quarta-feira, 9 de março de 2011

Estrangeirismo às avessas

Termos brasileiros de uso corriqueiro são tratados nos EUA como signos de uma cultura difícil de digerir

Edgard Murano

Ação policial em favela carioca: foco na linguagem para abordar ponto fraco do Rio de Janeiro
A mídia norte-americana bem que tentou truncar a candidatura do Rio a sede das Olimpíadas em 2016. Não por acaso, dias antes de o comitê olímpico anunciar a escolha da cidade, a conceituada revista The New Yorker publicara reportagem de fôlego sobre o tráfico nas favelas cariocas.

O texto estava na gaveta da revista havia pelo menos quatro meses. Além do senso de oportunidade em alfinetar a concorrente com sua mais gritante debilidade, a matéria Gangland ("terra das gangues") virou exemplo de deferência que os brasileiros se acostumaram a fazer ao idioma dos outros. O comum é vermos textos brasileiros inundados de estrangeirismos, alguns em alusão a conceitos tão específicos que nem sempre conseguimos tradução aceitável, de élan a dèjá vu, de round a factoring (empréstimo de dinheiro usando promissórias e cheques como garantia).

Salta aos olhos a opção do jornalista Jon Lee Anderson por manter sem versão em inglês termos de língua portuguesa, como "traficantes", "cachaça", "feijoada" e "evangélica". Vocábulos que consideramos de uso cotidiano, tão banais que nem merecem atenção especial, são tratados como signos de uma cultura difícil de ser digerida por outro povo.

É evidente que o recurso tem a função de acentuar o exotismo de cada expressão aos olhos estrangeiros. Mas o texto se tornou, involuntariamente, uma compilação de termos nossos que causam estranhamento à cultura anglo-saxã.

- Preservar os sons originais de uma língua é vital à compreensão de uma parcela do sentido das palavras - afirma o escritor inglês Adam Jacot de Boinod.

No livro Tingo (Conrad, 2008), Boinod popularizou o "turismo linguístico" ao compilar palavras de difícil tradução. Mas diferentemente de Bonoid, em Anderson as palavras preservadas estão a serviço de um estilo. Ele usa, por exemplo, "maconha", para o qual há sinônimos em inglês, mas que foi mantido intacto por expressar a riqueza sonora da variante brasileira.

Gíria nacional
O texto é generoso em exemplos, a maioria seguida de explicações ao pé da letra no idioma de Obama. A expressão "boca de fumo" é vertida como mouth of smoke e descrita como "gíria brasileira para o lugar onde drogas são vendidas". E letras de funk são traduzidas de forma literal para realçar o conteúdo erótico e violento. Há as adaptações de contexto (o traficante Cebolinha vira Little Onion, para situar o leitor americano), e de rodapés explicativos (o "PQD" de Marcelo PQD é definido como abreviatura de "paraquedista", paratrooper). As adaptações culturais, no entanto, predominam nesse estrangeirismo às avessas.

Se "maluco", "baile funk" e "dendê" sinalizam o que há de peculiar no universo carioca, gírias pinçadas ao acaso são levadas a sério, como "bandidos", que se traduz por "importadores de drogas no atacado". Como essa, outras palavras podem ter assumido novos significados nas favelas a ponto de chamar a atenção americana, como "asfalto" (todo lugar fora de uma favela, posto que ela é ocupação ilegal, em geral sem pavimentação urbana), "dono" (chefe do comando de várias favelas), "subdelegado" ou "subgerente" (auxiliar do chefe de uma favela) e "açougueiro" (assassino sanguinário).
O apuro linguístico do texto não vence o fosso que nos separa. Mas mostra que palavras nossas ecoam mundo afora, por ouvidos alheios à nossa realidade.

Favela da linguagem

Como os norte-americanos entendem palavras usadas nos morros cariocas
Termo OriginalVersão em InglêsSignificado Norte-Americano
Boca de FumoMouth of smokeGíria brasileira para o lugar onde se vendem drogas.
MaconhaWeed (erva)Erva.
Gerente GeralGeneral managerFavela chief (chefe da favela).
DonosOwners (proprietários)Top gang bosses (chefões do comando de muitas gangues).
Macumba-Religião afro-derivada, junto com a Umbanda e o Candomblé.
MalucoManiac (maníaco)"Louco". A conotação dada por um entrevistado na reportagem, "ele é um maluco", é positiva (de "ele é um incorrigível").
Dendê-Equivalente português para o óleo de dendê africano.
Feijoada-Prato tradicional brasileiro com carne de porco e feijão preto.

Um comentário:

  1. O que entende o americano de língua pátria, língua mãe ? mal entende o seu inglês. Recebi, noutro dia, um e-mail mostrando os livros didáticos de geografia adotados nos EU, para as crianças brasileiras que lá moram: absurdamente cheio de erros.

    Gostei, do estrangeirismo "às avessas",dá vontade de dizer "bem feito", quem manda a brasileirada batizar tudo aqui em inglês?
    Falta amor à língua, nem se preza, nem se preserva. A língua é dinâmica, se sabe, vai se enriquecendo, mas se permitir que a descarcterize é lamentável. O estrageirismo pode coexistir com nossa língua, mas de maneira mais respeitosa, mais "suave"...

    Boas matérias, professor!
    Um abraço!

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