sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Aprender a perder


Aprender a perder
Como dizia o poeta, ela chega para todo mundo, só que ninguém gosta de ir na frente. E encarar com naturalidade a morte, nossa única certeza, pode ser uma forma de aproveitar melhor a vida

Por: Evelyn Pedrozo

Publicado em 01/05/2009

Eliane leva flores duas vezes por semana ao canteiro onde a família depositou as cinzas do pai (Foto: Mauricio Morais)
O filósofo Martin Heidgger dizia que, para a pessoa se apropriar plenamente de sua existência, é necessário antes se apropriar de sua morte, porque essa é uma possibilidade presente em nossa vida o tempo todo. É a tal história: para morrer basta estar vivo. É tamanho o medo de enfrentar a morte, e a forma como ela chegará, que as pessoas passam pela vida sem se preparar para seu dia final. Raramente expressam desejos sobre funeral, cremação, doação de órgãos, ou mesmo medidas práticas, como testamentos, indicação de contas bancárias e seguros, providências que abrandam as dificuldades para quem fica e já tem de lidar com os piores dos problemas: o luto, a perda, a saudade.

Para o escritor e teólogo Rubem Alves, de 75 anos, aquele que não escuta o que a morte tem a dizer diariamente está condenado a ser um tolo a vida inteira. “Penso muito na morte, mas isso não me paralisa porque quando se consegue chamar o fantasma pelo nome ele perde o poder.”

A tanatologia, ciência que estuda a morte, prepara profissionais da saúde para ajudar o doente a ter um final tranquilo e também apoia os parentes nos processos de luto. A proposta é que as pessoas consigam enfrentar todo tipo de perda, seja um membro, um órgão, a saúde, o emprego, uma separação. “É preciso desapegar, aprender a perder”, diz a psicóloga Júnia de Paula Drumond, diretora da Associação Brasileira de Tanatologia.

Essa prática é adotada no Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM), no Instituto de Psicologia da USP-SP, que dá formação e subsídio para profissionais de saúde e de educação, que têm igualmente de se defrontar com o tema. No LEM também é realizado atendimento ao público envolvido com as questões da morte.

Com esse amparo humanizado o professor Janes Jorge e sua família superaram um obstáculo. “Meu tio faleceu no Instituto do Coração de São Paulo. Comunicar para minha tia, com sérios problemas de coração, era uma situação difícil, mas foi amenizada pelo apoio dos psicólogos do Instituto. Espero que, em breve, todos os hospitais públicos de São Paulo e do Brasil possam contar com esse serviço essencial”, diz Janes. Em algumas unidades de terapia intensiva profissionais já trabalham com esse foco. Médicos como Vasco Moscovici, do Hospital do Câncer de São Paulo, são referência para os pacientes e seus familiares por estar presentes na UTI toda a semana, em horários fixos. Também foi positiva a ampliação do horário de visita. “Humanizar a UTI facilita o processo de luto antecipado da família”, defende Moscovici.

Apesar de aceitar a morte como um processo natural, o médico se angustia quando não consegue ajudar um paciente terminal. E não é raro deparar com famílias que não aceitam acabar com o prolongamento artificial da vida (distanásia) por conta de processos particulares de culpa e apego. “Nesse sentido, há poucos conflitos e, quando surgem, a família é respeitada e são mantidas as medidas de prolongamento”, afirma Moscovici.

Desapego e humanização
E como se pode educar um indivíduo com uma visão mais realista sobre a morte? “Se a criança tem dúvida sobre a doença ou morte de alguém é preciso introduzi-la no problema, chorar junto, conversar, discutir a questão do apego a coisas, pessoas, cargos, títulos.” Para Maria Julia Kovács, coordenadora do LEM, a grande arte é escolher as palavras para explicar o fato e sua irreversibilidade. A dona de casa Zulmira da Silva Fernandes, de 58 anos, fala da morte com naturalidade. Perdeu, no mesmo ano, uma filha de 24 anos, assassinada, e um de 21, em acidente de moto. “Eu pedia a Deus para tirar minha filha do mar de lama em que vivia, e ele resolveu do jeito dele”, conta, conformada. Quanto ao filho, diz ter consciência de que Deus apenas empresta os filhos. “Eu sempre digo: valeu, meu Deus, pelos 21 anos que vivi com ele.” Mesmo sendo evangélica, Zulmira acredita na vida após a morte e que ainda vai reencontrar o filho. Mas, depois de passar por essas situações, teme pela morte do caçula. “Agora não sei como eu reagiria.”

A proposta de humanização no atendimento aos enlutados também já chegou ao Serviço Funerário de São Paulo. O superintendente da autarquia, Celso Jorge Caldeira, observa que é muito triste ver uma família que não pode dar um funeral digno ao morto. “Além da gratuidade para os que não podem pagar, criamos a possibilidade de os custos serem financiados e pagos com cartão de crédito”, explica.

“Nos cemitérios, é preciso haver boa estrutura física, acomodações dignas, banheiro limpo, água, tudo para as pessoas só terem de lidar com a dor”, afirma a psicóloga Ana Lúcia Naletto, do Centro Maiêutica de Psicologia Aplicada. Segundo ela, há poucos cemitérios no Brasil com essa postura porque muitos ainda são encarados como fonte de renda. No Centro Maiêutica, os trabalhadores recebem amparo psicológico tanto para se preparar para o atendimento quanto para superar as dificuldades de um trabalho tão árduo.

A psicanalista Miriam Chnaiderman retratou o cotidiano das pessoas que trabalham em contato com os mortos em seu documentário Artesãos da Morte. De acordo com Miriam, o filme, de 18 minutos, faz parte do movimento que humanizou o atendimento nos cemitérios e traz depoimentos chocantes e preconceituosos contra os trabalhadores.
No Cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, na zona leste paulistana, o sepultador Adenilson Souza Costa, de 36 anos, garante que tem preparo psicológico. “Nos primeiros dias era triste demais. Hoje, quando jogo a última pá de terra sobre o caixão, sinto que a família fica aliviada.” Em 14 anos de trabalho, ele chorou quatro vezes por ter se rendido ao sofrimento dos familiares e à brutalidade das mortes.

Optar pela cremação do corpo de um parente é uma decisão dura quando a pessoa não expressa essa vontade. Daí a importância de enfrentar o assunto ao longo da vida.

“Cremar um corpo não encerra o vínculo com o ente querido e é um procedimento cada vez mais comum”, diz a psicóloga Ana Lúcia. A dona de casa Eliane Coronado Piccoli conta que sua família decidiu repentinamente cremar o corpo do pai, Manoel Coronado. “Já se vão três anos e eu venho duas vezes por semana colocar flores nesse canteiro onde depositei as cinzas dele.”

Renascimento
Quando a pessoa se recupera de uma doença grave, ela reelabora a relação com a vida. Ao descobrir um câncer de mama, a jornalista Luciene Scomparim Dressano, de 39 anos, não teve vontade de lutar: “Eu só queria morrer. Mas minha natureza falou mais alto e deu minha sentença de vida. Recolher os cacos, organizar as ideias e simplesmente aceitar foi a tarefa mais intensa de minha existência.” Luciene escreveu o livro Histórias de cada um... No Meio do Rio e hoje desenvolve o projeto Livro nos Hospitais, com a proposta de alertar para o diagnóstico precoce na luta contra o câncer. “Quando a pessoa esbarra com a morte, passa a querer fazer mais e melhor, vivendo o presente. É a ideia do carpe diem (aproveite o dia)”, explica a psicóloga Júnia Drumond.

Foi o que aconteceu com a funcionária pública Zoraide de Araújo Matos, de 65 anos. Há três anos ela sofreu um aneurisma cerebral e ficou em coma durante 19 dias. Nesse tempo, teve vários sonhos que pareciam reais e sentiu a presença da mãe, já falecida, lhe confortando. Zoraide acredita que sua fé espírita tenha criado forças para atravessar esse período difícil. “Agora aproveito mais a vida. Dou mais valor a tudo. Eu me amo muito e preciso fazer jus à nova oportunidade que Deus me deu.”

As crenças religiosas também carregam doses diferentes de conforto ou de interpretações relacionadas à morte e até mesmo ao que ocorre depois dela. No cristianismo, a morte é, antes, uma forma de sugerir um padrão de condutas durante a vida, já que envolve o temor em relação ao inferno ou a busca do céu, lugares para os quais as almas vão de acordo com seu comportamento em vida. Para os católicos existe ainda o purgatório, estágio intermediário onde se daria uma espécie de julgamento. O budismo diz que todos os seres estão em um ciclo contínuo de vida, morte e renascimento, por um número ilimitado de vidas, até que finalmente alcancem a iluminação.

Os hinduístas acreditam na reencarnação dependendo do karma nas vidas passadas. Para o hinduísmo, o universo é feito de água, ar, terra, fogo e éter, assim como o corpo humano. Ao se queimar o corpo após a morte, tudo volta para seu lugar. Para o espiritismo, além do mundo corporal, habitação dos espíritos encarnados, existe o mundo espiritual, morada dos desencarnados. Os espíritos reencarnam tantas vezes quantas forem necessárias ao próprio aprimoramento.

No pensamento judaico, vida e morte formam um todo, sendo aspectos diferentes da mesma realidade, complementares uma da outra. Segundo o islamismo, há uma vida após a morte, uma vida ideal no paraíso para muçulmanos fiéis ou no inferno para os que não o são.

Arte e morte
A diretora Cibele Forjaz, da Companhia Livre de Teatro, trabalha com o tema morte desde 2006. Agora em maio estreia o espetáculo Raptada pelo Raio – Um Mito de um Povo. “Escolhemos esse tema pela falta de compreensão sobre o fato. Se não aceita a morte, a pessoa perde a qualidade de vida. Hoje as pessoas substituem tudo pelo consumo, seja a morte, a tristeza, o que for”, explica. Cibele lembra as tragédias gregas, em que a morte era o limite fundamental: “O herói trágico é forte e contraditório porque é mortal. A vida é pensada a partir do limite da morte”. E menciona o pensamento do cineasta russo Andrei Tarkovsky. “Ele dizia que a função específica da arte não é expor ideias ou servir de exemplo. Seu objetivo é preparar a pessoa para a morte, arar e cultivar sua alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem”, observa a diretora, também professora da Escola de Comunicação e Artes da USP.

O tema sempre foi igualmente explorado pela música e pela poesia brasileira. Em Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão – Uma Biografia, José Castello registra que o que o torna um grande poeta é a percepção do lado obscuro do homem, a coragem de enfrentá-lo. Vinicius deixou A Morte em sua discografia: “A morte vem de longe/ do fundo dos céus/ vem para os meus olhos/ virá para os teus.../ chega impressentida/ nunca inesperada/ ela que é na vida/ a grande esperada/ a desesperada/ do amor fratricida/ dos homens/ ai! dos homens/ que inalam a morte/ por medo da vida”.

Direito de partir

Tal qual a discussão da distanásia é a polêmica sobre a eutanásia, quando se lança mão de recursos para provocar a morte. Em países como Holanda e Bélgica, ela é permitida. No Brasil, é considerada homicídio. O caso mais recente com repercussão internacional foi o de Eluana Englaro, morta aos 38 anos em fevereiro passado, na Itália, após 17 anos em estado vegetativo persistente. O pai, Beppino Englaro, enfrentou uma batalha judicial de uma década para que as sondas que a alimentavam e hidratavam fossem retiradas – segundo prognóstico médico, esse estado de saúde era irreversível. Por fim, uma decisão judicial garantiu que ela deixasse de ser mantida viva artificialmente. Foi realizada a ortotanásia, um tipo de eutanásia passiva, com a suspensão de medicamentos e alimentação.

Isso fomentou na sociedade italiana a discussão sobre a eutanásia. O caso ganhou destaque porque, em estado vegetativo, ela não podia dizer se gostaria ou não de permanecer viva por meio de sondas. “Se a pessoa está em fase terminal, não vale mantê-la ligada a esse mundo só para fazer crer que ela está viva. Em algum momento é preciso dizer que é chegada a hora de partir”, finaliza a psicóloga e tanatóloga Júnia de Paula Drumond.

Revista Brasil

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