a partir de sua condição de ser natural, de ser sensível num mundo sensível, os homens que se alienam em sua história coletiva só podem engendrar-se como homens por meio de seu trabalho humano. O trabalho, dinâmica responsável pela efetiva condição do modo de ser humano, só é realizável no contexto histórico-social. Se, de um lado, ele é o lugar da alienação, da perda da essência, ele é também o único espaço para a realização do humano. Os homens são seres ativos, práticos, produtores de objetos sensíveis, não em sua condição de gênero universal, mas em sua existência histórica e social, em sua realidade, constituída pelo conjunto de suas relações sociais. O trabalho, como força engendradora do indivíduo humano e meio de produção e reprodução da existência, pressupõe a presença efetiva dessa rede de relações sociais com um mínimo de eqüidade e liberdade, o que exige a permanente luta política revolucionária contra todas as formas históricas de opressão, numa sociedade burguesa e capitalista, hierarquizada e cristalizada em classes sociais, com interesses objetivos conflitantes. Para Marx, o homem se define em sua humanidade pela relação com a natureza e com a sociedade. Ele não é um indivíduo solitário nem um elemento avulso da humanidade em geral, mas um ser histórico e social, cujo perfil concreto é definido pelas leis provisórias de um determinado modo de produção. Marx pensa a reificação e a alienação como conseqüências de modos históricos de produção e não como determinações essenciais do homem em geral, pois aceitar isso seria recair na reificação e na alienação. A concreta realidade humana não é resultante nem da realização da Idéia ou do Espírito Absoluto (Hegel) nem da consciência racional dos homens, de suas vontades puras e reflexões abstratas (Metafísica clássica e Idealismo moderno), mas do real movimento histórico das forças produtivas, desencadeado e sustentado pelos homens a partir das contradições permanentes que devora suas entranhas.

Essas grandes sínteses filosóficas, aqui apenas tangenciadas, produzidas por Marx, Weber e Durkheim, em que pesem as diferenças de seus pontos de partida e de apoio, têm um ar de família e a grande referência comum é a marca fundante do social na constituição da efetiva realidade do ser humano, contrapondo-se os três pensadores, de forma radicalmente igual, a toda pretensão metafísica. Com essa incisiva afirmação da centralidade nuclear da prática social, manifestando-se historicamente, a presença das contribuições desses pensamentos, feitas todas as necessárias ressalvas, tornou-se elemento de todas as ciências humanas e de toda filosofia crítica da atualidade.

Não é, pois, sem razão que essa perspectiva marcou profundamente o modo de se compreender a educação na virada do século XIX e no início do século XX. Ainda que a temática educacional não tenha recebido um tratamento explícito nessas obras, é evidente que, por decorrência intrínseca, a educação só tem sentido sob as mesmas referências, como modalidade do próprio processo social. É o que explica e justifica porque as ciências sociais vão passando a ocupar, no período, o lugar das ciências psicológicas na explicação do fenômeno educacional. E não se pode legitimar a intervenção pedagógica a não ser sob uma justificativa política, de ordenação do social.

Tanto quanto os antigos e os medievais, os pensadores modernos vão aproximar verdade e bem, aproximando o conhecimento racional da prática educacional. Só que agora a razão é tomada na sua condição de potência natural, atuando por conta própria sem qualquer intervenção de ordem sobrenatural. O homem volta a ser a medida de todas as coisas e não mais Deus. Esse antropocentrismo radical, colocando o homem racional no centro e na direção de um mundo desencantado, laiciza o olhar e o agir das pessoas. Isso dá uma outra dimensão para a vida social e para as instituições políticas, modificando profundamente o sentido da educação. Nesse momento, para se formar bem o indivíduo, é preciso considerar a sociedade estruturada como condição substantiva do existir humano. O homem não pode ser eticamente bom, contando apenas com uma eventual coerência com os valores de sua subjetividade e muito menos com a obediência a preceitos divinos sobrenaturais. Antes, precisa integrar-se adequadamente à sociedade, à pólis. E antes de mais nada cabe à educação propiciar, de modo sistemático, as condições para essa integração. Inserção não mais à 'cidade de Deus', mas à 'cidade dos homens'. Por isso mesmo, a educação passa a assumir, ao longo da Modernidade, o caráter de uma ação e de uma prestação pública, definindo-se como mediação própria para a constituição da cidadania. E seu grande instrumento é o conhecimento racional. Não mais o conhecimento metafísico das essências das coisas, mas o conhecimento científico dos fenômenos naturais, única e exclusiva manifestação do real. E agora a filosofia, de serva da teologia que era na Idade Média, passa a ser 'serva da ciência', exercendo-se fundamentalmente como reflexão metacientífica. É compreensível que só na Modernidade a filosofia se desse conta da extrema relevância do social para a própria constituição do sujeito pessoal, considerando a sociedade como condição fundamental para a vida moral das pessoas. Em que pesem já os avanços organizacionais da sociedade pré-moderna, ela não foi muito além de uma 'comunidade natural', ainda não política. Essa condição só se tornou possível no período moderno, expressando-se fundamentalmente na constituição dos Estados, como entidades específicas e autônomas de gerenciamento da vida social.

Educação e formação cultural na contemporaneidade

Esse panorama está em processo de mudança, agora, na contemporaneidade. Uma nova forma de se compreender a educação: nem mais sob a prevalência de uma teleologia ética nem mais sob a perspectivação política. Tanto a ética como a política estão sendo questionadas como referências básicas da educação. Como se trata de um pensamento ainda em construção, fica difícil, por falta de distanciamento, apreendê-lo em toda sua extensão, profundidade e magnitude. Essa nova orientação vem sendo designada de filosofia pós-moderna ou pós-estruturalista, substrato filosófico de uma possível nova era histórico-cultural: a pós-modernidade. Levada a seus extremos, tal tendência cai no irracionalismo, inviabilizando qualquer alcance construtivo da racionalidade humana. Seu irracionalismo potencial emerge com a acusação que faz aos comprometimentos da razão com o poder opressivo sobre o homem, da hostilidade da razão à vida. A razão acaba sendo vista apenas como agente de repressão e não instância de libertação, como o pretendia o Iluminismo. Os germens dessa crítica radical surgiram na própria Modernidade, com Nietzsche, Freud e Marx, mas se consolidam no pensamento atual, com Foucault, Deleuze, Guattari, Lyotard, Beaudrillard e Maffesoli, entre outros pensadores.

Como acertadamente observa Rouanet, há nessa atitude crítica radical um forte núcleo de verdade:

Depois de Marx e Freud, não podemos mais aceitar a idéia de uma razão soberana, livre de condicionamentos materiais e psíquicos. Depois de Weber, não há como ignorar a diferença entre uma razão substantiva, capaz de pensar fins e valores, e uma razão instrumental, cuja competência se esgota no ajustamento de meios e fins. Depois de Adorno, não é possível escamotear o lado repressivo da razão, a serviço de uma astúcia imemorial, de um projeto imemorial de dominação da natureza e sobre os homens. Depois de Foucault, não é lícito fechar os olhos ao entrelaçamento do saber e do poder. Precisamos de um racionalismo novo, fundado numa nova razão. (Rouanet, 1987, p. 12)

Não integra o objetivo deste ensaio aprofundar as posições dessa tendência em gestação na filosofia contemporânea, até porque eu a vejo como diretamente tributária da crítica desenvolvida pelos teóricos da Escola de Frankfurt. Com efeito, é possível identificar nas formulações da Teoria Crítica, da Escola de Frankfurt, as referências históricas e teóricas dessa inflexão que marca a entrada da cultura e da filosofia ocidentais na era contemporânea. Cabe atribuir-lhe, com toda legitimidade, esse papel, pois foi dela a iniciativa histórica de apresentar, de forma sistemática, o balanço inaugural de toda a produção filosófico-científica da modernidade, deslanchando um acerto de contas que ainda não terminou e que ainda continua sendo retomado e prolongado na atualidade. Não é por acaso que a filosofia frankfurtiana nasce e se constitui como diálogo, competente e crítico, com as heranças do positivismo, do neokantismo, do hegelianismo e do marxismo.

Como bem o assinala Goergen (2001), é preciso atentar que as posições frankfurtianas, embora "em muitos momentos assumindo traços de uma crítica radical à racionalidade, pretende, na verdade, salvar a razão das armadilhas de sua instrumentação e de seu uso contra o próprio ser humano. Distingue-se, portanto, das teses pós-modernistas, críticas da própria razão moderna e não apenas de seu mau uso. Para os pós-modernos, a razão iluminista, com seus traços de teleologia progressista, firmada em seu manejo adequado, perdeu, ela própria, sua legitimidade" (p. 23). Habermas (1990) defende que a razão comunicativa assegura o exercício de uma racionalidade processual, aberta à contingência e à pluralidade sem abandonar as pretensões de validade universal: "a unidade da razão na multiplicidade de suas vozes" (p. 151).

Minha idéia é de que as posições teóricas elaboradas pelos pensadores frankfurtianos, particularmente por Adorno e Horkheimer, inauguram uma concepção diferenciada da educação, que não se expressaria mais nem como formação ética do sujeito pessoal nem como formação política do sujeito coletivo, mas como formação cultural, conceituada como realização antropológica tout court, sem qualquer adjetivação de qualquer natureza. E no rastro dessa idéia originante, a grande maioria das manifestações da filosofia contemporânea vai avançando no sentido de se conceber essa formação como a própria substância da educação.

Adorno (1985) defende a idéia de que a sobrevivência da filosofia exige a renúncia à busca de qualquer significado predeterminado das coisas, pretensão que até a modernidade ficara a cargo de uma razão que se revelava totalitária, globalizante e mistificadora para com o ser humano concreto, toda vez que se propunha delinear esse sentido. É o que já fala em sua aula inaugural sobre "a atualidade da filosofia", de 1931, e que volta a ser enfatizada em Dialética do esclarecimento, de 1947, em Dialética negativa, de 1966, e em Teoria estética, de 1970. A razão transforma-se numa razão instrumental, ferramenta por excelência da ciência e da tecnologia. Ética e política perdem toda sua densidade e sustentação em decorrência dessa hipertrofia do racional puro, que exorcizou o corpo e desencantou o mundo. Isso impediu que se pudesse falar da perfeição moral do sujeito pessoal e de qualquer futuro político formulável. Resta ao filósofo um trabalho teórico crítico, calcado numa negação radical da realidade presente, ainda justificando a luta contra todas as formas de dominação, desde que renuncie à tentação da universalidade e da totalidade, tanto no campo ético como político. Tal a única maneira de garantir uma autonomia do sujeito num contexto onde haja igualmente a liberdade de todos.

O pensamento crítico contemporâneo tende a questionar radicalmente tudo aquilo que era a própria sustentação do edifício filosófico da modernidade, a pedra fundamental da racionalidade emancipadora e altaneira (Kant, 1996), arrastando consigo os ideais iluministas da ética e da política. Por isso mesmo, não podia deixar de recuperar as perspectivas dionisíacas da filosofia a marteladas de Nietzsche, bem como não poderia deixar de voltar-se para a estética, via privilegiada de resgate da corporeidade e o lugar possível do sentido encarnado. Pode-se então afirmar que a contemporaneidade cultural e filosófica, inaugurada por essa crítica, instala-se tendo como mote a paráfrase bermansiana da fala de Marx no Manifesto do Partido Comunista, de 1851: "tudo o que é sólido desmancha no ar..."1. Nada mais se sustenta do edifício filosófico-científico da modernidade, a não ser seu lado sombrio e irracional, que é aquele da mais perversa e destrutiva dominação. Uma significativa vertente da filosofia contemporânea vai se constituindo, então, como denúncia e recusa de todas as modalidades de metanarrativas, de todos os dogmas e discursos da racionalidade, estejam elas nas ciências, na filosofia ou em qualquer outro lugar da cultura. Junto com essa denúncia da instrumentalidade da razão e de suas graves conseqüências para a vida humana, a reflexão crítica dos frankfurtianos, Adorno à frente, resgata a experiência estética, como vivência subjetiva da corporeidade mediante o exercício de seus sentidos, enfatizando sua importância como experiência primordial do homem, até então danificada pelo uso puramente instrumental da razão ao lidar com as coisas humanas. A experiência estética constitui o último modo de resistência dos indivíduos à desenfreada opressão causada universalmente pela racionalidade técnica da sociedade capitalista contemporânea.

Os ecos da inspiração frankfurtiana, além de tornar audíveis as invectivas nietzscheanas em pleno final do século XX, ressoa por todo o ambiente cultural e filosófico da atualidade, suscitando novos 'jogos de linguagem', que se apresentam tão somente como nichos de experiência de conhecimento, sem qualquer ambição de expor verdades inquestionáveis.

O núcleo de verdade do novo conceito de educação se expressa, pois, como a própria formação do sujeito. No entanto, alguns prévios cuidados esclarecedores precisam ser tomados em decorrência da ambigüidade e ambivalência dos signos lingüísticos, pois como já ensinava o mestre de Santo Agostinho, "nada pode ser ensinado sem signos, mas os signos não ensinam nada" (Sobre o mestre). O termo formação é onipresente nas diversas conceituações de educação, mas o mais das vezes para contrapor-se à informação. Outras vezes, arrasta consigo a conotação do pôr em forma, moldar, sentido que é exatamente o contrário daquele em que está sendo tomado aqui. O sentido aqui é exatamente aquele da constituição do sujeito que não tem molde onde se encaixar, para se enquadrar, medidas para se medir. Um sujeito totalmente contingente, com muito precárias referências históricas para se guiar em sua existência. Precisa ser, ou melhor, vir-a-ser sem que caminhos precisos estejam previamente traçados.

Igualmente o conteúdo cultural, no contexto ora em questão, não denota apenas sua significação de ilustração, de erudição literária, de performance artística etc., mas envolve todas essas dimensões desde que elas estejam articuladas na experiência vivenciada da auto-reflexão crítica, na autonomia do sujeito humano como praticante do exercício público da racionalidade, uma vez superados os limites da liberdade impostos pela semicultura (Pucci, 1995), ou seja, é culturalmente formado, portanto educado, o homem que dispõe do esclarecimento, com o qual se identifica, pois, a própria educação. No categorial frankfurtiano, a semicultura é o embotamento da cultura, a alienação, a padronização, o conformismo, situações em que se encontram os homens por renúncia, subserviência ou dominação. Dito de outro modo, é própria barbárie que, na visão de Adorno, é "o preconceito delirante, a repressão, o genocídio e a tortura" (Tabus apud Ramos-Oliveira, 1995, p. 92-93).

O conceito adorniano de formação cultural, embora forjado a partir da sua vivência no contexto da cultura alemã (Pucci; Ramos-Oliveira; Zuin, 2000), ganha um alcance mais amplo, tornando-se uma fecunda categoria de análise da vida social contemporânea. A Bildung, como lado subjetivo da Kultur, só se legitima como exercício de juízo existencial crítico e autocrítico, de caráter emancipatório, indo além da semiformação, Halbebildung, definição de uma produção simbólica em que prevalecem a adaptação e o conformismo, típicos da cultura massificada.

A proposta e, até certo ponto, a aposta frankfurtiana de uma educação emancipadora vinculam-se à afirmação da intrínseca necessidade de uma crítica permanente. Após Auschwitz, impõe-se uma reelaboração do passado, uma severa crítica do presente, se se almeja um futuro mais humanizado. E ao mesmo tempo em que Adorno alerta para os riscos de um processo educacional pautado apenas nas luzes da consciência (pura formação ético-epistêmica), sem considerar sua orientação social, chama a atenção para os igualmente graves perigos do comprometimento do ético frente à determinação social (pura formação política). O desafio que se apresenta é o de "pensar a sociedade e a educação em seu devir. Só assim seria possível encontrar alternativas históricas capazes de assegurar a emancipação de todos, tornando-os sujeitos da histórica, aptos a vencer a barbárie e a realizar o conteúdo emancipatório do movimento de ilustração da razão" (Maar, 1995, p. 12). A proposta da educação como formação cultural destaca que a educação não concerne apenas a formação da consciência de si, como aperfeiçoamento moral, mas nem por isso reduz-se a mero enquadramento social, pura determinação política. "A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica" (p. 121).

Adorno (1995) explicita sua concepção de educação:

Evidentemente não a assim chamada modelagem de pessoas, porque não temos o direito de modelar pessoas a partir de seu exterior; mas também não a mera transmissão de conhecimentos, cuja característica de coisa morta já foi mais do que destacada, mas a produção de uma consciência verdadeira. Isto seria inclusive de maior importância política; sua idéia, se é permitido dizer assim, é uma exigência política. Isto é: uma democracia com o dever de não apenas funcionar, mas operar conforme seu conceito; demanda pessoas emancipadas. Uma democracia efetiva só pode ser imaginada enquanto uma sociedade de quem é emancipado. (p. 141-142)

Para Adorno (1995), o conhecimento tem papel fundamental no processo educativo. No entanto, impõe-se entender bem o sentido da razão e da subjetividade. Em geral, o conceito de racionalidade ou de consciência

[...] é apreendido de um modo excessivamente estreito, como capacidade formal de pensar. Mas esta constitui uma limitação da inteligência, um caso especial de inteligência, de que certamente há necessidade. Mas aquilo que caracteriza propriamente a consciência é o pensar em relação à realidade – a relação entre as formas e estruturas do pensamento do sujeito e aquilo que este não é. Este sentido mais profundo de consciência ou faculdade de pensar não é apenas o lógico-formal, mas ele corresponde literalmente à capacidade de fazer experiências. Eu diria que pensar é o mesmo que fazer experiências intelectuais. Nesta medida e nos termos que procuramos expor, a educação para a experiência é idêntica à educação para a imaginação. (p. 151)

O compromisso da educação é com a desbarbarização, é transformar-se num processo emancipatório, no qual ocorra uma luta sistemática pela autonomia, pela emancipação. E sua única ferramenta é o esclarecimento que se constitui como passagem do inconsciente para o consciente, do não ciente para o ciente, do pseudociente para o ciente. O esclarecimento ilumina e elimina.

Na perspectiva da Teoria Crítica, o papel da educação é o de assegurar a sobrevivência da formação cultural numa sociedade que a privou de suas bases. É que a industrialização cultural comprometeu essa formação. Cabe aos processos educativos investir na transformação da razão instrumental em razão emancipatória. Por sua vez, a educação pode viabilizar-se, garantindo-se sua fecundidade formativa, se se constituir como exercício da auto-reflexão crítica. Trata-se, para a educação, de produzir uma consciência verdadeira.

Trata-se de uma formação imanente do sujeito da história real da desalienação na história presente, alienada. É que na sociedade industrializada do capitalismo, a educação crítica do indivíduo, base de sua formação emancipatória, encontra-se travada, realizando-se apenas como adaptação, ou seja, como semiformação (Adorno,1995), travamento da experiência emancipadora.

A qualificação essencial da educação emancipadora encontra-se na dissecação visceral do nexo entre dominação e racionalidade. A educação crítica só pode realizar-se como reconstrução crítica da racionalidade social, revelando a deformação que produz em face de sua reificação e conduzindo-a a uma clara exposição de suas contradições e, por essa via, apreendendo nela as possibilidades alternativas. Momento de transformação da subjetividade destituída de experiência formativa (Maar, 1995).

A organização social em que vivemos continua sendo heterônoma, isto é, nenhuma pessoa pode existir na sociedade atual realmente conforme suas próprias determinações; enquanto isto ocorre, a sociedade forma as pessoas mediante inúmeros canais e instâncias mediadores, de um modo tal que tudo absorvem e aceitam nos termos dessa configuração heterônoma que se desviou de si mesma em sua consciência. (p. 181)

Conclusão

Tendo em conta a insustentabilidade das referências ético-políticas das tradições metafísica e iluminista, o novo conceito de educação, que vem sendo forjado no contexto da contemporaneidade – questionadas a universalidade, a transcendentalidade e a apoditicidade dos valores –, vai partir da condição de contingência imanente do próprio sujeito. A proposta possível de sua educação é aquela de sua própria formação como sujeito cultural.

Por isso mesmo, no que concerne ao conceito da educação, tal qual vem sendo constituído, a referência passa a ser, não mais a antiga ética, ou a recente política, mas uma nova estética. Não há mais valores éticos referenciais nem muito menos consígnias políticas válidas, conta apenas o novo sentir bem dos sujeitos humanos. Sem dúvida, o cenário da cultura atual é complexo. Sobrevivem e convivem os diversos paradigmas filosóficos a inspirarem as buscas da Filosofia da Educação. Particularmente, faz-se ainda muito forte a marca de uma concepção tecnofuncionalista da educação, colocando-se em nome da ciência e de seu poder tecnocrático, numa ponta do espectro, enquanto que na outra ponta agiganta-se a perspectiva estetizante. Curiosamente, esses extremos se tocam e acabam tendo uma paradoxal convivência com um nível de tolerância recíproca muito mais harmonioso do que com a esfera dos paradigmas éticos ou políticos.

No entanto, na verdade, a exacerbação estetizante é mesmo resultante do impulso da radicalidade da crítica à razão instrumental. Sua verdade está na afirmação de que uma nova referência para a educação precisa ser levantada e que nela não se faça ausente a dimensão estética do existir. Entretanto, essa dimensão estética é apenas uma parte do todo, sem dúvida aquela cuja visibilidade é de mais fácil percepção e que, por não ter sido devidamente considerada pela tradição filosófico-educacional, agora faz sua reivindicação de forma mais ruidosa e, às vezes, até mesmo acintosa.

A idéia de formação cultural dá à educação uma finalidade intrínseca de cunho mais antropológico do que ético ou político, num sentido estrito. Até para transformar os indivíduos em pessoas éticas e políticas, a educação precisa efetivar-se como formação cultural. No entanto, em si mesma, a educação não tem como garantir, diretamente, que as pessoas se tornem éticas – ela é uma experiência eminentemente pessoal –, nem como metanoia assegurar o aprimoramento do social – a revolução política é uma experiência exclusiva do sujeito coletivo em sua especificidade.

Referências bibliográficas
Revista Educação e Pesquisa - USP

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Desejo de encadear letras


Desejo de encadear letras

Cristóvão Giovani Burgarelli

Doutor em Lingüística; Membro do Espaço Psicanalítico de Goiânia e Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG). E-mail: cgiovani@fe.ufg.br

Linguagem é o que faz falar o ser. O texto escrito pode ser tomado como equivalente ao inconsciente, pois, em suas dobras, em seus desvios, o sujeito está incessantemente convocado a forjar seu próprio ser-sujeito, suas identificações. Ler é fazer trabalhar o texto, o próprio tecido do velamento; é situar-se num vazio, que convoca um fluxo inesgotável de atribuições de sentido. A transmissão é, sobretudo, transmissão de desejo, pois há uma hiância irredutível entre o que se diz (ou se ensina) e o que se ouve (ou se aprende); ela constitui-se a partir de um esquecimento que só passa a operar em seu retorno, com a implicação, é claro, de um sujeito desejante. A escrita, ao apropriar-se dos efeitos do significante, cava sulcos no real, e a letra, porque marca o corpo, recorta no e para o ser falante tanto aquilo que do significante se forja para um sujeito (os efeitos da língua) quanto a memória de um gozo perdido, que, à revelia desse sujeito, vai-se responsabilizar pela sua verdade.

De um lado, temos que o sujeito é uma invenção a ser sustentada permanentemente e, de outro, que, das condições concretas para essa invenção, esse engendramento dinamicamente remissivo ao Outro, resta algo que não cessa de não se escrever, a verdade. No inconsciente, há um ponto nodal que se chama desejo e se situa na dependência da demanda do Outro. A coisa acontece mais ou menos assim: porque a demanda se articula em significantes, ela deixa um resto metonímico, o desejo, que correrá como que por debaixo dela e funcionará como a condição, "ao mesmo tempo absoluta e impegável" (Lacan, 1985, p. 146), para que um sujeito possa situar-se. Conforme comenta Lacan, trata-se de um elemento necessariamente em impasse, insatisfeito, impossível e desconhecido; um elemento pelo qual a pulsação do inconsciente se liga à realidade sexual, pois é a partir do ponto em que o sujeito deseja que a conotação de realidade pode-se dar na alucinação, ou seja, a partir daí a realidade, supostamente dessexualizada, só pode ser abordada com os aparelhos do gozo; como o sexual e o linguageiro vêm aí incidir-se, este será sempre um gozo interditado.

A fantasia e o desejo causam-se reciprocamente. "O sujeito se situa a si mesmo como determinado pela fantasia" (Lacan, 1985, p. 175). Quando a criança, o infans, busca reencontrar o objeto original de sua primeira satisfação, não há outra maneira de fazê-lo senão fantasiando-o, imaginando-o ou alucinando-o. O desejo se constitui nesse próprio movimento fantasmático que tem como suporte os objetos da pulsão, a que Lacan chamou de objeto a, objeto causa do desejo: o seio, as fezes, a voz e o olhar - objetos que compõem uma série.

No seminário 11, ele indaga:

Será que não vemos na metáfora freudiana encarnar-se essa estrutura fundamental - algo que sai de uma borda, que reduplica sua estrutura fechada, seguindo um trajeto que faz retorno, e de que nada mais assegura a consciência senão o objeto, a título de algo que deve ser contornado? (LACAN, 1985, p. 171.)

Nessa leitura que Lacan faz de Pulsões e destinos da pulsão, há uma indagação interessante: o que se dá na passagem de uma pulsão a outra (oral, anal, escópica, etc.)? Como situar historicamente a pulsão invocante? A partir dessas questões, ele poderá dizer que, no processo de causação do sujeito, há um ponto em que intervém algo que não é do campo da pulsão, o desejo, um ponto de reviramento da demanda do Outro. E sua leitura continua, com conseqüências. Segundo ele, a distribuição dos investimentos significantes instaura, no sujeito, hiâncias nas quais se situa o inconsciente. É o mesmo que dizer que entre a realidade e o sujeito se põe o inconsciente, ou ainda, que a pulsão tem seu papel no funcionamento do inconsciente, pois algo no aparelho do corpo é estruturado da mesma maneira: numa unidade topológica das hiâncias que se põem a jogar.

O lúdico, que se presentifica no brincar tanto com o corpo quanto com a materialidade lingüística, não é sem as referências gramaticais em cujo cerne se encontra o artifício. Desse modo, pode-se entender que a pulsão se define como um vazio, incluído no coração da demanda, que será ocupado por um sujeito. Mas esse vazio não é o nada e, sim, efeito de linguagem, efeito da palavra sobre o corpo. Eis aí, portanto, um ponto de vinculação entre a estrutura da linguagem (a sua gramática) e os atos empreendidos pelo sujeito com o seu corpo. No período de alfabetização, o que está em jogo no movimento de entrada da criança na escrita encontra-se bem vinculado ao que está em jogo também no seu próprio corpo. Trata-se do momento de a criança, na medida em que a leitura e a escrita vão-se tornando correntes, libertar-se do corpo da mãe. Na borda do Édipo, ao assumir o falo como significante, a criança se confronta com a ordem simbólica das trocas, cujo pivô é a função paterna (cf. LACAN, 1995, p. 204).

Pode-se fazer aqui uma relação com o que Bergés diz sobre a letra: "[...] é em torno desse vazio deixado pelo real da letra que a pulsão escópica do leitor vem girar no jogo incessante da cadeia significante que faz avançar no texto, e não sobre o texto: é desse movimento pulsional que o apetite da leitura se sustenta". (BERGÈS, 1987, p. 122)2

Vê-se nas letras escritas um procedimento homólogo ao do complexo de castração. As bordas dessas letras, como as do corpo, precisam ser erotizadas para que passem a formar cadeias. Há aí, portanto, algo bem diferente do que se pode ver na fala cotidiana, em que, devido à sua linearidade, as letras se apresentam como uma imitação direta da fala. Conforme comenta Pommier (1993, p. 324), trata-se de uma topologia ordinariamente invisível, mas que "permite compreender que é preciso esquecer a imagem (escópica ou acústica) para que o texto a ser lido apareça no lugar desse apagamento". É o que se dá também com a imagem do corpo, que precisa ser recalcada para que apareça em seu lugar "essa escrita do gozo perdido que é o sintoma" (p. 325). Em ambos os casos, são as bordas que fazem escrita, na medida em que um corte, um traço, incide sobre uma consistência imaginária, seja da letra-imagem, seja do corpo-sintoma.

Podem-se arriscar alguns exemplos para elucidar a discussão proposta por este texto. E pode ser interessante reportar-se primeiramente a certo grude3 muito comum entre as mães e suas crianças, sobre o qual o relato a seguir pode dar testemunho:

Fala de um filho (oito anos), conforme relatada por sua mãe:

Mamãe, eu lembro de quando eu estava dentro da sua barriga. Era tão quentinho e aconchegante. Eu não queria ter saído de lá. Mas foi ficando muito apertado e eu não podia mexer e eu tinha vontade de esticar um pouquinho, por isso que às vezes você pensava que eu estava te chutando, mas não era verdade. Eu estava só tentando espreguiçar um pouco.

Fala da mãe:

Creio que meu filho me disse isso porque tinha ouvido, dias antes, uma conversa em que eu perguntava a uma amiga, grávida, se ela já estava sentindo os chutes na barriga. Nessa ocasião, lembro-me também de ter contado a ela que, quando eu estava grávida, às vezes acordava à noite sentindo chutes na minha costela.

Com base nesse exemplo, é possível pensar, entre outras coisas, nas fantasias constitutivas, que são uma forma de a criança lidar com sua sexualidade. Como já foi dito, são essas fantasias que poderão constituir desejo, ou seja, o desejo vai-se inscrever numa fantasia que supõe poder recuperar aquilo que foi perdido; conforme Lacan, aquilo que sempre vai faltar, pois, para ele, a falta é inerente à estrutura. O sujeito se inventa nessa cena fantasmática que toma o corpo da mãe como o lugar em que se instaura a dialética essencial do objeto. Nesse momento, essa mãe funciona, para seu filho, como agente de frustração. Seus gestos, seu calor, seus odores, seu olhar, sua voz, enfim, o jogo de presença e ausência por ela introduzido já forçou a entrada desse sujeito no mundo da linguagem. Ele já é, portanto, sujeito barrado ($), mas aqui o que esse sujeito se propõe fazer é encontrar um "porto seguro" para que ele possa existir, por isso ele se fixa a determinados objetos na sua fantasia.

Para desenvolver que a falta é constitutiva da estrutura, tanto da linguagem quanto do corpo, Lacan (1985) traz o algoritmo [^], que se lê punção, e o põe no cerne de qualquer "relação do inconsciente entre a realidade e o sujeito" (p. 171-172). A partir daí, é possível dizer de um movimento incessante desse sujeito - metonímia do falta-a-ser -, bem como de instâncias em que ele se consolida, fixando-se em algum ponto cavado seja na dialética dos objetos, seja na dialética dos significantes - metáforas do ser. O relato citado parece testemunhar esses dois momentos, distintos entre si: um que é o da própria fantasia de voltar para a barriga da mãe, aqui relembrado - momento em que o sujeito dividido se consolida, apegando-se ao objeto faltoso ($^a) - e outro em que se assumem numa articulação significante tanto a impossibilidade de sua realização quanto o ter de lidar com isso, ou seja, o colocar-se num movimento pulsional.

"Eu vou aprender a ler, mas vai ser quando eu tiver seis anos mesmo, não vai ser com sete não... Sabe por quê? Porque aí eu vou aprender a dormir sozinho." Foi com essas palavras que outra criança, poucos dias após completar seis anos, pôde-se articular para dizer de sua passagem de não-leitora a leitora, de não-escrevente a escrevente, passagem que exige que o sujeito atinja a dimensão do Outro por meio do enlaçamento pulsional. Por um lado, pode-se dizer que o desejo de ler é regido pela relação que une o sujeito que fala ao objeto a, isto é, seu fantasma, mas, por outro, a substituição deste pela leitura puxa os fios de uma textura e, porque torna impossível a leitura literal, força o nascimento de um novo sujeito, ou seja, a passagem de $^ a a $^ D, um sujeito que agora se consolida na demanda do Outro.

Na leitura, é preciso que o texto permaneça extracorpo, extra-imaginário, pois o que se lê, com o movimento do olhar, é o desejo daquele que escreveu. E para que o leitor possa se jogar no jogo fálico, para fazê-lo jogar, faz-se necessário que ele vença a saturação da imagem, os diversos corpos de leitura, a iluminura. Para que sua leitura ultrapasse o nível do enunciado e se torne enunciação, em que consiste o prazer do leitor, é preciso que ele ponha em funcionamento os efeitos dessa sua entrada na estrutura simbólica, isto é, os efeitos do recalque que o constitui como tal. É retornando ao recalcado, mas, ao mesmo tempo, fazendo-o falhar que a criança poderá conjugar olhar e ouvido para decifrar um já sabido capaz de lhe aparecer agora como surpresa.

O que impede, portanto, uma criança de ler e escrever antes de certa idade não é uma incapacidade técnica, mas sim o valor psíquico de sua relação com a representação pictural. Comentando sobre isso, Pommier (1993, p. 9) propõe-se tirar conseqüências da seguinte afirmação: "os primeiros desenhos apresentam fantasmas presos ao recalcamento até o ponto em que o retorno do recalcado se escreve na letra". Pode-se dizer, portanto, de um momento em que a criança se prende ao recalque, pois, com seus primeiros rabiscos, ela se representa e apresenta os seus sonhos e de um outro em que, em retorno, os restos dessa imagem e desses sonhos serão escritos, pois, para encadear letras, o valor dessas imagens terá de retornar apenas em seu valor de significantes, encadeados conforme as leis de uma gramática.

G., cinco anos e seis meses:



Talvez esse exemplo4 possa nos ajudar a avançar um pouco com esta discussão. Grafado por uma criança de cinco anos e seis meses, a partir de seu contato com um material escolar que, além de régua, traz algumas figuras geométricas (como se pode ver na sua parte de baixo), ele foi lido da seguinte forma: "O número 1 é uma casa, e aqui embaixo um pedaço da casa; o número 2 é um homem jogando bola, e aqui embaixo a bola de novo, depois um pedaço da casa de novo; o número 3 é uma espiga de milho; o número 4 é um livro; o 5 é a noite, e aqui embaixo tem uma estrela; o número 6 é uma pipa; no 7 é uma boca; aqui (com o dedo no 8) é o D de dedo; e aqui no 9 é um coração".

Pode ser interessante pensar em como, na trama desse jogo em que vários elementos e várias séries se relacionam (números, objetos e partes de objetos), o D poderá ser tomado em seu valor de significante. No conjunto das relações entre objetos, partes do corpo e partes dos objetos, esse D pula de sua possível vinculação com boca (desenho) para um encadeamento somente possível às custas dos apagamentos: apaga-se o corpo, apaga-se o valor pictural e lê-se o que aí não está: "D de dedo". O aprendiz-leitor perde-se nos elementos (imagens) do jogo que se pôs a jogar - metonímia do desejo - e, ao mesmo tempo, cava, com a passagem ao significante, seu acesso à forma da letra - uma outra metáfora do ser. "Agora não é desenho não, é escrita mesmo." Foi o que essa criança disse, referindo-se ao D de dedo, quando mostrava sua produção a outra pessoa, também professora como a primeira.

Embora já tivesse feito tantos outros desenhos, atividades escolares de grafar o próprio nome, de preencher cabeçalhos e de reconhecer cada letra do alfabeto, por que será que essa atividade específica significou tanto para essa criança, permitindo-lhe inclusive dizer que, a partir daquele momento, iria aprender a ler e a escrever? É correto dizer, por um lado, que a criança lê antes de se tratar propriamente dos sinais convencionais da escrita, o que também permite pressupor que, antes de se tornar escrevente, ela já se encontra numa relação com a escrita - tanto a partir do suporte objetal-figurativo quanto a partir do suporte fonético -, ou seja, ela pode experimentar a relação de ausência/presença na própria modulação de sua fala. No entanto, o que esse exemplo parece testemunhar é o nascimento de um sujeito para um significante. Dos objetos, surgem traços capazes de retê-los em sua unicidade e, mais do que isso, porque um sujeito é pego na trama de suas combinatórias, esses objetos não se vêem mais senão manipulados em suas diferenças.

A letra circunscreve o texto no plano da significância e, para isso, deixa sobrar a verdade de um ponto opaco do real. Ela representa o sujeito no seu nascedouro, ou seja, no momento de sua identificação simbólica, e, porque traz a memória de um gozo perdido, inaugura a dinâmica do inconsciente, cuja marca é o processo de repetição. Já o significante é uma invenção a partir de algo que se faz presente na letra, e isso se dá por causa de um ponto em que alguma coisa, à revelia do sujeito, é remanejada pelos efeitos de retroação. Não há, portanto, um primeiro nível para depois haver um segundo, pois o suposto primeiro tempo faz, retroativamente, parte do segundo, isto é, a letra que retorna não retorna como ela foi recalcada, mas sim trazendo o traço desse recalcamento.

A letra não está toda no significante, pois ela se serve dele para constituí-lo. Porque sua estrutura apresenta dupla face, contraditória e com duplo valor, ela permanece inclusa na fala, fazendo traço do sujeito, ou seja, no gozo do som não se tem puro gozo e, sim, gozo interditado. É por isso que se pode dizer que a escrita é o próprio corte, ou seja, ela é um sulco que a linguagem cava no real do ser falante, que, a partir de determinado momento de sua constituição como sujeito, será convocado a inverter a escrita do signo para a leitura do signo, passando-se assim a tomar os objetos não mais em sua coisidade, mas apagados em certo funcionamento gramatical. A partir dessa inversão, o sujeito, já constituído pelas marcas do significante como corpo pulsional, poderá convencionalmente fazer uso da escrita, o que se dará imaginariamente a partir do suporte fonético.

Para se pensar a relação entre a criança, o professor e o texto, um ponto interessante que se pode destacar é a questão do endereçamento. Na frase "Leia este texto para mim!", visivelmente ele comparece. Em primeiro lugar, o que se vê aí senão o desejo do Outro representado pelo desejo do "auditor" (professor, mãe ou algum outro adulto)? Outro ponto que chama a atenção é que esse imperativo deverá ser atendido com uma leitura em voz alta. Do mesmo modo que ocorreu com aquela criança que foi convocada a ler como D o vazio de uma figura geométrica desenhada na régua, aqui o aprendiz-leitor vai-se perder nas imagens das letras, que precisam ser apagadas numa fonemática para que as palavras possam articular-se.

Quando ainda menor, era o olhar da mãe que constituía essa escansão, presente sobre fundo de ausência e ausente sobre fundo de presença; era o olhar da mãe que portava o desejo, constituído devido ao intervalo entre o corpo da criança e a sua criança desejada, entre o corpo que é olhado e o desejo imaginário essencialmente fálico de quem o olha. Agora, no momento dessa passagem do imaginário ao simbólico, ou então, do grafismo situado no corpo do Outro ao grafismo que recorta o próprio corpo, essa criança se vê convocada a inverter essa demanda e a assumi-la como seu desejo. Ao enfrentar esse forçamento corporal da escrita, o endereçamento também se revira: "Deixe-me ler isso para você!", "Olhe o que eu escrevi para você!"

O texto, que não é um objeto como os demais e, sim, uma instância cavada num embate difícil entre um eu e o Outro, um simbólico recortado de falhas, é, ao mesmo tempo, castração e liberdade. Uma vez que o professor se autoriza para uma criança, tomando como referência essa instância simbólica, essa esfera legal, o que ele faz, mais do que propriamente ensinar, é endereçar a ela o seu desejo, desejo de que ela deseje aprender. Suas exigências com relação à leitura, à produção textual, às correções gramaticais e aos demais jogos lingüísticos de nada adiantarão se não forem tomadas como questões pelo próprio sujeito, que, embora tenha como única opção dirigir-se a um saber que vem do Outro, só poderá deslanchar-se se o tomar em seu percurso singular. De fato, algo lhe é demandado, mas essa demanda tem de ser interpretada. Aí, sim, haverá a possibilidade de nascer um estilo, isto é, a marca de um sujeito no texto.

O que se põe em questão, portanto, pensando-se novamente na topologia, é o surgimento de um novo campo, o do sujeito, que se delineia a partir de sua dependência ao campo do Outro. Com Freud (1995/2003), pode-se falar que, nessa dialética, articulam-se, logicamente, estes três tempos do sujeito: um, ativo, em que ele vai em direção a um objeto externo; outro, reflexivo, em que ele toma como objeto uma parte do seu próprio corpo; e um terceiro, passivo, em que ele se fará objeto para um novo sujeito, ou seja, aquele nascido do enlaçamento pulsional, cuja função de artifício o fará tomar, noutro tempo, o que é próprio de um campo como sendo do outro. No movimento dessas três vozes é que poderá constituir-se uma singularidade, aquilo que o sujeito é, diferentemente de todos os outros, sua forma singular de driblar a censura que recai sobre o seu fantasma (Cf. SCOTTI, 2006, p. 161).

O que se tem, portanto, quando se pretende relacionar essas três instâncias ou posições - a criança, o professor e o texto - é que, conforme se tentou dizer, esses três pontos se ressaltam: a constituição de um corpo pulsional (corpolinguagem), o processo de causação de um sujeito do desejo e, por fim, o modo peculiar de esse sujeito situar-se e movimentar-se na estrutura simbólica. Em se tratando de escola, põe-se também em questão um saber suposto, tanto como autoridade no professor quanto como antecipação na criança. Suposição que se põe, ao mesmo tempo, na dependência do Outro e da construção a que cada sujeito se vê convocado, na medida em que escolhe oferecer-se no lugar de uma falta nesse Outro. Se, por um lado, esse saber é dependente de uma lei e do desejo que essa lei instaura, por outro, o desejo é indeterminado na linguagem e, por isso, precisa ser tomado como sabido por um sujeito.

O professor, portanto, é sujeito suposto saber, uma autoridade para a criança, e seu discurso fará sentir seus efeitos, ao passo que, numa insistência cotidiana, ele sustente junto a essa criança uma construção imaginária. Trata-se, na verdade, de sustentar a transferência. É lendo e escrevendo para ela e junto com ela, convocando-a a ler e a escrever, interpretando e interrogando sobre o que ela escreveu, enfim, é estruturando um saber que, ao se pôr em movimento, rompe com essa própria estrutura (cf. DE LEMOS, 1998) que ele desempenhará seu papel de inserir a criança no movimento lingüístico-discursivo para, a partir daí, ela talvez escrever o seu estilo.

NOTAS e REFERÊNCIAS

Educação em Revista - UFMG

Os maiores mitos sobre o cérebro dos adolescentes

Nas últimas duas décadas, os cientistas conseguiram mapear as mudanças neurais verificadas ao longo desse período central do desenvolvimento...