quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O problema do mundo sem bullying



A palavra bullying faz qualquer pai se arrepiar de medo. Mas uma linha de especialistas diz que não há o que temer: crianças e adolescentes precisam passar por apuros, e sozinhos. Do contrário, poderão cair numa enrascada ainda pior 
Bruno Romani



Era coisa de criança. Colar chiclete na cadeira dos outros, fazer cuecão no nerd da turma, rir do cabelo cortado do colega. Mas agora brincadeiras como essas ganharam um nome sério: bullying. E passaram a ser resolvidas por adultos: pais, mestres e até, em alguns casos, polícia.

O termo bullying significa a prática de agredir alguém fisicamente, verbalmente, até por atitudes (como caretas). Mas tem sido usado como um alarme, um chamado para que adultos interfiram no relacionamento de seus filhos e alunos. Uma nova linha de pesquisadores, no entanto, vem defendendo que o bullying não é necessariamente um problema para gente grande. Segundo eles, as picuinhas entre crianças e adolescentes devem ser resolvidas pelos próprios envolvidos. Sem adultos como juízes.

Esses especialistas não dizem que crianças devem trocar socos na saída da escola. Nem que apanhar faz bem. Afirmam, sim, que disputar é como um rito, pelo qual passamos no início da vida para saber enfrentar as encrencas maiores do futuro. Afinal, fazemos isso desde os tempos mais remotos. "Em boa parte da história da humanidade a agressão foi um traço adaptativo", escreve Monica J. Harris, professora de psicologia da Universidade do Kentucky, em Bullying, Rejection and Peer Victimization (sem tradução em português). No passado, os homens disputavam comida para garantir a sobrevivência. O conflito definia quem ia perpetuar a espécie e quem ficaria para trás. "Aqueles humanos mais agressivos em termos de buscar as coisas e proteger seus recursos e parentes tinham mais chances de sobreviver e reproduzir", afirma Monica. Enquanto os homens teriam aprendido a usar a força física, as mulheres desenvolveram habilidades mais sutis, como agressões verbais - fofocas e rumores.

Se antes essas táticas garantiam a sobrevivência, hoje nos ajudam no convívio social. Quando as crianças deixam o conforto do lar para frequentar o colégio, descobrem que nem sempre suas vontades são atendidas. E que precisam negociar o tempo todo, como por um brinquedo ou por um lugar para sentar. Sem passar por isso, será mais difícil lidar com um desafeto no futuro, como um chefe, o síndico do prédio ou aquele amigo que empresta dinheiro e nunca paga.

O resultado da superação desses primeiros embates aparece cedo. Um estudo com 2 mil crianças com idade de 11 e 12 anos feito pela Universidade da Califórnia em Los Angeles mostrou que aquelas que tinham algum rival na turma da escola eram vistas como mais maduras pelos professores. As meninas que reagiam a alguma antipatia foram consideradas donas de maior competência social. Os meninos com inimizades foram classificados como alunos com melhor comportamento. Nesses casos - que não envolviam agressões físicas, segundo a pesquisa -, as crianças não só aprenderam a reagir a menosprezo, pressão e sarcasmo como ainda ganharam status no colégio. "Tanto para meninos quanto para meninas, ter uma antipatia mútua com alguém de outro sexo é associado a popularidade", escreve a pesquisadora e autora do estudo Melissa Witkow, hoje professora de psicologia da Universidade Willamette, nos EUA.


Medo: o rival dos pais

A recente onda de crimes ligados a bullying, no entanto, criou o temor de que crianças e adolescentes talvez não deem conta da briga sozinhos. A comprovação disso estaria em casos como o de Wellington Menezes de Oliveira, que guardou por anos o rancor das humilhações que passou em um colégio em Realengo, no Rio de Janeiro - até voltar lá, em abril, e disparar contra alunos, deixando 13 mortos. O resultado de histórias assim foi uma pressão de pais, mestres e legisladores para que o comportamento das crianças seja mais controlado. E para que até a polícia seja chamada para impedir as agressões. Em junho, o Senado brasileiro aprovou um projeto de lei determinando que as escolas inibam atitudes e situações que possam gerar bullying (o projeto segue para a Câmara). Em maio, um americano de 17 anos, que não teve o nome divulgado pela polícia, foi preso por dar notas às colegas de turma - altas para as mais bonitas, baixas para as mais feias - e publicar a avaliação no Facebook.

Essa reação é chamada de superproteção pelos pesquisadores que defendem a não intervenção dos adultos nas disputas entre crianças e adolescentes. "É como se o mundo inteiro estivesse sofrendo de amnésia. Os adultos se esqueceram de que passaram pelas mesmas disputas no colégio", diz Helen Guldberg, psicóloga e professora de desenvolvimento infantil na Open University, Inglaterra. Segundo Helen, estamos julgando as atitudes das crianças com base nos valores de adultos. "O comportamento das crianças - as palavras que usam, o jeito brusco com que, por exemplo, excluem outros de suas brincadeiras - está sendo julgado com a seriedade com que encararíamos o relacionamento entre adultos em um escritório", afirma.

Essa linha de não intervenção defendida por gente como Helen Guldberg é polêmica. Para os críticos, desavenças simples podem ser o início de conflitos mais graves - eventos que poderão deixar marcas físicas e psicológicas. "O bullying é um problema sério que precisa ser combatido", diz Aramis Lopes Neto, pediatra e estudioso do tema. Mas em um ponto as duas linhas concordam: quando a briga se repete e se prolonga por um tempo, e só um lado sai sempre perdendo, é porque a criança já está derrotada. E é hora de os adultos entrarem em ação.

Prestar atenção ao comportamento da criança ajuda a descobrir se é o caso de intervir. Mudanças repentinas, como queda no desempenho escolar ou aumento da agressividade, são sinais importantes. Se o problema não for resolvido, alguns efeitos podem se estender. "Muitos adultos trazem da infância dificuldades de relacionamento social e baixa autoestima", afirma Lopes Neto. Isso atrapalharia a vida profissional e pessoal, como a capacidade de manter relacionamentos estáveis. "Há vítimas que não se desenvolvem profissionalmente por medo de se expor e se tornar alvo de bullying no trabalho", diz o médico. É como se elas não conseguissem nunca sair da zona de conforto. Exatamente o que pode acontecer com quem passa a infância na sombra dos pais, sem enfrentar uma briga sozinho.


Como lidar

Se os pais sentem que a criança não está conseguindo resolver suas disputas sozinha, talvez seja a hora de ajudar. "A família deve mostrar que está atenta às agressões", afirma o pediatra Aramis Lopes Neto. E pedir a colaboração da escola. Programas que incluem esportes, artes e brincadeiras ajudam a inserir a criança no círculo dos colegas. "Melhorar as relações no colégio significa para as crianças um aumento de confiança e o sentimento de que ela é aceita", diz Dan Olweus, professor de psicologia da Universidade da Noruega, no livro Bullying at School.


Para saber mais

Bullying, Rejection and Peer Victimization

Monica J. Harris, 2009, Springer Publishing Company


Bullying Escolar: Perguntas & Respostas

Cleo Fante e José Augusto Pedra, 2011, Artmed Editora
 Revista Superinteressante

E se a gente usasse 100% do cérebro?

 
O que aconteceria se a gente usasse 100% do cérebro? 
 
Bruna Maia e Ivan Martínez



Na verdade, a gente até usa. Só que não 100% dos 100%. Um ato tão simples quanto conversar com o colega ao lado pode ativar todas as áreas do cérebro. Mas só uma parte do potencial de cada uma. Se todas as áreas funcionassem em potência máxima, e ao mesmo tempo, teríamos uma capacidade de digerir informações, sensações e pensamentos muito maior.

É como um computador: usando todos os seus recursos, o cérebro teria muito mais capacidade de processamento. Não ganharíamos superpoderes. Mas quebrar códigos, tirar conclusões e analisar situações seriam tarefas muito mais fáceis. Como não existe registro de homem que tenha vivido com essa supermáquina na cabeça, a referência mais próxima são os superdotados, que têm maior capacidade de raciocínio. "Eles relacionam informações e formam conexões com mais facilidade", diz a psicóloga Cristiane Cruz, presidente da Mensa Brasil, associação que busca reunir os 2% mais inteligentes do país. Ou seja, seríamos todos superdotados - e ainda mais poderosos.

Ainda assim, ninguém seria bom em absolutamente tudo. Alguns teriam facilidade para música, outros para física. "Mesmo mais inteligentes, continuaríamos sendo diferentes um do outro desde o nascimento, porque os genes de cada um interferem na inteligência", diz Ailton Amélio, professor de psicologia da USP. Há algo, no entanto, que seria comum a todos: nosso cérebro ficaria cansado de tanto trabalho. E, exatamente como um computador, daria pau de vez em quando, nos deixando com uma bela dor de cabeça.


De pirar o cabeção

A vida com um cérebro em modo máximo


Deu branco

Áreas estimuladas do cérebro gastam 1% mais energia do que as em repouso. Esse trabalho extra resultaria em uma canseira mental. E o cérebro pifaria vez ou outra, nos dando dor de cabeça e brancos na memória.


Asas à imaginação

A criatividade correria solta e ninguém ficaria preso a uma única área. Seríamos como Leonardo da Vinci: ele pintou quadros, estudou o corpo e inventou geringonças. A inovação caminharia mais rápido.


Bipolares

O tamanho de certas áreas do cérebro está ligado a traços da personalidade. Intensificar a atividade delas seria exacerbar esses traços. Tímidos nem sairiam de casa. Extrovertidos seriam uns palhaços.


Razão e insensibilidade

Usaríamos a lógica para calcular todas as consequências de nossos atos. E as consequências das consequências. Uma pesquisa com superdotados mostrou que 87,5% dos participantes eram perfeccionistas. Como eles, sofreríamos buscando sempre a melhor escolha.


Multitaskeando

Concentrar-se em uma só coisa seria difícil. Ficaríamos o tempo todo ligados, mudando de uma atividade para outra. É o que acontece com os superdotados - 76% deles se mostraram hiperativos em um estudo brasileiro, enquanto na população essa parcela é de só 5%.


Fontes Mensa Brasil; Ailton Amélio da Silva, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP); Alexandre Valotta, neurocientista e professor da Universidade Federal de São Paulo; Testing Predictions from Personality, Neuroscience: Brain Structure and the Big Five, de Colin G. DeYoung e outros; Voices of Perfectionism: Perfectionistic Gifted Adolescents in a Rural Middle School, de Patricia A. Schuler.
 Revista Superinteressante

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O futuro da Internet (e do mundo) segundo o Google



Eric Schmidt, presidente do conselho administrativo do Google, e Jared Cohen, diretor de ideias da empresa, escreveram um livro em que fazem algumas previsões surpreendentes para o futuro. Veja quais são.
Anna Carolina Rodrigues 
Bruno Garattoni


Daqui a dez ou vinte anos, a internet será muito diferente do que é hoje. Mas como? Eric Schmidt, presidente do conselho adminis-trativo do Google, e Jared Cohen, diretor de ideias da empresa, escreveram um livro em que tentam responder a essa pergunta: The New Digital Age, recentemente lançado nos EUA. Nele, fazem algumas previsões surpreendentes, e nem sempre otimistas, para o futuro. Veja quais são.

COMPORTAMENTO

1. O passado vai nos condenar
No mundo físico, você sempre pode mudar. Pode mudar de cidade, de aparência, de estilo, de profissão, de opinião. Na internet, não é assim: tudo o que você já fez ou disse fica gravado para sempre. Cada vez mais, usamos a rede para nos relacionar uns com os outros. Isso está gerando uma massa de dados tão grande, cobrindo tantos detalhes das nossas vidas, que no futuro será muito difícil de controlar - e poderá nos comprometer. "Nunca mais escreva [na internet] nada que você não queira ver estampado na capa de um jornal", advertem Cohen e Schmidt.

A internet não esquece nada. E isso afetará a vida de todo mundo. Se uma criança chamar uma colega de "gorda" na rede, por exemplo, poderá manchar a própria reputação pelo resto da vida - pois todo mundo saberá que, um dia, ela praticou bullying. Inclusive potenciais empregadores, que poderão deixar de contratá-la. Uma foto, um comentário, um post infeliz poderá trazer consequências por muito tempo. "Os pais terão de conversar com os filhos sobre segurança e privacidade [online] antes mesmo de falar sobre sexo", dizem os autores. Schmidt diz que a internet deveria ter um botão "delete", que permitisse apagar para sempre eventuais erros que cometamos online. Isso é muito difícil, pois alguém sempre poderá ter copiado a informação que queremos ver sumir. Mas surgirão empresas especializadas em gerenciar a nossa reputação online, prometendo controlar ou eliminar informações de que não gostamos, e empresas de seguro virtual, que vão oferecer proteção contra roubo de identidade virtual e difamação na internet. "A identidade online será algo tão valioso que até surgirá um mercado negro, onde as pessoas poderão comprar identidades reais ou inventadas", dizem os autores.

O fim do esquecimento terá consequências profundas - que, para o Google, incluirão até a escolha do nome das pessoas. Alguns casais batizarão seus filhos com nomes bem diferentes, que não sejam comuns, e registrarão esses nomes nas redes sociais antes mesmo do nascimento da criança, tudo para que ela se destaque. Outros preferirão nomes comuns e genéricos, do tipo "José Carlos", que sejam muito frequentes e tornem mais difícil identificar a pessoa, permitindo que se esconda na multidão e mantenha algum grau de privacidade online. Hoje, esse tipo de coisa soa meio estranho. No futuro, talvez não seja.


POLÍTICA

2. Haverá um ataque terrorista envolvendo a internet

O vírus Stuxnet, supostamente criado por Israel, foi usado para atacar o programa nuclear iraniano, e quase todas as semanas surge um novo caso de empresa ou universidade americana que teve seus computadores invadidos por hackers chineses. Ou seja: a guerra digital já é uma realidade. Ela tende a aumentar, tanto que o livro do Google fala no surgimento da Code War (guerra de códigos, em inglês), um conflito que envolveria vários países atacando as redes de computadores uns dos outros. Seria um conflito longo e cheio de pequenas sabotagens, sem declarações diretas de guerra, semelhante à Guerra Fria. "Os países vão fazer coisas online uns com os outros que seriam muito provocadoras [como sabotar usinas, espionar, derrubar o acesso à internet] de se fazer offline. Isso vai permitir que os conflitos aconteçam no campo de batalha virtual, enquanto o resto permanece calmo."

Mas o fato de a guerra ser digital não significa que ela não vá derramar sangue. Os executivos do Google imaginam um novo 11 de Setembro, que envolveria uma sequência de ações terroristas online e offline. Um hacker poderia invadir o sistema de tráfego aéreo de algum país, por exemplo, e induzir os aviões a voarem na altitude errada - para que eles se choquem uns contra os outros. Aí, com a atenção mundial voltada para esse caos aéreo, viria a segunda fase do ataque: bombas posicionadas estrategicamente em Nova York, Chicago e em São Francisco explodiriam. Nas horas seguintes, uma nova onda de ataques virtuais atrapalharia a comunicação e a mobilização da polícia, dos bombeiros e ambulâncias. Em seguida, outro ataque poderia prejudicar os sistemas de distribuição de água, energia, óleo e gás do país. "No futuro, a força dos grupos terroristas não virá da disposição de morrer por uma causa, e sim do domínio tecnológico que eles possuírem", preveem os autores.

3. O governo vai migrar para a web
Ir a uma repartição pública costuma ser uma experiência desagradável, cheia de burocracia e filas. Mas e se essa repartição fosse transformada num site - no qual você pudesse resolver todos os seus problemas? Eric Schmidt e Jared Cohen propõem que o governo migre para a internet e seja capaz de funcionar por meio dela. Isso tornaria a operação mais eficiente, permitindo dar um atendimento melhor à população, e também seria uma vantagem em caso de desastres naturais. Se o prédio de um ministério fosse destruído por um terremoto, por exemplo, a instituição poderia continuar a funcionar online, com os funcionários se conectando de qualquer PC com acesso à internet.

4. A rede vai se fragmentar
A internet foi criada, no final dos anos 60, para conectar as redes internas de universidades e instituições do governo americano. Ou seja: ela é, por definição, uma união de pequenas redes (daí seu nome, que significa "inter-rede"). É essa união que nos permite acessar qualquer site, de qualquer lugar do mundo, e foi ela a grande responsável pela universalização da internet. Mas, no futuro, não será assim. Com a desculpa de combater o terrorismo e os crimes online, e também por questões culturais, alguns países criarão suas próprias regras - e, na opinião do Google, isso acabará resultando em internets nacionais, com as características de cada lugar. E o que entra e sai de cada uma delas será monitorado, com direito a censura. Mais ou menos como já acontece em países como Irã e China - só que no mundo inteiro. Essa previsão pode parecer exagerada, mas tem certo respaldo no mundo real. Em março deste ano, o Parlamento Europeu discutiu uma lei que iria proibir o conteúdo pornográfico na internet (e acabou não sendo aprovada). É provável que, no futuro, os Estados tentem exercer algum controle sobre a internet.

Outra tendência, segundo Cohen e Schmidt, é a formação de alianças digitais entre países que tem costumes e opiniões semelhantes. Poderá surgir uma internet regional cobrindo vários países do Oriente Médio, por exemplo, com conteúdo e regras determinadas por eles. Em contrapartida, minorias ou insurgentes também poderão ter seu país online, como a criação de uma internet palestina, por exemplo. "O que começou como a World Wide Web começará a se parecer mais com o próprio mundo, cheio de divisões internas e interesses divergentes", dizem os autores. Eles imaginam até a criação de uma espécie de visto, que controlaria quem pode ou não entrar na internet de cada país. "Isso poderia ser feito de forma rápida e eletronicamente, exigindo que os usuários se registrem e concordem com certas condições de acesso à internet de um país."


SOCIEDADE

5. Um computador saberá tudo sobre você
Quer saber quais informações o Google tem sobre a seu respeito? Acesse o site google.com/dashboard e você provavelmente irá se surpreender. São dezenas de informações, que incluem quais buscas você fez, quem são seus amigos, sua agenda de compromissos, seu endereço, onde você vai e todo o conteúdo dos seus e-mails e documentos. O Google já sabe muita coisa. Mas, no futuro, poderá saber ainda mais. Isso porque as informações que hoje ficam em bancos de dados separados, como a sua identidade (RG), registros médicos e policiais e histórico de comunicações, serão unificadas em um único - e gigantesco - arquivo. Com apenas uma busca, será possível localizar todas as informações referentes à vida de uma pessoa. Algumas delas só poderiam ser acessadas com autorização judicial, mas sempre existe a possibilidade (e o receio) de que isso acabe sendo desrespeitado. Um exemplo recente: em maio, vazou na internet um documento no qual o FBI autoriza seus agentes a grampear os e-mails de qualquer pessoa, mesmo sem permissão de um juiz.

Lutar contra isso, e revelar poucas informações pessoais na internet, será visto como atitude suspeita. Cohen e Schmidt acreditam que o governo vá criar uma lista de "pessoas offline", gente que não posta nada nas redes sociais - e por isso supostamente tem algo a esconder. "Elas poderão ser submetidas a um conjunto de regras diferentes, como revista mais rigorosa no aeroporto ou até não poder viajar para determinados locais", dizem.

6. Um grupo vai desvendar as mentiras da internet
É comum que os governos falsifiquem ou adulterem informações. Era assim na URSS (Stálin mandava apagar pessoas de fotos históricas) e é assim no Irã e na Coreia do Norte, que já foram pegos usando Photoshop para manipular imagens militares. Por isso, os executivos do Google preveem a criação de uma entidade, independente de qualquer governo, que seria responsável pela fiscalização e investigação dos dados divulgados na internet, principalmente os que envolvessem política e conflitos armados. Uma espécie de Cruz Vermelha virtual, que teria representantes de vários países e funcionaria como referência para os órgãos de imprensa.

7. Mais pessoas terão (menos) poder
A internet permite que as pessoas se informem, se comuniquem e se organizem de forma livre e independente. Ou seja, ela dá poder às pessoas. Com o acesso a novas ideias, populações vão questionar mais seus líderes. Imagine o que acontecerá quando o habitante de uma tribo na África, por exemplo, descobrir que aquilo que o curandeiro local diz ser um mau espírito na verdade não passa de uma gripe. "Os governos autoritários vão perceber que suas populações serão mais difíceis de controlar e influenciar. E os Estados democráticos serão forçados a incluir mais vozes em suas decisões", escrevem Jared Cohen e Eric Schmidt.

A Primavera Árabe é um bom exemplo disso. A internet teve um papel fundamental na organização dos grupos populares que derrubaram os governos de quatro países (Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen) e abalaram vários outros. No caso egípcio, o próprio Google acabou sendo envolvido - pois Wael Ghonim, executivo da empresa no Egito, entrou por conta própria em mobilizações online (e ficou 11 dias preso por causa disso).

Na era da internet, minorias antes reprimidas também passam a ter uma voz. Mas, na opinião do Google, isso não terá necessariamente um grande efeito prático. É o chamado ativismo de sofá. A pessoa pode até curtir e compartilhar conteúdo relacionado a uma causa, mas, na hora de ir para as ruas, a coisa fica diferente. A mobilização virtual nem sempre se traduz em engajamento real. Além disso, a internet permite que os movimentos sociais surjam e cresçam muito rápido, de forma descentralizada e diluindo o poder entre muitas pessoas. Isso acaba fazendo com que esses movimentos tenham muitos líderes fracos, em vez de poucos líderes fortes.

Para sustentar essa tese, Cohen e Schmidt citam a Primavera Árabe, em que os regimes totalitários e os ditadores caíram, mas seu lugar acabou sendo tomado por governos muçulmanos, que não são particularmente democráticos, em vez de lideranças egressas da internet. "Sem estadistas, não haverá indivíduos qualificados o suficiente para levar um país adiante. Corre-se o risco de substituir uma forma de autocracia por outra", dizem os autores. Em suma: a internet distribui o poder, mas isso não necessariamente resulta na formação de grandes líderes. Nelson Mandela não era uma celebridade de Facebook.


PARA SABER MAIS
The New Digital Age
Eric Schmidt e Jared Cohen Knopf, 2013.

Revista Superinteressante

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A força do diálogo

Defender opiniões é importante, mas sem agredir ou ofender o outro. É imprescindível saber dialogar, o que pressupõe o equilíbrio entre falar e ouvir

Eduardo Shinyashiki


É normal encontrarmos nas empresas pessoas que querem impor sua opinião e ter razão a qualquer custo, criando mal-estar no contexto profi ssional. Quantas vezes nós mesmos, tendo em mente o nosso trabalho, pensamos na imagem de um ringue de boxe onde lutas acontecem?

Mas querer ter sempre razão tem limite? Aquele que diz o que pensa a qualquer custo, dando a sensação de imposição, tende a criar confl itos no ambiente em que trabalha, não gera cooperação e integração com os colaboradores na empresa e com a própria equipe. O indivíduo acaba utilizando o julgamento e a crítica na sua comunicação, em vez da compreensão e do diálogo.

Portanto, reagir agressivamente na defesa da opinião e entrar em confl ito não levam a resultados positivos. Entrar em uma discussão com uma atitude mental de "eu ganho", "você perde", "eu tenho razão", "você está errado", "eu falo" e "você fi ca calado", claramente, não ajuda a desenvolver boas relações. A base da conversa saudável é conseguir se comunicar e criar vínculos gratifi cantes com as pessoas. Para isso, a tolerância, a abertura ao diálogo e a aceitação do outro são fundamentais.

Qual é o ponto de equilíbrio, então, para poder defender nossas opiniões e fazer com que sejam respeitadas sem ser agressivo demais? O limite de uma atitude saudável para defender ideias é quando a conversação produtiva acaba e se instaura uma batalha para impor o que se pensa e a própria imagem, faltando respeito ao interlocutor e tornando a interação autoritária, inconcludente e destrutiva.

Saber expressar e defender opiniões e pontos de vista sem agredir ou ofender o outro, mas também agir com assertividade e saber "dialogar", pressupõe o equilíbrio entre falar e ouvir dos interlocutores, como nos mostra o signifi cado da palavra "diálogo", em que dia quer dizer "através", e logos, "palavra". Resumindo, é a palavra que passa e se movimenta entre as partes envolvidas que interagem, permitindo um aprendizado colaborativo.

Ele é uma das formas mais importantes de interação entre as pessoas e permite abrir a mente a outras maneiras de pensar e a novos conhecimentos. Mostra-nos, também, como sentir e ver o mundo de diferentes jeitos, colocando em confronto diálogos mentais e fortalecendo a consciência de si mesmo e do outro. Porém, ao mesmo tempo, ele é um processo delicado, pois a tendência da nossa mente é de se apegar às próprias opiniões e defendê-las, difi cultando a conversa e criando o confl ito.

A BASE DA CONVERSA SAUDÁVEL É CONSEGUIR SE COMUNICAR E CRIAR VÍNCULOS GRATIFICANTES COM AS PESSOAS. PARA ISSO, A TOLERÂNCIA, A ABERTURA AO DIÁLOGO E A ACEITAÇÃO DO OUTRO SÃO FUNDAMENTAIS

Nesse sentido, podemos evidenciar alguns pontos de refl exão para atingir a qualidade desejada no diálogo, ser assertivos e conseguir um verdadeiro debate: - Atenção às comunicações verbal e não verbal. Usar palavras que demonstrem confi ança em si mesmo e no outro, evitando julgamentos em relação ao interlocutor, ordens e ofensas, é tão importante como utilizar a fl exibilidade comunicativa, ou seja, se fazer entender e se adaptar ao contexto do outro. Cuidado com o tom de voz, o volume, as expressões do rosto, os gestos, pois a linguagem corporal tem um papel decisivo no resultado do diálogo.

- Não interromper o interlocutor no meio de um pensamento e mostrar interesse pelo que a pessoa está dizendo são elementos que mantêm viva a conversa.

- Ouvir as opiniões do outro cria empatia e abertura ao diálogo. Procurar entender quais os seus objetivos e desejos diminui possíveis divergências e fatores de confl ito interpessoal.

- Ter clareza, ser direto e honesto na exposição dos pontos de vista, permitindo ao interlocutor compreender as nossas opiniões.

- Ser gentil na comunicação. Lembrando que ser assertivo não significa ser agressivo, mas saber o que se quer, se expressando de forma respeitosa, clara e efi caz. Atitudes gentis criam um clima positivo e sereno, além de ser a expressão de força e segurança interiores.

Podemos concluir que é possível criar um diálogo efetivo, objetivo, sem perder o limite da razão, sem humilhar, ofender ou desqualifi car o outro, expressando as próprias ideias, e que tem como pressupostos principais o respeito ao interlocutor e uma atitude interna de autoestima e autoconfi ança.

A pessoa com essas duas qualidades consegue se relacionar melhor com os outros sem medo de se confrontar consigo mesma e com os demais, sem se tornar presunçosa e arrogante na comunicação.

O desenvolvimento dessas características nasce do confronto entre si mesmo e do mundo ao redor. Tendo mais consciência de quem é você e do que se quer, há a possibilidade de defender ideias de forma clara e adequada, utilizando o diálogo que, por sua estrutura intrínseca, considera sempre o bem de todas as partes envolvidas.



Eduardo Shinyashiki é consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Especializado em Preparação Psicológica de Equipes de Alto Rendimento com o dr. Octavio Rivas Solis e em Leitura Corporal com o dr. José Angelo Gaiarsa.
www.edushin.com.br
Revista Psicologia

Para onde caminha a humanidade

O futuro que estamos construindo será o resultado de tudo isso que plasmamos tecnologicamente em torno de nós, em interação diametral com as novas sensibilidades e capacitações sociais e humanas que formos capazes de obter, absorver e consolidar
Alexandre Quaresma *






Para onde caminha a humanidade? Esta pergunta, estrutural do ponto de vista antropossociológico, nos remets imediatamente a uma imensa gama de atividades tecnológicas notadamente humanas que, de certa forma, caracterizam nossa história atual e também pregressa no próprio planeta, e que vão se acumulando em termos de saberes, conhecimentos e aplicações.

Para sermos o que somos hoje – afirmamos – apoiamo-nos em nossas criações tecnológicas. O domínio do fogo e o lascar da pedra no fim do Período Neolítico, nesse contexto, são eventos que trazem um empoderamento muito significativo para esta espécie que nascia naqueles dias de extrema competitividade biológica. Com o passar dos tempos, e em especial em nossa história mais recente, criamos e implementamos outras invenções e inovações tecnológicas importantes – como a escrita, a matemática, a roda, a vela, a bússola e a pólvora, para citar apenas algumas – que foram se somando e se cristalizando nas culturas como um todo, paulatinamente, o que veio garantir(à espéci) sobrevivência e permanência filogenética através das eras e milênios que iriam se suceder a partir de então. Foram estasmediações técnicas que garantiram e viabilizaram a nossa constituição antropossocial e cultural, mas foram elas também que nos transformaram através dos tempos, pois deixaram em nós e em nossas culturas as marcas indeléveis das técnicas que, por si, geram – como Heidegger afirma, e nós concordamos – uma dependência social da técnica pela própria técnica.

Teoria da Complexidade » Trata-se de uma visão interdisciplinar que abrange áreas distintas do conhecimento humano, como a Filosofia, a Epistemologia, a Linguística, a Química, a Física, a Física Quântica, a Meteorologia, a Estatística, a Biologia, a Sociologia, a Cosmologia, entre muitas outras. Esta disciplina se propõe a estudar os sistemas complexos adaptativos, os comportamentos emergentes, os sistemas de complexidade das redes, o equilíbrio termodinâmico e a auto-organização. Edgar Morin, Henri Atlan, Ilya Prigogine, Isabelle Stengers e Anthony Wilden são autores referência do pensamento complexo.


Mas não se tratou de um progresso linear, cumulativo e sempre crescente, como poderíamos acreditar, e, sim, de uma história extensa e enviesada, complexa e rebuscada, de um desenvolvimento lento da própria espécie que se estruturava dentro de seu dinâmico e multifacetado habitat, e de seres e mais seres que instintivamente lançaram os alicerces do que seria a nossa humanidade. Complexidade e complexificação cultural que vieram junto com a expansão cognitiva e sensorial corpórea destes primeiros hominídeos, que emergiu, por sua vez, devido ao progressivo desenvolvimento biológico de nossos cérebros, em especial de nosso neocórtex, originando, assim, uma trajetória épica cheia de pontuais avanços e recuos, bonanças e crises, longuíssimos períodos de frio extremo ou calor calcinante, colapsos e extinções, todos estes efeitos e frutos do clima impiedoso das eras glaciais primitivas a se suceder, da extrema competitividade entre espécies e também do ambiente inóspito e até certo ponto hostil destes tempos primevos, ora longínquos.

Fato é que foram acontecimentos ímpares que, na prática, serviram como imposições adaptativas necessárias para que esta espécie arguta e sagaz que se autodenomina Homo sapiens (homem sábio) pudesse advir, evoluir e se consolidar. Essa interface sempre tecnológica com o mundo ao nosso redor faz parte de nossa própria forma de concebê-lo e interagir com ele. Somos seres tecnológicos – se é que é lícito dizê-lo – por natureza. Para confirmar tal teoria, basta ver a infinidade de objetos técnicos que existem atualmente à nossa volta, e a importância considerável que damos a eles enquanto objetos estruturantes de nossa cultura, tornando-os úteis e até necessários ao fluir e refluir de nosso próprio dia-dia técno-informático-computacional. Gostaria de atacar etse assunto por duas frentes críticas distintas: A primeira é a do empoderamento. E a segunda é a do desencanto.

O EMPODERAMENTO
O empoderamento é um tanto quanto óbvio: Com as lascas de pedra, ossos e madeira, construímos nossas primeiras armas. Com a pele dos animais subjugados que nos serviram de alimento, vestimo-nos. Com o fogo espantamos os animais ferozes e mais ameaçadores, com ele nos aquecemos, cozinhamos os alimentos indigestos crus, nos adaptamos aos ambientes mais hostis, iluminamos as noites sem lua, desbravamos ambientes sombrios de cavernas e grutas, mais adiante fundimos os metais para construir os mais diversos objetos, enfim, forjamos instrumentos, constituímos ferramentas, concebemos novas tecnologias, demos formas intencionais aos materiais, e assim por diante.

Geoengenharia » Ciência relativamente recente que estuda as possibilidades técnicas de interferência humana no clima e no próprio sistema organizacional do planeta em escala biosférica. Como pretende abranger sistemicamente áreas muito grandes e até globais, faz-se igualmente necessário – de preferência antes de implementar as prospecções – o estudo acerca dos possíveis desdobramentos negativos ou mesmo degradantes destas técnicas de interferência e controle, pois os efeitos colaterais podem superar as promessas de melhora das condições terrestres.


Nos últimos cem anos há uma aceleração deste processo de complexificação tecnológica e atualmente implementamos aeronaves, telescópios, armas de destruição em massa, computadores, tablets, telefones e uma gigantesca rede informacional para conectá-los simultaneamente, gerando uma sensibilidade cibernética planetária. São todas próteses técnicas de diversas naturezas, alinhadas e convergentes, que estendem e mediam a nossa relação com o mundo, e esse mundo tecnicista que construímos é composto por satélites, sondas, robôs, supercomputadores, nanotecnologias, algoritmos evolucionários, redes neurais, bioengenheiramento, clonagem, bioimpressão, geoengenharia, e a lista – nesta virada de milênio – parece não ter fim. Toda etsa infraestrutura técnica de extrema complexidade e sofisticação que construímos – oriunda destes mesmos conhecimentos e saberes técnicos que se constituem, e que perfaz todas as sociedades industrializadas – certamente traz um empoderamento para os grupos humanos perante o planeta e as demais espécies; todavia, etse movimento já superou há muito tempo a esfera da sobrevivência como razão, e nossa proliferação desordenada e caótica tem posto em risco o meio ambiente que nos contém e, por conseguinte, a nossa própria sustentabilidade filogenética.

Para sermos o que somos hoje, nos apoiam em nossas criações tecnológicas. O domínio do fogo e o lascar da pedra no fim do Período Neolítico, nesse contexto, são eventos que trazem um empoderamento muito signi ficativo para esta espécie

Linguagem algorítmica » Algoritmos são fórmulas matemáticas hipercomplexas concebidas a partir de bits (zeros e uns), que servem para traduzir qualquer tipo de informação digital, além de operarem como forças motrizes de nossos hardwares e programas, garantindo que os protocolos e procedimentos técnicos intrínsecos aos sistemas operem e cooperem de forma harmoniosa e uida, propiciando o que nós conhecemos como computação e conectividade.


Tratamos de um empoderamento que propicia uma série de interferências, transformações e controles no mundo e em nós mesmos, alterando nossas relações com o ambiente, com nossos semelhantes e até com as forças criadoras do próprio universo que nos circunscreve; enfim, tais eventos implicam uma complexa reestruturação de nossa humanidade e civilização. Pois agora a nossa capacidade técnica de subjugar e explorar a Natureza vai do infinitesimal das nanotecnologias – o N da Convergência Tecnológica NBIC – passando pelo B de bio, que engloba todas as novas ciências biológicas – inclsídas aí a clonagem, o bioengenheiramento, a manipulação genética, a transgenia, a neoeugenia, isso para citar apenas algumas –, convergindo sinergeticamente também com o I de informação, informática e informatização – que de certa forma perfaz todas as demais subseções da mencionada sigla, até porque as linguagens algorítmicas e computacionais encontram-se presentes e fortemente enraigadas em todas as outras relações e mediações técnicas de nossas sociedades. E isso, diga-se, vale para todos os objetos de nossa cultura cibernética, ou cibercultural como alguns preferem dizer; dos mais simples aos mais complexos, culminando finalmente com o C de cognição, que seria a última fronteira biológica e até então impenetrável e incompreensível do corpo humano sendo rompida, emulada e, de certa maneira, violada, desmistificada e reificada tecnicamente através das neurociências de prospecção.


Saber para onde estamos caminhando nos remets, imediatamente, a uma imensa gama de atividades tecnológicas que criamos em nossas sociedades

Quanto a este tópico (o empoderamento), vale lembrar que as tecnologias de fato abrem várias portas, mas também as fecham. Pois a maioria dos problemas socioambientais mais graves que temos que enfrentar na atualidade é fruto destasmesmas técnicas e tecnologias que tanto nos ajudaram e ainda ajudam. Dito isto, retenhamos o seguinte: o empoderamento traz benefícios, mas também traz danos.

O DESENCANTAMENTO
A outra frente que gostaria de atacar com alguma brevidade é a dodesencantamento. Referimo-nos a todo este poder tecnológico acumulado e à disposição da espécie humana, potencialização técnica que gera uma situação no mínimo inquietante para nós mesmos, pois (1) vem desalojar e substituir as forças e potências criadoras da Natureza e de Deus em todos os sentidos pensáveis, instrumentando- nos tecnologicamente para estarmos aptos a realizar e engendrar a própria vida, (2) na medida em que expulsa o mistério, o simbolismo natural e o divino, desde os átomos até as esferas mais complexas da Natureza e da sociedade, passa concomitantemente a ocupar seus locus de poder, e assim (3) vai passando também a controlar e reger contextos profundos detsa mesma Natureza e de nossa própria existência singular. A criação, o milagre da vida, os enigmas da Natureza, as forças do clima, o movimento dos astros e a própria ordem da evolução biológica repousam – pasmem – sob as mãos inábeis dos seres humanos da Pós-modernidade. Ou seja, o empoderamento traz também desencantamento, pois tudo pode ser calculado, quantificado, matematizado, controlado, explorado, replicado, comercializado e, principalmente, resignificado tecnologicamente. Nossas sociedades, ironicamente, à medida que moldam seus ambientes, constituindo redes tecnológicas cada vez mais complexas, vão igualmente sendo moldadas por estas forças poderosíssimas que elas mesmas puseram em ação.

Agora, a nossa capacidade técnica de subjugar e explorar a Natureza vai do infinitesimal das nanotecnologias – o N da Convergência Tecnológica NBIC –, passando pelo B de bio, que engloba todas as novas ciências biológicas

A maioria dos problemas socioambientais mais graves que temos que enfrentar na atualidade é fruto de tecnologias que tanto nos ajudaram


Bioprospecções » Como está em Trigueiro (200:, p. 116): “Prospecção da biodiversidade ‘bioprospectin’) foi de nido originalmente por Reid (1993) como a exploração da biodiversidade para obtenção de recursos genéticos e bioquímicos para efeito de futura comercialização”.


CONCLUSÃO
Em resposta à nossa pergunta inicial, podemos afirmar que caminhamos rumo a um futuro de tecnicização e controle progressivos, onde a Natureza e o próprio ser humano são os objetos centrais das bioprospecções, e onde o natural e biológico de certo modo declinam, dando lugar a uma cultura cibernética e digital da eficiência, do controle e da informação. O problema se evidencia justamente quando percebemos que tais contextos parecem operar e evoluir alheios ao controle social, seguindo por caminhos tortuosos e difusos, na opacidade dos interesses numerários e geopolíticos de empresas e nações, alijando a coletividade das tomadas de decisão mais importantes e significativas acerca de seu futuro. Por outro lado, e retornando ao empoderamento que as tecnologias nos trazem, a própria internet e a cultura digital têm se mostrado excelente ferramental para a criação de novas sensibilidades sociais e articulações políticas, e de certa maneira também estão transformando a face do mundo. Conclusivamente – afirmamos – o futuro que estamos construindo será o resultado de tudo isso que plasmamos tecnologicamente em torno de nós, em interação diametral com as novas sensibilidades e capacitações sociais e humanas que conseguirmos obter, absorver e consolidar nesta fricção ferbulhante das estruturações sociotécnicas a se constituir.

* Alexandre Quaresma é escritor, ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais. Autor dos livros Nanocaos e a responsabilidade global, Humano-Pós-Humano – Bioética, dilemas e con itos da Pós-modernidade e Nanotecnologias: Zênite ou nadir? É membro ativista da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente) e vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). a-quaresma@hotmail.com

REFERÊNCIAS
TRIGUEIRO, Michelangelo (2009). Sociologia da tecnologia – Bioprospecção e legitimação. São Paulo: Centauro, 2009.

Revista Sociologia 

Novos tempos, novos desafios

O debate sobre temas como inclusão social, mobilidade social e classe social ganha força crescente e certo grau de redundância no Brasil de hoje
Sérgio Sanandaj Mattos







Presentemente, no Brasil, faz-se uma reflexão sobre temas como inclusão social, mobilidade social, classe social, apontando novas tendências e interpretações da realidade social. Por certo, são temas de forte impacto ideológico, que repercutiram e compuseram a retórica política durante a última década. Em nosso país, de modo recente, políticas redistributivas vêm priorizando a redução da desigualdade. Trata-se de desnaturalizar a desigualdade. A inclusão social, antes vista como parte de uma utopia, generosa, mas utopia, emerge no debate e na agenda política da sociedade brasileira na primeira década do século XXI.

A redemocratização do Brasil coincidiu com a expansão do neoliberalismo. No decorrer da década de 1990, a hegemonia neoliberal estabeleceu uma forte predominância na America Latina. No País prevaleceram praticas como privatizações desenfreadas, submissão aos interesses do capital especulativo, precarização das condições de trabalho, criminalização dos movimentos sociais. Muitos estudiosos classificaram esses anos como "a década perdida". Muito além de um quadro de submissão às políticas neoliberais, com desmonte do Estado e precarização de direitos, a década seguinte descortinou um novo panorama.

No Brasil, na primeira década do século XXI, novos atores do fazer político personi ficam o sentimento dos setores excluídos da população, e o debate da inclusão social repercute, inserindo-se na agenda política

Cenário de mudanças
Na primeira década do século XXI a sociedade brasileira viveu um momento de reversão: após um período de estagnação, abriu-se um cenário de mudanças substanciais. Novos atores do fazer político personificaram o sentimento dos setores excluídos da população. O debate em torno da temática da inclusão social repercutiu em nosso país, inserindo-se na agenda política. As transformações sociais, econômicas, culturais e políticas demandam novas análises. Uma grande parcela de críticos recorda que nos últimos anos o Brasil tem enfrentado com relativo êxito o desafio de combinar crescimento econômico, distribuição de renda, equilíbrio macroeconômico, redução das desigualdades e inclusão social, tendo como ponto de partida a implantação de políticas públicas para diversos segmentos, social e economicamente excluídos.

Na ultima década, a expansão econômica, combinada com políticas sociais, possibilitou uma mobilidade social ascendente para determinados estratos de renda. Há certa mistificação ideológica em torno do conceito "nova classe média", de significado controverso. O período marca também a coexistência de um forte clima de otimismo e uma esquerda gentil, e a sensação de êxito com pré-sal, cotas e TV de plasma para a classe C. Ao contrário do que parecem pensar críticos que raciocinam por default, não se pode minimizar o significado do acesso a classes sociais economicamente superiores por meio do consumismo. Parece óbvio, mas é preciso lembrar que a questão da inclusão social está, hoje, mais vinculada a uma relação de consumo do que a uma cidadania conquistada.
O período político brasileiro atual marca a coexistência de um forte clima de otimismo e uma esquerda gentil, que enfatiza a sensação de êxito com pré-sal, cotas e TV de plasma para a classe C**


Na sociedade aquisitiva ou afluente, a pobreza constitui um desvio da liberdade de consumo, como expressa o sociólogo Zygmund Bauman. Há um grande esforço em considerar que estamos diante de um novo modelo de desenvolvimento, capaz de distribuir renda, promover o crescimento com sustentabilidade e a inclusão social. Os visíveis exageros são plenamente compreensíveis. Apesar de algumas críticas que classificam certos programas sociais como assistencialistas, especialistas reconhecem que ocorreu uma considerável mobilidade social, resultando em um novo perfil socioeconômico de parte da população brasileira. Ao longo da ultima década, políticas compensatórias, sobretudo econômicas, de redistribuição de renda, alteraram parte da estrutura social brasileira.

Entre 2004 e 2010, aproximadamente 32 milhões de pessoas ascenderam à categoria de classes médias (A, B e C) e 19,3 milhões saíram da pobreza.

Há quem veja no acesso a bens e serviços, na inserção no consumo, o surgimento de uma "nova classe média" brasileira. É um equívoco pensar assim. Não se trata de classe social com os requisitos que a teoria social exige. É o estrato da classe mais pobre que teve um acréscimo de renda. A socióloga Céli Scalon adverte que "(...) aumentos marginais na renda dos indivíduos na base da pirâmide dificilmente serão vistos como capazes de abalar a estrutura social" (SCALON, 2011). O conceito de classe social é, seguramente, um dos mais polêmicos e mais discutidos nas Ciências Sociais.

Esse segmento desponta de uma parcela da população antes marginalizada social e tecnologicamente, e virou mercado de consumo. Concentra-se basicamente na base da pirâmide social. É a grande novidade do Brasil dos últimos anos. Cerca de 54% da população economicamente ativa passam a compor a chamada "nova classe média". Esse esforço, no entanto, parece limitar-se à classificação das classes pela renda.

É a ideia associada ao consumo. Parece diversionismo. Não é o caso de boa parte de especialistas das Ciências Sociais que criticam a nova definição de classe média como construção ideologizada, limitada à variável "renda". É preciso considerar, como assinala o sociólogo Ruy Braga, que, "(...) Sobre a teoria das classes, diria que, se nada mais soubessem, ainda assim os sociólogos saberiam que um debate minimamente sério a este respeito não pode se limitar a uma única variável, ainda que seja a renda. Exatamente porque as classes sociais são relações sociais multidimensionais e construídas historicamente"(BRAGA, 2012). O debate a respeito da chamada "nova classe média" ganhou força crescente. No interior do debate sobre a ascensão de segmentos de baixa renda, há um incessante esforço que busca, inclusive, redefinir o conceito de classe média brasileira.
Na última década, o acesso de segmentos da população a nichos de consumo, visto como mudança social e como marca do surgimento de uma "nova classe média", parece ser a grande novidade política no Brasil**


Mudança social » Durante a última década, o Brasil vivenciou um intenso fenômeno político e econômico: a ascensão de milhões de pessoas à chamada "nova classe C". Para analisar esse novo elemento social brasileiro, o pesquisador, economista e professor Márcio Pochmann escreveu o livro Nova Classe Média?, em que defende a tese de que a mudança social dos últimos oito anos não resultou na criação de uma nova classe média no País. Para ele, os empregos gerados nesse período criaram uma classe trabalhadora consumista, individualista e despolitizada.


Nova classe média
O acesso de segmentos da população a nichos de consumo, visto como mudança social e como marca do surgimento de uma "nova classe média" parece ser a grande novidade política no Brasil na ultima década. É sabido que a mobilidade social constitui um inerente campo de estudo dos sociólogos. Para os estudiosos das Ciências Sociais, a definição de classes sociais não se limita à variável "renda". De acordo com Márcio Pochmann, intelectual habituado a refletir sobre a exclusão social no Brasil, "(...) a mudança social dos últimos oito anos não resultou na criação de uma nova classe média no País. São segmentos novos no interior da classe trabalhadora, cuja ascensão social é movida pelo consumo e com uma despolitização crescente" (POCHMANN, 2012).. Para Francisco de Oliveira, sociólogo com forte interlocução com os movimentos sociais, "a pobreza tornou-se algo administrável com o Bolsa-Família". No ensaio Hegemonia às Avessas, Oliveira assinala: "(...) não houve uma redução da desigualdade, embora certamente houvesse uma diminuição da pobreza".

Na interpretação do Brasil contemporâneo, o tema da inclusão social ganha expressão, mediado agora pelas questões de mobilidade social e classe social. A temática da inclusão social tem sido apropriada no quadro de uma certa estratégia retórica e política. Há pouca familiaridade com o rigor conceitual. No âmbito da universidade o debate parece mais arejado. Nas ultimas décadas, as políticas públicas de inclusão, impulsionadas pelo debate sobre o desenvolvimento, tiveram grande avanço. O País busca romper o círculo da pobreza e passa a despontar pelo avanço da inclusão social. O período marca o reconhecimento de políticas de inclusão social como Bolsa-Família, aumento do salário mínimo, expansão do crédito, valorização da moeda, controle da inflação, estabilidade econômica, expansão e estímulo do crédito popular, além do avanço do emprego formal, contrariando os teóricos liberais ao reduzir no cenário pós-crise o trabalho informal que, até os anos 1980, era visto como sinônimo de atraso pela tradicional literatura econômica.

Na literatura socioeconômica, a respeito dos desafios da inclusão social no Brasil, deve-se a Márcio Pochmann a publicação de uma excelente obra dedicada sobretudo à análise das causas da exclusão e das políticas públicas praticadas antes e depois dos governos militares, passando pelas influências da Constituição de 1988 e do desmonte neoliberal do Estado nos anos 1990 (POCHMANN, 2004). Outra importante publicação sobre o tema é Pobreza e Desigualdade no Brasil: traçando caminhos para a inclusão social, em que teóricos e estudiosos discorrem sobre questões cruciais da contemporaneidade (WERCHEIN e NOLETO2003). Acrescente- se a esses exemplos Imagens da Desigualdade, de Celi Scalon. São obras que nos tornam sensíveis para entender as desigualdades sociais no Brasil.

Para certos analistas e intérpretes da sociedade, o Brasil está apresentando um processo de inclusão social como estratégia para o crescimento. Estão todos impressionados. Os elogios se estendem a cronistas do Financial Times, do New York Times, The Economist, Washington Post etc. É perceptível o acesso à oferta de bens e serviços. Há quem considere que, nessa ascensão social, reafi rmam-se, inclusive, valores do mercado.

É preciso distinguir "inclusão pelo consumo" e "inclusão social". Parte da crítica considera que a inclusão social não se dá pelo consumo mas pela ampliação das políticas sociais do Estado.

A respeito de uma transição na composição social da população brasileira, alguns analistas apontam para uma ascensão social de parte da classe trabalhadora como resultado das ações afirmativas e das políticas públicas do Estado brasileiro. Existe um interesse crescente em entender a nova tendência, que mudou a forma de ver a mobilidade social.

Na ultima década, a expansão econômica combinada com políticas sociais possibilitou uma mobilidade social ascendente para determinados estratos de renda. Há certa mistificação ideológica em torno do conceito "nova classe média", de significado controverso

O sociólogo Herbert de Souza » (1935-1997), Betinho, exemplo de "generosidade intelectual", reconhecido como símbolo da solidariedade, da luta contra exclusão social, da campanha contra a fome no pais, é uma referência nas lutas pela inclusão social, cidadania, combate à fome e a miséria.


Políticas sociais inovadoras
Em suas diferentes faces, projetos de inclusão social por meio de políticas públicas têm buscado viabilizar a inserção social de parcelas significativas da população brasileira. A inclusão social tornou-se um sonho gigantesco e multifacetário. O sociólogo Herbert de Souza (1935-1997), o Betinho, exemplo de "generosidade intelectual", é sempre uma referência nas lutas por cidadania, inclusão social, combate à fome e à miséria. Até pouco tempo, o debate sobre inclusão social limitava-se ao combate à pobreza e à fome. No Brasil, muito além das situações de surrealismo de nossos costumes políticos, capazes de causar espanto no mundo, programas inovadores direcionados a inclusão social e crescimento econômico buscaram a redução do quadro histórico de desigualdade e disparidade social.

O Brasil do século XXI avançou, mas ainda não foi capaz de superar a exclusão social. Como se vê, houve um relativo avanço, mas prevalece em nossa cultura um déficit de cidadania, de solidariedade, e uma experiência ainda pequena em relação à inclusão social. Tem ativismo demais. A revolução produtiva é do conhecimento. A velocidade, o crescimento e as sucessivas inovações da capacidade tecnológica se contrapõem a certa impotência dos homens para mudar seu destino. Há um certo "analfabetismo funcional" diante dos novos processos de automação e inovação tecnológica. Tentamos fugir da novela da crise europeia. Desenha-se no Brasil um futuro melhor. O Brasil tem pressa e Brasília parece distante do mundo do trabalho.

*Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia. Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo E-mail: ss.mattos@uol.com.br

**Fonte: CEDOC/FESPSP

Referências
BRAGA, Ruy. O enigma da "nova classe média". Blog da Boitempo Editorial, 4 jun. 2012. Disponível emhttp://boitempoeditorial.wordpress.com/category/colunas/ruy-braga/. Acesso em: 21 jul. 2012.
CHIBI, Faoze. Exclusão em curso. Entrevista com Márcio Pochmann.. In Revista Sociologia, n 8. São Paulo: Escala, 2007, p. 6-13.
No palco da fluidez social. Entrevista com Celi Scalon. In Revista Sociologia n 35. São Paulo: Escala, 2011, p. 36-39.
OLIVEIRA, Francisco de; BRAGA, Ruy; RIZEK Cibele. Hegemonia às Avessas. São Paulo: Boitempo, 2010.
POCHMANN, Márcio. Nova Classe Média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012.
__________________. O Desafio da Inclusão Social no Brasil. São Paulo: Publisher Brasil, 2004.
SCALON, Celi. Imagens da Desigualdade. Belo Horizonte, Editora da UFMG, 2004.
LOCATELLI, Piero. Ascensão da classe trabalhadora dá sinais de esgotamento. Entrevista com Márcio Pochmann. Carta Capital, 15/5/2012.
WERCHEIN, Jorge; NOLETO, Marlova Joychelovitch (Orgs.). Pobreza e Desigualdade no Brasil: traçando caminhos para a inclusão social. Brasília: UNESCO, 2003.
Revista Sociologia 

A educação como questão central na contemporaneidade

CESAR CALLEGARI

CESAR CALLEGARI é sociólogo, membro do Conselho Nacional de Educação. Foi Secretário de Educação de Taboão da Serra, Secretário Executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, Deputado Estadual por dois mandatos e Presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação .

As elites hegemônicas brasileiras, cuja inserção na modernidade sempre foi contraditória e, em muitos sentidos, retrógrada, excluíram a imensa maioria de nossa população do acesso à educação de qualidade. Quando muito, para aquelas mesmas maiorias foi oferecida uma educação funcional cujo propósito maior sempre foi o de manter intocada a subalternidade e, portanto, os rígidos padrões de domínio político, exploração e exclusão.

O processo intenso e tardio de urbanização a que assistimos em nosso país não fez senão agravar o problema, uma vez que impôs às camadas populares, em curtíssimo espaço de tempo, uma readequação de todo o seu saber, para que elas pudessem se acomodar às exigências de uma formação societária que requer o domínio sobre estruturas simbólicas complexas e formais. Não causa estranheza, então, que a pobreza tenha se disseminado em meio mesmo à riqueza mais extrema.

É preciso compreender, contudo, que a natureza da exclusão mudou, ainda que se reproduzam as mesmas condições socioeconômicas que se podia identificar no período que antecedeu a globalização. Nas novas condições societárias, as políticas compensatórias mostram-se insuficientes, especialmente aquelas que envolvem a redistribuição de renda, apesar de se apresentarem como pressuposto de toda e qualquer ação no sentido da inclusão social. Não são capazes de engendrar, por si só, as condições para que cada indivíduo ou grupamento liberte-se do ciclo recorrente de miséria e exclusão em que se encontra encerrado. É possível, por este recurso, minorar a penúria, mas não se eliminam seus fatos geradores. Esta é uma decorrência inevitável dentro dos marcos do desenvolvimento capitalista.

É preciso superar o berço da desigualdade na nação brasileira, ou seja, a educação pública de segunda qualidade


Ora, a incorporação contínua da inovação técnica ao processo produtivo, a transformação da ciência e da pesquisa científica em potências imediatamente produtivas, ou seja, a libertação do processo produtivo da dependência da intervenção propriamente física do homem e mesmo de suas particularidades individuais trazem, como conseqüências, alterações nos sistemas de exclusão e inclusão, afetando os critérios para ingressar no processo produtivo bem como para nele permanecer.

Ser trabalhador, na atualidade, requer o domínio dos mínimos recursos culturais e simbólicos essenciais para integrar-se a um processo que, na essência, está mediado pela máquina e pelo estágio de seu desenvolvimento não apenas mecânico, mas igualmente eletrônico (computacional), ou seja, pela aplicação concentrada e metódica da tecnologia. A máquina tende a ser, cada vez mais, um artefato ao qual se agregam elementos de robótica e que, portanto, requer um operador capaz de satisfazer suas exigências operacionais que se encontram devidamente repertoriadas em manuais de procedimentos, códigos de utilização e conduta etc.

Compreende-se, deste modo, que ser trabalhador exige portanto, na atualidade, a aquisição de habilidades que dependem diretamente da educação formal e do nível de escolarização. Esta exigência, se considerada a dinâmica inerente ao processo de produção, implica complementarmente, mais do que um mínimo cultural ou um conjunto de habilidades, fazendose imprescindível a aquisição contínua de conhecimentos e habilidades sem os quais o trabalhador pode se ver rapidamente superado pelas exigências impostas pelo mercado de trabalho.

Fundamental recordar, nesta questão, que o repertório que deve ser adquirido pelo trabalhador não está determinado necessariamente em escala nacional, sendo seguramente influenciado pelos padrões internacionais, algo de todo natural em uma economia que se globalizou, ou seja, que procura minimizar o custo de movimentação planetária de mercadorias e capitais.

Um projeto de nação, na justa medida em que compreendamos a natureza das determinações objetivas da sociedade contemporânea, deve incorporar o princípio norteador de transformar pela raiz. Uma revolução de natureza específica e particular, ou seja, a que nega e supera o berço da desigualdade na nação brasileira - a educação pública de segunda qualidade, que historicamente se oferece às massas populares, como elemento essencial à manutenção da ordem, que é um convite ao atraso recorrente e à exclusão sem remédio.

Não devemos nos ater, contudo, à dimensão exclusivamente laboral (funcional) do problema ou à redução do tema que envolve superar a exclusão a seus termos estritamente econômicos ou produtivos. Estes são sempre, para aqueles que se comprometem com as causas populares, não mais do que um elemento de um processo mais amplo e complexo. O compromisso deve estar do lado da autonomia, da superação da menoridade perpétua que nos impõe a ordem, sua superação democrática por uma forma mais justa e fraterna de sociedade.

Contudo, esta superação não pode ocorrer nas sociedades capitalistas contemporâneas fora dos quadros de um combate que se dá no campo cultural; combate que envolve, necessariamente, sobrepujar a colonização do imaginário, que está inexoravelmente imbricada com o desenvolvimento que engendrou a indústria cultural, não como forma acessória ao processo de acumulação capitalista, mas como o cerne a partir do qual aquele processo não apenas se sustém, mas especialmente ganha a forma auto-expansiva que a contemporaneidade vem conhecendo. É preciso superar, portanto, a produção subalterna da cultura, o que só se faz pela recuperação e desenvolvimento de valores humanistas, que sempre valorizam tanto a política, quanto o espaço público.

As questões que envolvem a educação são imediatamente, portanto, aquelas que se referem à própria construção da nação, empreendimento que deve ter por fundamento um projeto político cujas promessas irredutíveis e incontornáveis sejam a conquista da civilização e da cidadania para todos. Esse projeto de edificação de uma nação mais equânime e fraterna exige, contudo, dada a própria centralidade da educação nas sociedades contemporâneas, que nós a revolucionemos, garantindo que o País passe a abrigar aqueles que, até aqui, têm permanecido à margem da sociedade e da fruição do patrimônio cultural que o homem vem construindo ao longo de sua história.
Revista Sociologia

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Primórdios da educação entre os homens


O papel dos conhecimentos culturais primários na revitalização permanente do desenvolvimento humano

Aziz Nacib Ab`Sáber
É sempre muito oportuno tecer considerações sobre a temática das relações entre a educação e o desenvolvimento cultural dos seres humanos. Nosso ponto de partida baseia-se em observações feitas pelo saudoso Roger Bastide (1898-1974).

Encarregado de um curso sobre sociologia educacional na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, mestre Bastide iniciou sua fala explicando que, ao ser indicado para o referido tema, vasculhou a pequena estante de livros de sua casa em São Paulo, à procura de uma obra especial, que servisse de apoio para preparar suas aulas. E, assim, pinçou da prateleira um dos trabalhos essenciais de Marcel Mauss, La sociologie des animaux.

Nesse trabalho o autor sublinhou que o homem é o único ser vivo do planeta capaz de retraçar a história da espécie, em tempos e espaços diferentes (e pode-se completar que a recuperação de fatos e valores culturais se adentra pela pré-história), enquanto os animais nunca puderam saber nada dos itinerários históricos de seus pares.

Roger Bastide nos explicava, com um ligeiro sorriso, que “as minhocas do Brasil não podem saber que existem parentes na África”... E que, apesar das atividades rotineiras e sociais de algumas espécies, “nunca houve a possibilidade de conhecer qualquer fato de seu desenvolvimento biológico e histórico”.
A partir dessas importantes constatações, abre-se a oportunidade de discutir o papel da educação na projeção dos conhecimentos culturais primários dirigidos para a revitalização permanente do desenvolvimento social e cultural dos seres humanos. A progressiva criação de palavras aplicadas a fatos da Natureza e das comunidades sociais foi o primeiro grande feito. Desde tempos imemoriais, em lugares e conjunturas socioambientais diferentes, o homem deu nomes próprios para a Natureza. Envolvendo um vocabulário descritivo e criativo de fácil propagação sobre árvores, frutos e plantinhas, pássaros, animais terrestres, peixes e frutos do mar. Além de palavras para indicar feições da Natureza regional, de um modo integrado entre as formas físicas e os revestimentos vegetais, como a presença de animais característicos. Em um padrão de conhecimento prévio e prático, aproximando-se muito da estrutura de ecossistemas (Darrel Posey). Tudo se complementando pelo organismo e metabolismo do corpo humano em cotejo com a constituição orgânica dos animais de todos os tipos, obtidos na caça. Conhecimentos sobre questões de gênero, incluindo potencialidades e reconhecimento de atividades mais adequadas. Em um processo evolutivo que ao longo de tempos imensos – em cada porção habitada do mundo – conduziu os agrupamentos humanos para um padrão notoriamente gregário, de onde emergiu o conceito de família. E um sistema integrado de educação para os filhos, sem qualquer viés de especialidade.

Existe uma unanimidade entre os antropólogos sobre o caráter rotineiro da transmissão dos conhecimentos para as crianças, desde tenra idade. Em uma convivência prazerosa e brincalhona aprende-se um pouco de tudo, a partir dos mais experientes. Valores tribais ancestrais, valores de uma tecnologia singela. Um processo educacional feito na gruta ou na oca, mas preferencialmente na clareira do terreno comunitário, na participação de eventos festivos, à beira do rio ou na ponta de praias, durante o banho. Crianças sorridentes, treinando o lançamento de flechas, esperando o seu dia de acompanhar os adultos nas trilhas pelas matas, territórios de caça e coleta. Conseguindo-se assim um conhecimento global de valores e princípios, destacados de imensa e inimitável originalidade, em uma longa época em que somente existia a oralidade, sem os impactos da linguagem escrita, conseqüência inusitada dos contatos entre grupos humanos para troca de alimentos, mercadorias e utensílios típicos de cada comunidade pré-histórica – fato que justificou a origem primeva de aldeias e pequenas cidades onde se realizava o escambo tradicional de homens procedentes de hábitats diferentes (Karl Marx).

O lento desenvolvimento da educação primária entre os seres humanos constituiu um tipo de pré história longa ocorrida desde que surgiram os Homo sapiens, até que emergiram as primeiras civilizações no Oriente Médio (sobretudo no Crescente Fértil), Egito e Ásia do sul e sudeste. O Brasil é um país privilegiado porque ainda possui grupos humanos remanescentes da pré-história. Fato que nos impõe uma imensa responsabilidade cultural e política na proteção dos que sobreviveram de uma longa história humana, designada simploriamente de pré-história.
Scientific American Brasil