| Termos brasileiros de uso corriqueiro são tratados nos EUA como signos de uma cultura difícil de digerir | ||||||||||||||||||||||||||||||||
Edgard Murano
O texto estava na gaveta da revista havia pelo menos quatro meses. Além do senso de oportunidade em alfinetar a concorrente com sua mais gritante debilidade, a matéria Gangland ("terra das gangues") virou exemplo de deferência que os brasileiros se acostumaram a fazer ao idioma dos outros. O comum é vermos textos brasileiros inundados de estrangeirismos, alguns em alusão a conceitos tão específicos que nem sempre conseguimos tradução aceitável, de élan a dèjá vu, de round a factoring (empréstimo de dinheiro usando promissórias e cheques como garantia). Salta aos olhos a opção do jornalista Jon Lee Anderson por manter sem versão em inglês termos de língua portuguesa, como "traficantes", "cachaça", "feijoada" e "evangélica". Vocábulos que consideramos de uso cotidiano, tão banais que nem merecem atenção especial, são tratados como signos de uma cultura difícil de ser digerida por outro povo. É evidente que o recurso tem a função de acentuar o exotismo de cada expressão aos olhos estrangeiros. Mas o texto se tornou, involuntariamente, uma compilação de termos nossos que causam estranhamento à cultura anglo-saxã. - Preservar os sons originais de uma língua é vital à compreensão de uma parcela do sentido das palavras - afirma o escritor inglês Adam Jacot de Boinod. No livro Tingo (Conrad, 2008), Boinod popularizou o "turismo linguístico" ao compilar palavras de difícil tradução. Mas diferentemente de Bonoid, em Anderson as palavras preservadas estão a serviço de um estilo. Ele usa, por exemplo, "maconha", para o qual há sinônimos em inglês, mas que foi mantido intacto por expressar a riqueza sonora da variante brasileira. Gíria nacional
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quarta-feira, 9 de março de 2011
Estrangeirismo às avessas
As pátrias dos doutores
| Hierarquias de títulos acadêmicos esclarecem o país e o idioma que as adotam | ||
Paulo Ferreira da Cunha
Mesmo países pequenos, como Portugal, e "periféricos", como o Brasil, têm valores culturais que não podem ser ignorados, sob pena de termos o direito de chamar incultos a quem os ignore. Desconhecer Machado de Assis, Villa-Lobos ou Niemeyer é ser analfabeto. Mas haveria tantos mais... Gentes de todas as cores e quadrantes políticos têm obrigação de ter ouvido Chico Buarque, lido Guimarães Rosa, visto Brasília e suas asas... Há contudo um aspecto em que as pessoas cultas não ganham grande coisa com a sua condição: no domínio das fórmulas linguísticas. Quando vai de um país a outro, o académico talvez até ganhasse em não o ser. Porque as convenções linguísticas em matéria académica são muito diversas. E é fatal que cometa gafes. A síndrome do "professor" Fiquemo-nos pela comparação linguística mais simples, entre Brasil e Portugal. Mesmo assim, não entremos nas variantes do português do Brasil. Nesse domínio, muito haveria para um académico lusitano espantar-se... Desde os usos do pronome pessoal "tu" e do "você", e do curioso vocativo "Professor!" na sala de aula que, estamos em crer em Portugal por via das telenovelas, de há anos a esta parte tem vindo a invadir as classes portuguesas, só perdendo para a corruptela "setôr" (abreviatura oral de "Senhor doutor", outrora fórmula universal de tratar os professores, do ensino secundário ao universitário). Por carta, colocam-nos sempre "Excelentíssimo" antes desse sintagma que lembra um trem... E ainda incluirão entre o "Professor" e o nome próprio mais um "Doutor" por extenso... Imagine-se se o nosso estrangeiro em terras brasílicas não é inteligente e internacionalmente maleável para compreender que tratarem-no por "professor" simplesmente é coisa natural. E tratarem-no por "professor" não é nada de especial numa universidade, como tratarem qualquer um por "Senhor" na rua. Contudo, além do uso imoderado do "doutor" (in dubio? Ou por simpatia?), no Brasil há muita cerimónia, que o desprevenido viajante luso poderá considerar o máximo do obséquio e até algum arcaísmo. Por vezes, certa cerimónia no vestir em certos meios (a recomendação de gravata para sessões solenes é curiosa, a seus olhos, mesmo que o alienígena ande sempre de gravata). Não é inusitado o cerimonial, com mestre de cerimónias, em eventos. O próprio ritual de chamar, entre palmas, os palestrantes para a mesa ou o estilo amabilíssimo e mais dilatado que na Europa... Tudo isso dá ar oitocentista ao mesmo tempo que no mais parece estar-se na pura pós-modernidade. Brasil, sem dúvida país de extremos. Origens Uma coisa são habilitações reais, competência clara, e outra os títulos. E confunde-se demais o doirado dos "canudos" com a substância. É patologia social quando se é povo de titulados e titulares. Nisso algo há de comum dos dois lados do Atlântico. Tratamo-nos excessivamente por "doutores", e muitas vezes sem propriedade. Hoje, os mestrados na Europa tendem a ter o mesmo número de anos dos bacharelatos brasileiros, e de suas antigas licenciaturas. Como chamar o quê a quem? Mania de nobreza Somos todos nobres, ou queremos sê-lo. Não só no Brasil, mas na América Latina há grande interesse pela genealogia. Abolidos os títulos nobiliárquicos (e quem não ostenta anel de brasão adora exibir anel de curso...), com o advento da República passamos a querer ser doutores. As manias da autopromoção deveriam ser pensadas. Que abundância de "professores universitários" que o não são, e dos que, mais subtis, se apresentam como "docentes"... Os doutores substituíram os barões. Almeida Garrett (1799-1854), poeta e dramaturgo liberal, dizia: Rendas e rabanetes O Manoel é licenciado e dá umas aulas numa universidade: usa "Prof. Dr.". O Joaquim é bacharel, licenciado, mestre, doutor e agregado (livre-docente no Brasil), e catedrático (titular no Brasil): usa "Prof. Doutor". Mas, com pudor da "doutorice" nacional, este pode acabar por usar só "Prof. Dr.", como qualquer espanhol ou brasileiro, professor e doutorado, entenda-se. Portanto, quando vê um lusitano usar para si "Prof. Dr." o brasileiro terá de pensar: este ou é fraudulento ou modesto. Terá de decifrar o rosto, a caligrafia, a seda da gravata nas tais recepções de gala... A linguagem fez-se para nos entendermos e para nos desentendermos, entendendo-nos. Mas as formas de tratamento de ofício deveriam indicar o ofício. Ninguém, sendo tenente, finge que é coronel... O público de boa fé não deve presumir titulado quem se diz professor universitário. Quando oiço falar em "docentes", puxo logo da lupa. Que é arma de ver diplomas. Tantas rendas e rabanetes! Ser o que não é Paulo Ferreira da Cunha é Catedrático de Estudos Brasileiros na Univ. Lusófona e de Direito na Univ. do Porto |
As lições dos mestres
| As qualidades ensinadas por alguns dos textos marcantes da língua portuguesa | |||||||||||||||||||||||
Luiz Costa Pereira Junior
Cada escritor tem ao menos uma grande lição digna de nota. Em língua portuguesa, podemos aprender muito sobre como elaborar bons textos se aproveitarmos a lição que a leitura dos mestres oferece. A revista Língua faz a seguir uma pequena seleção das qualidades que alguns desses textos nos legaram, com certas qualidades de estilo em língua portuguesa. Exímio pregador, padre Antonio Vieira (1608-1697) foi um mestre do estilo barroco. Era particularmente eficaz em usar a quebra de uma expectativa da plateia como base para fisgar a atenção de seus interlocutores. Com a ameaça de invasão da Bahia pelas tropas holandesas, fez algo inusitado, por exemplo, no sermão de 11 de maio de 1625: passou uma descompostura no próprio Deus. "Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós sejamos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido", sentenciou no púlpito. O sermão de Vieira mirava a apatia dos homens, pensava no conforto do Estado e da Igreja, mas o jesuíta sabia que pouco adiantaria acusar os súditos da coroa portuguesa àquela altura. Preferiu usar Deus como figura de retórica. Com isso, reduziu eventuais resistências a suas opiniões. É recurso antigo esse, o de preparar o terreno, descrever uma situação facilmente assimilada pelo ouvinte, antes de emitir pra valer a própria opinião.
Perguntado sobre que tipos de leitura nos ensinam a escrever, o poeta Glauco Mattoso assegura que a poesia ainda é a melhor maneira de conhecer as palavras. Mattoso cita referências clássicas antigas (Homero, Catulo, Horácio, Anacreonte e Virgílio), renascentistas (o Luís Vaz de Camões de Os Lusíadas; o Tomás Antônio Gonzaga de Marília de Dirceu) e, principalmente, modernas (Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade). - Drummond rompe com toda a tradição. O Bandeira fez a ponte entre dois estilos, entre a poesia mais regrada e a moderna. Ele tem uma fase de transição entre o parnasianismo e a literatura mais moderna, dá para aprender muito com tudo isso - pondera. O poeta admite a importância de ler prosa, mas adverte que a prática pode produzir vícios na linguagem e na forma. Mesmo em profissionais da escrita, como no jornalismo, há vícios, como figuras de linguagem que se repetem. A leitura da poesia, por ser um gênero que lida com diversos significados e acepções das palavras, inclusive as figuradas, permite que as pessoas pensem melhor, reflitam sobre o significado das palavras e do mundo. Assim, acaba-se não só ampliando o vocabulário como descobrindo possibilidades expressivas, o que alarga o universo do redator.
Uma das muitas habilidades de Machado de Assis (1839-1908) era a sutileza com que abusava da ironia e do absurdo das situações quando parecia usar técnicas realistas de escrita. No conto "Um Homem Célebre" (Várias Histórias), o pianista Pestana sonha com a imortalidade que nunca terá, aquela dada a Mozart, por exemplo. Aprendera música com um padre, que as más línguas tomam por seu pai biológico. Pestana tinha ambições eruditas, mas termina por fazer fortuna como compositor de músicas mais populares. E nos dá, discretamente, com piscadela, a confirmação dos boatos maldosos, que, na superfície, garantira evitar.
Na fala e na escrita, Graciliano Ramos foi um homem de poucas palavras. Literalmente. Sua contribuição inestimável à escrita brasileira está no ato de ligar a força bruta do enredo a uma forma rara de economia expressiva: a concisão lírica. Cortar um texto até deixar-lhe a medula, o indispensável à compreensão, o grau zero de escrita, periga retirar-lhe o molho, a alma, a força alusiva. Graciliano ensina a fazer outra pergunta. Destituído de adereço, descarnado ao osso, de que maneira um texto, ainda assim, pode sensibilizar? O escritor retrata o ambiente sem derramamento, mas achando o ponto em que ser conciso e seco emociona e envolve. Na linha final do período, os efeitos de uma vida de reclusão na casa do pai. A prosa concisa e sem excessos ou floreios de Graciliano é seca como as paragens que descrevia e os personagens condenados à derrota antes de terem ciência disso. Um estilo adequado ao material. Essa, uma outra lição de Graciliano.
Um texto tem de bastar-se. Para a professora Ana Rosa Ferreira Dias, do Departamento de Língua Portuguesa da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), todo texto deve ser autossuficiente: não precisar que o leitor busque informação em outro lugar para entendê-lo; ter vida própria, fazer-se presente mesmo na ausência do redator. Refazer um texto não é fazer outro novo a partir de uma folha em branco, mas reescrever o original. A reescrita é um exercício de humildade do redator, de percepção de que o texto deve servir ao leitor, em primeiro lugar. - É preciso ter em seu horizonte discursivo a imagem de seu leitor. Por quê? Isso vai fazer com que ele observe a adequação da linguagem à idade do receptor do texto, à sua posição social, ao seu grau de escolaridade - recomenda. Quem deseja melhorar a própria escrita precisa adquirir o hábito de exercitá-la, reescrevendo o próprio texto. Essa lição nos é dada pelo jornalismo, que tem tradição consolidada de reescrita. Produtos jornalísticos viraram modelos disso ao marcarem época por prezar a excelência do texto, como Realidade, sucesso nos anos 60, disponível apenas em sebos hoje em dia. Alguns periódicos recentes retomam a tradição, como Piauí. Mas fuja dos textos padronizados das revistas semanais. A professora, que ministra cursos de redação, afirma que todo texto é fruto de um processo, de um trabalho.
Criado em 1988 para o jornal Folha de S.Paulo pelo redator Nizan Guanaes, o comercial Hitler se tornou um dos exemplos máximos de simplicidade que arrebata, na história da comunicação brasileira. O texto apresenta um grande líder que tirara o país da miséria. Nós não vemos sua imagem, de imediato. Cada frase é lida por um locutor enquanto uma foto desse líder se expande a partir de um único pigmento. Ficamos sabendo que, sob o governo desse líder, a inflação do país acabou. O desemprego se tornou o menor do continente. A dívida externa foi paga em três anos. Tudo feito por um homem que, na juventude, sonhava ser pintor. A cada frase dita, mais nítida ficava a imagem... de Hitler. Ao fim do texto, a afirmação: "Com um monte de verdades podemos criar uma grande mentira". Formado por comunicação verbal e visual, o texto foi criado para a agência W/GGK, com direção de arte de Gabriel Zellmeister e direção de criação de Washington Olivetto. O texto de Guanaes mostra que o bom texto é o que busca surpreender o interlocutor. Levá-lo para um caminho e mudar as coordenadas, com outra história até então mantida em segredo. Diante do previsível e do convencional, a surpresa estabelece a curiosidade, e seu efeito se produz quando afinal a informação "secreta" se revela na superfície, pegando o leitor desprevenido. Descrever algo, alguém ou uma cena é uma necessidade contemporânea. Da receita de bolo à mensagem postada no blog, do boletim de ocorrência policial ao relatório de uma empresa, fazer uma descrição virou um desafio de escrita. Uma boa descrição é mais do que uma versão por escrito de uma fotografia. Guimarães Rosa foi um mestre da descrição clássica, que procura nos dar não só uma imagem visual do rosto de um personagem, por exemplo, mas um acesso ao seu estado de espírito: Primeiro, ele nos apresenta uma série de traços exteriores: "mameluco brancarano" (mestiço com predominância do branco), "cambota" (manco, ou de pernas tortas), "anoso" (idoso), "asmático como um fole velho"... E em seguida uma revelação sobre a personalidade do indivíduo, que pressupõe (no presente caso) uma familiaridade prévia do narrador. O uso de palavras pouco comuns no cotidiano dá um relevo surreal à descrição, mostrando algo enquanto também o decifra. Eis uma lição rosiana.
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domingo, 9 de janeiro de 2011
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Crianças Bilíngues, o trunfo que alguns países ricos rejeitam
Por Ranka Bijeljac-Babi ´c
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Crianças chinesas assistem a uma aula de húngaro na primeira escola bilíngue para a comunidade chinesa em Budapeste, capital da Hungria. Sem interesse em fazer os pequenos migrantes manter sua língua natal, governos de países ocidentais tentaram pressionar os pais a não usar esse idioma no ambiente doméstico. |
Um grande número de estados “desenvolvidos” tem línguas oficiais, mas suas populações, de várias origens étnicas, falam uma série de outros idiomas todos os dias. “Estima-se que, no ano 2000, mais de um terço da população com idade inferior a 35 anos na urbanizada Europa Ocidental tinha uma minoria de imigrantes”, afirma um documento da Unesco sobre a diversidade da língua, que registra que “os maiores grupos de imigrantes na União Europeia são turcos e norte-africanos, que vivem na França, na Alemanha e na Grã-Bretanha”.
Os políticos dos países ocidentais estão hoje elaborando leis para reforçar as condições de imigração e introduzindo testes de linguagem e cultura. Solicitar aos requerentes para a imigração que conheçam os rudimentos do francês, do holandês ou do inglês, bem como as regras básicas do funcionamento dos países de acolhimento, não parece absurdo.
Tenta-se “apagar” a língua materna da cabeça das crianças
Mas, quando esses imigrantes chegam, muitas vezes há uma tentativa de “apagar” suas línguas maternas de suas cabeças, em especial se elas são consideradas idiomas “menores”. Precisamos apenas nos lembrar do relatório de outubro de 2004 sobre a segurança interna na França. “[Quanto a crianças de 1 a 3 anos], só os pais, e especialmente as mães, têm contato com seus filhos. Se as crianças têm origem estrangeira, os pais devem se obrigar a falar francês em casa, a fim de fazer as crianças se acostumarem a ter apenas essa língua para se expressar”, diz o relatório, frisando: “Mas se, em certos casos, elas sentem a relutância de seus pais, que frequentemente insistem no uso do dialeto de seus países de origem em casa, elas vão ser dissuadidas de fazê-lo. Será então necessário tomar medidas para incentivar os pais a ir na direção certa.” No texto original em francês, a palavra français (francês), designando um idioma, foi escrita em maiúsculas, o que contraria as regras da ortografia francesa. Pode-se supor que “falar um dialeto” é entendido como falar em árabe, chinês, sérvio, etc.
Segundo esse relatório, o desenvolvimento cognitivo, social e educacional de crianças que não são obrigadas a falar francês em casa ficaria comprometido, uma vez que elas teriam inevitavelmente problemas de linguagem, levando a distúrbios comportamentais que resultariam mais tarde em delinquência!
Essa posição absurda reflete uma ignorância flagrante do desenvolvimento da linguagem e do papel da língua materna na construção cognitiva, psíquica e cultural de um indivíduo. Como, por um momento, se poderia imaginar que uma mãe pode falar numa língua que não domina bem com sua criança? Como alguém poderia ignorar o fato de que a língua materna transmite afetos, permite a organização de faculdades cognitivas, simboliza – para crianças oriundas de famílias de imigrantes – a continuidade entre o país de origem e a família?
Privar a criança da língua materna em casa é criar uma situação de conflito entre o modelo de família e o modelo social e entre a família e a escola, com o risco de empobrecer ainda mais referências culturais e enfraquecer a socialização.
Imigrantes ajudam a tornar línguas como o inglês mais ricas
Isso também implica que o bilinguismo não é visto como um bem, mas uma desvantagem, um obstáculo ao êxito da educação e da integração, sobretudo quando as línguas consideradas, como o árabe, o chinês ou o russo, são ridiculamente chamadas de “raras”. Se as línguas consideradas são “socialmente valorizadas”, como o inglês ou o alemão, o bilinguismo torna-se um símbolo da elite!
Os argumentos e as propostas para o uso (ou melhor, o não uso) da língua materna no relatório de 2004 sobre a prevenção da delinquência têm muitos adeptos nos círculos políticos e acadêmicos da França, mas o relatório provocou reações violentas: associações, ONGs, sindicatos e intelectuais foram mobilizados, e os termos do documento foram modificados. Na versão 2005, lê-se o seguinte trecho: “Reconhecimento do bilinguismo precoce como fator de integração. Depois de muitos debates, a Comissão mudou consideravelmente sua posição sobre o assunto. Parece também que a manutenção tanto da língua materna como da língua dominante permite que as crianças tenham melhores resultados na escola (...).”
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Aula de bretão numa escola de Brest, no noroeste da França. Pesquisas das últimas duas décadas mostram que crianças que aprendem várias línguas são mais rápidas e flexíveis em determinadas situações de aprendizagem e desenvolvem melhores habilidades de comunicação. |
Os últimos 20 anos de pesquisa em psicolinguística e sociolinguística demonstram inequivocamente que a aquisição e a aprendizagem de várias línguas por crianças, não importa qual seja sua origem sociocultural, tampouco de quais línguas se esteja falando, no mínimo não impedem o desenvolvimento cognitivo e educacional desses meninos e meninas. Pelo contrário, as crianças bilíngues apresentam maior velocidade e flexibilidade em determinadas situações de aprendizagem e desenvolvem melhores habilidades de comunicação. Se elas são um pouco deficientes na segunda língua, é algo frequentemente temporário, e elas compensam isso com um sistema mental mais rico, habilidades cognitivas que são em geral mais eficientes e uma visão mais ampla do mundo.
Quando dificuldades educacionais afetam os filhos dos imigrantes, a maioria dos professores franceses coloca a culpa principalmente no conflito de línguas e culturas. No entanto, se as línguas e as culturas dos imigrantes fossem mais enfatizadas, ensinadas a todos os alunos nas escolas e respeitadas pelo sistema escolar e pela sociedade dominante, os indivíduos desenvolveriam uma melhor estima e respeito por si mesmos e, consequentemente, pelos outros.

François Cheng, autor chinês que chegou a Paris com 20 anos sem saber uma palavra de francês, e que é membro da Académie Française desde 2003, escreveu em seu livro Le Dialogue (2002): “O destino fez com que, a partir de um certo momento da minha vida, eu me tornasse o portador de duas línguas, chinês e francês. Foi apenas por conta do destino? A menos que, apesar de tudo, houvesse uma parte de livrearbítrio deliberado nele? O fato é que tentei assumir o desafio, chegando a um acordo com as duas línguas da minha própria maneira, com as consequências mais extremas. [...] Não é de estranhar que, desde então, no coração da minha aventura linguística, que é direcionada para o amor de uma linguagem adotada, um tema tenha tido lugar de destaque: o diálogo...”
Diálogo entre comunidades, diálogo entre línguas – linguistas sabem e enfatizam o fato de que os imigrantes contribuem para o dinamismo e o enriquecimento de línguas como o inglês ou o francês. Como exemplo, a mistura de chinês, coreano, japonês e vietnamita com o inglês é um fenômeno mundial, que os imigrantes de várias origens asiáticas usam para se comunicar uns com os outros, portanto, fazendo suas próprias contribuições linguísticas. É o mesmo para o “espanglês”: essa linguagem híbrida, que mistura inglês e espanhol e se mostra muito popular entre os jovens nos Estados Unidos, é um dos exemplos mais marcantes de mudanças em uma língua posta frente a frente com a imigração e a globalização.
Não existe felicidade sem gratidão
Aprenda a dar graças. A gratidão leva as pessoas a agir de forma virtuosa ou mais altruísta.
Equipe Planeta
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Ao estudar a felicidade, muitos pesquisadores têm deparado com um elemento que gradualmente vai passando do segundo plano para um lugar de destaque nessa área: a gratidão, aquela emoção de agradecimento e alegria que surge no recebimento de um presente ou de um auxílio. Velha conhecida de religiões e filosofias, que há muito tempo a consideram uma manifestação fundamental da virtude e um componente básico da saúde, da integridade e do bem-estar, ela vem despertando um interesse científico cada vez maior, endossado por estudos que apontam para uma relação sólida entre ser grato e sentir-se melhor.
“A gratidão é o ‘fator esquecido’ na pesquisa da felicidade”, avalia Robert Emmons, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, Davis, e um dos maiores expoentes no estudo desse tema. A opinião é endossada por Todd Kashdan, professor adjunto de psicologia da George Mason University (Estados Unidos) e um dos pioneiros da “ciência da felicidade”. Ele declarou que, se tivesse de nomear três elementos essenciais para criar felicidade e dar sentido à vida, estes seriam relacionamentos significativos, gratidão e viver no momento presente com uma atitude de abertura e curiosidade.
“Você não pode ser deprimido e grato ao mesmo tempo”, afirma a psicóloga novaiorquina Brenda Shoshanna, autora do livro 365 ways to give thanks: One for every day of the tear (365 maneiras de dar graças: Um para cada dia do ano). “(A gratidão) faz uma pessoa mais saudável, fisicamente, mentalmente, em todos os sentidos.”
Em um dos estudos recentes sobre a gratidão, financiado pela National Science Foundation dos Estados Unidos, o psicólogo David DeSteno, da Northeastern University, orientava cada participante a concluir uma difícil tarefa de entrada de dados, “perdidos” logo depois supostamente por mau funcionamento do computador. Dispensada, a pessoa deparava em seguida com um assistente de laboratório, a quem poderia pedir auxílio a fim de restaurar as informações perdidas – embora ele aparentemente desconhecesse o trabalho proposto pelo psicólogo e alegasse estar com pressa para realizar sua própria experiência. DeSteno descobriu que aqueles que haviam sido ajudados pelo assistente e estavam gratos por isso tinham maior propensão a retribuir um favor do que os integrantes de um grupo que não havia sido auxiliado.
“A gratidão leva as pessoas a agir de forma virtuosa ou mais altruísta”, afirmou DeSteno, cuja pesquisa foi publicada em 2009 na revista Current Directions in Psychological Science. “E constrói o apoio social, o qual sabemos que está ligado ao bem-estar físico e psicológico.”
Autor de vários livros e monografias relativos ao tema, Robert Emmons tem participado de estudos nessa área que estão ajudando a compor um retrato detalhado das pessoas que manifestam gratidão. Segundo Emmons, elas exibem níveis mais altos de emoções positivas, satisfação com a vida, vitalidade e otimismo. Dormem mais, fazem mais exercícios e sua pressão arterial e seus níveis de depressão e estresse são mais baixos. Demonstram ser simpáticas e conseguem ver as coisas pelos olhos dos outros. Não negam ou ignoram os aspectos negativos da vida, mas aparentemente ampliam os estados associados a sentimentos agradáveis. Em suas redes sociais, elas são consideradas mais generosas e prestativas. As crianças que praticam a gratidão apresentam mais atitudes positivas em relação à família e à escola.
Um dos objetos de estudo de Emmons foram pessoas que escreveram diários nos quais agradeciam semanalmente as benesses que haviam recebido. Esses indivíduos fizeram exercícios físicos com mais regularidade, reportaram um número menor de problemas de saúde, avaliaram melhor sua vida como um todo e demonstraram mais otimismo do que os participantes do grupo de controle, que registraram aborrecimentos ou eventos neutros no diário. Os que manifestaram gratidão também apresentaram progressos significativos em termos de objetivos pessoais (acadêmicos, interpessoais e de saúde) na comparação com os demais.
Outras influências sobre a saúde física e psíquica ficaram perceptíveis numa pesquisa com adultos portadores de doença neuromuscular. Os que fizeram um exercício diário de gratidão durante 21 dias exibiram doses bem mais altas de bom humor, otimismo e de sensação de estar ligado aos outros, além de melhoras na duração e na qualidade do sono.
Numa experiência na qual adultos jovens faziam exercícios diários de gratidão, os pesquisadores notaram um aumento nos níveis de vivacidade, entusiasmo, determinação, atenção e energia na comparação com os grupos de concontrole. As pessoas que manifestaram gratidão também eram mais propensas a informar que haviam ajudado ou dado apoio emocional a alguém.

De um ângulo mais espiritual, segundo Emmons, a gratidão independe de crenças religiosas, mas a fé amplia a capacidade de manifestála. As pessoas gratas têm uma tendência maior a crer na interconexão de todas as formas de vida, a firmar um compromisso com os outros e ser responsável por eles. Quem manifesta gratidão dá menos importância a bens materiais, é menos invejoso e tende a partilhar mais suas posses com os outros.
Tudo isso não surge, porém, a partir de episódios esparsos de gratidão, alerta Sonja Lyubomirsky, professora de psicologia na Universidade da Califórnia, Riverside. Para colher os frutos dessa emoção, afirma ela, é necessário exercitá-la constantemente. “Se você não fizer isso regularmente, não obterá os benefícios”, explica. “É como se você fosse para a academia de ginástica uma vez por ano. O que ganharia com isso?”
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O QUE HÁ PARA LER • O poder da gratidão, M.J. Ryan, Ed. Sextante. REVISTA PLANETA |
Quando a escola semeia tempestade
Equipe Planeta
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Reformar as madrassas foi a peça central da estratégia de contraterrorismo do regime militar que governava o Paquistão logo depois do 11 de Setembro. Um projeto de lei foi anunciado em junho de 2002 para regulamentar, modernizar e integrar as escolas corânicas à educação convencional, ao custo de cerca de US$ 100 milhões. A lei proposta pelo governo, então comandado pelo general Pervez Musharraf, daria suporte a mudanças no currículo, no registro e no monitoramento de finanças. Mas o nome desse projeto - Regulamentação e Registro Voluntário - já dava uma ideia da falta de envolvimento concreto do governo com a reforma. Em vez de comprometer-se com uma intervenção real no sistema das madrassas, ao qual o clero se opunha ferozmente, as escolas seriam apenas solicitadas a submeter-se à regulamentação por conta própria, sem a previsão de quaisquer mecanismos de fiscalização ou de punição por violações.

Acima, alunos de madrassa em Muzafarabad (Caxemira paquistanesa) estudam o Alcorão e muro de escola pichado com palavras de ordem contra os Estados Unidos. Muitas madrassas defendem o extremismo islâmico.
O núcleo do projeto de reforma para as madrassas era um novo currículo. O governo se comprometeu a modernizá-lo, acrescentando cursos de inglês, matemática, estudos paquistaneses, ciências e estudos sociais em vários níveis. O objetivo ambicionado era dar às escolas corânicas uma educação mais próxima da formal. O governo também havia prometido cobrir os custos de livros e dos novos professores para assuntos não religiosos, treinamento dos mestres, materiais de biblioteca, computadores e outros artigos. Qualquer madrassa adequadamente registrada junto ao governo poderia requisitar assistência.
O fracasso do projeto não poderia ter sido mais retumbante - ou a falta de vontade do governo de implementar a reforma das madrassas mais evidente - do que o que se viu no drama de seis meses protagonizado pelos mulás da Mesquita Vermelha, em Islamabad (a capital do país), e suas escolas afiliadas. A tragédia - encerrada em julho de 2007, com a invasão do complexo da mesquita por tropas do governo - foi iniciada com uma campanha agressiva dos clérigos locais e de estudantes a favor da adoção da lei islâmica na capital paquistanesa. A atitude desafiadora era agravada por sequestros de policiais e moradores de Islamabad que os rebelados consideravam envolvidos em atividades "não islâmicas". Depois de várias semanas de contemporização do governo, o Exército paquistanês enfim desfechou um ataque contra os radicais entrincheirados na mesquita. A ação militar, que durou 36 horas, resultou na morte de mais de 100 pessoas.
Desarmar as escolas radicais estava no topo da agenda do governo em termos dos planos de reforma. Como o impasse da Mesquita Vermelha mostrou, porém, o desarmamento não foi muito longe. Até mesmo nas madrassas da capital, Islamabad, as armas e os explosivos continuam a circular livremente. As armas, aliás, se tornaram uma parte da cultura das madrassas, pertençam elas a essa ou àquela seita. A maioria das escolas radicais tem ligações diretas ou indiretas com organizações de militantes à margem da lei. Se o governo eventualmente decidisse desarmar as madrassas, haveria uma tenaz resistência. O Paquistão também teria de integrar-se, formalmente e por completo, à Convenção Internacional para a Supressão do Financiamento do Terrorismo.

Meninas matriculadas em madrassa de Muzafarabad. Mais de 1,5 milhão de crianças, predominantemente pobres, frequentam essas escolas no Paquistão.
Em junho de 2008 - dois meses antes da renúncia do general Musharraf à presidência -, seu ministro da Educação anunciou que não concederia nenhum recurso adicional para reformas curriculares e fornecimento de material às madrassas até que as administrações dessas escolas assinassem um acordo com o governo para cumprir os termos estipulados de registro e regulamentação. Os líderes da organização que reúne essas instituições se recusaram a aceitar a imposição e, assim, o programa de reformas fracassou antes de decolar. Com dificuldades para firmar-se no poder, o governo do sucessor de Musharraf, o civil Asif Ali Zardari, não adotou posições mais agressivas a respeito das madrassas e, atualmente, tem de concentrar suas forças em outro tema mais urgente: a guerra que move contra a versão paquistanesa do Talebã no noroeste do país.
De qualquer maneira, cursos de educação secular só teriam valor no Paquistão se fossem acompanhados de mudanças fundamentais no currículo religioso de todas as seitas para encerrar a promoção do sectarismo e da intolerância religiosa, que é a razão de ser original das madrassas. Enquanto isso, a paciência do povo paquistanês, cansado de fundamentalismos, está-se esgotando.
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