sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Todas as crianças são inteligentes e dotadas de potenciais únicos


Thomas Armstrong
Todas as crianças são inteligentes e dotadas de potenciais únicos, que devem ser reconhecidos, nutridos e celebrados. Esse conceito tem sido central no trabalho do professor e pesquisador norte-americano Thomas Armstrong, autor dos livros As melhores escolas: a prática educacional orientada pelo desenvolvimento humano e Inteligências múltiplas na sala de aula, best-sellers publicados no Brasil pela Artmed. Polêmico, Armstrong tem defendido que a existência do transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um mito e tem ampliado o foco de seus estudos sobre a inteligência a partir de um paradigma holístico. Atualmente, dedica-se a escrever um livro sobre neurodiversidade, com base na idéia de que o desenvolvimento neurológico atípico é uma diferença humana normal. Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Armstrong fala sobre o futuro e o presente da educação infantil e sobre como é possível contribuir para que as crianças tenham um desenvolvimento mais pleno e saudável. "Precisamos parar nossas práticas de estreitamento e criar centros onde a imaginação e as idéias dos alunos possam manifestar-se plenamente em palavras, desenhos, música, dança, invenções e outras formas de expressão", afirma.

Os discursos sobre o que é uma educação de qualidade centram-se principalmente nos resultados acadêmicos. O que o senhor pensa sobre as políticas avaliativas e a maneira como elas encaminham as políticas educacionais e as práticas educacionais?

Tem havido uma ênfase excessiva ao que chamo de "discurso do êxito acadêmico" em meu livro As melhores escolas. Os educadores passam tempo demais falando sobre responsabilidade, escores em provas e padrões. Precisamos dedicar mais tempo ao "discurso do desenvolvimento humano", o qual nos envolve na reflexão sobre cada criança e suas necessidades humanas, sobre como podemos ajudá-la a se desenvolver cognitiva, emocional e espiritualmente, e não apenas academicamente.

O governo federal brasileiro, além das avaliações educacionais tradicionais, criou este ano uma prova a ser aplicada às crianças de 6 e 7 anos para verificar seu nível de conhecimento. Qual é a sua opinião sobre a aplicação de provas a crianças pequenas?

Não creio que provas padronizadas sejam uma fonte útil de informações sobre crianças pequenas. Elas criam resultados artificiais que adquirem vida própria. Precisamos dedicar mais tempo à observação das crianças e ao modo como elas aprendem, documentando nossas observações e discutindo de que forma podemos ajudá-las a realizar seu pleno potencial. Resultados em provas constituem um desvio do principal caminho para a aprendizagem.

Em As melhores escolas, o senhor defende a idéia de que cada nível de ensino escolar diferencia-se do outro e tem um objetivo central bastante específico. Qual a centralidade da educação infantil? Em que aspectos ela difere do ensino dos primeiros anos do fundamental?

Acredito que crianças pequenas precisam brincar. Nessa tenra idade, brincar significa aprender. Não deveríamos tentar fazer do brincar algo "educacional", mas sim oferecer às crianças uma ampla gama de materiais para brincar (aparelhos, materiais artísticos, marionetes, blocos, etc.) e criar um espaço seguro para que elas possam explorar sua imaginação sem preocupação. Quando chegam aos 6 ou 7 anos, o que se torna mais importante é entender como o mundo funciona - nessa fase, as crianças estão afastando-se de sua existência protegida com suas famílias em direção ao mundo social mais amplo e querem saber quais são as regras e como tudo funciona. Os educadores devem estar ali para ajudá-las a aprender por que o céu é azul, onde fica a Índia, como funciona um motor e tudo o mais que a curiosidade delas exigir.

Tendo em vista que no Brasil as escolas de educação infantil iniciam o trabalho pedagógico com crianças a partir dos 4 meses, qual seria a centralidade do trabalho com bebês?

Com bebês, é importante criar um ambiente que seja tranqüilo e que envolva o toque, o contato físico, objetos interessantes para olhar e manipular. A questão central é as-segurar que a relação entre mãe e criança seja carinhosa, positiva e aprovativa.

Atualmente, muitas escolas usam o computador com todas as crianças. Qual a sua posição sobre o uso das novas tecnologias da informação e da comunicação na educação de crianças pequenas?

Acredito que há uma excessiva ênfase na tec-nologia. Crianças pequenas deveriam estar ex-plorando o mundo real, não um mundo virtual. Elas deveriam estar interagindo com coisas reais, não com telas de computador. Isso cria uma base sólida para o seu posterior pensamento − e, na verdade, o brincar é mais efetivo como preparação para os desafios do século XXI.

Como o senhor constrói as evidências a partir das quais avalia as escolas que têm boas práticas?

Por meio de documentação - fotografias, vídeos, diários mantidos pelos professores, amostras de trabalhos infantis - de crianças envolvidas em aprendizagem real, e não bobagens em lápis e papel.

O que a escola pode ou deve oferecer para formar crianças que gostem de aprender?

As escolas precisam ser reconceituadas como "instituições de curiosidade" e fazer de sua missão central a necessidade de despertar em cada criança seu inato assombro pelo mundo. As crianças são geneticamente aparelhadas para aprender uma quantidade incrível de coisas, mas nós de fato as deseducamos nas escolas ao estreitarmos os objetivos a testes e tarefas em lápis e papel. Precisamos parar nossas práticas de estreitamento e criar centros onde a imaginação e as idéias dos alunos possam manifestar-se plenamente em palavras, desenhos, música, dança, invenções e outras formas de expressão.

Como a educação do século XXI deve ser diferenciada daquela realizada no século XX?

As coisas são mais complexas e andam mais rápido na atualidade. Precisamos ajudar as crianças a aprender a filtrar o "lixo" que nos bombardeia constantemente nos meios de comunicação de massa e a ser capazes de localizar as informações e inspiração de que precisam para se desenvolver como aprendizes.

Fale um pouco sobre suas áreas de interesse atuais e os projetos em que está envolvido.

Estou escrevendo um livro sobre neurodiversidade. A idéia é que devemos aplicar o mesmo tipo de raciocínio às diferenças cerebrais que aplicamos à biodiversidade ou à diversidade cultural. Não dizemos a respeito de uma pessoa que tem uma cor de pele diferente da nossa que ela têm um "transtorno de déficit de pigmento". Isso seria racismo. Contudo, rotulamos crianças que têm formas diferentes de lidar com o mundo de portadoras do "transtorno do déficit de atenção". Isso está errado. Precisamos apreciar todas as flores no prado!

Revista Patio

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